sábado, 26 de setembro de 2015

Riqueza e Poder I





        
   

      
       este blog escrito em 2015 está agora integrando o meu livro Riqueza e Poder, a Geoegologia, lançamento , pela Quártica editora, em 2018, com uma palestra minha na internet que pode ser acessada pelo título do livro.  Porém até agora a editora não o colocou nas páginas do site nem nos canais de venda da internet onde constam meus livros antes publicados: "O pós-moderno, poder, linguagem e história"; "Filosofia, Ceticismo, Religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio", "contos do espelho" e "contos da musa irada". O "Riqueza e Poder, a geoegologia" pode ser solicitado pelo meu email: "elianecolchete@gmail.com". 
           A propósito do significado de "Geogologia", corresponde a meta-teoria que criei a partir do que pude haurir do meu estudo da modernidade intitulado "Pensamento e Expressão" (2009) e tenho proposto desenvolvendo desde então. Geo-ego-logia como autodefinição do ocidente "sujeito da história" desenvolvimentista em função apenas da oposição que constrói relativamente ao que domina como "subdesenvolvido" ou primitivo , é portanto uma  leitura crítica da "modernidade" como dominação cultural imperialista. Ferramenta da desconstrução do discurso da dominação, as categorias geoegológicas e aplicações na história estão explicadas neste livro com trechos publicados na série numerada  de blogs intitulados "Riqueza e poder, a geoegologia", (especialmente o II e o IV), em demais blogs na internet com o nome "geoegologia" e já algo tendo sido introduzido em meu já citado "O Pós-Moderno, poder, linguagem e história". 
                              
                                  postado em abril 2019               


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        DENUNCIE O FASCISMO  BRASILEIRO, tanto os partidos clandestinos nazi-fascistas como também a mentalidade fascista difusa nos costumes ou instituições 
         COLABORE NA RESTITUIÇÃO DAS GARANTIAS constitucionais DOS CIDADÃOS
             EXIJA O FIM DA DITADURA Do business info-midiático
                                                          

         A Escalada do Império = percurso do capital de mídia  no século XX norte-americano

                          Eliane Colchete
  

Livro I = escrito em inícios de 2015
A Escalada do Império = O Business da Comunicação em Massa no Século XX Norte-Americano
1) O banditismo dos homens importantes
A história começa com a necessidade do leitor visualizar um bando de homens, jovens e relativamente jovens, percorrendo de carro, à noite, as ruas de uma cidade dos USA, à cata de telefones públicos. Ao localizar um, eles saltam do carro, entram na cabine e ligam para certo número. Ao ocorrer da pessoa do outro lado da linha atender, pousam o fone fora do gancho, saem da cabine, voltam ao carro à cata do próximo telefone público. Gastam uma porção de moedas, deixando um rastro de fones fora do gancho atrás de si.
Quem são os moleques? Nada menos do que a equipe de Richard Nixon, disputando eleição com o democrata Pat Brown. Este planejara contatar por telefone todos os possíveis voluntários colaboradores do partido democrata numa campanha corpo a corpo, à véspera da eleição. Os fones fora do gancho significavam que os telefones dos possíveis voluntários estavam presos pela linha dos moleques da equipe de Richard Nixon.
Ao que parece, o sistema de telefonia norte-americano já não está limitado por essa circunstância – que ainda vige em Brasil. Em todo caso, Richard Nixon perdeu a eleição para Pat Brown.
Nixon passou a noite da eleição perdida bêbado, tornando-se a partir daí, de modo manifesto aos seus íntimos, praticamente um alcoólatra. Na manhã seguinte, dado o estado precário de Nixon, os correligionários do partido republicano planejaram uma saída secreta do hotel, enquanto os repórteres eram distraídos por uma coletiva orquestrada pelos mesmos.
O que aconteceu não poderia conservar melhor o frescor do relato, senão citando-se o observador engajado. Quando Nixon, saindo, de passagem entreviu por uma porta os repórteres entretidos na coletiva, “de repente, num impulso, ele voltou-se e atravessou a soleira da porta… Estava abatido, tremendo e com os olhos vermelhos” – mas, com voz “mais firme que nunca”, pronunciou a célebre frase: A imprensa, declarou, “não vai ter Richard Nixon para chutar nunca mais”. E o anúncio: “Nixon falou menos que cinco minutos, durante os quais ele anunciou estar retirando-se da política”.
O espectador em questão se chama John Erlichman – um dos “homens do presidente” –, portanto, Nixon não cumpriu a promessa de 1962, e, inversamente, tornou à cena política em 1967.
Porém esse “homem do presidente” é um caso especial: o único, dentre o escalão decisório, condenado à prisão, quando alguns anos depois de estar Nixon na presidência do país, estourou o escândalo da invasão da sede do Partido Democrata pelos homens do governo.
Erlichman foi considerado pelo tribunal o responsável por ordens de invasão, dentre as quais a mais importante foi à sede do partido democrata no edifício Watergate, com objetivo de obtenção ilegal de informações. Também foi preso o executor Buddy Krogh. O processo deveria continuar até a decisão sobre a responsabilidade do próprio Nixon, que, no entanto, a certa altura, renunciou à presidência.
Na autobiografia que citamos (Witness to Power; the Nixon years. New York: Pocket Books, copyright 1982, p. 17, 8), Erlichman procede à sua defesa, alegando jamais sequer ter tido conhecimento das operações de invasão.
Esse caso estava interligado a outros escândalos, principal para o processo de Erlichman sendo a invasão dos aposentos privados do psiquiatra de Daniel Ellsberg pelos agentes do governo Nixon. Ellsberg havia acusado o governo de distorção deliberada de informação ao público a propósito do verdadeiro estado de coisas no Vietnã. Ele estava sendo processado por ter publicado documentos do próprio Pentágono, que revelavam, porém, a situação real – o Vietnã estava sob uma sangrenta ditadura, uma das piores do mundo, e, ao invés de Ho Chi Minh ser apenas um líder comunista, como na versão governamental para justificar a guerra, protagonizava a resistência nacionalista contra a dinastia opressora.
Porém, o processo governamental contra Ellsberg foi interrompido, quando estourou o escândalo que revelou a manobra dos seus acusadores. A invasão aos aposentos privados do psiquiatra de Ellsberg pelos agentes do governo Richard Nixon, visou à posse dos arquivos do médico sobre Ellsberg, que informariam dos planos de ação deste.
Erlichman informa que o plano de invasão partiu dos nomeados Hunt e Liddy. À questão de quem os apresentou a Nixon, para depois passar a ordem do presidente ao executor Krogh, Erlichman responde que sem dúvida foi Charles Colson. Assim há um consenso informal de que Nixon foi o responsável.
Se Nixon realmente sabia? Segundo Erlichman, isso se tornou algo consensual entre os próprios envolvidos (p. 368), ainda que a princípio ele mesmo estivesse convencido da inocência de Nixon. O que já não era o caso, pois Bob Haldeman, um dos mais importantes managers da carreira Nixon, publicara nesse interim The Ends of Power, relatando que numa conversa privada consigo Nixon afirmou ter ordenado a invasão ao psiquiatra de Ellsberg, algo de que se arrependera depois por ter feito.
Conforme a citação de Erlichman, Haldeman comenta como a confissão privada contrastava com todas as atitudes de Nixon até então, inclusive mostrando-se chocado pelo acontecimento quando houve a denúncia, além de não ter prestado qualquer solidariedade a Erlichman, como testemunho que pudesse tê-lo inocentado no processo durante o qual Erlichman sempre manteve que Nixon não ordenara a invasão. Também uma “memoir” de Nixon é citada: “Dadas as circunstâncias daqueles tempos amargos e tensos e o perigo que eu percebia, não posso dizer se estava informado disso a princípio... Eu não lembro disso [sobre se Erlichman lhe contara sobre o fato antes ou depois de acontecido], e as fitas do período junho-julho 1972 indicavam que eu não estava consciente disso então, mas não posso garantir (‘I cannot rule it out’)” (p. 367).
Erlichman registrou assim que um agente que fôra processado com ele revelara-lhe já ter feito mais de duzentas invasões para a CIA, nos USA, Cuba, Canadá e outros países (p. 364).
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2) O diabo não gosta da escritura
A promessa havia sido de que a imprensa não mais teria “Richard Nixon para ficar por aí chutando”. Portanto, a imprensa de nada mais se lembrava sobre Nixon desde então. Assim informa David Halberstam (The Powers that be. New York: Dell Publishing, copyright 1979, p. 821).
Porém “aquela cena de despedida, desastrosa, embaraçosa, tão imperdoável, estava gravada permanentemente em suas mentes. Uma cena final”. E, no entanto, agora, em 1968, uma reedição daquelas imagens não traria qualquer benefício para os adversários de Nixon.
Os repórteres estavam errados, segundo Halberstam, ao considerar a designação para cobertura de Nixon, desde que ele retornara à política em 1967, como incumbência de menor importância. Para eles “Era como se por terem sido destinados a um perdedor eles eram de algum modo perdedores também”. Ao ver de Halberstam, raciocinavam conforme a lógica da impressora, quando a profissão já estava definida pelo filme.
A televisão relançou Nixon, a televisão a cores, onde a tonalidade demasiado morena de sua figura não parecia tão pronunciada. Entre a escrita da imprensa tradicional, e a emergente televisão, a carreira de Nixon redefiniu uma era na política.
Nixon iniciou o relançamento da carreira, cortejando a imprensa escrita, aproveitando-se o quanto podia da imagem de pobre homem, igual a tantos marginalizados pelo poder, não de fato interior aos seus meandros. A estratégia de atração da imprensa funcionou à base de segregação etária. Os repórteres mais velhos conheciam Nixon, mesmo o “ogro” que ele havia sido durante o McCarthysmo, a implacável perseguição aos suspeitos de comunismo, que aconteceu nos USA dos anos cinquenta. Mas a nova geração, que estava agora por volta de trinta anos, não.
Estes jovens se deixaram impressionar pela montagem do “novo Nixon”, que lhes aparecia extremamente brando de maneiras, tímido, simpático, acessível, chegado a conversinhas informais com os repórteres. Não acreditavam no que lhes diziam os mais velhos. Uma reedição do velho Nixon perdendo a eleição apenas reforçaria a imagem do novo Nixon, sensível, franco e humilde.
Assim que Nixon começou a não mais parecer um perdedor devido a essa estratégia, Bob Haldeman entrou em cena, tornando-se responsável pela campanha. Cortando o acesso à imprensa escrita, logo a brandura se foi, o “new Nixon” não mais existia. Para a imprensa escrita o acesso se tornou sempre menor, mais limitado.
A preocupação da equipe era que de Nixon não transparecesse qualquer deslize, além de alcançar mais e mais pessoas. Todo o esforço se concentrou na televisão, o que contagiou o próprio Nixon. Frank Shakespeare, antes da CBS, e Harry Treleaven, assim como Haldeman, organizaram a campanha televisiva de Nixon (p. 824). Contrataram Roger Ailes, um jovem ambicioso que trabalhava no Mike Douglas Show.
A estratégia era de apagamento de todos os traços do passado, e revisão de como as apresentações de Nixon ao público haviam sido conduzidas antes, para proceder ao contrário, corrigindo na mente do espectador qualquer ressonância com uma outra imagem de Nixon, a do antigo perdedor, o sul-direitista radical.
Não se veriam agora o que na época da TV preto e branco se permitia, a cabeça falante do homem sério, despersonalizado, ditando informes ao público. A cena colorida devia mostrar Nixon de corpo inteiro, descontraído, informal, inserido num contexto. Ailes tinha que evitar porém a demasiada informalidade a que a personalidade de Nixon tendia. “Ele é um cara engraçado” (“a funny looking guy”). Ele parece ter pulado da cama de manhã com sua roupa toda amarrotada e começado a correr à volta anunciando, “eu quero ser Presidente” (p. 826).
Ao que poderíamos acrescentar as informações de Erlichman, sobre a época do confronto com Pat Brown na Califórnia, ilustrando que era preciso “Fazê-los esquecer tudo aquilo” – conforme a expressão de Halberstam para o escopo dos managers.
Nixon e Patricia, sua esposa, haviam sido acusados de racismo pelos democratas, conforme registra Erlichman. Este atuava como advogado em Seattle, quando retornara ao serviço de Nixon nesta então nova campanha. Erlichman especializara-se nos aspectos legais do uso da terra, planejamento urbano e litígios de pioneiros a propósito da propriedade imobiliária na região. Parecia a pessoa certa para elaborar a defesa de Nixon à acusação de racismo, uma vez que estava relacionada ao endereço escolhido pelos Nixon para fixarem residência, uma grande casa decorada à grega, em Truesdale Estates, numa colina atrás de Beverly Hills. Mas Erlichman sabia que a acusação era verdadeira.
O foco da acusação era a compra da casa por Nixon e Patricia, numa região que entrava nas cláusulas dos pactos restritivos de propriedade, pelos quais grupos de conveniados racistas se comprometiam a não vender propriedade imobiliária a qualquer pessoa que não fosse caucasiano, isto é, branco de origem europeia (p. 15). Erlichman testemunha: “Eu vi pelas suas assinaturas que Patricia e Richard Nixon tinham indubitavelmente comprado sua casa na California sujeita à cláusula discriminatória”.
Conversando com Nixon, Erlichman compreendeu porém que ele não tinha muita consciência da substância do pacto, e havia assinado sem ler a escritura incorporando as convenções raciais (“racial covenants”).
Nixon era também advogado, porém não competente, atuando para a firma prestigiosa onde trabalhava em Los Angeles apenas como promotor de negócios (“business-produtor”), não um profissional. Nixon negava não ter lido, porém não garantindo se o lera de fato. Ele estava, em todo caso, comprometido pelo documento que limitava a ação. A equipe se defrontara com o dilema. Ou admitir que Nixon assinara sem ler, fazendo-o parecer idiotamente irresponsável, ou nada responder, ainda que isso permitisse que os outros pensassem que ele era racista. Nixon optou por esse último curso de ação.
Processos de campanha contra o staff de Nixon se apresentaram, apelações deles e processos movidos pelo próprio Nixon também. Os pontos de acordo políticos que Erlichman firmara com Nixon quando haviam podido conversar logo que Nixon viera a Seatle, em função do que Erlichman conhecia bem, se esvaíram na acrimônia com que os candidatos passaram a se enfrentar.
Tornando aos fatos de 1968, conforme Halberstam, só quando Joe McGinniss publicou The Selling of the President, as pessoas na imprensa se deram conta a que extensão estava sendo conduzida a reestruturação da campanha presidencial de Nixon, em função da utilização máxima dos recursos de fascinação das massas por meio da televisão. “Agora havia um novo tipo de campanha, muito mais aproximativa. A imprensa iria cobrir o que os nixonianos (‘the Nixon people’) queriam que fosse coberto” (p. 827).
Mas a história das relações de Nixon com a imprensa não começa nem termina aí, na exposição de Halberstam. A trajetória conduz ao grand finale do sobejamente conhecido desastre de Watergate, onde a imprensa teve papel decisivo. Mas inicia-se de um modo tão obscuro, que nem mesmo Erlichman referencia a proveniência, como do primeiro benfeitor de Nixon dentro do partido republicano, o homem que o lançou como vedete do partido. O índice onomástico de Erlichman não tem referência para “Kyle Palmer”.
A investigação de Halberstam, a propósito dessa origem e tudo que dela se segue, de fato permite refutar as versões mais comuns sobre o que teria provocado a específica animosidade da imprensa contra Nixon, manifesta pelo modo como ela conduziu o escândalo de Watergate.
Kyle Palmer era o empregado número um do clã Chandler, família que se tornara praticamente monopolista na imprensa da Califórnia como proprietária do Los Angeles Times, e uma das maiores fortunas do partido republicano. O Washington Post, de Catherine (“Key”) Graham, sem qualquer traço de oposição aos Chandlers da Califórnia, e, pelo contrário, a eles relacionada, foi o algoz de Nixon em Watergate.
Algo, portanto, está errado, quando se propaga o caso como o faz Francis (Paulo Francis, Uma coletânea dos seus melhores textos já publicados. São Paulo: Editora Três, copyright 1978). Ou seja, em termos de “uma mulher contra Nixon”. E tal que, tratando-a por “Kathy”, inversamente à “Key” de Halberstam, Francis assim moteja no seu estilo mais típico: “Kathy Graham – como o japonês (de anedota) que puxou a válvula de descarga do sanitário de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, seguindo-se um ‘certo’ estrondo – podia ter dito: eu contra o mundo inteiro” (p. 101).
A história em Halberstam não se limita a algo tão simples. O pecado de Nixon foi contra uma coletividade, a dos clãs de imprensa que funcionaram nos USA do século XX como o censor das ditaduras militares em qualquer país dominado por governos totalitários impostos pelos próprios USA. Bem ao contrário do que Francis acreditava, os USA não eram a pátria da liberdade da informação segundo revela David Halberstam. Além disso, todo o processo de representação eleitoral foi sempre mais engolfado pelo poder de manipulação dos clãs dos vários estados, a partir de sua íntima conexão com o partido Republicano, até se tornar um fantoche nas mãos deles – o que se pode afirmar do próprio partido, que os clãs pretenderam que fosse apenas o fiel espelho das suas ordens estabelecidas.
Nixon acreditou, a uma certa altura, que podia governar sozinho, sem conceder poderes decisórios aos clãs, além de ostensivamente forjar uma imagem hostil a eles. Ele pareceu transferir a personificação de sua base, desde as eminências pardas do partido Republicano ao seu próprio Staff, a partir talvez da crença comum desses homens em que o impacto direto, carismático, do presidente sobre as massas seria o novo veículo, suficiente, da garantia do poder político nos USA.
Nixon renegava assim, imprudentemente, os seus benfeitores de origem, subestimando-os sem razão. O que teria acontecido para Nixon romper com os Chandlers – pessoalmente, com o casal protagonista do clã, os proprietários do Los Angeles Times, Norman e Buff Chandler? E qual o papel de Kyle Palmer nesta ruptura?
Poderíamos afirmar que qualquer que tenha sido o fato em si, o importante na decisão de Nixon era apenas a mudança de orientação, o poder da televisão? Porém, devia ser claro que esse poder estava apenas por um lado, mas não por outro, à parte do domínio dos clãs tradicionais da imprensa.
Um estudo mais acurado da questão Nixon se torna necessário ao interesse de obter alguma perspectiva sobre como se pode responder a essas indagações, sendo também muito oportuno como embasamento histórico na origem da época atual, definida pelo açambarcamento total da produção de informação pelo domínio dos monopólios info-midiáticos.
Como se pode aquilatar, é forçoso que a história da dominação da informação pelo capitalismo midiático nos USA seja uma chave para a compreensão da nossa era enquanto cenário do neoimperialismo, formado na circunstância das guerras por libertação nacional afro-asiáticas, e resultando na equilibração conflituosa da geopolítica Norte/Sul. Pois nenhum governo estadunidense que se exerceu nesse teatro de guerra está isento do ônus das decisões que até agora tem determinado os seus rumos.
3) Cherchez las femmes
Todos conhecem a expressão “cherchez la femme”, procure o móvel, o motivo, do crime, se você quer descobrir quem o praticou. Mas literalmente significa: “procure a mulher”. Na conexão histórica da comunicação em massa com os rumos políticos do imperialismo, os usos literal e idiomático se confundem, o feminino é um fator chave: no plural.
I) Na linha, a Casa Branca
Na noite de 27 de outubro de 1972, uma sexta-feira, a esposa de Frank Stanton, o número um da CBS TV, além do chefe proprietário, Bill Palley, estava ao telefone. Ela conversava com uma amiga, quando foi bruscamente interrompida por um operador da Casa Branca, ordenando que desligasse, para que a Casa Branca pudesse contatar o marido. Quem chamava era Charles Colson. Stanton encontrava-se ausente, não por acaso.
Enquanto a esposa de Stanton tentava ela mesma contatá-lo, Colson mudou de ideia, para não perder tempo, passando a ligar para o próprio Bill Palley. Encontrou dessa vez um ouvinte profundamente interessado, ainda que a mensagem de Colson não fosse muito agradável.
O que havia acontecido, para despertar a fúria de Colson? A CBS mostrara, nessa noite, seu especial a propósito de Watergate, protagonizado pelo star Walter Cronkite. Com a arrogância característica da posição que atingira, pelo telefone Colson forçava Palley a comprometer-se com a obrigação de não repetir qualquer programa sobre Watergate.
Palley concordaria sem resistência. Porém, até mesmo para ele, não era fácil deter o processo, àquela altura. Um segundo documentário pôde ir ao ar, Cronkite contribuiu sem dúvida para acelerar a recepção de Watergate como um escândalo nacional, que de outro modo, apenas como matéria de jornal coberta pelo Post, provavelmente não atingiria grandes proporções.
Contra as expectativas de Palley, Watergate se tornou um assunto sempre mais requisitado, impossível de censurar, e fonte dos maiores números de ibope. O que ele pôde fazer para manter intacta a pele sob a ditadura do Staff Nixon, que então já ameaçava “quebrar” toda a cadeia CBS, foi tirar de cena o “Instant Analysis”. Segundo Halberstam, uma “forma inócua de crítica” a que comentadores e repórteres tinham se habituado a propósito do presidente. Os profissionais sentiram a perda como uma vitória sobre a CBS, por parte de Nixon. Na verdade, havia sido praticamente uma ordem de Haldeman.
O Staff de Nixon, a essa altura, já havia transformado a cena do poder. O uso da TV por Nixon para eleger-se havia sido uma farsa, e tão logo instalado na presidência, Nixon realizou sua reforma na política de imprensa da Casa Branca, que passou a contar com uma equipe própria, dirigida por Spiro Agnew e Colson, com Haldeman e Erlichman intrinsecamente relacionados. As poderosas redes de televisão particulares se tornavam agora meras tributárias da equipe da Casa Branca.
A própria farsa de Nixon, cortejando a CBS, NBC e demais cadeias de televisão do país, havia sido apenas um hábil estratagema pelo qual Nixon se beneficiava do ápice de um processo que se iniciara antes dele, entre as campanhas de Eisenhower e Kennedy.
O processo, culminando em Nixon porém como num turning point, é uma escalada ascendente do desequilíbrio do poder democrático – não reduzido ao significado do partido democrata. O uso das televisões pela presidência desestabilizava o papel do legislativo, tornando o cargo do presidente da república menos uma função do aparelho racional-legal burocrático- administrativo, do que uma liderança passional-carismática.
As televisões tiveram parte igual nesse processo, elas o integraram de bom grado, porque mostrar o presidente provou-se um meio de obter “ibope”, mas o compromisso ético para com a nação, de mostrar igualmente os homens do Congresso e de instituições políticas correlatas, não.
Assim, o presidente passou a ter um veículo de acesso direto ao público, enquanto o legislativo caía no esquecimento deste ou se tornava algo menos receptivo aos sentimentos da nação.
O resultado do “ibope” não era também de todo casual. É evidente que a figura do presidente é um atrativo devido à sua importância, mas o processo envolveu um ajuste de todo o desempenho do Presidente da República às leis de ferro da tela, não só a produção da aparência física, mas principalmente o teor e a forma dos comunicados. Este último, um dos fatores chave do distanciamento do legislativo, uma vez que os verdadeiros homens políticos não podiam ser indulgentes nisso.
A orientação nas televisões é de substituir os pronunciamentos dos políticos, que necessitam desenvolver por vários ângulos alguns dos temas de suas respostas, por correspondentes que se tornam famosos pela tela, mas que têm a incumbência de reduzir a “dois minutos” a substância de qualquer comunicado.
O político é mostrado sendo entrevistado, mas não tudo o que ele responde, quem fala por ele informando ao público o que realmente significa a resposta, é o correspondente da emissora, e segundo a lei dos “dois minutos”, um formato de apresentação que conhecemos bem hoje em dia. O que obviamente implica distorção da matéria. Mesmo que não fosse pelo fato de sempre se tratar de uma interpretação, e direcionada ideologicamente, vemos que o problema reside não apenas quanto ao aspecto do conteúdo, mas especialmente quanto à forma. O público fica convencido de que tudo é compreensível instantaneamente, quando de fato nem tudo o pode ser.
Uma questão real que envolve não apenas o tratamento do legislativo, mas todo correlato das mensagens de mídia, como já foi sublinhado por alguns teóricos – especialmente com relação a conteúdos da ciência. As pessoas letradas por vias não restritas à televisão não são tão prejudicadas quanto o sempre maior número que limita suas fontes de informação a ela.
Erlichman tangenciou esse problema, na crítica acerba da mídia de que se compõe o capítulo “The press”, do seu citado livro. Trata-se do registro de vários confrontos entre o staff de comunicação da Casa Branca dos tempos nixonianos e a mídia, elaborado tal que de forma alguma parece ter sido uma operação de domínio sobre a imprensa, mas sim uma forma de defesa de Nixon contra o abuso do poder da própria mídia.
Em todo caso, ele conta sobre os dois jornalistas com quem pôde conversar pessoalmente, de modo a obter resposta a propósito de sua observação de erros da parte deles. O primeiro, um colunista do Cristian Science Monitor que porém não era cristão, havia respondido que estar certo a metade do tempo já devia ser considerado extremamente satisfatório. O segundo, Hugh Sidey do Time Magazine de Harry Luce, dissera que havia muitas lacunas difíceis de preencher, e assim era impossível elidir os erros: “toda história contém erros” (p. 257). Erlichman comenta não compreender como alguém pudesse ser tão tolerante.
Ainda que alguns erros sejam esperáveis em qualquer ato humano, creio que o problema está no próprio modo como as empresas jornalísticas escrita ou televisiva monopolizam homogeneamente toda e qualquer informação para fins de mercado. Em vez de não interferir quando se demonstram os limites do meio, contentando-se em fazer o possível, investem pesadamente na veiculação propagandística de sua infalibilidade. Halberstam compreende o problema, porém não tão interligado ao aspecto teórico da distorção formal. Para ele, um repórter instruído pode reduzir o que importa na matéria a um comunicado rápido, ainda que enfatizando que assim a fonte da resposta se desloca da pessoa “eleita” para a função da mensagem, e em tratando do político, para o poder da imprensa.
Ao ver de Halberstam, o problema histórico real consiste em que tudo isso implicou o desequilíbrio do tempo concedido ao presidente e ao legislativo. Esse é o ponto crucial, podendo-se considerar uma mudança na composição do poder.
Eisenhower utilizara-se pioneiramente da televisão como veículo da imagem do presidente para ganhar a eleição, mas foi Kennedy quem tornou a presidência um veículo da própria televisão, o que é compreensível, dada à vantagem da sua beleza física. Segundo Halberstam, Eisenhower tinha escrúpulos que desde Kennedy deixaram de ser acalentados, de modo que na orientação deste virtualmente tudo na vida do presidente devia se tornar mostrável, capitalizável para efeitos de imagem.
Em 1968 e 1972 Nixon colheu os frutos do que Kennedy havia plantado, não sem ironia, uma vez que Nixon havia sido, em 1960, a primeira vítima da nova arma da arena eleitoral. Kennedy o arrasara num debate televisionado, grande parte planejado como verdadeira arapuca cênica, explorando o que sabiam os seus partidários serem os pontos fracos de Nixon relativamente às leis da tela.
O triunfo de Kennedy, tão desastroso para Nixon, não apareceu como o do partido democrata contra os republicanos, mas sim como o triunfo do novo meio de comunicação de massas, conforme Halberstam (p. 477). O processo que estamos examinando pode ser, a seu ver, do mesmo modo designado como da transferência do papel de seleção e organização de campanhas eleitorais, dos partidos para os manipuladores da mídia.
É nessa designação que encontramos o elo das relações de Nixon entre as já divididas imprensas, escrita e televisiva. Os problemas de Nixon com as figuras femininas chave da imprensa escrita, Buff Chandler e Kay Graham.
   
            //    ANTES, A “FLOR DE CUBA
Feeling sluggish, feeling sick?
Take a dose of Ike and Dick”
Estes versos de Maria Mannes (Nota 1), citados em David Halberstam, integram o engraçado poema que ela compôs a propósito da inclusão do presidente na lista de mercadorias tornadas célebres pelo poder da propaganda:
Philip Morris, Lucky Stricke
Alka-Seltzer, I like Ike”
Assim se demonstrava que o eleitorado norte-americano não se deixava mesmerizar pela mera atração da imagem manipulada, que percebia a operação ideológica da dominação midiática a degenerar o processo racional-democrático num mero rito passional-carismático, a livre deliberação da consciência subjetiva do eleitor numa demagogia de massificação. E também que os agentes não eram desconhecidos, que, ao contrário dos inocentes úteis que confundem propaganda com arte, sabia-se bem que o procedimento de mídia era direcionado, ao invés de estilo e de livre expressão.
O poema de Mannes, com efeito, começa assim:
Hail to B. B. D. & O.,
It told the nation how to go;
It managed by advertisement
to sell us a new president”
B.B.D.&O. é o nome da agência de propaganda contratada para “vender” a chapa de Ike Eisenhower na eleição presidencial em que “Dick” Nixon era o vice.
Tinha a propaganda – ou quem quer que fosse – direito de ditar à nação o que pensar e o que fazer? Se obviamente não o tinha, conforme a ironia do “thanks”, o comprometimento da democracia a partir dos procedimentos de direcionamento massificado não era, porém, a essa altura, uma novidade. Apenas se comprovava um passo a mais na rota da dominação da consciência, a partir da cooptação planificada do elemento passional, quando o procedimento passou a abranger a propaganda de mercadorias.
Temos então três fases na história da integração midiática da governamentalidade norte-americana: a do jornal, do rádio e da televisão acoplada à propaganda. Nenhuma delas foi menos direcionada. Antes da propaganda, se limitava ao modo como se produzia o noticiário de campanha. Quanto se tratava da linha republicana de um jornal, por exemplo, limitava a cobertura ao candidato do partido, o democrata era apenas alvo de críticas ou da calúnia aberta.
F. D. Roosevelt marcou a entrada na era do rádio. Como tecnologia de alcance de massas superior à simples cobertura escrita, restrita à distribuição local, a mudança que o rádio introduziu não foi apenas o fator quantitativo. A cobertura de audiência nacional que ele possibilitava foi imediatamente integrada à política presidencial de Roosevelt. Conforme Halberstam, o presidente costumava dizer a Orson Welles que havia apenas dois grandes atores nos Estados Unidos, e Welles era o outro. O presidente, o ator principal da nação (p. 24).
Antes os jornalistas em Washington cobriam questões relacionadas aos interesses regionais do seu próprio jornal, mas depois de Roosevelt, eles eram especialistas treinados que escreviam sobre as implicações nacionais das decisões, implicações que afetavam o país inteiro. Conforme Halberstam, “a velocidade da decisão se tornava mais e mais rápida, o governo local não podia fazer frente ao crescente poder e influência do governo federal”. A tecnologia estava possibilitando a formação de um “Estado central” que “podia alcançar áreas previamente isoladas. Mais, ele podia desempenhar funções, dispor serviços, e fazer julgamentos inconcebíveis numa outra era”.
Nessa era do rádio, o fenômeno midiático não foi menos abrangente, portanto, do que na transformação crucial do marcketing e televisão, e como Halbestam registrou, não se limitou aos Estados Unidos. O Estado central, a centralização do poder federal, foi a marca da era do rádio, ocorrendo paralelamente na Alemanha e na União Soviética. A mola mestra dos regimes totalitários europeus que as democracias ocidentais tiveram que enfrentar nas duas guerras foi, porém, fator de reforço na construção do governo centralizado na América, e por outro lado um fator de questionamento da democracia: “se o poder estava o mais claramente centralizado alhures, não se provaria a democracia vulnerável, numa era de bombardeios, cada vez mais rápidos e destrutivos, e de outras armas, a democracia não seria demasiado lenta, demasiado desajeitada?”. A democracia aqui se deve ler, o Legislativo, a representação da heterogeneidade da população, e o Judiciário.
Conforme Halberstam, portanto, a emergência dos Estados totalitários reforçou o poder do Executivo na América. O presidente usou o seu inusitado poder de influência “não apenas contra os Estados adversários, mas contra o público americano, o congresso e a imprensa, conforme o argumento das necessidades de segurança nacional”. Assim que as guerras acabaram, o foco de Roosevelt mudou “da política interna, sobre que o Congresso estava bem informado, para a política externa, área em que ele se sentia sempre ignorante e desajeitado, portanto inevitavelmente subserviente”. A mídia era usada pelo presidente, mas conforme suas próprias regras de ibope, jamais de um modo que as desafiasse. A mídia era usada, mas ela determinava as regras do jogo para qualquer utilização.
Roosevelt não devia se impor como fonte de obrigatória informação burocrática, um assunto sério que causasse tédio no horário do entretenimento, ele devia produzir-se como um ídolo desejado, ele mesmo o entretenimento, o redentor que todos esperavam numa época tão obscura como a da crise da bolsa, que Roosevelt fez terminar, introduzindo o Estado de bem-estar social.
Creio que pouca gente sabia que Roosevelt era aleijado. Como Halberstam observa, por um pacto sempre respeitado, os fotógrafos da Casa Branca nunca o mostraram em cadeira de rodas ou muletas, e os repórteres dos jornais respeitaram igualmente esse “direito do presidente”. O ar extremamente confiante, a haura do poder, a voz rica, familiar, as mãos possantes e atraentes, tudo em Franklin Delano Roosevelt inspirava um ardor que contaminava a imprensa, por vontade própria os repórteres abafavam notícias que pudessem comprometer sua imagem. Como quando Roosevelt foi votar e um dispositivo falhou, provocando sua irritação: “essa maldita coisa não funciona”, vociferou irado. Se Belair, do Time, imprimiu a nota “Roosevelt estava irado”, ninguém acreditou deveras. Naquela “época de alma pura”, que o presidente dos Estados Unidos pudesse incorrer em tamanha profanação era impossível, os repórteres haviam sempre protegido o público contra a revelação insidiosa, e Roosevelt negou que havia sido blasfemo (p. 21).
Por um efeito de compensação, nessa altura da mercatorização da presidência, a entrada da televisão no processo de açambarcamento midiático do político flexibilizou o antigo modo, e os candidatos passaram a serem ambos cobertos pelos jornais. Porém Ike usou o novo meio com certo comedimento, certo pudor, que a partir de Kennedy já não existia.
A crise na estrutura presidencial-midiática assim estabilizada, no episódio Nixon, corresponde na verdade a um clímax paroxístico, numa trajetória que não deixou por isso de ser sempre ascendente até hoje.
Halberstam soube como ninguém manejar o paradoxo desse momento nixoniano. Não só porque Nixon, como vimos, começou por usar a imprensa, e seletivamente, num golpe magistral que aprofundou a cisão dos veículos escrito e eletrônico, para, por turnos, se livrar depois de um e de outro, impondo uma agência própria e oficial, da Casa Branca. Mas por que ele soube explorar as regras do jogo.
Assim Spiro Agnew, o vice-presidente de Nixon que se lançou numa longa cruzada de crítica à imprensa liberal, na própria imprensa, produziu-se cuidadosamente como um homem carismático de imprensa. Por outro lado, a crítica do staff de mídia nixoniano soube se articular contra um construído estereótipo que unia a imprensa liberal a todas as inovações tecnológicas e sociais que, num ritmo demasiado acelerado, surpreenderam a nação, deixando grandes grupos de pessoas descontentes, desconcertadas.
Esses grupos podiam não ser necessariamente conservantistas republicanos, porém o construto era irresistível como alvo do ressentimento, o novo, as inovações que de modo arbitrário mudavam intoleravelmente os ritmos e os hábitos da vida, as multidões indo às ruas movidas pelo conflito racial ou protestos de jovens contra a guerra, impedindo a normalidade. Além disso, o staff soube misturar críticas procedentes, ecoando as que os próprios intelectuais liberais vinham tecendo, visando à mídia como clique potencial de posições unilaterais, e monopólio privado da informação.
A imprensa liberal, ou meramente autônoma, foi sendo encurralada sempre mais na defensiva. Os proprietários das afiliadas das grandes cadeias de televisão eram eles mesmos republicanos e aprovaram entusiasticamente a estratégia de Nixon. Chegaram a exigir, das cadeias televisivas com que estavam associadas, cobertura heroicizante do exército americano no Vietnã, a fim de reforçar a opinião a favor da guerra. Foi uma tarefa árdua para Sallant, o presidente da CBS, convencer os proprietários das afiliadas que isso causaria apenas imenso ressentimento.
Um fator que contribuiu para o sucesso da estratégia nixoniana de domínio sobre a mídia é que para muitos era notório que isso equivalia a domínio sobre a nação, e muitos americanos sentiam, conforme Halbestam, àquela altura, que era preciso alguém retomar o pulso, que o presidente anterior, Lyndon Johnson, havia perdido o controle do país.
O que é irônico, uma vez que a aceitação por intelectuais, da estratégia Kennedy de total midiatização da campanha presidencial pela televisão, superando os escrúpulos de Eisenhower, ocorreu, segundo Halberstam, porque, para os intelectuais da nação, Kennedy era uma fórmula contra Nixon. Na era Nixon, os intelectuais mesmos já estavam na defensiva, massas descontentes com mudanças que elas não compreendiam ou que resultaram em novos conflitos foram vitais para o retorno de Nixon à política.
Até estourar o escândalo de Watergate, Nixon provocara, pois, uma cisão na estrutura midiático-governamental norte-americana que vinha se estabilizando há décadas, porém se apenas para transformá-la num veículo inteiramente direcionado pelo Executivo, ainda segundo as próprias regras de cooptação midiática. A estrutura em si era inabalável.
Para Halbestam, o momento inicial, a era pré-franklin-rooseveltiana, a era da imprensa jornalística escrita, foi marcada por um passo lento, “relaxado e gentil”, homens de chapéu e bengala que não se importavam muito com a cobertura nacional, poucos homens como Oulahan do The New York Times ou Fred Essery do Baltimore Sun, cavalheirescos, de ar ocioso, cobrindo atividades de dignatários, não como se fossem de políticos práticos. Esses jornalistas cavalheiros eram essencialmente diferentes dos outros, aqueles que cobriam as histórias policiais.
As histórias dos dignatários nunca ultrapassavam o ditado da Casa Branca, mas eram os jornalistas que, como relativamente ao presidente Hoover, construíam a reputação. Somente na era Franklin Roosevelt teria havido algo como uma “explosão de notícias”. Não havia mais chapéu ou bengala, o passo se tornou rápido, havia sempre muitos e mais eventos, agências, fontes governamentais, Roosevelt pessoalmente apressava os repórteres à publicação imediata do que lhes comunicava (p. 17/19).
Cl. Julien (L’Empire Americain. Paris: Bernard-Grasset, 1968), inversamente, cobre o período pré-franklin-rooseveltiano como uma primeira integração estrutural que, para se lançar, atuou com grande impacto e sensacionalismo. A estrutura midiático-governamental coalesceu após a Secessão, no bojo da transformação dos Estados Unidos, de uma nação autônoma em um império neocolonialista que hoje abrange a hegemonia planetária do capitalismo. A violência com que a mídia se integrou pioneiramente como um fator intrínseco ao poder Executivo teve por pivô precisamente essa transformação, que não foi unilateralmente direcionada pelo próprio Executivo norte-americano.
A opção pelo imperialismo teve a princípio dois ingredientes. Por um lado, um alvo concreto e próximo, as pequenas ex-colônias da América Central, até aí orbitando em torno da antiga metrópole, a Espanha. Se o partido republicano, ao contrário do democrata, se notabilizou na história pela opção “isolacionista” junto com o ideário econômico liberal inversamente à ação anti-cartel dos democratas, isso não quer dizer anti-imperialista. O famoso “isolacionismo” republicano ressoa apenas como recusa de participar dos conflitos europeus. E o seu “liberalismo” na verdade implicou num verdadeiro fechamento protecionista dos Estados Unidos a toda ingerência de negócios estrangeiros, com objetivo de aumentar ao máximo o poder do empresariado norte-americano. Se em vez de isolacionismo e liberalismo dos republicanos, os democratas pregavam os direitos civis e o internacionalismo, o resultado quanto à política externa não era muito diverso.
Sobre o citado fechamento, de que o Dingley act, de 1897 a 1909, é um exemplo no tocante a firmas não-americanas, taxando em 57 % vários produtos na alfândega, segundo Julien, atuou inclusive sobre a lei de imigração.
Os Estados Unidos como terra da promissão para todos foi uma propaganda interessante apenas para uma parte da indústria ou para os dirigentes trabalhistas contra os trabalhadores sindicalizados. Inversamente, tanto os sindicatos quanto os republicanos insistiram em leis contra imigrantes. Aproveitando-se de limitações que pudessem mover a opinião pública, proibiram o acesso de anarquistas, iletrados, prostitutas ou condenados, assim como de chineses, mas também houve o recurso de minoração de quotas de entrada para vindouros de outros países. Inversamente, a atração de intelectuais do mundo faz parte de uma política que despovoa a inteligentzia nacional. A “diplomacia do dólar” ou o “big stick” – falar macio mas portar um “grande porrete” – foram lemas presidenciais do tratamento designado para os liderados, por um país que se considerou “líder espiritual dos povos bárbaros e senis”, na fórmula do senador Beveridge, isto é, os não-ocidentais e os europeus. Harding, que não chegou a cumprir o mandato – ao que parece assassinado pela esposa, porque tinha uma amante – apregoava o “America first”, todos os esforços da nação deviam ser apenas para ela mesma. A corrupção de negociatas durante Harding foi radical, apurada por número expressivo de processos escandalosos.
Por outro lado, o segundo ingrediente da transformação imperialista dos Estados Unidos consta de uma ideologia expansionista laboriosamente construída por vários agentes integrados. Homens poderosos da imprensa como Pulitzer e William Hearst; da política norte-americana, como os senadores Beveridge e Henry Cabot Lodge, ou ainda a “gang de Ohio” integrada entre outros pelo senador do Arizona, Albert Fall; líderes da igreja como Josiah Strong; líderes militares como o almirante Mahan; o escritor Herman Melville, e doutrinas presidenciais. (Nota 2 )
Porém, até abranger a conta certa da contribuição presidencial, a clique imperialista teve que romper a resistência de presidentes como McKinley. O apoio precedente de Theodore Roosevelt não se demonstra portanto como prova de um pensamento unívoco pró-imperialista existente desde o início. É justamente na época da presidência McKinley que, na pessoa de Hearst, a imprensa faz sua estreia como elite do poder, mudando o direcionamento do Executivo, a partir da manipulação da opinião pública. Tratava-se para Hearst de impulsionar a guerra contra a Espanha pela libertação de Cuba do imperialismo espanhol, verdadeiramente tirânico, porém não que líderes da resistência cubana como José Marti desconhecessem o perigo do imperialismo norte-americano. Tão certo que, na sequência das ações pró-imperialistas de Hearst, consta a sua amizade com o ditador mexicano Porfirio Díaz, uma das razões pelas quais o Morning, de Hearst, passou atacar o presidente Wilson, reclamando intervenção militar no México. Antes, Hearst havia apoiado Wilson, aliado na cruzada em prol da obtenção da ascendência sobre Cuba, através da guerra contra a Espanha. Outras razões foram, além do aumento das tiragens pela agitação da massa, que a mãe de Hearst possuía um rancho e outros interesses no México.
Na época da promoção por Hearst da guerra contra a Espanha, uma verdadeira histeria nacionalista de massas foi desencadeada nos Estados Unidos pelo seu jornal, que para isso chegou a produzir uma heroína, a “flor de Cuba”. Evangelina Cosio Y Cisneros, havia sido presa pelos espanhóis, conforme informaram os correspondentes de Hearst em Cuba, e logo estava ela apresentada à opinião pública, pelo Morning Journal, como a “Joana D’Arc cubana”.
Uma campanha visando ao apoio das mulheres norte-americanas à causa da “flor de Cuba” envolveu inúmeras signatárias cujos nomes apareceram em várias colunas do Journal, inclusive o nome da própria mãe do presidente McKinley, assim como da esposa do secretário de Estado, Mrs. Sherman.
A campanha atingiu o outro lado do Atlântico, milhares de assinaturas se seguiram, um apelo do papa foi endereçado, e quando afinal a “flor de Cuba” conseguiu fugir de Cuba com auxílio de um mercenário, Karl Decker, subvencionado por Hearst, ela desembarcou em New York provocando, segundo Julien, “um verdadeiro delírio popular” (p. 88). McKinley tencionava continuar resistindo ao populismo, porém, a onda dos protestos movida pela propaganda do jornal foi demasiado potente.
O episódio não foi isolado, e a conhecida história das primeiras anexações imperialistas, abrangendo São Domingos, Cuba, México, Filipinas, Havaí, Panamá etc., se esclarece na cobertura de Julien, a partir da intervenção de Hearst e outros integrantes da clique expansionista. Podemos desde esse episódio, caracterizar os momentos principais da construção daquilo que seria bem designável a “articulação mídia/Executivo” como estrutura do Poder imperialista estadunidense, a qual visou não apenas anexar as instituições do governo para os objetivos do imperialismo, monopolizando-as. Mas também transformar o Executivo numa forma de poder carismática,  na terminologia de Weber aquela forma oposta ao desempenho racional. Construindo uma relação passional direta do presidente com o povo,  neutraliza a democracia legal pela minimização da importância do legislativo e judiciário.
Se bem que Julien não o tangencie, é notório que o pensamento liberal nos Estados Unidos teve bastante alcance em inícios de século, como na Escola de Sociologia de Chicago, sendo como demonstra os artigos de Robert Park, expressamente anti-imperialista. Assim compreendemos a resistência de McKinley, mas também, conforme o que Julien observa, pelo fato de que os banqueiros e industriais estavam contra a intervenção bélica que julgavam prejudicial naquele momento aos negócios. Porém, logo o idealismo americano se tornou uma mentalidade abrangente, e os presidentes passaram a contribuir com doutrinas que reinterpretaram ao corrente do objetivo imperialista, o ideal oitocentista da doutrina Monroe.
O lema dessa doutrina, “a América para os americanos”, em 1826, foi um enunciado ecoando a guerra da libertação nacional frente à metrópole inglesa. Agora, em princípios do século XX, a ideologia expansionista construía-se como um verdadeiro idealismo, nitidamente reconstituível tanto na letra dos seus enunciados quanto nos acontecimentos de sua produção histórica.
De fato, Julien cuida dos dois aspectos. Já vimos o bastante para os limites do nosso estudo a propósito das práticas construtivas do imperialismo. Quanto à letra, a doutrina Monroe foi primeiro modificada pelo “corolário Roosevelt”, em 1904, condensando os princípios de Richard Olney e L. Drago. Tratou-se, na ocasião, de um conflito com a Inglaterra, provocado pela recusa da Venezuela em pagar dívidas contraídas com potências europeias, num contexto de litígio por fronteiras. O presidente Theodore Roosevelt aprovou a política belicista dos europeus para recobrar a dívida, porém recuou quando soube que se tratava do envio de navios ingleses, italianos e alemães. O que violava a doutrina de Monroe. Richard Olney, que se tornara procurador geral desde que lograra lançar na prisão a Eugene Debs, líder sindicalista por ocasião das greves das estradas de ferro, enunciara, em carta ameaçadora à Inglaterra devido ao conflito de fronteiras, o princípio pelo qual “Os Estados Unidos são praticamente soberanos sobre este continente e sua vontade é a lei para quaisquer matérias em que intervenham” (p.127).
A doutrina Calvo, do homônimo jurista e diplomata argentino, enunciava que um estrangeiro deveria submeter seus processos ao poder judiciário do país em que exerce sua atividade, ao invés de tentar obter reparação por meio de intervenção diplomática. Podendo ser utilizada na ocasião do conflito anglo-venezuelano, a doutrina foi complementada pelo protesto de Drago afirmando que nenhum país poderia recorrer à força armada para constranger uma nação americana a pagar suas dívidas.
Essa doutrina Drago não foi aceita nem pelo Congresso Americano em 1906, nem pela conferência de Haia em 1907, porém, já em 1903, Roosevelt havia obtido julgamento da questão da dívida venezuelana pela Corte internacional de justiça de Haia, a qual abateu o valor da dívida de quarenta para oito milhões de dólares – o que deixou a Inglaterra indignada.
Roosevelt, inversamente, considerou bastante satisfatório o desfecho, e em sua mensagem anual de 1904, enunciou o “corolário Roosevelt” à doutrina Monroe, pelo qual os Estados Unidos respeitam todas as decisões das nações relativamente ao continente americano enquanto eles não fossem perniciosos ao direito internacional, porém, a doutrina Monroe concedendo aos Estados Unidos o direito de “exercer um poder de polícia internacional”, a fim de garantir a vigência das relações civilizadas sempre que fossem elas desafiadas por infrações de suas regras. Assim, conforme ainda o Corolário Roosevelt, os Estados Unidos são “praticamente soberanos” sobre o continente americano, e “sua vontade tem força de lei” (p. 129).
Vicentino (História geral. São Paulo: Scipione, 1997), enuncia mais simplesmente o corolário Roosevelt: “Visando preservar seus interesses econômicos e políticos, os Estados Unidos garantiram-se o direito de usar a força para intervir nos países do continente, na posição de ‘salvadores da América’” (p. 330).
Julien referencia o idealismo americano como enunciado da “liderança espiritual” dos Estados Unidos como designado por Deus ou pelo “destino manifesto” a serem os civilizadores da contemporaneidade.
A “doutrina Wilson”, com efeito, rezava que os interesses dos Estados Unidos deviam ser definidos como os interesses de todas as nações do globo, conforme a orientação deste presidente que assim pretendera eliminar a oposição de nacionalismo e internacionalismo. Foi nesse princípio que o anticomunismo desde Truman se apoiou para sustentar o aparato da guerra fria, contra a expansão da União Soviética, em que vemos o momento nixoniano envolvido. Na verdade, acontecia então, após as duas guerras mundiais, as guerras afro-asiáticas contra a dominação colonial europeia, e os USA intervieram maciçamente, a fim de impedir que as nações emergissem com regime comunista, pró-soviético.
Lembrando que Nixon se elegeu presidente em 1968, quando nações latino-americanas estavam sob ditaduras militares anticomunistas, implementadas pelos USA, nesse ano houve no Brasil o assim designado “golpe dentro do golpe”, de modo que a prometida redemocratização rápida não aconteceu, desde o regime militar instalado em 1964. E quando Nixon se reelegeu, ocorreu o golpe no Chile, contra Salvador Allende.
Os anos setenta não foram tais que o terceiro mundo deixava de importar na cena política internacional – ao contrário do que Fredric Jameson afirmou. Bem inversamente, o anticomunismo foi um limiar pelo qual o imperialismo norte-americano de fato alcançou o âmbito de consequências planetárias. Porém, nem sempre como uma realidade da oposição local. Em vários casos, o anticomunismo foi uma desculpa deliberada, a fim de evitar emancipação econômica e democracia política das nações sob ingerência dos interesses capitalistas, isto é, imperialistas, americanos, atuando em conjunto com os europeus e japoneses. Mas, a essa altura, os interesses de algo como um império já estavam organizados nos Estados Unidos, num só bloco do poder interno, designável “complexo militar-industrial”. Atuando sobre todas as partes do mundo, conforme Julien demonstrou, o império norte-americano pode manobrar conforme os interesses do seu empresariado para obter as requisições que lhe pareçam necessárias, mesmo em questões de menor alcance – por exemplo, o Canadá teve que ceder quanto a uma taxa de importação de revistas americanas como Time Life e Reader’s Digest, que estavam subtraindo o montante dos anúncios das publicações canadenses, sob ameaça de Kennedy, de um corte de milhões de dólares já acordados para empréstimo a uma firma nacional. O caso de Cuba é exemplar, posto que Fidel Castro não fez uma revolução comunista, mas se tornou comunista depois que as firmas americanas Texaco e Standard, assim como a Shell, atuando em Cuba, se recusaram a tratar o petróleo bruto comprado da União Soviética, em moeda nacional e muito mais barato do que o americano a comprar em dólar. A nacionalização dessas empresas por Fidel foi seguida da retirada de enormes quantidades de compra do açúcar pelos USA em represália, o que provocou a ruptura do regime, o qual, enquanto durou, fizera saber que o embaixador americano devia ser “a pessoa mais importante em Cuba”, conforme Julien (p. 302 e segs.)
Nessa fase do complexo militar industrial, que é a da atualidade, os USA são líderes do mundo, mas já não tratam do mesmo modo os povos bárbaros e os senis. Atuando em função do imperialismo capitalístico, se acoplam aos interesses das multinacionais com sede na Europa. O mapa do conflito norte-sul parece a alguns uma realidade supranacional devido à formação de blocos econômicos e o papel preponderante das empresas multinacionais, mas, além da União Europeia, não houve qualquer ruptura das realidades nacionais, como podemos exemplificar pelos “tigres asiáticos” e o Japão. Na perspectiva da hegemonia estadunidense também continua nacional. As multinacionais têm na verdade sedes em países e/ou regiões cujos interesses são estreitamente ligados a elas.
Uma nota interessante da biografia de Ehrlichman, é ter ele sido preceptor de um dos netos de W. R. Hearst. Isso ocorreu após Ehrlichman ter-se graduado na Universidade de Los Angeles, onde estudou ao retornar da segunda guerra, em que participou pela força aérea. Logo que se formou, casou-se com Jeanne, também graduada, formando um grupo de amigos com Haldeman e a esposa Jo. Após o emprego com Hearst, Ehrichman mudou-se com a família para Seattle, e se empregou numa firma de advocacia, sendo também professor na escola dominical da igreja, quando recebeu o convite de Haldeman para integrar a equipe de Nixon, no final dos anos cinquenta. Ehrlichman, pronunciando-se sobre a política externa do governo Nixon, ridiculariza bastante Henry Kissinger. Uma figura caricaturada, o “bom doutor” universitário perseguindo neuroticamente membros do Staff nixoniano, a toda hora ameaçando demitir-se e voltar para Harvard se não acabassem com os odiados perseguidos.
O ressentimento de Ehrlichman se explica, uma vez que Kissinger era um querido da imprensa, e especialmente de Katharine Graham do Washington Post, tradicional alvo da hostilidade de Nixon e que desencadeou – ou não pôde evitar que seus repórteres o fizesssem – o escândalo de Watergate. Para Halberstam, de fato Kissinger era um especialista em creditar aos outros nixonianos a culpa pela agressividade da política externa de que ele mesmo, Kissinger, era o arquiteto – lembrando que Nixon prometera a paz no Vietnã, mas de fato o bombardeou cruelmente, e para alguns, segundo Halberstam, ele preferiu a via do bombardeio por ser algo que a televisão não podia filmar.
Mas Ehrlichman reconhece, afinal, que Kissinger estava certo ao afirmar que, retirando-se os soldados americanos da guerra, o regime pró-americano no Vietnã não duraria mais que um ano e meio. A quem Ehrlichman ridiculariza sem piedade é a Spiro Agnew, num capítulo intitulado “O vice-presidente”. Agnew é visto como um pretenso intelectual pernóstico, que só propunha itens irrealizáveis ou de fato incompreensíveis. Uma vez engajado no projeto Nixon de contenção de despesas, Ehrlichman se orgulha de ter cortado o programa espacial de viagem a Marte, que Agnew consertara com grande estardalhaço a partir da sua cooptação pelos bajuladores da Nasa. Se não fosse por esse corte, a viagem a Marte deveria ter ocorrido em 1981.
II) Doroty “Buff” Chandler
A derrota de Nixon na Califórnia em 1962, desta vez concorrendo para governador do Estado, não foi algo intrinsecamente relacionado ao uso da televisão, mas igualmente relacionado ao poderio da imprensa. Pat Brown estava sendo apoiado diretamente pelos Chandler do Los Angeles Times, não obstante o compromisso deles e do seu jornal com o Partido Republicano. A estabilidade desse compromisso, que inclusive se restaurou depois, tornaria o fenômeno quase inexplicável sem o conhecimento do papel de Buff Chandler, não tanto pelo que ela fez quanto pelo que simbolizou.
Ou seja, Buff, na apresentação de Halberstam, surge como o símbolo do modo confuso e não inteiramente planejável pelo qual os conservadores do Sul, entre os quais os Chandler como referência principal, precisaram confrontar o fato de que os USA, e até mesmo o seu próprio território, a Califórnia, estavam se tornando cada vez menos homogeneamente adaptados aos rígidos padrões do preconceito tradicionalista que até aí pudera imperar. Mas não havia qualquer inclinação destes conservadores para mudar factualmente as posições assumidas, o conservantismo não era seriamente pensado como o que se devia abandonar. Daí as idas e vindas, as reviravoltas, ora apoiando uns, ora apoiando outros, dentre os partidos em confronto.
Trama rocambolesca, que se reflete exemplarmente nas relações Chandler-Nixon, um pêndulo entre os dois extremos da total ruptura à estreita colaboração política. Não surpreende assim que, de tudo o que Halberstam registra, possa se afirmar que a tradição republicana do Times não foi seriamente desafiada. Os valores dos Chandler não chegavam a algo que pudesse facilmente se transportar para o outro lado de um modo total ou sequer totalmente convincente.
Afinal, Buff nunca deixou de ser racista. Já em 1976, tendo organizado o Blue Ribbon 400, “a elite das organizações de elite em Los Angeles”, para obter fundos destinados a um centro musical, almoçando com Betty Ford, então esposa do presidente em visita a Los Angeles, recebeu desta a sugestão de convidar a negra Ethel Bradley, mulher do prefeito negro Tom Bradley, para o almoço. Conforme Halberstam, “Buff respondeu que isso estava fora de questão. A senhora Bradley não era, antes de tudo, um membro” (p. 384, 85).
Como um todo, o núcleo dos Chandler, composto pelo maior proprietário Norman, Buff e o filho Otis, singularizam-se pela deliberação de se tornarem os realizadores da ruptura dos novos tempos no Los Angeles Times. Ficariam para trás, abrupta ou gradualmente conforme o caso, os nomes da história do Times ligados ao que agora se tornara a política autoritária do passado.
Os antepassados, como o avô Otis, um homem brutal, e o histórico Harry Chandler, um típico líder de cartel, igualmente duro, mas usando mais as táticas das leis do que da força, não deviam ser modelos de conduta. E os mais velhos, que permaneciam nos quadros ativos, eram cada vez menos preponderantes nas decisões.
O novo Otis, filho de Buff e Norman, um aluno da nova educação e “lestizado”, não tão tradicionalmente californiano, que se tornou o responsável pela administração nesses novos tempos, não pretendia ser o produtor do rei (“kingmaker”), isto é, o responsável pela campanha do Partido, como antes os administradores do Times haviam sido. Inversamente, para Kyle Palmer, o número um de Harry Chandler, e que continuava na ativa ainda que sem papel decisivo, o Times e o próprio Palmer não apenas apoiavam o Partido Republicano, eles eram o Partido Republicano.
Ainda assim, vemos que Norman, atuando entre os mundos do tio Harry e do filho Otis, fez o papel de “kingmaker” em campanhas como de Patt Brown e subsequentemente, apesar da ruptura, do próprio Nixon. Mas as considerações que podem ser tecidas em torno desse consenso comum do núcleo familiar, entre pai, mãe e filho, não bastam. Buff e Otis formam uma história à parte. Norman, como pai, estava envolvido num círculo mais vasto da dinastia Chandler. Esse círculo de parentes deviam ter recebido Buff como a mais nova integrante da família, mas não foi assim. Eles a receberam com ressentimento. Não estavam interessados em ceder para Norman como pai do novo Otis, este o neto do velho Otis, a direção dos negócios, um verdadeiro “império”.
Norman Chandler foi exitoso em obter para Otis, e não para o círculo exterior da família, a sucessão na direção do “império”. Segundo Halberstam ele foi justo, organizando pensões polpudas para os outros membros. Porém, o antagonismo contra Otis e principalmente contra Buff nunca deixou de existir, e Buff logo descobriu que não era apenas uma questão de família. Devido à importância dos Chandler, era toda a sociedade de Los Angeles que estava contra ela.
Buff, cujo verdadeiro nome era Dorothy, e cujo apelido é abreviação do sobrenome, Buffum, reagiu à depressão a que primeiro sucumbira devido à estigmatização familiar, por meio de um tratamento psiquiátrico com a então famosa terapeuta Josephine Jackson. Com relação ao conflito social, ao retornar do sanatório, Buff utilizou a seção feminina do Los Angeles Times como uma trincheira. Conforme Halberstam, “a importância do que ela realizou por meio das páginas femininas [do jornal] não pode ser subestimada na história da Los Angeles contemporânea” (p. 383). Se ela havia sido “ferida e rejeitada por uma ordem social, Buff Chandler objetivou redefinir a ordem social da cidade inteira”.
Seu instrumento mais agudo foi a seção social do Los Angeles Times. A partir de que ela pôde eliminar ou punir aqueles que não se coadunavam com seus valores, e premiar aqueles a quem estimava.
Buff repetia assim, na escala da vida social, a ordem invariavelmente repetida da política conservantista norte-americana em seus mais altos escalões. O partido republicano ou a mídia que o apoiava e com ele se identificava, a mídia escrita ou eletrônica como negócio de homens poderosos, milionários. Eliminar os adversários, promover e proteger os amigos.
Os adversários eram, portanto, o mais frequentemente, os políticos em campanha pelo Partido Democrático. Mas quando, por um motivo de circunstância, não era esse o alvo, nunca deixava de ser o qualquer-um acusado de “comunismo”. O mais frequentemente era o candidato adversário do Partido Republicano. Mas nem sempre. A propaganda anticomunista de Kennedy foi bastante eficaz, esse era um item infalível da retórica política, contra o “comunismo” sempre se arranjavam correligionários. Assim devemos lembrar que foi o partido democrata de Kennedy quem deflagrou o golpe ditatorial militar no Brasil, em 1964, expressamente programado para derrubar o honesto e democrático governo João Goulart – conforme o que iremos demonstrar à frente (Livro 2).
O pragmatista Richard Rorty documentou a unidade anticomunista da própria esquerda norte-americana nessa época. Creio ser oportuno lembrar que o pragmatismo no Brasil foi a doutrina oficial do DIP (departamento de imprensa e propaganda) da ditadura Vargas, o assim designado Estado Novo que tinha, porém, inclinação fascista. Ch. Reich, em The Greening of America, de fato considera a época precedente aos sixties como demasiado integracionista naquele país, sem muita consciência da subjetividade.
A retórica anticomunista foi não apenas o ítem infalível do ataque ao adversário, mas a senha do imperialismo norte-americano que até aí, o pós-guerras, comentaristas como Cl. Julien afirmam que havia sido brando, quase involuntário da perspectiva do Executivo. Na verdade, algo típico de um setor de extrema-direita, minoritário em princípios de século. Como vimos na história do jornalista Hearst, insuflando a guerra contra a Espanha, apenas para aumentar suas tiragens, e manobrando tão bem a opinião pública que ela, e não qualquer político ou o presidente, passou a exigir a guerra. A qual foi risível – não havia praticamente oposição viável aos combatentes norte-americanos, com o resultado tendo sido a penetração dos USA nas até então possessões neocoloniais espanholas na América Latina. Mas, após as duas guerras, estava em marcha a guerra afro-asiática pela libertação, e os USA se tornaram os artífices da ordem que agora está vigente, com domínio sobre o terceiro mundo. A parte importante dessa história está interligada à escalada do poder das assim designadas, sociologicamente, “comunicações em massa”. Não feita pelas massas, não “de massas”, mas para elas, por uma das elites mais poderosas do mundo.
Quando Buff e Norman Chandler se tornaram os patrocinadores (“spounsors”) de Nixon, isto foi resultado das atividades de Kyle Palmer, quando ainda gozava de prestígio e permanecia o “kingmaker” da Califórnia. Ele vendeu Nixon aos Chandler, iniciando a “conexão” Nixon-Times. A ocasião foi propícia. Nixon, apresentado aos Chandler como o vencedor da campanha contra Voorhis, o candidato democrata praticamente destruído pela falsa história plantada pelo Times, de Voorhis como líder de um ala vermelha radical do Partido Democrático. O Partido não representou problemas a Voorhis, a falsidade da história era notória, porém, o público acreditou, ao menos, num Voorhis diferente dos democratas mais confiáveis, mais radical do que eles.
Como um vencedor, o primeiro encontro de Nixon com Buff e Norman no edifício do Times, em 1946, não resultou, porém, numa amizade real. Buff não simpatizou com Nixon, que não devia ainda assim ser descartado, e, bem pelo contrário, estava solidamente amparado como instrumento político do poder dos Chandler.
A mãe de Nixon estava presente, e, à indagação de Buff sobre o que desejavam beber, ordenou leite, ao que o filho ecoou. Mas subindo aos aposentos privados dos Chandler, Nixon solicitou um Bourbom a Buff, escondido da mãe. O que não causou boa impressão. Buff considerou impertinente que um homem adulto devesse esconder a bebida de sua mãe. Em todo caso, o incidente não desfez a conexão. Conforme Halbestam, Buff “não deixou que isso interferisse no modo do patrocínio do Times a Richard Nixon. Os Nixon, antes de tudo, eram políticos, pessoas para serem usadas, não para serem amadas. Eles o usariam, ele os usaria. Não precisavam ser amigos” (p. 364).
O que realmente interferiu? Anos mais tarde, a derrota de Nixon na campanha contra Kennedy. As circunstâncias militaram contra Nixon, porque na ocasião os Chandler estavam envolvidos ao máximo na sua deliberação de se tornarem o marco dos novos tempos. Contribuiu para isso um movimento social ultradireitista, designado “John Birtch Society”, cuja estratégia havia sido inundar as redações dos jornais com cartas panfletárias, usando termos violentamente injuriosos contra tudo que se relacionava aos novos tempos e às mudanças sociais recentes. A propósito, a John Birtch Society é reportada na literatura de ficção norte-americana como responsável por cooptação corrupta do atendimento em hospitais e por intervenção de sabotagem séria nas instituições educacionais – há referência contundente em O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas; uma investigação sobre valores, de Robert M. Pirsig (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984). Halberstam não relaciona diretamente à Birtch porém, o episódio por ele narrado, em que Buff salva a vida de Otis, que havia sido acidentado, ao recusar o diagnóstico de um hospital e levá-lo a outro, onde de fato constataram que o rapaz podia ser curado, e, assim, empregaram os aparelhos necessários.
A “Sociedade” Birtch estava bastante estruturada, e o círculo exterior da família Chandler, a parte contrária a Buff, profundamente envolvida. Norman fez o papel do cavalheiro das boas novas, investindo contra os birtches na Califórnia, mas isso repercutiria melhor se ele se tornasse do mesmo modo partidário de Kennedy.
A campanha de Kennedy é uma história à parte na exposição de Halberstam. Não só pelo uso da mídia, que, entretanto, tornou-a fenômeno nacional: “as multidões eram incríveis, enormes, intensa, obviamente sexuais...”, resultado “da intrusão da televisão na vida política” (p. 419). Mas, também, pelo uso das técnicas estatísticas de Lou Harris, que informavam Kennedy quais cidades eram pivôs da campanha – assim Virgínia Ocidental foi decisiva, pois, conforme as informações de Harris, concentrara a mais séria oposição a Kennedy, porém, algo que ele poderia e deveria confrontar diretamente, a saber, o problema do seu catolicismo. Kennedy pôde então cortar os argumentos principais explorados contra ele, salientando amplamente pela televisão o seu compromisso de separar igreja e Estado.
Unir-se ao ímpeto das multidões e apoiar Kennedy seria, pois, a opção mais condizente com os objetivos dos Chandler. Porém, eles não estavam preparados para uma ruptura tão abrupta. O que é compreensível, uma vez que a reserva de Nixon para a campanha presidencial havia sido arquitetada muito antes por Kyle Palmer, num negócio bastante sujo, com que colaborara decisivamente Buff Chandler.
Nixon não foi um vice-presidente de que Eisenhower gostasse. A rivalidade deste contra Nixon revelou-se persistente, e moveu pessoas como Frank Staton a uma permanente suspeita anti-nixoniana. Kyle Palmer devia, pois, ainda nessa época, e para proteger a carreira de Nixon, afastar da rota do poder aqueles que futuramente poderiam ser seus antagonistas. Isso mudou o destino do governo da Califórnia. Goody Knight, o governador, detinha sem dúvida popularidade suficiente para reeleger-se, mas Kyle Palmer não o desejava, prevendo que se Knight se tornasse tão poderoso, dividiria o partido na decisão sobre a campanha para a presidência.
Palmer, unilateralmente, decidiu que Bill Knowland deveria concorrer para governador, e Knight para o senado, como uma estratégia Nixon-Palmer.
Convencer Goody Knight foi a parte suja do negócio, uma vez que ele já estava certo de ter o número de votos necessário para vencer largamente o pleito governamental. Palmer atuou por meio do tráfico de influências, de modo que todas as fontes de patrocínio da campanha de Goody Knight, por parte dos contribuintes milionários do Partido Republicano, foram cortadas. A cada vez que Knight reorganizava as forças, e contatava pessoas que pensava poderem obter fundos, recebia um telefonema de Kyle Palmer informando de uma fonte retirada.
Goody não tinha muito o que dizer, a palavra de ordem estava do outro lado da linha, com Palmer: “quando o telefonema acabava o governador da Califórnia estava abatido; ele deitava no sofá na posição fetal, uma pessoa alquebrada” (p. 374).
Buff Chandler, então, completava a operação. Após outros, como Ahmandson, que deviam parecer mais gentis na denegação de fundos para a campanha, tudo bem orquestrado, era agora ela em pessoa, do mais alto escalão, e, portanto, não habitualmente uma interlocutora, quem telefonava.
Quão maravilhoso seria, para Goody e Virginia, sua mulher, mudar para Washington. E o quanto o Times já havia feito por eles, no passado…
O resultado dessa orquestração foi porém desastroso para o partido. Tanto Knowland quanto Goody Knight perderam. Pat Brown tornara-se o segundo democrata governador da Califórnia, êxito que ele iria repetir logo depois, contra o próprio Nixon.
          Halberstam nota que concorrer para governador da Califórnia não foi algo que Nixon particularmente quisera. A campanha não foi bem conduzida. Mas nesse ínterim, a cisão dos Chandler com Palmer já havia ocorrido, e do mesmo modo a enorme decepção pela vitória de Kennedy. Buff, especialmente, sentiu-se, na noite da eleição, pessoalmente atingida. Como Nixon podia ter feito isso com eles?
O apoio do Times foi brutalmente denegado na campanha de Nixon contra Pat Brown. Esses acontecimentos sem dúvida vão se refletir na maneira como Nixon tratou a imprensa  ao vencer contra todas as expectativas, as eleições presidenciais, em 68. Não teria ele motivos para se mostrar ressentido?
Mas nesse ponto devíamos também conceder atenção a como a história das relações Nixon/imprensa foi contada pela ótica da “testemunha do poder” nixoniano, John Erlichman - ele mesmo agente de imprensa da Casa Branca, na qualidade de responsável pelos assuntos internos.
III) Marianne Means
Ehrlichman não parece preocupado em justificar as assumidas sabotagens contra os democratas. Os números dos telefones para quem Pat Brown deveria ligar conclamando a colaborar no corpo a corpo eleitoral, aquelas linhas que a equipe de Nixon ocupou como vimos acima, foram obtidos pela equipe com um empregado da companhia telefônica. Assim também, o lixo do escritório do oponente de Nixon para governador da Califórnia havia sido regularmente coletado por um amigo de Chotiner, colaborador da equipe de Nixon, de modo que Ehrlichman tinha acesso à agenda de Brown pelo exame dos rascunhos que este jogava no lixo salvo depois pelos lixeiros.
A família de Nixon, grande, tumultuosa, sempre reclamando de sua pouca atenção, especialmente um irmão problemático que tinha acentuada tendência para aproveitar-se da ligação com o presidente para obter acesso fácil a canais de crédito destinados contudo a negócios não muito lícitos, é assunto de um capítulo interessante de Ehrlichman sobre como o Serviço Secreto do governo norte-americano atuou na vida privada dessas pessoas.
A família foi habilmente produzida para encontros formais, que se não satisfizeram a ninguém, criaram uma imagem de harmonia bem irredutível à distância e conflito potencial que existiam na realidade.
Os embaraços que o irmão criou para Richard Nixon tornaram-se caso de apuração, mentiras desse irmão foram descobertas ainda que ele pensasse estar sendo convincente, negócios duvidosos dele ou ligações embaraçosas para o presidente foram afinal francamente proibidos pelo Serviço Secreto.
Nada disso transpira como algo que Ehrlichman pense ser necessário justificar, não há uma palavra sobre o sentido dos atos, tudo é apresentado como decorrência natural da máxima da política de Maquiavel pela qual os fins justificam os meios.  Eram os objetivos da administração Nixon o que importava, a tomada do poder pela equipe, o sentimento de estar fazendo o que devia ser feito. Independente de perspectivas pessoais, azeitar as engrenagens da máquina racional-burocrática, apenas permitir que funcionasse sozinha.
Também não há uma palavra de Ehrlichman no sentido de justificar a perpetuação da guerra do Vietnã, a dominação sobre o terceiro mundo. E o que ele pôde dizer de positivo a propósito do FBI limitou-se ao apoio deste à posição antipopular do governo Nixon, como repressor dos “black panthers” - mas recusando ocupar-se do crime organizado e negócio de drogas - conforme a ligação do governo com o diretor do FBI, Edgar J. Hoover, então com 74 anos.
Ligação cuidadosamente planejada por Haldeman, de modo a evitar o acesso direto de Hoover a Nixon, mas por outro lado fazer com que o FBI tivesse um canal privilegiado de acesso ao staff por meio de Ehrlichman. Hoover e Nixon mantinham, não obstante, relações amistosas, como exemplifica o jantar que Ehrlichman relata, na suntuosa casa de Hoover.
Como advogado, homem de letras, crente da “ciência cristã”, Ehrlichman esconde mal sua característica reserva frente ao aparato do poder policial. Sua perspectiva ao visitar Hoover na sede do FBI, ao inverso do que é habitual ao longo do livro, concentra-se na aparência: o corte de cabelo, o modo de vestir e se calçar, dos rapazes do saguão.
Hoover ocupa o centro, a sólida escrivaninha, numa sala cuja aparência semelha a Ehrlichman uma fortaleza. Erhlichman fica um tanto aquém de Hoover, que domina os fatos com profissionalismo. Ehrlichman não consegue mascarar sua incapacidade para entender os meandros do discurso e atos de Hoover. Ou talvez Ehrlichman tenha deliberadamente criado uma imagem de candura e de inocência, a juventude bem intencionada, pura ainda que ingênua, frente aos planos rebuscados dos mais velhos, comprometidos com o que a boa consciência poderia recusar. Porém Ehrlichman não enfrenta a questão Vietnã.
Inversamente, como se estivesse amparando a sua posição de vítima injustiçada, acredita que o FBI não tencionou de fato apoiar o presidente. Ele positivamente crê numa história sobre a amizade de Hoover com o sogro de Daniel Ellsberg, o que explicaria o fato deste ter podido se apoderar do documento secreto no Pentágono, um estudo requisitado por Macnamara a propósito do verdadeiro estado de coisas no Vietnã.
As coisas se tornam algo engraçadas, depois, com Hoover exemplificando as famosas hesitações de Nixon quando se tratava de demitir alguém importante, que houvesse obtido relações pessoais com ele. Uma vez tendo havido o jantar, e contra todas as expectativas, mais uma vez Nixon não consegue demitir Hoover, ainda que isso houvesse sido planejado. Haldeman admoesta Ehrlichman, ansioso por saber se a demissão acontecera: “Não pergunte. Ele [Nixon] não quer falar sobre isso. Não pergunte”. E Ehrlichman é instruído para não dizer nada a ninguém sobre as ligações Hoover-Nixon (p. 145).
Afinal Ehrlichman consegue completar a produção da imagem do FBI de Hoover como uma instituição à beira da total incompetência. Hoover comunicou diretamente a Nixon o que havia sido uma denúncia sobre ligações homossexuais entre Ehrlichman, Haldeman e D. Chapin. A história era completamente falsa, mas houve muitas investigações, e os envolvidos tiveram que provar onde estavam nas ocasiões em que, segundo a denúncia, participavam conjuntamente de orgias.
Ehrlichman comenta ter Murray Chotiner descoberto que a história havia sido “reportada” por um agente de Jack Anderson, agente que fazia a ligação da periferia com a imprensa de Washington.
Mas o capítulo da imprensa é uma exceção na sequência de capítulos característicos como esse, sequência destinada a corroborar, ao longo do livro, a versão de Ehrlichman como um anjo de candura. Ou talvez um homem perplexo devido à injustiça sofrida, em todo caso sempre podendo parecer algo desajustado para os outros, apenas por não ter a capacidade de prever a crueldade deles.
A imprensa não podia ser tratada de um modo automático. Do outro lado estava a interpretação, estreitamente interligada ao ânimo, à disposição das pessoas envolvidas, não apenas o direcionamento pré-estabelecido do “negócio”. O episódio envolvendo a jornalista Marianne Means tornou-se proverbial. Ehrlichman nunca se livrou, depois, de indagações a propósito. Ele parece convencido de que mostrou o lado verdadeiro dos fatos, e que todas as suas repetições posteriores apenas melhor o corroboram. Porém o leitor tem o direito de questionar a certeza em torno de que Ehrlichman constrói a sua perspectiva.
Ele começa por justificar o seu “direito absoluto” (“absolute right”, p. 253) - assim como o da CBS em designar quem quisesse para a Casa Branca - de ter sua própria opinião a propósito da competência da pessoa escolhida. Porém Ehrlichman não compreende o alcance do pronunciamento endereçado, além da mera escolha pessoal.
Pode ser que a peça tenha sido montada. Que não tenha sido por acaso que Dick Salant, o presidente da CBS, tenha aparecido durante o almoço de Ehrlichman com John Hart, no Plaza de Nova York em abril de 1971. Tendo Ehrlichman viajado de Washington na noite anterior, o que cria a versão de um Ehrlichman sonolento, algo atordoado, participando do programa de entrevistas de Hart na CBS, algo tão cansativo que o almoço ocorre em meio à gravação do programa. Salant, ao se unir a ambos no restaurante, introduz uma questão difícil, e Ehrlichman não percebe estar sendo apanhado na rede.
A questão é sobre Dan Rather, um remarcado crítico da política interna de Nixon na imprensa - nesse ponto, Ehrlichman se expressa em termos de ser Rather um crítico de “nossas iniciativas em assuntos internos” (“our domestic-policy initiatives”, p. 250, o grifo é meu). Uma forma de expressar sua identificação com o governo Nixon como um todo, o que Ehrlichman nem sempre mantem, bem inversamente, muitas vezes se colocando como uma peça adjacente num esquema não inteiramente dominável.
Ora, Salant quisera saber a opinião de Ehrlichman a propósito do pessoal da CBS que ele escolhera para cobrir a Casa Branca. A resposta de Ehrlichman foi que Don Rather, especificamente, era um preguiçoso, “lazy”, ou um mal intencionado, “biased”, ou seja, alguém “tendencioso”, com um viés já predisposto. A resposta viera tão ligeiro porque segundo Ehrlichman pelo menos uma versão totalmente errada de fatos relativos à política de Nixon estava circulando na imprensa, e, pior, ninguém tinha se dado ao trabalho de checar a história com o pessoal do Staff.
Em Junho, Marianne Means, que Ehrlichman apresenta como “uma colunista política de Washington” (“a sindycated Whashington political columnist, p. 251), reportou, “erroneamente” segundo ele, o seguinte. O “principal assistente de política-interna de Nixon” teria visitado Salant na CBS, para solicitar que este demitisse o veterano correspondente da TV na Casa Branca, porque “o presidente não gostara do modo como ele estava reportando as notícias”.
O “principal assistente de Nixon”, Ehrlichman, transcreve em seguida vários desmentidos que tiveram lugar na imprensa: O Times, o Post, e o próprio Star em que Marianne colaborava, publicaram notas dizendo que ele não havia solicitado a demissão de Rather. Porém à época do escândalo de Watergate a história da solicitada demissão de Rather retornou na imprensa, focalizando a versão do próprio Rather, como alguém preterido e eventualmente visado para exclusão pelo staff de Nixon.
A repetição da mesma questão por jornalistas sempre que se aproximavam de Ehrlichman, então em evidência como testemunha nos inquéritos e processos de Watergate, querendo saber se era verdade que ele tinha pedido a demissão de Dan Rather, tornou-se frequente. Ehrlichman repetia sempre a história inteira. O que não bastava para formar uma opinião consolidada a propósito.
Para o assistente do presidente, o caso é exemplar da hostilidade ou má-vontade da imprensa.
A meu ver, realmente não há como separar a acusação de ser mal intencionado ou preguiçoso, feita para um empregador, da intenção de que este demita o empregado. Tanto mais que se tratava de uma acusação visando o modo como se devia continuar procedendo na cobertura de nada menos que a Casa Branca. Eis o ponto que Ehrlichman jamais apreende. Para ele o episódio devia seu significado inteiramente a uma opinião pessoal. Porém segundo ele é fato que suas palavras não foram literalmente um pedido de que Rather fosse demitido.
Um outro episódio envolvendo a falta de tato na interpretação alheia ocorre na exposição de Ehrlichman, quando o governo Nixon reclama que os repórteres faziam perguntas infantis. A imprensa publica que para o governo Nixon, os jornalistas são infantis. Nada menos exato para Ehrlichman. A seu ver o governo jamais disse que os jornalistas são infantis, ao afirmar que as perguntas deles são infantis.
Ehrlichman não esconde revelações, porém, quando se trata do planejamento do Staff a propósito da imprensa. A filosofia do governo se expressava num slogan, “a imprensa é hostil” ( “the press is hostile” ), o que se explica porque Nixon havia logrado, por sobre a cabeça da mídia, alcançar diretamente o público. “A imprensa é hostil, e nós vamos continuar indo por sobre suas cabeças até o público” ( “The press is hostile, and we’ll continue to go over their heads to the public”), a palavra de Nixon para Ron Ziegler. (p.246)
De que resultou um estudo de Herb Klein e Ron Ziegler intitulado “Aqueles com quem podemos contar”, uma lista curta; e um outro intitulado “Aqueles com quem não podemos contar”, de duas páginas e meia. Eram nomes de jornalistas.
Richard Valeriane da NBC estava listado como “inamistoso”, tendendo à negatividade, devendo ser forçado ao positivo; Bob Pierpoint, da CBS, rotulado como “neutro”, porém demasiado emotivo; Cliff Evans, “amistoso”, um bom guia para questões importantes, porém, “deploravelmente com pouca audiência”. Bill Gill era “pouco inteligente”, e como Frank Reynolds, não muito confiável, mas por vezes aproveitáveis. O pior era Sander Vancour: “você o conhece...” (p. 247). Arrolado como o mais “vingativo”. Vancour havia sido amigo pessoal de Kennedy.
A intenção da presente pesquisa corresponde ao desenvolvimento da questão: o que implica tal atitude, além da constatação óbvia de uma crise institucional? Havia realmente um plano do governo Nixon para controle total da informação, que incluiria domínio sobre a mídia mas também sobre as organizações políticas? Como “uma campanha de alto escalão visando sabotagem e espionagem num grau aparentemente inédito na história da América”, como anunciou Cronkite no primeiro documentário da CBS, de quatorze minutos, sobre Watergate?
E de que modo podemos situar a ação da própria mídia, se existiu algo que pode ser unificado nesse sentido, como, inversamente, o que o governo Nixon estava confrontando, independente de Watergate?
Ehrlichman, após os anos de prisão, continuou por algum tempo “on parole”, sob vigilância oficial. O responsável por ele ficou sendo Norman Mugleston. Ehrlichman logo se empregou na Mutual Broadcasting System, que o convidou para uma série de pronunciamentos no rádio objetivando atrair o máximo da atenção da imprensa, em 1978. Mugleston o chamou, porém, uma vez, para prestar esclarecimentos. Ele parecia bastante preocupado acerca da mais recente conferência de Ehrlichman à imprensa, e perante um Ehrlichman perplexo, para quem, ao contrário do que Mugleston dizia, não havia ocorrido nada de polêmico, explicou que a Parole Comission estava decidindo se a permissão para viajar envolvia permissão para conduta que poderia levar a processos legais. Dan Rather reclamara de Ehrlichman à Parole Comission de Washington, acusando-o de circular falsas acusações contra ele.
Erhlichman realmente havia se pronunciado sobre Rather, mas devido às perguntas que a imprensa não parava de lhe fazer sobre isso, ele mantendo que não havia solicitado demissão de Rather a Salant, e até relatando que um dos repórteres afinal lhe disseram que era da CBS Televisão, e que tendo trabalhado para Rather por anos, realmente o considerava preguiçoso.
Ainda assim, a questão para Mugleston era se o pronunciamento podia ou não ser considerado contencioso, uma vez que a Comissão - e o chefe de Mugleton - deviam responder à reclamação de Rather. Ehrlichman reagiu energicamente, indagando a Mugleton se isso significava calá-lo coercitivamente, subtraindo sua liberdade de expressão. Mugleton garantiu não estar pretendendo injuriar Ehrlichman, mas também assim considerava não ser o caso do próprio Rather.
O inquério da Parole Comission não prosseguiu, devido à veemência de Ehrlichman, declarando a Mugleton, como sua resposta à Comissão ou a Rather, que não iria mudar sua conduta a não ser que seu advogado ordenasse de outro modo.
Ehrlichman relata ainda que um ano depois encontrou-se com Tom Brokaw, o concorrente, da NBC, de Rather da CBS. Brokaw contou a Ehrlichman que havia sido convidado para o lugar de Rather na CBS. Ehrlichman reflete assim que seu pronunciamento a Salant, em 1971, pode ter salvo o emprego de Rather por todos aqueles anos, uma vez que a CBS talvez não o tivesse demitido então apenas para não ser acusada de estar agindo sob o impacto da crítica da Casa Branca.
IV) Missy Chandler
A esposa de Otis, filho de Buff e Norman Chandler, Missy Chandler, o esperado ponto de mutação, o marco a partir de que o Los Angeles Times devia resplandecer como o signo do novo.
Porém Mrs. Otis Chandler não se tornou a filha querida de Buff, esta a artífice da transformação histórica. Halberstam a apresenta como alguém “de quem Buff não gostava” (p. 377).
Buff havia se tornado neurótica a propósito de qualquer dúvida sobre seu status de mais importante dama da cidade de Los Angeles. Não poderia alguém atrever-se a não convidá-la para um jantar considerado importante, e ao convidá-la era imperioso fazê-la sentar no lugar principal. Assim, ficaria furiosa se, por engano, um colunista social reportasse que num jantar em homenagem a Ronald Reagan, Missy Chandler sentara-se ao lado do governador, não, a reportagem teria que ser corrigida, havia sido a Sra. Norman Chandler quem se sentara ao lado do governador. (p. 375, 376)
A essa altura, Buff estava sendo chamada pelos amigos a “Rainha Vitória”, enquanto os menos sinceramente afetuosos, como uma irmã de Norman já obrigada a tratá-la cortesmente, a designava “Senhora Rainha”. Missy confidenciava aos amigos ter compreendido, desde que Otis a escolhera por esposa, que não haveria alternativa, iria ser uma vida com pouquíssima liberdade de opção pessoal, devotada às obrigações familiares há muito prescritas. (p. 410) Na verdade, como responsável pelos negocios da família, Ottis nem mesmo podia escolher o candidato que o jornal apoiaria nas eleições, mas apenas seguir a orientação consolidada. Ele não pensava em Nixon senão como uma opção dos pais, não de si mesmo, e havia pessoalmente simpatizado com Hubert Humphrey. Por temperamento, Otis criara uma espécie de vácuo político em torno de si, inversamente à tendência dirigista do avô e do pai, mas, mesmo assim, Missy chamou sua atenção para a necessidade de decisão a propósito, e ele declarou seu apoio a Nixon, em 1968, mais uma vez cedendo à obrigação inerente à responsabilidade do cargo na condução do Times.
Como casal, Otis e Missy passaram a ser convidados para ocasiões sociais importantes, em lugar dos pais, quando Buff já estava com idade considerável, mas a princípio a elite do jornalismo preferia tratar de negócios com Norman e Buff, mesmo com Otis já encarregado do jornal, porque não se sentia à vontade com ele e Missy, considerados ainda muito jovens.
Os pais ditaram praticamente toda a carreira de Otis como publicista (“Publisher”, o termo inglês na acepção de “proprietário de jornal” diferente do sentido histórico na língua portuguesa como meramente alguém que publica artigos escritos por si mesmo). Ele não fez realmente suas próprias escolhas além do parâmetro puramente administrativo.
Se existiram crises, elas foram sempre devidas a ocasiões em que o Times refletiu alguma opção política dele mesmo, coerente com o que ele sentia ou pensava sobre si como pessoa e como cidadão, isso significando que todas as opções divergentes foram depois revogadas, o jornal voltando ao Partido Republicano, e, consequentemente, entre 67 e 73, a Nixon.
Mesmo o que se poderia considerar algo como uma linha puramente administrativa, ela foi constantemente posta em cheque quando refletisse na contratação de um bom profissional. Como Frank McCulloch, que viera do Time magazine, ou o humorista Conrad.
A contratação imediata de Frank Haven, conservador representando a perspectiva tradicionalista californiana, anulou a iniciativa de Otis em “lestizar” o jornal a partir de McCulloch, e mesmo assim algum tempo depois McCulloch retornou ao Time magazine de New York, traumatizado com o período no Times dos Chandlers em Los Angeles. Conrad foi útil a Buff e Otis numa crise, quando eles haviam apoiado um candidato minoritário na convenção do Partido. Mas progressivamente, à medida que a impossibilidade de romper com o partido Republicano precipitou a volta do patrocínio a Nixon, consolidou-se como estorvo no jornal. Sendo porém demasiado importante, Conrad não foi mandado embora, e sim reservadas as suas charges para a seção expressamente dedicada à palavra dos outros, destoante da linha do jornal.
Ainda assim, parece-me afirmável que Halberstam acreditou na trajetória linear do antigo ao novo. Otis era o ideal-tipo dos anos sessenta, tão profunda, tão óbvia e dicotomicamente oponível aos tempos do passado. Otis se sentia, se via a si mesmo, como o jovem dos sixties alinhado numa tríade: “o negro, o jovem, o pobre”. Ainda que seus atos não o pudessem refletir, ainda que ele não fosse precisamente nenhuma dessas três coisas, ele era tudo isso, para si mesmo.
Desde os anos oitenta, e como algo que hoje podemos designar “pós-moderno”, não temos razões para crer que a tríade seja algo real, que algum bloco unívoco da condição marginalizada possa ser composto como algo além de mera fantasia, mascarando os fatos e impossibilitando conhece-los, ou que a mera designação de ser jovem pudesse compatibilizar-se com a marginalidade da situação do pobre e do negro mesmo quando o ativismo estava no auge e muitos jovens tenham participado.
Halberstam crê portanto numa falácia convenientemente explorada pela mídia até hoje, mas hoje à contrapelo da pós-modernidade, ao escrever sobre Frank Haven como “um homem cujos costumes e atitudes sócio-culturais, humanas assim como jornalísticas, haviam sido formadas em outro tempo.” (p. 557). Inversamente a uma visão limitada a acontecimentos cobertos até 1979, estamos conscientizados sobre que Watergate não significou o fim do domínio imperialista, que forçosamente havia jovens alinhados em ambos os lados do espectro político.
Obama protagonizou decisões liberais em matéria de direitos civis, como a liberação do uso da maconha e o casamento homossexual, porém o imperialismo continua mais feroz do que nunca, pois nunca houve uma dominação direta sobre a escrita e a consciência como a que está se impondo com a microsoft, num país como o nosso: num quadro político de tamanho conservantismo, tão interligado à desnacionalização total da economia que os fatos chegam ao absurdo. O imperialismo da microsoft, como monopolismo info-midiático contra a privacidade e o letramento, no Brasil foi consolidado principalmente na época do governo Obama e do “pt”.
Como hoje podemos avaliar, a trajetória linear da “modernização” ao longo do século XX e culminando nos sixties, de que Halberstam não parece seriamente suspeitar de modo que Otis e o Los Angeles Times seriam exemplares, era uma fantasia em si mesma. Não apenas por um fator de circunstância, a fortuna dos Chandler impelindo a decisões conservantistas, o que poderia apenas exemplificar a clássica tese marxista dos capitalistas cegos, rumando tenazmente para a própria destruição. O capitalismo, “dialeticamente” ponte para o novo, criando o novo, porém obstáculo, necessariamente devendo vir a ser ultrapassado pelo novo.
Os acontecimentos, dos anos oitenta até hoje, sinalizam para algo mais do que circunstância, e ao invés de uma reta nós vemos um círculo. Ao invés da racionalidade da empresa capitalista, que como em Marx supera suprimindo a irracionalidade colonialista, o banditismo imperialista que apenas o reedita. De fato, Halberstam não inter-relaciona o que ele destaca como as atrocidades do Vietnã, com um planejamento cuidadoso dos USA como “complexo militar industrial” direcionado para a dominação do terceiro mundo, o que é algo objetivamente demonstrado, especialmente de Eisenhower em diante, em Cl. Julien (“L’empire americaine”).
Ele vê as atrocidades no Vietnã como algo sem sentido, assim como supõe que foram recebidas pelo público as imagens dos soldados norte-americanos pondo fogo em aldeias civis - imagens cuja transmissão custaram caro à CBS, e assim como para algumas das crises no Times, não refletem o espírito dos proprietários, mas intervenções forçadas de profissionais de mercado que haviam se tornado irrecusáveis. O que agora não vemos, porém, como uma lógica implacável da modernização linear, ínsita ao mercado, e sim como algo que foi plenamente dominado subsequentemente pela administração ligada ao espírito dos pioneiros proprietários.
Independente dos acontecimentos, a contradição não-dialética era contudo manifesta. Algo atuando poderosamente num presente histórico, determinando os fatos, mas sendo invariavelmente etiquetada como o outro tempo, o passado, o que não tinha vigência atual.
O que impossibilitava que pessoas do mais alto nível intelectual, como David Halberstam, a compreendessem, de modo que eles mesmos caíam nela? A meu ver o mito do progresso, como o mito da razão, responde adequadamente, sendo porém esse mito o da trajetória do Ocidente colonialista.
Oponentes do “pós-modernismo” como Eagleton, o odeiam porque precisamente ele é a recusa desse discurso da razão moderno-ocidental, assim como de toda totalização identitária indemonstrável na realidade, vista agora como algo não racional, mero mito, contudo construído por meios próprios, modernos, até a mídia ela mesma - e só ela mesma desde os anos oitenta, uma vez que além de intelectuais cegos como Jameson e Egleton, cegos tanto para os acontecimentos quanto para as mudanças no plano dos conhecimentos histórico-antropológicos, ninguém continua acreditando.
Mas tais oponentes nem mesmo conseguiram identificar o que estão assim tão sensacionalisticamente recriminando, e definiram “pós-modernismo” por teorias que do mesmo modo o recusavam, como o pós-estruturalismo, ou o definem por artistas dos sixties como Andy Warhol, que na verdade são “pop”, não necessariamente assumidos como “pós”. Não significa que teóricos como Linda Hutcheon, que recusam a arte dos sixties como pós-moderna, mas aceitam o pós-estruturalismo francês como tal, permaneçam referenciais consoantes com a atualidade, uma vez que o pós-modernismo para Hutcheon é um fenômeno apenas da “cultura ocidental”.
Examinando a ação ilegal no Irã, do general Norman Shwartzkopf, agente da CIA na época de Eisenhower quando o diretor da Cia era Allen Dulles, vemos como o Saturday Evening Post construiu o mito: “A deposição de Mossadegh foi feita pelos iranianos eles mesmos”. A citação é de Julien (p. 408). Porém, como Julien cobriu, foi a ação de Schwartzkopf que deliberadamente produziu o que o Saturday Evening Post apresentou como um cortejo grotesco de saltimbancos iranianos que atraiu uma multidão. Ajuntamento engrossado logo depois pelas forças armadas, leais ao Xá, para investir “conforme a estratégia e a logística de estilo americano” contra os grupos leais a Mossadegh, derrubando-os e capturando o próprio Mossadegh após nove horas de conflito. Eisenhawer, cujas memórias são utilizadas por Julien, não estava inocente nessa história. Mosssadegh, então o primeiro ministro iraniano, foi um dos políticos mais votados da história.
De fato, o conflito foi desencadeado porque Mossadegh, apoiado em referendo popular por quase a unanimidade dos iranianos, havia nacionalizado o petróleo, expulsando a companhia inglesa que monopolizava o negócio local. Porém essa companhia estava unida aos interesses do Xá, que solicitou ajuda aos USA.
Eisenhower apoiou o plano estadunidense pelo qual o petróleo iraniano seria novamente desnacionalizado, mas desta vez não para monopólio inglês, e sim para monopólio da ARAMCO, grupo de multinacionais petroleiras norte-americanas que não obstante concederiam porcentagem de exploração aos ingleses, assim como à Royal Dutch Shell e à Companhia Francesa de Petróleo. Fundos milionários fornecidos pela ARAMCO foram distribuídos pela CIA aos adversários de Mossadegh, de modo que alguns iranianos se tornaram ricos da noite para o dia, enquanto Mossadegh perdia partidários pelo mesmo motivo do suborno. A CIA instalou, consoante indicação do Xá, Zahedi como primeiro-ministro após a deposição de Mossadegh. Zahedi era conhecido de Schwartzkopf dos tempos da segunda guerra. Quem era Zahedi?
Fitzroy Mac Lean é quem o registrou em suas memórias, tendo sido Mac Lean encarregado de o prender como traidor dos “aliados” na segunda guerra.
Ardashir Zahedi, conhecido por negociatas, atuara como líder de duas tribos iranianas (Kachgais e Bakthtiares), que tinham posição regional estratégica, porém pró-nazistas. Ao articular um levante nazista na então Pérsia contra os aliados, Zahedi se tornou alvo da operação de Mac Lean, agente dos aliados, que logrou prendê-lo. Na casa de Zahedi, foram apreendidas armas alemãs, ópio, arquivos de prostitutas de Ispahan, outros documentos importantes.
Norman Shwartzkopf sabia disso indubitavelmente, pois ele estava no Irã na época da guerra: “A CIA sabia pois perfeitamente com quem estava lidando”, escreve Julien (p. 411). Zahedi havia sido nomeado ilegalmente pelo Xá para substituir Mossadegh, na ocasião em que este nacionalizou o petróleo iraniano, em 1953. Mossadegh encarcerou Zahedi, não aceitando a imposição ilegal, o que desencadeou a ação da CIA com anuência de Eisenhower.
Um nazista que havia sido inimigo dos aliados, foi, portanto, instalado pelos USA como governante de um país do terceiro mundo após a segunda guerra mundial. As ditaduras militares que se seguiram durante os sixties na América Latina, do mesmo modo articuladas pela CIA, foram tão sangrentas, operaram por meios de tortura e eliminação tão bárbaros durante duas décadas, atingindo tão grande número de pessoas que se pode arrolar genocídio, como o regime de Zahedi no Irã.
Mas o que permitiria supor o artigo do Saturday Evening Post? Que são os próprios não-ocidentais os arcaicos. Os manuais de história não registram a operação da CIA. Na citação de Julien, o Monde escreveu, sobre o Sul de Teerã, de onde partiu o grupelho armado pela CIA: “O sul de Teerã é formado por uma favela aflitiva. A metade da população se comprime lá, em dédalos de casebres pútridos onde reinam como barões a miséria, a doença, a droga e o vício” (p. 407). O Monde cobriu as duas versões dos acontecimentos. A multidão compareceu, “prova que a revolução é obra do povo, proclamam os partidários do regime. Erro profundo, ripostam os fiéis de Mossadegh”. Estes argumentando que é de favelados miserabilizados assim que se tiram os mercenários “de todos os tempos”- opinião obviamente irredutível a preconceito.
E por que os direitos civis seriam algo novo, ao invés daquilo que associamos o mais intimamente com a humanidade? Ao contrário do que Eagleton ainda pretendeu afirmar, não há uma dicotomia, entre a barbárie primitiva e o civilizado sujeito da evolução social, de modo que o ocidente é imperialista mas com a dominação traz o direito constituído. O ocidente é o agente da barbárie local contra a organização da democracia representativa local, e teóricos políticos ingleses o sabem desde o século XIX, argumentando que o gentleman inglês só está protegido de ser um bárbaro enquanto não é nomeado para administrar colônias.
Ao invés da tese ocidentalista, nossos conhecimentos atuais permitem afirmar que há processos históricos localizados, e não uma história universal da civilização, alguns desses processos protagonizando a democracia, bem mais antiga do que a Grécia. O império também não é alguma novidade, o capitalismo, portanto, muito menos, mas os impérios não são a verdade da história, os processos localizados permitem observar que neles também há conflito social, as pessoas prejudicadas em seus direitos não são passivas apenas porque não leram Karl Marx.
A contradição que Halberstam roça, mas nunca de fato esclarece, Daniel Ellsberg denunciava tendo por alvo toda a incorporação militar-industrial norte-americana. Em entrevista a Paulo Francis na seleção de artigos já citada, Ellsberg declinou da pecha de pessimista, afirmando-se apenas conhecedor da realidade. Reconheceu que a opinião anti-guerra contribuiu para a derrota dos USA no Vietnã, porém, a seu ver, se os liberais impediram assim que Nixon transformasse os USA numa ditadura, “tudo isso é admirável até que se pense na lerdeza em reagir, os milhões de vietnamitas e milhares de americanos mortos e feridos numa guerra inteiramente desnecessária, ou a tentativa de Gerald Ford e de Henry Kissinger de repetir em Angola a experiência do Vietnã, porque, tendo a conivência dos liberais, conseguiram convencer a opinião pública de que o Vietnã era uma guerra pessoal de Kennedy, Johnson e Nixon, e Watergate, criação diabólica exclusiva de Nixon” (op. cit. p. 111).
Ellsberg conta as bênçãos da contribuição liberal e das massas onde elas foram anti-guerra ou desmontaram dispositivos de dominação nos USA, porém crê ser muito pouco, pois o apoio norte-america em Angola, apoiando o colonialismo português, se não teve as mesmas consequências, foi de fato arquitetado como uma repetição do Vietnã. Por que Ellsberg menospreza tanto a minoração das consequências, devido aos vetos do Congresso, não obstante sublinhar que os USA foram pró-aparheid sul-africano? Creio que devido justamente ao que ele observou como necessidade de romper o consenso progressista.
Sua declaração em manchete, destacada por Francis, ecoa: “São todos iguais: Carter, Ford e Reagan. Para eles, Vietnã e Watergate não existiram”. Ele poderia também ter citado Kennedy, não só pela invasão da Baía dos Porcos. Conforme Dreifuss (“1964: poder e golpe de classe”), que cobriu o planejamento do golpe militar no Brasil por ação secreta semelhante à do Irã, as ações se iniciaram aqui três anos antes do golpe, o que implica o governo Kennedy, não só o sucessor, Lyndon Johnson, presidente em 1964.
Ellsberg como gênio, integrara a Rand Corporation, think tank que ele desertou depois, denunciando-a a Francis: “cuja função é planejar o método de controle tecnocrático do mundo para o império americano” (p. 112).
Ellsberg permite confrontar intelectuais como Richard Rorty. Se houve uma geração que acreditou nos USA como paladino anti-estalinista, e em Stalin como o horror ditatorial, seria impossível continuar se justificando por acreditar nisso a ponto de apoiar o senador Joseph Mcarthy na perseguição “anticomunista”, ou após o que se conhece sobre o imperialismo.
Especialmente sobre Jimmy Carter, o candidato do partido democrata pelos direitos humanos, Ellsberg considerava: “A campanha dele, se não se tratasse de algo tão sério, mereceria um lugar entre as comédias de televisão” (p. 112). Ellsberg invectiva. Carter propagava nada ter a ver com o Vietnã, e o povo tinha a consciência absolvida ao votar nele. Porém o povo apoiou a guerra até 1968, e depois reelegeu Nixon em 1972, porque ele prometera paz com honra: “Que honra, santo Deus? Que honra pode haver em termos devastado metade da Indochina, tornando-a impraticável para a agricultura, em termos assassinado milhões, prostituído mulheres em benefício de nossos soldados, em termos sustentado uma fileira de ditadores sangrentos, traficantes de drogas e cafetões?”
A questão nesse meu estudo, não é fazer coro à criminalização da droga, porém mostrar que é aos USA que muito se deve a legislação desastrosa que cria bolsões de banditismo onde não há muita esperança para tantos que integram as suas fileiras. Especialmente no final dos anos noventa, a política dos USA foi de terrorismo contra o usuário de drogas no Brasil, muito dirigido pela mídia. O resultado que ainda hoje é calamitoso, foi o mega-favelamento com banditismo generalizado, à beira de guerra civil sem ideologia política. No final dos anos noventa, a dita campanha, que aliás foi muito relacionada ao mito do capital italiano como redentor do incivilizado brasileiro, representa uma linguagem de mídia tão escandalosamente fascista como a que seria adequada para amparar o neoliberalismo econômico que então se implementava com o governo FHC. Além de ter propagado por toda parte, até nos cadernos à venda nas papelarias, a mensagem “drogas nem morto”, sob uma mão cortada por uma linha vermelha, havia propagandas nojentas como a do rosto de um menino, mostrado parado o tempo todo, enquanto se ouvia um som igualmente constante de descarga de banheiro sendo acionada, e a “história” das repetências escolares dele assim como do seu uso de maconha - narrada por uma voz de homem profundamente cavernosa, estereótipo do padre de igreja medieval.
Mas assim como a propaganda golpista da CIA em 1964, da modernização tecnoburocrática, logo resultou na realidade de um passadismo latifundiário coerente com os interesses do imperialismo no monopólio do mercado consumidor, essa propaganda de generosamente pagas intervenções contra as drogas resultou no contrário. A instalação do poder paralelo do ilegalismo na cidade, que perdura até agora.
De fato muita gente concordava com Ellsberg já nos anos oitenta. O governo Carter terminou na crise iraniana. Os aiatolás, líderes religiosos, fizeram a revolução que acabou com o regime de dominação imperialista no Irã, sem restaurar a democracia representativa, e inversamente inaugurando o retorno de regimes do fundamentalismo religioso típicos da era ante-moderna. Reagan, logo depois, se tornou presidente, implementando o neoliberalismo econômico, desmantelando o Estado de bem-estar social. A presidência Regan significou sinal verde para carteis multinacionais - e a radicalização da dominação sobre o terceiro mundo tem resultado numa paranoia neofascista mundial.
The Powers that be” mostra Reagan sendo apoiado em 1966 pelo Los Angeles Times, porém não pela preferência de Buff e Noman, apenas por lealdade aos republicanos. Que Reagan não era figura importante ao ver de Halberstam se nota por ter este registrado que Otis, aquela altura, podia não atender chamadas de Nancy Reagan reclamando das alfinetadas de Conrad na figura do marido - tantas ligações interrompendo o café da manhã que Otis afinal se recusava a ouvir. Ainda assim, foi por isso que Con ficou reservado à “op-ed page”. Após um editorial assinado por Otis com uma nota informando que somente o seu editorial refletia a política do jornal (p. 783).
Missy não se tornou uma personagem decisiva, nem mesmo Otis, numa trajetória linear em que haveria sentido no conceito de transição, e Buff sendo a protagonista da transição. O círculo do poder se expressa até mesmo na escolha dos nomes de família, Otis, o bisneto, mesmo nome de Otis, o bisavô, Norman, pai de Otis o bisneto, mesmo nome do trineto Norman, filho de Otis. Porém Halbestam, que continua uma fonte importante na história da mídia do século XX, não está de todo errado quanto ao sentido de mudanças no interior da dinastia Chandler. Se o exame dessa trajetória não pode ser ignorado, contudo, é porque ela explica a construção de um império financeiro, não só porque Buff e Norman, afinal, quiseram ser agentes de uma mutação.
Realmente, sob as ordens de Buff e Norman o Los Angeles Times alterou a política habitual desde Palmer, que consistia em não conceder qualquer cobertura ao candidato oposto ao escolhido pelo jornal, especialmente em ocasiões de campanha eleitoral. Além, naturalmente, das histórias falsas, calúnias e estigmatização da imagem do inimigo, por meio de artigos ou demais recursos da mídia.
A carreira de Nixon, segundo Halberstam, se iniciou justamente porque Palmer, à cabeça de um grupo californiano que vendia propaganda de jovens candidatos ao congresso, viu nele o candidato ideal para o tipo de propaganda que tencionava circular (p. 360/1).
Há uma controvérsia a propósito de se Nixon foi primeiro escolhido pelo grupo, que o levou a Palmer, ou se foi Palmer quem primeiro escolheu Nixon, de modo que o grupo era mero reflexo de Palmer. Para Halberstam, provavelmente a segunda opção é o caso. Em todo caso Jerry Voorhis foi a vítima, como potencial adversário de Nixon no congresso, mas principalmente como congressista não colocado por Palmer - uma vez que a campanha de Palmer contra ele começou em 1946, pouco antes da vinda de Nixon. “A campanha foi cuidadosamente orquestrada, e não havia dúvida entre os que estavam em Washington que sabiam como funcionava a política de cobertura do Los Angeles Times, sobre quem a estava patrocinando” (p. 362). Como Voorhis logo compreendeu, não havia como protestar contra os constantes ataques do Times. “Os ataques podiam ser impressos, mas nenhuma resposta podia ser dada. O Times simplesmente dominava o distrito”. Buff e Norman não prosseguiram essa política. Kennedy teve cobertura assim como Nixon (p. 402), Pat Brown foi o primeiro democrata coberto pelos repórteres do Times, e com igual tempo que o candidato republicano (p. 385).
Porém o prévio esquema do poder do kingmaker só pôde existir à época de Palmer devido ao poderio do capital ligado ao Times, o qual havia sido obtido de modos bastante desonestos ou ao menos de modo algum altruístas ou sequer equitativos. Com relação a isso, Halberstam permite supor que Buff e Norman não foram deliberadamente rapaces, não há registro de abusos flagrantes além das manobras que envolveram a tomada da direção.
O episódio da Birtch society que vimos acima, quando um grupo de conservantistas passou a inundar as redações com cartas violentas contra toda medida nova corrente na época, então associada à “conspiração da tirania comunista” como o próprio Otis Chandler afirmou ainda que não para apoiar um radicalismo que se voltava contra pessoas como Roosevelt (p. 417), foi um reflexo tanto do esquema que havia antes, quanto do ressentimento do ramo preterido da família.
Philip Chambler tinha cinquenta e um anos, a mesma idade de Harry Truman quando pela primeira vez se tornou senador. Mas por causa da idade, Philip foi habilmente afastado por Norman, seu irmão mais velho, da direção da empresa, argumentando este que Otis Chandler tinha na época trinta e dois anos, e assim devia ser considerado adequadamente jovem para o pesado encargo de administração dos negócios e do jornal.
Philip teria dado continuidade ao modo de operar de Kyle Palmer e Harry Chandler, e se opunha à mudança nesse sentido. Assim como a esposa, Alberta, ele foi organizador da Birtch, e Norman obteve satisfação pessoal na reação contra a iniciativa, apoiando o editorial condenatório assinado por Otis. Porém a reação foi o cancelamento de 15.000 assinaturas, não apenas o esperado da oposição como um número aproximado a trinta assinaturas. O Times assumia, porém, o editorial, e a reação a ele eram o marco do novo e a estreia de Otis, a evidência da ruptura relativamente aos slogans brutais do passado, “que haviam sido Stand Fast. Stand Firm. Stand Sure. Stand True”, a ruptura para com “a filosofia suja” que os predecessores “haviam seguido até morrer”, e o editorial de Otis era “um sinal da vinda de um jornal novo e diferente.” (p. 418)
Porém, tamanha reação foi também um sinal para Otis de que era preciso ser prudente, consciente das pressões herdadas do passado, contra as quais o pai o havia protegido. Uma percepção que se repetiu depois, quando Buff interpretara a opção, a seu ver odiosa, de Goldwater ao invés de Nelson Rockefeller, como candidato pelo partido republicano. Na ocasião Buff arrependeu-se de não ter sido muito mais tendenciosa no apoio do Times a Rockefeller, e sua ira eclodiu como reação a algo que ela sentiu não apenas devido a Rockefeller, mas como “triunfo dos bárbaros”, aquelas pessoas mesmas, “the Califórnia know -nothing right”, que contra ela lutariam a vida inteira, a parte preterida da dinastia. Ao contrário de Norman, cuja decisão havia sido apenas apoiar a escolha do partido.
Buff violou nessa ocasião toda a estrutura do Times, sustando o editorial que festejava a convenção, substituindo-o por um libelo que ela escreveu como uma áspera crítica contra o partido, fazendo com que os empregados encarregados quase não acreditassem nas ordens recebidas. Conrad foi utilizado, segundo Halberstam produzindo uma de suas melhores charges, um cartoon da convenção dos Republicanos mostrando os participantes como internos de um asilo. A dinastia se amotinou, numa das mais séries crises da história dos Chandler. Contudo não obtiveram a  evogação da liderança de Otis. Mas não há dúvida de que o episódio o atingira, como consciência das pressões que o pai até então mantivera à distância, consciência dos limites da liberdade de que gozava. Com esses limites, Otis descobrira que “nada era sem preço - e quanto melhor a coisa, mais alto o preço.” (p. 555).
Na verdade, não foi Norman, e sim Buff, quem arquitetara a posse de Otis, contra do mesmo modo que qualquer direito do tio, a vigência plena das forças do próprio Norman, então já estabilizado na direção dos negócios. Buff não perdeu tempo, não permitindo que Norman continuasse, pressionando para que ele instalasse Otis, e segundo Halberstam pode ser que ela tenha raciocinado que se a sucessão fosse feita enquanto Norman era ainda vigoroso, este podia caucioná-la contra possíveis reações da família. Em todo caso, ela pressionou fortemente. Norman não estava a princípio disposto a ceder, mas gradualmente ela o convencera. Porém não para conceder real liberdade ao filho, o novo administrador. Ela, mais do que Norman ainda que agindo sempre à sombra deste, concentrou a verdadeira decisão em suas mãos, não permitindo que Otis agisse sozinho.
Ainda na ativa, Kyle Palmer chegou a indagar a ela, diretamente, se iria cercear sua liberdade de expressão, se ele devia submeter-se à aprovação dela. Buff Chandler respondeu que não: “você escreve como quiser” (you write it just the way you want”) (p. 174). Palmer não causou muito transtorno à política de ruptura de Buff, estratégica à sua própria reação contra o horrível boicote que sofrera inicialmente por parte da dinastia. Uma vez que Kyle Palmer logo contraíra leucemia, nem tendo sido de fato assistido pelo jornal, tornando-se nos últimos tempos dependente de um amigo.
A política da época anterior não foi selvagem apenas quanto ao lema de destruição total do inimigo a partir da linha editorial e seleção do que mostrar e do que omitir. Foi também uma escalada do poder, entre o patriarca Otis e Harry Chandler, respectivamente o fundador da dinastia e seu genro.

Otis era um homem colérico, que agia sob o impulso do ódio, visando inimigos que eram, muitas vezes, não limitados aos pobres trabalhadores das “labour unions” ou aos membros do partido democrata, que ele tanto perseguia e pessoalmente detestava, mas outros barões do capital como ele mesmo, os concorrentes.
Harry, inversamente, protagonizou a cartelização dos negócios, a cooptação dos concorrentes: “havia uma fatia para todos, todos os que importavam. A marca-registrada de um negócio de Harry Chandler era uma clique de alguns dos mais poderosos homens ricos...”, barões de terras ou negociantes, milionários ligados aos maiores bancos, um advogado, um político, um juiz, alguns escrivães e uns poucos menos abastados, “abaixo na escada” social(p. 163). Lembrando que uma “clique’ é termo sociológico para uma gang dentro da sociedade realmente estabelecida - assim a própria Birtch, anos mais tarde, é o sintoma de uma clique, não uma “sociedade” real, independente do nome.
Há muitos negócios de Harry Chandler, a quem a história da cidade de Los Angeles está intimamente relacionada, investimentos em terras, óleo, navegação, pecuária, construção, pneus de borracha. Ele criou novas seções na cidade, como Hollywood, ajudando a trazer o cinema para a Califórnia, o qual desde esse início foi utilizado para fins de dirigismo político.
De fato, dado que como vimos o Los Angeles Times a essa altura não era uma instituição do partido, era o próprio partido, o Times nomeava os candidatos, e o dirigente do partido nada tinha a ver com isso. Assim, porém, o Times garantia a barbárie contra o inimigo e a eleição do escolhido.
O movimento radical de Upton Sinclair contra o republicano Frank Merrian foi totalmente abortado a partir de Hollywood, então utilizado por Kyle Palmer como veículo de propaganda (p. 168).
Em todos os cinemas da cidade houve séries de falsos documentários, incessantemente mostrados, objetivando derrotar Sinclair por ser socialista. Não eram apresentados como propaganda política, mas como se fossem informação real. Num deles, uma multidão de mendigos esperava na divisa do Estado da Califórnia para inundar o outro lado, como uma onda, caso Sinclair fosse eleito. Havia aquele em que uma dona de casa, de meia-idade, dizia estar votando em Merrian. O entrevistador lhe perguntava por que. Ela respondia que era para conservar sua pequena casa, o seu único bem neste mundo. E um russo folclórico, com uma longa barba, vestido de modo marcadamente estrangeiro, inversamente, informando que iria votar em Sinclair. “Por que”? Ao que o russo esponde com forte sotaque: “ bfem, o sistema dele voncionou bfem na Roosia, pórqui não voncionaria bfem aqui?”
 Harry Chandler também participou da ida da indústria da aviação para a California, arregimentando o capital necessário. Com os amigos, impediu projetos de ampliação satisfatória dos transportes públicos, devido aos seus interesses na indústria automobilística, na venda de carros, gasolina e pneus. Para beneficiar-se enormemente num negócio envolvendo compra e venda de terras, impediu, graças a esses amigos, dois projetos civis, um visando a irrigação de Los Angeles a partir de uma cidade próxima, o outro que desenvolveria essa cidadezinha devido a ser possuidora de água. Maurice Dobb (“A evolução do capitalismo”) registrou que a prática do capitalismo sórdido, constando de todo tipo de negócio sujo e perseguição de pessoas, foi típica dos Estados Unidos na época do gangsterismo. O caráter absurdo da ilegalidade com que se marginaliza o comércio de drogas, ao contrário do comércio do álcool, se pode notar por uma comparação com a “lei seca” dessa época, ridicularizada por todos os norte-americanos dotados de senso.
Conforme dados confiáveis obtidos pelos críticos norte-americanos da lei seca, assim como da época de maior corrupção e paranoia conservadora estadunidense, o número de agentes de polícia economicamente sustentáveis empregados na vigilância da lei seca, somava 1520 em 1920, e 2. 836 em 1930. É um número que pode ser graficamente representado pela superposição dos agentes numa linha costa a costa do inteiro Estados Unidos. Assim posicionados, haveria um único homem patrulhando uma porção de espaço tão grande como doze milhas - uma milha equivale a mil seiscentos e nove metros. O salário de um agente policisal estava orçando entre trinta a quarenta ou cinquenta dólares por semana, de modo que ninguém podia crer, exceto como em um contos de fadas, que um agente ganhando um salário assim iria se preocupar demasiado com a vigilância sobre o uso do álcool, e, sobretudo, que teria força de caráter para recusar suborno. Qualquer pessoa fabricava bebida em casa, e o hábito se multiplicou, pelo escárnio à proibição caduca.
Quanto ao terrorismo voltado contra as uniões trabalhistas, é contudo algo insólito o registro de Halberstam, uma vez que o movimento socialista de Los Angeles abortou devido à ação de Harry apoiando o sogro Otis, porém nessa circunstância decisiva, não por uma falsa causa. O atentado a bomba que vitimou duas dezenas de trabalhadores do Times em 1910, realmente foi obra dos acusados, participantes do movimento trabalhista.Ainda que tivessem sido presos ilegalmente, praticamente sequestrados no Meio Oeste para serem levados a Los Angeles, foi comprovado que os dois homens acusados, os irmãos J. J. e J. B.Mcnamara (nome não relacionado ao funcionário do pentágono) foram os autores do atentado.
Quando Otis Chandler encontrava-se no auge da cólera, pronto para satisfazer os instintos de vingança através da condenação à morte pleiteada no tribunal, Harry Chandler interveio. Ele estava de posse de informações precisas a propósito da opinião pública, e todos os trabalhadores afiliados a uniões, assim como as pessoas comuns, estavam convencidos da inocência dos acusados. Todos seguiam a direção de Samuel Gompers, então líder da Federação Americana do Trabalho, que declarara os acusados inocentes, num momento em que tal inocência aparecia como o carro chefe da campanha de Job Harriman, o candidato socialista, protagonizando a oposição ao candidato do Times. Mas o processo havia atingido uma proporção nacional, trazendo Los Angeles, que por tanto tempo vinha mantendo-a à parte, à atenção da nação.
Seguindo o conselho de Harry Chandler, o General Otis não prosseguiu até a acusação no tribunal, ainda que lhe custasse muito controlar-se, e, inversamente, Clemence Darrow, advogado liberal famoso pelo apoio aos pobres e injustiçados, que havia sido encarregado do caso, frente às evidências e desconhecendo as consequências, pleiteou a condenação dos acusados na corte de justiça, mas com apenas pena de prisão, esperando evitar a condenação capital. Ao contrário do que Darrow pensava, a candidatura de Harriman, que estava no auge, declinou imediatamente. O candidato socialista perdeu por trinta mil votos.
O Times, nas mãos de Harry Chandler, não era apenas o jornal de uma cidade em acelerado processo de crescimento, era o instrumento e a arma de uma vasta ordem econômica em expansão. O jornal era a extensão da tarefa política de silenciar os inimigos e indicar sem dúvida à cidade quem eram os amigos, em quem se devia votar para estar em boas relações com o poder dominante. Kyle Palmer revelou-se o coadjuvante ideal, o funcionário perfeito para os objetivos de Harry Chandler.
Porém Norman Chandler, neto do general Otis, não era um homem de inclinações políticas, e quando ele se encarregou dos negócios do pai, o papel de Kyle não preservou a mesma utilidade. A circunstância que resultou na cisão da família devido à vinda de Buff, e o temperamento desta, contribuíram para a transformação da linha de ação.
Porém, quando Nixon afinal se tornou presidente em 1968, foram esquecidos todos os percalços nas relações dele com o casal Buff e Norman Chandler, os quais refletiram a ambiguidade dessa mudança, nunca de fato podendo atingir a ruptura para com o próprio partido Republicano.
O modo como Buff tratou Maggie Bellows, mulher de um dos melhores editores do Times, é revelador do grau dessa ambiguidade no plano social. Ela cobria o que chamamos de coluna social em Phenix, tendo vindo a Los Angeles por ocasião do convite de Nick Williams, um dos principais do Times, que estava prestes a se aposentar, Bellows sendo cogitado para a função. Porém a modernização que Maggie imprimira nas páginas sociais femininas do Times, abordando assuntos como aborto ou causas sociais e funções habituais dos grupos privilegiados, irritaram as ricas personagens californianas, “socialites” que logo reclamaram com Buff. Esta, ao invés de apoiar a causa da liberdade de expressão, permitiu que inúmeros erros começassem a aparecer na redação dos artigos publicados de Maggie, e, além disso, realmente a descompôs numa ocasião, na frente de muitas outras pessoas, com uma terrível e bruta invectiva verbal. Os Bellow nunca sucederam Nick Williams (p. 773).
Os percalços nas relações dos Chandler com Nixon abrangiam até mesmo o deliberado desconhecimento do casal por este, quando por acaso encontravam-se num restaurante em Veneza, onde Nixon e Patrícia também estavam. Nixon não os cumprimentou, mas, pelo contrário, demorou-se na saudação a um outro casal, que depois confidenciou aos Chandler que nem o conheciam direito. Nesse ínterim não havia sido só alguns pendores liberais que moveram a oposição dos Chandlers, após a tremenda hostilidade despertada pela derrota, na eleição de Kennedy. Buff se sentira desgostosa quando, em 1967, num jantar com Nixon, que havia sido combinado para novamente unir patrocinadores e candidato, Pat Nixon, após a fala de todos em prol da candidatura, tomou a palavra para protestar que, se Nixon não lhe havia perguntado, ainda que o houvesse a todos os demais presentes, em todo caso ela gostaria de declarar não estar satisfeita com a candidatura, pois Nixon se tornara desde o início da década um homem mais voltado ao lar, e agora estava novamente se envolvendo com a carreira política. Como Buff lançara o prêmio “mulher do ano”, e Pat era uma “mulher do ano”, Buff sentia-se contrariada por vê-la tratada desse modo.
De fato, Pat não devia se sentir muito à vontade na Casa Branca. Ela havia sido injuriada por Mamie Eisenhower, quando era Eisenhower presidente e Nixon o vice. Para a visita à América Latina, Pat havia solicitado auxílio à profissional Mollie Parnies, estilista que assistia as mulheres dos homens mais importantes de Washington na escolha das roupas. Parnies mencionou a requisição de Pat Nixon a Mamie , para quem Parnies sempre trabalhava. Mamie se mostrou perplexa: “não, não, querida”, disse ela à senhorita Parnes: “não faça isso. Deixe que a pobre coisa vá ao Garfinckel’s e compre o que estiver na prateleira.” (p. 470)
Por temperamento ou como reação instintiva ao que pudesse sentir de rejeição por parte de Buff, Nixon não deixou ocasionamente de a provocar, contando piada escatológica em um almoço em que ela era a única mulher nuam equipe de homens, por circunstâncias de campanha. Ela reagiu altivamente - se ele havia maliciosamente sugerido que talvez não devesse ter contado, antes de positivamente o fazer mesmo sem que o houvessem incentivado, assim que Nixon terminou ela replicou: “você estava perfeitamente certo, não devia ter contado”.
Não obstante as reservas de Buff, o partido nomeou Nixon para 1968, e quando ele venceu, telefonou a Norman, agradecendo a cobertura em Los Angeles. Assim, na expressão de Halberstam, “era como se o Los Angeles Times tivessem finalmente colocado o menino deles na Casa Branca, ainda que não fosse o mesmo Los Angeles Times e a essa altura ele já não fosse verdadeiramente um menino deles” (p. 564).
Para Halberstam era nítida a cisão dentro do Times, os dois partidos que para ele podiam ser rotulados como o velho e o novo, não haviam sido simplesmente um caso de sucessão, mas coexistiam como duas partes imiscíveis, o pessoal mais constante, os que tinham funções mais burocráticas ou técnicas, nunca tendo de fato mudado. Aqueles que lidavam mais de perto com Otis e Buff, ou os profissionais convidados para renovar a linha do jornal, refletiam a orientação destes em prol de rupturas assinaláveis mas não podiam ir até onde queriam, e ou se adaptavam ou não permaneciam. As duas partes da companhia estavam, além disso, nitidamente distintas entre a parte conservadora que resistia na corporação dos negócios, e o jornal, o Times onde Otis e Buff tentavam imprimir algum eco de contido liberalismo.
Se Otis, na época do escândalo de Watergate, estava ele mesmo envolvido num processo de corrupção financeira, Halberstam não deixa dúvida de que ele estava inocente, que havia agido de modo inexperiente, por isso tendo sido prejudicado por um amigo. E um outro processo também nessa época também não parece ser comprometedor - ainda que estivesse pendente enquanto Halberstam escrevia. Otis foi, porém, um alvo da hostilidade de Bob Haldeman, ainda que não tanto do próprio Nixon, e ao que parece Haldeman fez o que pode para prejudicar Otis na ocasião dos processos.
Como vimos, agindo em comum acordo com Missy, os sentimentos ambivalentes de Otis na ocasião das eleições penderam para evitar crises, e inclinar-se à decisão do Partido Republicano. Ele nunca cultivou um relacionamento pessoal com Nixon. Mas Otis e Missy eram convidados regularmente aos jantares da Casa Branca - assim como antes o eram Buff e Norman. Pode-se considerar que Otis manteve relações convencionais com Nixon, ainda que não tenha se beneficiado pessoalmente por isso, pelo contrário.
Otis revela-se um homem honesto na cobertura de Halberstam, e “The Powers that be” reporta até o momento em que ele é mostrado instruindo o filho, Norman Chandler, na função de líder da corporação dos negócios da família, e do Times.
V) Katharine “Kay” Grahan
a) da família ao casamento
O contraste entre as histórias do Los Angeles Times e do Washington Post é notável. Não há um rastro, uma nódoa do capitalismo sujo, ainda que como coisa do passado, em se tratando do Post. Não obstante cobrir algo da personalidade e ação de Meyer, o patriarca do Washington Post, a história do jornal é interceptada por Halberstam mais a partir do ponto em que o negócio milionário de Meyer, qual o Post era parte, se torna administrado por Philip Grahan. Um dos mais brilhantes e promissores jovens universitários, como que talhado à perfeição para desposar a filha de Meyer, o proprietário dos negócios e do jornal.
O percurso de Meyer não é tão importante, a partir daí, mas não é de todo comprometedor na cobertura do “The powers that be”. O próprio Phil Grahan não é um conservantista republicano, é um liberal que se relacionou intimamente com Kennedy, atuando contra os movimentos racistas que pulularam desde os anos cinquenta reagindo contra as leis anti-racistas que começavam a ser lançadas. Porém Phil Grahan não durou muito na direção dos negócios ou do Post, na qualidade de consorte de Katharine Meyer.
Ainda na vigência de Phil como administrador, ele não se revelou menos um homem de negócios competitivo, tornando o jornal monopolista na informação em Washington, a partir da anexação por compra do principal concorrente, perseguindo o objetivo, que realizou com a ajuda do sogro, de formar um conglomerado de jornal e revista, rádios e televisão. Ainda assim ele permaneceria, ao menos até certo ponto, numa classificação liberal do ponto de vista político. Mas os acontecimentos dramáticos que resultaram na loucura e suicídio de Phil Graham conduziram à tomada da administração por Kay Graham, que revelou-se muito mais afim à mentalidade conservadora.
A trajetória política de Phil Grahan escreve uma página inquietante nos anais das decisões presidenciais, entre Kennedy e Lyndon Johnson, uma vez que nelas interferiu diretamente. Mas a administração do Post por Kay Grahan reverte a impressão de que o jornal tenha mantido uma linha liberal dentro da grande imprensa estadunidense, ainda que, como por ironia, ela não tenha podido evitar que seu jornal se tornasse o veículo dos “furos” no caso Ellsberg e em Watergate - este pelo qual o jornal recebeu o prêmio Pulitzer em 1973. O jornal, representado por Ben Bradlee, o editor de Kay Grahan. Não Woodward e Bernstein, os repórteres que descobriram e apresentaram o caso, na ocasião muito para desconforto de Kay.
b) Phillip e Katharine Graham
A história de Phil e Kay começa com as bênçãos do mundo universitário. Phil havia sido um dos mais brilhantes alunos, verdadeiro “star”, na “Harvard Law School”, numa época em que esta era “a” faculdade de direito na América, atraindo os jovens estudantes mais promissores e dotados.
Felix Frankfurter reinava então como o mais influente mestre, com ligações não apenas intelectuais, dominando os departamentos em Washington e Cambridge, mas também ligações políticas, fazendo a ponte, em Washington, entre a universidade e os eventos e atividades mais importantes. A sua ascendência sobre os jovens universitários criara um tipo de maçonaria, um sucedâneo da sociedade dos fabianos na Inglaterra. Sua autoridade intelectual era única.
Phil Grahan se tornou logo um “protegido” de Frankfurter. Na universidade, foi escolhido para editar a Harvard Law Review, onde atuou bastante talentosamente. Em 1939, Frankfurter foi nomeado para a Suprema Corte, e Phil, já graduado, tornou-se secretário de Frankfurter. Nessa altura ele já iniciara a corte a Kay Grahan. O jovem casal era a menina dos olhos de Frankfurter, que sempre instava com Phil que ele mantivesse Kay ao par dos assuntos do escritório: “Phil, você contou a Kay o que Hughes disse na corte ontem? Ele contou, Kay?... Ele não contou? Phil, você não sabe que Holmes conta tudo à esposa?” (p. 245)
Contudo, ao recusar assinar a decisão de deportar Harry Bridges, num caso famoso, Phil rompera com a ordem de Frankfurter, o que fez Kay sentir-se orgulhosa do marido. Phil mudou de emprego, indo de assistente de advocacia de Frankfurter para uma função em que sua principal responsabilidade era tornar a capacidade industrial americana apta para atender ao que dela viria a requerer a Segunda Guerra mundial. Ele era então radicalmente anti-Hitler, algo que para ele tornara-se uma obsessão. A tarefa revelou-se porém difícil, o governo lento na ação, a indústria ainda mais hesitante.
Ainda que na época da corte a Kay alguns tivessem aventado que ele estava interessado na fortuna dos Meyer, a verdade segundo Halberstam é que Phil vinha de uma família rica, ele não precisava disso, e dissera à noiva que não estava interessado no dinheiro do pai dela, “nem um centavo” (p. 243). Essa havia sido a segunda coisa que ele lhe dissera quando foram apresentados e ele a fez sorrir, sentir-se jovem e bonita. A primeira havia sido que ele iria se casar com ela.
Porém na altura em que enfrentava o esforço colossal de reformar a mentalidade da indústria americana, a aposentadoria de Meyer começou a ser assunto ventilado na família. Phil se tornara um filho querido dos Grahan, Eugene e Agnes, os pais de Katharine. Entre a filha e o genro, eles preferiam a palavra deste último, ele tinha a preferência em tudo. Um outro filho dos Meyer não revelara inclinação para os negócios. Phil se tornou o publicista do Post, realizando a profecia de que viveria à sombra do sogro milionário.
Pode ser que ele tenha amado a função de chefe do Post e de grande magnata, onde ele pôde conceder livre curso aos seus talentos de político e de empresário, maiores do que os de editor. Pode ser que o incômodo perante a ideia de ser a mera sombra do sogro tenha sido obnubilado pela vastidão dos ganhos, a amplidão das perspectivas. Mas sempre estivera lá, e no final foi o que pesou na balança. Quando adoeceu gravemente dos nervos, Phil Grahan passou a expressar sério ressentimento contra a família, o fato de serem judeus, especialmente contra o sogro. Quando a crise era severa, deplorava que seus próprios filhos e a esposa fossem uns “kikes” - o modo como se chamava pejorativamente o judeu.
Meyer havia sido um homem de negócios audacioso e severo. O Post dera prejuízo por muito tempo antes que ele lograsse transformá-lo num negócio lucrativo, obtendo o monopólio da informação em Washington, como vimos. Costumava restringir salários e proventos, argumentando que ele mesmo, quando necessário, continha seus gastos - o que exemplificava porém com o sacrifício de adiar a compra de alguns Rembrandts para a sua coleção. Agnes não era uma mãe judia tradicional, era uma intelectual que se engajava em intermináveis discussões com o genro.
Cissy Paterson, do Herald, rival do Post, tentara lhe roubar algumas de suas melhores tiras em quadrinhos, Dick Tracy, Winnie Winkle, Andy Gump e Gasoline Alley. Meyer se informou com um empregado sobre a importância dos quadrinhos, descobrindo que era enorme. Então processou Cissy Paterson, que ficou tão acabrunhada por perder no tribunal a ponto de mandar para ele, a título de presente, uma caixinha decorada, mas com um bife dentro. Perplexo, Meyer indagou à esposa o que poderia significar aquilo, e Agnes, sempre muito marcada pelo anti-semitismo, respondera que o bife representava um judeu sujo. Meyer ficou chocado. A imagem que fizera até então da profissão de publicista não previa que fosse tão contenciosa. Mais tarde, porém, Meyer comprou o Herald, após a morte de Cissy Paterson.
À cabeça dos negócios, Phil Grahan se mostrou ambicioso. O sogro colaborou com sua ambição, comprando para ele aquilo que tanto desejava - as rádios WTOP e Jackson, a televisão WTOP.
Há uma história sobre Buff Chandler perguntando a Norman sobre por que o amigo do casal, Lee Wasserman, sendo tão inteligente não era nomeado para a CalTech, o famoso centro de tecnologia, e pelo que Norman sabia, era devido a ser ele judeu, além de liberal Democrata. Porém Norman, atendendo a Buff, durante um jantar informou ao reticente Wasserman que ele poderia ser nomeado, ao que Wasserman ripostara não estar disposto a enfrentar uma batalha, mas Norman lhe dissera que não, não haveria nenhuma batalha, de fato sua nomeação por voto unânime havia ocorrido naquela manhã (p. 387). Assim também há uma história sobre Phil e Katharine Graham. Ela pedira que ele lhe comprasse uma revista. Ele comprou a própria empresa Newsweek.
As mudanças que Phil Graham imprimiu no Post acarretaram a vitória final deste sobre o Star, o concorrente principal que sempre zombara do Post como jornal menor. O Star perdeu toda a importância na cidade.
Enquanto subia na carreira de homem de negócios, Phil se envolvia mais profundamente com a política. O McCarthysmo, que ele odiava, foi o pretexto da sua aproximação ao partido Republicano, vendo em “Ike” Eisenhower uma esperança de deter McCarthy, ainda que depois se revelasse uma esperança vã. Atuando ainda nesse sentido, Phil contribuiu generosamente para as campanhas dos candidatos republicanos que pudessem ser considerados centristas.
Para alguns, especialmente californianos, Nixon era centrista, e Phil refletia essa concepção. Há registro em Halberstam de uma associação de Otis Chandler com Phil Graham, de modo que o Times pudesse circular em Washington.
Porém Phil não era racista, apoiando a causa dos direitos civis até o ponto em que não roçasse a acusação de comunismo. Assim o Post se tornou um jornal partidário, de modo óbvio politicamente envolvido.
Como político, Phil era brilhante, sempre obtendo os objetivos, porém contraditório. Ele mais freava do que impulsionava algumas das mais audaciosas coberturas dos repórteres, agindo portanto como os republicanos e conservadores. Porém sua atuação como íntimo de Lyndon Johnson, cuja recomendação para compor como vice a chapa de Kennedy foi obra de Phil, tornou-se frenética por ocasião da crise de Little Rock, um motim contra a lei de inclusão racial nas escolas. E como vimos, foi radicalmente contra o McCarthysmo. Duas posições que o tornam mais tendente a liberal. Em todo caso, ele era o poderoso homem de negócios, o kingmaker.
Quando Allan Barth escreveu um editorial apoiando Earl Browder, o líder do Partido Comunista Americano, que se recusara perante McCarthy a revelar os nomes dos outros comunistas, Phil ficou furioso.
Ele interpretou o editorial de Barth como uma adesão do jornal ao comunismo, o que o editorial não era, limitando-se a uma defesa dos direitos de Browder, Barth argumentando que “nem todos na América testam a lealdade de um homem ao seu país pela sua boa-vontade na traição dos antigos amigos” (p. 271). Ainda assim, e ele mesmo contra McCarthy, só não despediu Barth devido à intervenção de Frankfurter, amigo de ambos.
Phil reagiu imediatamente, ainda que não despedindo Barth, escrevendo críticas ao editorial, e publicando-as como comentário negativo a propósito da bagunça que se poderia esperar caso comunistas tomassem a liberdade de expressão, distorcendo-a, ou se insurgissem contra a lei da cumplicidade. Porém, contra o senador Joe McCarthy, em plena caça às bruxas, nacionalmente odiado àquela altura, Phil aduzia que o valor do testemunho de exilados comunistas ou antigos comunistas era nulo, podendo ser injurioso a pessoas de bom caráter.
A crise de Little Rock, porém, foi um divisor de águas no aspecto da sanidade mental. Phil nunca tinha revelado sinais da doença, além de uma tendência para perder o controle com o álcool. O episódio precedeu uma série de demonstrações do mesmo teor, posteriores. Multidões de brancos se amotinaram em Little Rock, 1957, contra a aplicação da lei anti-segregacionista de Brown, que permitia alunos negros se matricularem nas escolas públicas. A lei era de três anos antes. Kyle Palmer havia se enfurecido contra a lei de Brown, argumentado que Deus não queria que as raças se misturassem, invectivando diretamente Brown, que na ocasião apenas o abraçou, após a série de injúrias recebidas, dizendo que sempre seria seu amigo.
Nessa época Phil havia se tornado o homem de Lyndon Johnson, então líder do senado (“Senate Majority Leader”). Phil havia tentado uma aproximação real com Eisenhower, mas já se desiludira, “Ike” era um homem do status quo, o que Phil não era, e a desilusão o impulsionou para Lyndon, o jornal tornando-se claramente o veículo de Lyndon. Quando a crise de Little Rock estourou, porque o próprio governador do Arkansas, Orval Faubus, perante a ordem federal de aplicar a lei relativamente a nove estudantes negros, negou-se a acatá-la, incentivando a resistência local dos brancos, Phil se envolveu intensamente como se fosse ele mesmo a autoridade que Lyndon Johnson era.
Noite e dia ao telefone, falando com todos os que podia contatar, Nixon, Bill Rogers, inúmeros outros, os editores de Little Rock, repórteres da Casa Branca, líderes do movimento negro, Phil chegou a idealizar “Ike” entrando ele mesmo na escola, dando uma mão a um menino branco, outra a um menino negro. A Casa Branca rejeitou a ideia, Phil apresentou a variante, Ike entrando com uma criança, e ele, Phil, com a outra.
Especialmente tentando cooptar Nixon, ele era bom nessas coisas ao ver de Phil, e se as pessoas ficavam um tanto surpresas pela conexão de Nixon com uma causa anti-racista, Phil respondia que Nixon era melhor do que se pensava, estava argumentando com Ike para fazer alguma coisa. O que Ike finalmente fez, após muito mais esforço de Phil, foi mudar da inércia total para o envio da 101’s Airborne, uma divisão da artilharia do exército americano. A crise de Little Rock foi sustada, mas a essa altura Phil Graham estava tendo um colapso.
Refugiou-se em casa, numa profunda depressão, Kay sem saber ao certo como trata-lo. Argumentando contra si mesmo, confidenciando a ela que perdera a confiança, ridicularizando-a quando ela protestava que ele era tão charmoso. E de fato ele era, Phil Graham era famoso por tantalizar as pessoas, um homem incrivelmente bonito, expansivo, habilidoso, comunicativo. Não, ele dizia, ele não era nada disso, era um fracassado, devia aprender com as pessoas, não mais fingir que tinha algo a ensinar a elas, não mais aceitar o jogo de que podia manipulá-las à vontade.
A crise passou, Phil voltou ao trabalho, mas o “problema x” foi piorando. Phil estava maníaco pela política, a armação da chapa Kennedy-Johnson coroou seu sonho de kingmaker, “seus amigos, Kennedy e Johnson. Kennedy, Johnson e Phil”, expressa Halberstam os sentimentos exaltados de Graham. (p. 443)
Com a progressão da doença, a depressão se tornou cada vez pior, até que transformou-se numa paranoia contra o sogro e a própria família, sob o pretexto do anti-semitismo. Phil tornara-se religioso, cristão fervoroso, esperando melhorar. Porém as ações tornavam-se sempre mais frenéticas, descontroladas. Afinal envolveu-se com uma jovem australiana do staff da Newsweek, Robin Webb. Ela passou a acompanha-lo a todos os lugares, Phil tornando público que pretendia divorciar-se e casar com Robin, porém não abrir mão da direção do Post e da Newsweek.
A nova atração não logrou deter o processo da desagregação mental. Phil fez um escândalo numa convenção de jornalistas, a que comparecera com Robin Webb, quando afastou o porta-voz do Star que apresentava sua palestra, tomando a palavra para descompor a equipe com uma série de injúrias e palavrões, aparentemente a equipe do star mas de fato dirigindo-se a todos os presentes. Após o dramático episódio, Phil foi internado num hospital psiquiátrico, iniciando tratamento intensivo. Ao ser liberado de uma internação ele voltou com Kay, e todos supunham que havia ocorrido a melhora, senão a cura. No entanto, Phil Graham se suicidou subitamente, com um tiro, num quarto ao lado daquele em que Kay se encontrava.
Segundo a explicação médica, houve falha na avaliação da equipe psiquiátrica, ele não devia ser liberado ainda, e a série dos degraus que devia subir para a cura da síndrome maníaco-depressiva foi bruscamente interrompida em algum ponto. Para alguns amigos, Phil Graham se suicidou porque calculou exatamente o que lhe restava na vida, mais nada, nenhuma carreira, ninguém voltaria a leva-lo a sério. Não há registro em Halberstam de qualquer suspeita de que não tenha sido suicídio.
c) Mrs. Washington Post
Para Katharine Graham, o tempo das terríveis humilhações decorrentes da doença de Phil não foi de fato único. Todo o processo do casamento fora insatisfatório, prolongando os problemas que ela havia tido desde menina, com a mãe. Agnes não era uma mãe devotada, porém especialmente não tinha carinho pela filha.
Sendo a mais velha, tornou-se objeto privilegiado da ojeriza de Agnes pela maternidade em si, sempre reclamando que o neném Kay parecia tão feio, tão marcado pelos fórceps. Agnes não ensinara a filha a ser bonita ou elegante. Ela incutira em Katharine o sentimento de ser inferior, burra, inadequada. Certa vez, quando Kay perguntara o que a mãe estava falando com Phil tão animadamente, ela respondera à filha que não se intrometesse pois não poderia compreender, tratava-se de uma discussão intelectual que eles estavam tendo.
Quando Kay viajou para estudar, amigos tiveram que insistir para ela comprar roupas, pois se limitava a duas blusas e eles fizeram ver que chegavam a cheirar mal, por muito usadas. Ela não sabia pôr uma mesa, servir ou receber. Também não sabendo se vestir, quando casada Phil designara uma amiga para orientá-la, à “pobre Kay”. Que no entanto, recebera um dia uma bronca da mãe por indagar o que alguns hóspedes que Kay especialmente prezava, podiam fazer quando viessem para se divertir. Como assim, reverberou a mãe, não via ela que tinham a criação de cavalos de raça, e a mais elegante, a maior das piscinas?
A fortuna dos Graham era invejável, de fato enorme, porém Kay Graham sentia-se como um patinho feio, uma outsider, terrivelmente horrorizada a cada vez que o marido, um homem totalmente dedicado à vida elegante da alta sociedade, lhe informava do próximo evento a que compareceriam. Certa vez, para exemplificar do modo mais sucinto, Kennedy estava presente, e por acaso Kay estava sentada numa espreguiçadeira ao lado da qual Kennedy veio também sentar-se.
Ao se conscientizar que estava ao lado do grande Kennedy, Kay ficou chocada, seu rosto contraído como se sentisse uma dor aguda, parecendo lançada ao mais terrível desespero. Nesse ponto seu olhar encontrou o de Phil, que compreendeu imediatamente a situação dela, e riu.
Assim que se casaram, ele costumava perguntar aos amigos que convidava, se eles sabiam qual era a primeira coisa que Kay fazia quando acordava, e então lhes dizia que ela olhava o espelho e falava para si mesma o quão feliz era ela por ter se casado com ele.
Não havia espaço social, papel social, para Kay. Ninguém lhe dirigia a palavra na sociedade que o casal frequentava, nas festas ou ocasiões a que compareciam, a não ser, de vez em quando, para perguntar algo sobre Phil, sobre o que ele estava fazendo ou planejando. Casada, ela tinha sido reduzido à função de dona-de-casa, e ao longo do tempo, na meia-idade, constatou que para essa função a sociedade não concedia nenhum papel.
Quando Phil se suicidou, ela se encarregou porém dos negócios, tornando-se a publicista do Post. O pronunciamento de Kay na ocasião da posse, constou de um primeiro agradecimento aos presentes por terem mantido o jornal até então. Ao que se seguiu a informação dela de que o Post sempre fora, e continuaria sendo, o negócio da família Meyer, porém havendo agora a vinda de uma nova geração de jovens, e portanto a família pretendia “tornar o jornal pronto para eles”.
Para várias pessoas presentes, a declaração da posse soou como uma demissão. A meu ver é notável como o momento exemplifica o quanto o argumento da modernização era flexível, tendo se tornado de fato instrumento para qualquer mudança de mãos do poder. Relativamente a Phil, a administração de Kay Graham apertou o cerco, tornando-o mais conservantista, mais autoritário.
Na verdade, ao assumir a direção do Post, Kay interrogou alguns dos mais respeitados profissionais do jornalismo, como Scotty Reston do New York Times e Walter Lippman, então considerado intelectual importante, colaborador do Post. Ambos reforçaram a sua própria conclusão de que Phil havia sido bom amigo e bom empresário, mas não um bom publicista, o Post a essa altura reduzira-se a um jornal medíocre, o que lançava dúvida sobre a qualidade dos profissionais com quem ela podia contar na qualidade de pessoal do Post. Kay socorreu-se de Bem Bradlee, então na Newsweek, como o profissional certo para o cargo de editor chefe.
O Post se tornou um escritório regulado por normas rígidas, relativas ao comportamento dos repórteres, proibindo que participassem de outras atividades quando fossem julgadas prejudiciais ao trabalho, que comessem ou bebessem quando estivessem na prefeitura, que invadissem os seus concorrentes, o New York Times ou o Washington Star, - esta uma regra auto-defensiva, já que o Post havia retroagido para uma posição menor.
Quando Bradlee tomou posse como editor, em 1965, chocou-se com a autoridade remanescente de Russ Wiggins. Entre as primeiras tentativas de Kay tomar as rédeas do jornal, e as de Bradlee atualizar a seção de notícias, no vácuo criado pela morte de Philip, Wiggins cresceu como a voz editorial dominante.
Ao contrário de Bradlee, cuja intenção era sintonizar-se com tudo o que pudesse tornar o jornal vendável, Wiggins visava apenas manter uma linha explícita de orientação setorizada, privilegiando leitores conservantistas, na oposição a todas as inovações liberalizantes. Wiggins era racista, pró-Vietnã. Ainda assim Lyndon Johnson logo se conscientizou de que Wiggins manteria o Post como seu porta-voz, assim como logo o descobriram os conservadores da Casa Branca.
A atividade febril de Wiggins, atendendo a todos estes interesses setorizados, dirigia-se numa linha de total oposição aos interesses de Bradlee, mas o que precipitou um diagnóstico de cisão real foi o fato de que a guerra do Vietnã se prolongou, o anúncio da vitória conservantista não ocorria, e os colaboradores de Wiggins começaram a duvidar do êxito de sua causa. Ele confrontou pela primeira vez as resistências, a hostilidade. Wiggins mantinha a autoridade, porém, e a Casa Branca despendia esforços para mantê-lo na linha editorial. O que, na têmpera de um homem como Wiggins, não significava um ataque ao ego, mas ao patriotismo. Todos, de Lyndon Johnson a Marder, este um herói do anti-McCarthysmo no Post, comentavam que o jornal encontrava-se dividido.
Gradualmente Bradlee obteve espaço, lançando o lema da “tensão criativa”, objetivando criar um clima de competição interna no Post, todo o pessoal atuando, uns contra os outros, visando o centro das atenções. A modernização visava sucesso de business, não o liberalismo, ainda que cobrir o que pudesse atrair fosse a palavra de ordem. O executivo do Post se tornou Harwood, escolhido por Bradlee por sua habilidade em chutar o traseiro de quem devia ser expulso. O Post renovou-se, à sombra do New York Times, porém, como seu modelo.
Os limites da sociedade de Washington, assim como a força dessa sociedade, mantinham o Post e seu editor, numa circunstância tal que não se ultrapassava a sua falta de abertura, do mesmo modo que a do editor. Aquilo de que careciam era velocidade, o que o Times tinha de sobra por que não se limitava ao talento de uma ou duas pessoas, mas o produto de uma grande equipe. Consideração bastante irônica, uma vez que Watergate foi o furo do Post, à frente dos outros noticiários.
Porém cobrir Watergate não reflete a opção política do Post em qualquer sentido anti-conservantista. Ainda que isso não significasse, àquela altura, fidelidade à pessoa de Nixon.
d) O som e a fúria
1) Watergate na mídia
A atuação de Kay Graham como publicista tem nela mesma uma referência confiável. Em carta a Ehrlichman, citada por este em Witness to power, ela sublinha que as publicações do Post não eram “um reflexo” dos seus “sentimentos pessoais” (p. 301). A carta comoveu Erlichman, sendo porém evidentemente mensagem a Nixon. Este recusou a sugestão de Erlichman a propósito de uma convite a Kay para confabular.
O propósito da mensagem de Kay é negar qualquer hostilidade pessoal contra Nixon, e relacionar o que o Post vinha publicando a propósito da corrupção na Casa Branca, entre o Vietnã e Watergate, a uma questão de mera autonomia dos profissionais do jornalismo. Nesse ponto em que exalta a qualidade dos seus profissionais, ela concede que a opinião de Ehrlichman possa não ser a mesma que a sua, porém como algo que não impediria que fossem considerados pessoalmente amigos dado que os sentimentos dela por ele eram amistosos. Sobretudo, ela não queria continuar sendo mal interpretada nessa questão de relacionamento pessoal, pelos boatos que corriam a propósito de que ela detestava Nixon, o que a carta tencionava acima de tudo denegar como mera “childish”.
Ela esconde, porém, que poderia não implicar que as publicações do Post não refletissem os sentimentos pessoais de alguém mais. E de fato refletiam, segundo Halberstam. Os de Ben Bradlee, a quem Kay delegou todos os poderes, e que se tornou gradualmente o cérebro e a vontade por trás dos acontecimentos relacionados às publicações polêmicas do Post.
Podemos indagar sobre o que teria acontecido na história do século XX, se Kay tivesse preferido usufruir passivamente da fortuna ao invés de escolher tomar a frente dos negócios. Ben Bradlee, um homem audacioso cujo objetivo era jornalismo de excelência, porém de fato atuante como business, como veículo de massas e não o arcano de uns poucos privilegiados, não tinha tanto a perder quando tomava decisões quanto ele teria se fosse ele mesmo o proprietário de um patrimônio. Kay nunca recuou nisso, porém. Mesmo nos piores momentos, quando à habitual insônia se misturava o terror pelo que podia acontecer ou de fato já estava acontecendo, ela manteve a delegação do poder e Bradlee jamais foi desafiado.
A mensagem de Kay demarca, pois, um momento delicado. As histórias sobre ilegalidades do staff de Nixon relacionadas ao levantamento de fundos da campanha eleitoral, que foram descobertas interligadas ao rumo da investigação principal sobre a invasão do partido Democrata no edifício Watergate, haviam precipitado a fúria da administração Nixon. Em novembro de 1972 porém Nixon estava reeleito, e havia prometido vingança contra a imprensa que vinha publicando as notícias comprometedoras que ele tomou como pessoalmente dirigidas.
Não obstante a publicação dos papeis de Ellsberg ter antecedido Nixon e atingido Lyndon Johnson. Este a quem Kay escrevera também uma carta, muito mais sentimental como declaração de fervorosa devoção pessoal, não obstante a devastação das denúncias que o Post publicou, desta vez com expressa anuência dela mesma, ainda que sob pressão intensa, Bradlee contra todos, advogados e conselheiros que tencionavam evitar a publicação do livro de Ellsberg após o New York Times ter publicado o essencial sobre os documentos roubados.
Aquilo fora obra de Bagdikiam, amigo de Ellsberg, Bagdikian logo percebera que a fonte do Times só podia ser Ellsberg. Ele contatara Ellsberg, e a publicação do livro deste pelo Post se tornou uma questão de tempo, era publicar ou ser depois acusado de omissão censória. Assim os conselhos contrários, especialmente de Fritz Beebe, um dos advogados mais respeitados, puderam parecer pró-forma, de fato todos queriam a publicação.
Lyndon Johnson, amigo pessoal de Phil, tornara-se após a perda de Phil extremamente ambivalente relativamente a Kay, mas agora decidira-se por uma franca animosidade. Por último voltou atrás, em vista da antiga amizade de família. Mas a mágoa nunca passou, Johnson havia feito muito sob o impulso da vingança, demitindo Robert McNamara, amigo pessoal de Kay, e processando o jornal. Assim como a mágoa de Kay contra Bagdikian, que havia se tornado expressa a este. “Que espécie de problemas você nos trará desta vez”? - ela provocou com voz dura, na frente de várias pessoas, numa ocasião. Depois aquilo ficou como “uma brincadeira”, algo que ela não quisera dizer de verdade. Mas o tom fora inequívoco, não havia sido uma brincadeira.
Uma série de processos contra a imprensa se iniciara, tendo por alvo a publicação das histórias reveladoras de corrupção na Casa Branca. No caso de Watergate, com risco de prisão de repórteres e editores, não só do Post. Segundo Ehrlichman, porém, especialmente repórteres do Post haviam sido afastados da Casa Branca após o início da cobertura de Watergate, e Nixon havia ordenado a investigação de um repórter que estava publicando informações sobre a atuação de Julie Eisenhower na Flórida.
Ao ver de Ehrlichman, o motivo do ressentimento pessoal de Nixon contra o Post era de que ele era devotado ao Star, que o Post estava porém derrotando no mercado. Para Halberstam, o motivo eram as charges de Herblock, apelido de  Herbert Block,  o cartoonista do Post, e um dos melhores cartoonistas da história do jornalismo. Conforme Halberstam, um cartoom de Herblock não era negável, “ficava na atmosfera como uma visão permanente”. (842).
Ele fôra especialmente cruel contra Nixon. Desde 1954, quando era vice-presidente, Nixon havia cancelado a assinatura do Post para evitar que as filhas vissem as charges diárias de Herblock. Nixon dizia que muito de suas reações a outros tinham que ser calculadas relativamente a quem eles visavam, não a ele mesmo, Nixon, mas ao Nixon de Herblock. Um ser que pudesse imediatamente repugnar a todos os liberais, feito de falsa piedade, desrespeito pelas liberdades civis, exploração de paixões sob o pretexto de as estar apaziguando, e de tudo o que havia de vulnerável na aparência, a barba, a cara, o nariz, fazendo de Nixon fisicamente repugnante.
Porém a publicação da carta de Kay por Ehrlichman contradiz a concepção de Halberstam, de que John Ehrlichman, assim como Clark MacGregor, Ron Ziegler e Robert Dole, personificou a saraivada de ataques que se seguiram após as denúncias, da parte da administração Nixon, e que eram cuidadosamente orquestradas, dirigidas de modo altamente pessoal contra Kay Grahan e Ben Bradlee. O comentário de Ehrlichman a propósito revela que ele mesmo considerava boa política aproximar-se amavelmente de Kay, aproveitando-se do sinal verde que ela emitira, de modo que as histórias pudessem parecer pura especulação algum dia, ou, em todo caso, o caráter das pessoas pudesse ser salvo. Mas Nixon não aceitou o conselho de Ehrlichman. Ele considerava da máxima importância destruir os assim considerados inimigos e não acreditava na sinceridade de Kay Graham.
Por outro lado, Halberstam revela que as ligações sociais de Kay com personagens importantes da Casa Branca não cessaram. Muitos eram convidados habituais de suas suntuosas festas, tendo ela já aprendido a frequentar e receber, passando a um status de grande influência na alta sociedade de Washington.
Ehrlichman e Halberstam concordam em que Nixon considerava o problema pessoalmente, e com a maior agressividade, assim como ao menos os que acatavam totalmente a sua linha de ação. Na Casa Branca, portanto, havia uma cisão cada vez mais aparente.
Quando Sloan, uma das fontes de Woodward do Post, levou a John Mitchel, o procurador geral (“attorney general”), como figura chave do levantamento secreto de fundos de campanha para reeleição de Nixon, Bernstein ligou para ele, apenas para ouvir um grito - um “grito primal”, segundo Halberstam. “Jeeeesus!” Tratando “Kay” por “Katie Graham”, o que ainda segundo Halberstam só gente de Nixon fazia, para todos os amigos era Kay ou Katharine, Katie nunca, Mitchel ameaçava: ele torceria o pescoço do passarinho dela - e a resposta de Kay ao recado, como se este fosse como qualquer outro, havia sido: “há mais alguma mensagem para mim”? (p. 899)
Com relação a Nixon, porém, nessa altura a ironia atinge o paroxismo. Pois já não era o Post que estava à frente das investigações, o Los Angeles Times sobrepujou repentinamente todas as expectativas. E a tentativa do Post de reconquistar a preminência perdida resultou numa vantagem tão oportuna a Nixon que pode ter sido a causa da reeleição.
Jack Nelson do Los Angeles Times havia logrado ultrapassar Woodward e Bernstein, os lendários repórteres do Post que descobriram Watergate e o modelaram para grande repercussão, estes os autores de All the president’s men, livro que se tornou um sucesso do cinema.
Nelson estava enciumado pelo fato dos dois jovens terem se tornado estrelas do jornalismo de um dia para o outro, e investigara diligentemente o motivo do sucesso deles com Watergate, tendo constatado que consistia simplesmente na recusa de usar o telefone, e, ao invés, contatar as fontes apenas pessoalmente.
Segundo Halberstam isso podia ser considerado trivial, ninguém confiava em telefone nos USA àquela altura, porém o jornalismo ainda dependia muito das chamadas, em grande escala. Mudando de tática, Nelson descobrira, contudo, não apenas uma fonte com novidades excitantes, mas que como todas as outras tinha que permanecer na sombra, não diretamente identificada. Ele descobrira uma testemunha ocular, Alfred Baldwin.
Após muitas reviravoltas protagonizadas pelos dois advogados de Baldwin, a questão era como ele seria melhor protegido, uma vez que a administração sabia que ele sabia. Os poderes públicos envolvidos tentaram impedir que a história fosse publicada, o próprio juiz Joe Sirica, que condenou Ehrlichman depois, interveio para amordaçar Nelson, proibindo a publicação. Afinal ficou claro para Nelson e os advogados que seria melhor para Baldwin tornar-se de conhecimento público até onde ele atuara. Assim ele concedera a Nelson a história, e ela foi publicada, com a única condição de que Nelson aduziria a seu respeito que ele havia sido antes da marinha - porque ele queria que sua namorada lesse isso nos jornais.
Al Baldwin havia sido na verdade agente do FBI, e estava trabalhando agora para a CIA. Em seu turno de trabalho, casualmente situado em frente a Watergate, ele monitorava fitas gravadas oriundas da escuta clandestina, as quais deviam ser passadas para o quartel eleitoral de Nixon. Num dado momento, ele avistou Hunt saindo de Watergate, andando casualmente, e a polícia se aproximar. A história de Baldwin era tão importante por ele ser uma testemunha ocular, mas a mais importante de todas, por ser a que conectou Watergate diretamente com a campanha de reeleição de Nixon.
O juiz Sirica ordenou a prisão de John Lawrence, do Los Angeles Times, e Nelson declarou ao Post que nesse caso também ele a aceitaria com a consciência limpa. O Post aduziu porém uma nota sobre Otis Chandler, que não se encontrava então em Los Angeles, na qual Otis declarava que ele mesmo iria para a prisão orgulhosamente se fosse preciso. De fato Nelson nada dissera sobre Otis, e se tornou visado por comprometer o editor. Otis, cavalheirescamente, respondeu depois que iria mesmo. Como em todos os demais processos, porém, a Suprema Corte favoreceu a imprensa e ninguém foi preso.
Mas agora os enciumados eram Woodward e Bernstein. O Post havia perdido a corrida, o New York Times ficara para trás há muito tempo relativamente a Watergate, o Los Angeles Times vencia. O Post não publicou, a princípio, a história do Los Angeles Times, comprometendo a sociedade Times-Post de notícias. Na verdade o Los Angeles Times já vinha fazendo uma boa cobertura de Watergate, mas à medida em que as histórias ficavam melhores, o Post roubava os títulos e publicava como se fossem seus.
Halberstam, inclusive, corrige uma cena do All the president’s men, onde Simons, um dos comissionados do Post para coordenar Watergate, é visto pedindo a Bradlee para tornar a história nacional, e Bradlee responde que seria melhor deixa-la ficar como estava, apenas com os garotos. Segundo Halberstam, a cena se deve a razões dramáticas, para fortalecer o papel do ator Jason Robards, pois na verdade, foi Bradlee que em várias ocasiões insistiu com Simon para tornar a história nacional (p. 897). Como vemos, o Post tencionava manter Watergate estreitamente associado a si mesmo e à sociedade de Washington.
Após a vitória de Jack Nelson, os dois jovens do Post intensificaram o uso das fontes, e Deep Throat, como eles designavam a uma delas para evitar identificação por nome próprio, tocou num dos pontos mais delicados do problema que consistia na extensão da ligação de Watergate com o Staff de Nixon. O ponto era Haldeman, o mais alto funcionário da Casa Branca, o mais próximo de Nixon. Se ele fosse implicado, não haveria dúvidas sobre o envolvimento de Nixon. Mas Haldeman era considerado intocável, invencível.
Até aí Woodward e Bernstein haviam descoberto a CREEP, uma organização clandestina, destinada aos fundos de campanha, composta porém por pessoas tão simples e tão leais a Nixon, que tudo o que os jornalistas puderam obter foi a comprovação de que muito medo transparecia da parte de qualquer deles em agir contrariamente ao governo. Mas gradualmente chegaram a John Mitchel, e deste a Donald Segretti, que condensara um plano de vários truques sujos de campanha contra os democratas. De Segretti foram levados a Chapin.
Ora, Chapin era um homem de Haldeman, sem dúvida atuava sob as ordens deste, e não faria nada que Haldeman não aprovasse. Woodward e Bernstein estavam certos de que se chegassem a Haldeman, superariam tudo o que havia sido feito antes em matéria de Watergate, e estavam maximamente interessados em atingi-lo, não obstante ser Haldeman o homem mais temido àquela altura em todo os Estados Unidos. Deep Throat pareceu confirmar que Haldeman estava envolvido, e os repórteres foram atrás de Sloan, que a essa altura já havia prestado declaração ao grande júri.
Assim, quando Sloan confirmou que Haldeman estava envolvido, Bernstein e Woodward publicaram que Sloan havia testemunhado contra Haldeman perante o grande júri. E isso não havia acontecido. Sloan havia falado a eles somente, não ao grande júri, sobre Haldeman. O erro se tornou enormemente explorado contra Woodward e Bernstein. Deep Throat estava furioso, e a nação obteve motivos para suspeitar que todo Watergate não passava de uma montagem. Logo depois, Nixon era reeleito.
Mas a essa altura, a CBS havia tomado a decisão de não omitir Watergate. Integra a história interna da CBS, parte da qual já visamos, o quanto a decisão é exemplar da cisão interna ao jornalismo, entre o que pretendem os repórteres e programadores, contrariamente aos interesses dos proprietários e seus editores. A crise dentro da CBS foi intensa, conhecendo-a entendemos porque Halberstam diz que Bill Paley, o proprietário da CBS, gelou quando Kay Graham, numa festa, beijou-o no rosto, por ter ele “nos salvo a todos”.
Porém Halberstam explora habilmente o sucesso de Watergate, que atraiu a atenção do público desde o início.
Assim, mais tarde, o Post se recobrou do fracasso, ainda que não por mérito próprio. Bernstein e Woodward tornaram-se repentinamente heróis nacionais, e o próprio juiz Sirica convidou Woodward para conhecer sua filha. Watergate havia se tornado nacional. Os dois repórteres constataram a imensa competição entre os jornalistas, a multidão amontoada dos empregados de imprensa em torno das possíveis fontes de informação, quando antes tudo havia sido tão solitário. Watergate não era mais apenas uma especulação sobre a honestidade do presidente, era realmente um caso de implicação de todo o status quo.
Mais uma vez a aplicação do método de contato pessoal de Bernstein e Woodward do Post, porém pelo Los Angeles Times, mudou o sentido dos acontecimentos.
Após a saída de Jim McCord da prisão, seguindo o método de abordagem de Jack Nelson, Bob Jackson se aproximou dele como fonte de informação. McCord com efeito revelou documentos que levaram a John Dean, este tão intimamente ligado a Nixon que seria impossível negar o envolvimento do presidente da república. Desde Maio de 1973, Watergate se tornou um caso de repercussão nacional, a história estava “legitimada”, não mais uma fantasia, mas uma realidade. O impeachment se tornou inevitável, mas Nixon preferiu renunciar.
O sucesso custou Dean ao Los Angeles Times. Ele ficara contra Jackson, como se o Times o houvesse apresentado como mero peão dos documentos de McCord. O Post se encarregou de John Dean. Na verdade, Woodward tentava se apossar da testemunha, revelando que tinha conexões com a central de telefonia, pois todas as vezes que McCord mudava o número, Woodward tornava a ligar. Mas Jackson e McCord tinham relações pessoais, e uma ligação de Bob Toth, da Casa Branca, não apenas apresentou as tradicionais negações, mas também comunicados que revelaram a Jackson a confiabilidade da testemunha, e que a Casa Branca havia sido severamente atingida.
A essa altura, a CBS tinha em Watergate um sucesso tão estrondoso, que permitiu a Halberstam motejar uma conhecida teoria europeia dos mass media, segundo a qual é o público que determina a mediocridade dos programas, especialmente os da noite, o horário que coincide com o do jantar e que é o de maior atração, porque desliga a TV se o programa apresentado não for alguns dos seus favoritos, a novela ou o futebol. Inversamente, aqueles espectadores habituais de novelas que primeiro reclamavam que seus programas favoritos estavam sendo tirados logo se tornaram atraídos. Os números estavam muito bons. 
Watergate se tornou mais do que apenas a história de uma degenerescência no governo. Não só um reflexo da mídia na sociedade, Halberstam documenta a íntima relação entre a cobertura do Post em Vietnã e Watergate, e as mudanças históricas na sociedade de Washington, na transição aos anos setenta. Mudanças que inserem os tópicos mais relevantes do conflito social atual, os quais porém ainda não foram equacionados nas visão tradicionais da história.
2) E Ehrlichman?
Foi só depois de ter se desligado da Casa Branca por injunção de Nixon a renunciar, que Ehrlichman se tornou alvo dos processos que o levaram à prisão. A injunção de Nixon na ocasião abrangeu a Haldeman, correspondendo ainda a uma suposta exequível estratégia para manter Nixon incólume, naquela altura dos acontecimentos que vimos acima, em que já Dean estava identificado, prestando declarações que não deixavam mais dúvidas sobre o envolvimento do alto escalão.
A acusação a Ehrlichman procede destas declarações, uma vez que os depoimentos de Dean o comprometiam. Ehrlichman foi ainda acusado de perjúrio, por terem-se constatado contradições entre o seu depoimento e os de Dean.
A crise virou “zona”, conforme a letra do hit clássico de Elis Regina. Logo que a demissão de Ehrlichman foi anunciada publicamente pelo presidente, ele se tornou objeto de inúmeras investigações, entre Washington e Los Angeles, tanto do congresso quanto do FBI. Ele desistiu de contar quantos, após o décimo quinto. Porém o resultado concreto foram dois processos públicos impetrados contra Ehrlichman, relativos aos dois “break-ins” (arrombamentos). O primeiro, do consultório do psiquiatra de Daniel Ellsberg, o dr. Fielding. Neste o juiz foi Gesell. O segundo, da sede do partido democrata no edifício Watergate, tendo por juiz Joe Sirica. Não obstante os dois processos correndo separadamente, Sirica usou o caso Fielding contra Ehrlichman.
Em ambos, Ehrlichman constatou decisões tomadas pelo tribunal apenas visando atrair a atenção da mídia, além de hostilidade contra ele, não obstante haver algumas diferenças no modo como as coisas foram conduzidas pelos dois juízes. A presença da mídia em todo caso foi massiva em todos os dois processos. Ehrlichman se tornou celebridade, sendo reconhecido em todos os lugares, mas não sendo isso algo positivo para ele, ou para os vizinhos de Seattle, onde morava originalmente, a quem a imprensa incomodava.
Nada foi feito por parte da justiça americana contra a mídia, no sentido de defender a integridade da pessoa do réu e a discrição dos procedimentos, pelo contrário. Conforme Ehrlichman, “os inquéritos foram teatro de televisão” (p. 359).
Como vimos acima, o primeiro julgamento teve por objetivo apurar a culpa do arrombamento, em função de Daniel Ellsberg ter publicado documentos do Pentágono relativos ao Vietnã, os quais comprometiam irreversivelmente a versão do governo de que se tratava de uma guerra pela democracia. O governo que estava processando Ellsberg foi, portanto, acusado de ter arrombado o consultório do seu psiquiatra, para obter informações que alterassem o rumo do processo.
Mas foi também, segundo Paulo Francis, acusado de tentar subornar o juiz que estava processando Ellsberg. O que Ehrlichman não comenta. Apenas registra que ele foi comissionado por Nixon para oferecer a este juiz, Byrne, o cargo de diretor do FBI, uma vez que Pat Gray, que até aí ocupava o cargo designado por Nixon, deveria ser substituído por que o senado questionara a nomeação, durante a investigação das acusações do abafamento (“cover-up”) do crime de invasão em Watergate (p. 342).
Na cena reconstituída por Ehrlichman, Byrne aceita entusiasmado a designação, como para algo com que ele sonhava há tempos. Ehrlichman o havia contatado por telefone, sem deixar de argumentar que se o assunto parecesse impróprio, dado ser Byrne juiz do caso Ellsberg, ele estava à vontade para não aceitar o convite do encontro. Conforme o que vimos ser o estilo característico de Ehrlichman, nem por um instante ele considera isso suborno.
Nesse encontro, o próprio Nixon se junta a Ehrlichman e Byrne, instantes depois da oferta e da resposta, para conversar informalmente com Byrne, nem este nem Nixon tocando no assunto da nomeação, enquanto Haldeman filmava toda a cena. Não obstante, mais à frente Ehrlichman informa que o nomeado para o cargo de diretor do FBI foi William Rickelshauss. (p. 356)
Na entrevista que citamos de Ellsberg a Paulo Francis, este observa que a ligação do break-in do consultório do dr. Fielding com Watergate, algo que o fascinava, nunca havia sido analisada profundamente. Ellsberg responde que são a mesma coisa, evidentemente, porém não interessa esclarecer a conexão porque isso seria demonstrar que a mesma corrupção utilizada normalmente quando se trata do imperialismo (política externa) se verifica na política interna americana.”O povo ficaria chocado. Qualquer povo” (op. cit. p.111).
Na verdade, Ehrlichman faz a conexão: “se o arrombamento do consultório do dr. Lewis Fielding, na Califórnia, por Howard Hunt e Gordon Liddy foi o episódio seminal de Watergate, como eu acredito, então os historiadores devem continuar inquirindo sobre suas origens” (p. 364). Ehrlichman anota então as versões que estão em questão: na primeira, versão de David Young, ele é o personagem do alto escalão que autorizou Hunt e Liddy no episódio Ellsberg; na segunda, Charles Colson encorajou Hunt e Liddy, algo bem possível, porque Colson estava sendo acusado de obstrução da justiça por conspirar para difamar Ellsberg.
Para Ehrlichman, parece claro que foram Hunt e Liddy quem primeiro propuseram o plano do arrombamento do consultório. Ele sabe, obviamente, que não foi ele quem autorizou, portanto, “o suspeito logicamente alternativo é Charles Colson. Ele era patrocinador de Hunt, seu confidente e amigo íntimo” (p. 368). Acima já examinamos esse ponto, mas aqui seria preciso aduzir que Ehrlichman não nega ter sido informado do plano de Hunt e Liddy, apesar de não saber sobre o break-in até instantes depois de ter acontecido.
Na realidade foi ele, Ehrlichman, quem aprovou o plano, proposto a ele por David Young e Krogh, este reclamando que o FBI não estava investigando satisfatoriamente. O que, pelo que vimos, seria esperável, Hoover possivelmente ligado a Ellsberg.
Porém Ehrlichman não foi informado de que o plano incluía um “break-in”, somente de que se trataria daqueles agentes “investigarem” Daniel Ellsberg - um plano de “inteligência”, conforme o jargão que Ehrlichman registra. Ehrlichman informou Nixon, que também aprovou o plano, sendo exatamente “ação” como Nixon queria. Ehrlichman comunicou a Krogh o sinal verde, mas com a reserva de que Hunt e Liddy não deviam ser os agentes diretamente envolvidos, para que não houvesse a pista de um serviço secreto do presidente, atuando de dentro da própria Casa Branca.
Depois, Krogh ligou para Ehrlichman, informando de que houvera o break-in no consultório, porém para consulta sobre uma nova proposta de Hunt e Liddy, porque nada foi encontrado, e os arquivos do psiquiatra sobre Ellsberg deviam estar na casa do médico. Krogh perguntava agora a Ehrlichman, se ele queria um novo arrombamento, desta feita na casa de Fielding.
Ehrlichman estava porém chocado com a notícia, algo que ele não esperava. Logo, ordenou que todas as operações de Hunt e Liddy fossem imediatamente suspensas. “Tire-os de lá e jamais os envie de volta”, respondeu ele a Krogh. (p.366)
Hunt e Liddy foram presos, em 1972, como participantes da operação Watergate. A conexão dos mesmos agentes está, portanto, reportada por Ehrlichman. A dupla azarada, Hunt e Liddy, atacou de novo em Watergate, e quis o azar que mais uma vez sua atuação resultasse num fiasco.
Pelo que pude reconstituir, cotejando David Halberstam e Ehrlichman, o que aconteceu em Watergate foi que Hunt e Liddy deviam instalar (ou voltarem para consertar) um microfone oculto na porta da sede dos democratas, enquanto McCord e um grupo de quatro cubanos estavam encarregados de fotografar documentos. Arrombaram a porta, Hunt e Liddy saíram, logo após fazerem o trabalho com o microfone, e o grupo de McCord começou a fotografar. Ocorreu que os dois primeiros fizeram um mau serviço e um zelador do prédio notou o gravador escondido, chamando a polícia. A polícia entrou no prédio devido ao microfone mal oculto, porém assim flagrando McCord e o grupo dos cubanos.
Segundo Halberstam, (p. 846), Joe Califano, advogado do Post e conselheiro geral do comitê Democrático Nacional, ligou na manhã seguinte, sábado, para o jornal, informando o break-in. Woodward foi designado para cobrir o que até aí era apenas uma história policial, registrando a ocorrência de cinco homens presos, quatro cubanos e um americano, às 2:30 da madrugada de 17 de junho de 1972, arrombando a sede do partido democrata.
Woodward compareceu, no mesmo sábado, ao julgamento dos presos. O juiz perguntou a um deles sobre o que fazia para viver, e o homem respondeu “consultor de segurança”. O juiz tornou a indagar: “onde”? A resposta do homem foi “na CIA”. Este homem era McCord.
No domingo, Woodward já secundado por Bernstein na cobertura do caso, este investigava McCord, obtendo com a Associated Press a informação de que ele atuava como coordenador da segurança do comitê de reeleição presidencial. Até aí, a história não tinha muito interesse, segundo Halberstam, mas logo depois tornou-se importante a revelação do repórter policial do Post, Eugene Bachinski. Ele soubera por suas confiáveis fontes na polícia, que com os cubanos foram encontrados dois cadernos de endereços, em um deles constando o nome de Howard Hunt, com uma nota ao lado: “Casa Branca”. Havia também sido encontrado um envelope com um cheque nominal de Hunt, no valor de $ 6.36, de Lakewood Country Club, perto de Rockville.
Simons, o editor do Post que designara Woodward, a essa altura considerava a história fascinante, e se interessava por descobrir a conexão com a Casa Branca. Bem mais tarde, em Julho, o New York Times publicava reportagem sobre ligações telefônicas que comprometiam Gordon Liddy, da CREEP, a “Comissão para Reeleição do Presidente” Nixon.
Na versão de Ehrlichman, Hunt e Liddy foram “apreendidos” em junho - o que pode significar que tenham sido logo relacionados ao caso. Seja como for, no primeiro desfecho do caso, um desfecho aparente, o presidente e a Casa Branca não estavam envolvidos. Tudo terminara com sete homens presos, nenhum deles relacionado ao alto escalão. Hunt e Liddy eram meros free-lancers, sem relação com o alto escalão da Casa Branca. McCord se relacionava com a CIA, não com o staff do presidente Nixon. Este estava reeleito.
Sabemos o que aconteceu depois, de modo que houve um segundo desfecho, no qual Ehrlichman foi condenado por vários crimes, incluindo desde o caso Ellsberg até perjúrio e obstrução da justiça por abafamento do caso Watergate. A imprensa continuou inquirindo e descobrindo histórias, até levarem ao alto escalão da Casa Branca, e ao turning point da identificação de Dean.
Para Ehrlichman, muito do que a imprensa publicou era mentira. Ele identifica várias histórias que arrola como falsas. Quanto ao que era verdade, o enigma histórico permanece. Ao ver de Ehrlichman, a operação poderia ser vista, não obstante os seus próprios escrúpulos, como algo normal, ou ao menos como algo não estranho aos procedimentos de muitos governos, inclusive democratas.
Não obstante afirmar que ficara chocado com a informação do break-in de Fielding, num outro trecho Ehrlichman comenta que para ele Ellsberg foi um traidor dos USA, tendo sido notório que vendera ou cedera cópias das informações secretas à Rússia e Japão (p. 369). Num outro momento, relata que sugerira que suspendessem todas as acusações a Ellsberg, para ridicularizá-lo. Ele iria inutilmente ficar implorando por atenção, dizendo “eu fiz, eu fiz”, mas sem o processo do governo, a imprensa não se interessaria por ele. Este, como vários outros conselhos de Ehrlichman, não foi ouvido.
Aqui ele volta ao momento em que David Young lhe propusera, com Krogh, que Hunt e Liddy fossem à Califórnia. Sendo Young a quem ele desmente como depoente da versão de que aconteceu assim, porém com Ehrlichman sabendo que o plano abrangia o Break-in.
Young e Hunt haviam pedido à Cia um segundo “perfil psicológico” de Ellsberg, mas os psicólogos da CIA responderam que precisavam de mais informação para isso. Até aqui, Ehrlichman dissera que não conhecia Hunt senão por um momento em que o vira com Colson, e que nunca se encontrara com Liddy.
Em todo caso, conforme prossegue Ehrlichman nesta página (369), Hunt e Liddy sabiam que Ellsberg estava tendo auxílio psiquiátrico, e propuseram tentar obter o que a psiquiatria sabia sobre Ellsberg, nutrindo assim os psicólogos da CIA com informação suficiente. A Ehrlichman foi solicitada autorização do plano, e ele a concedeu, porém sem saber que abrangia arrombamento. Não compreendi como ele podia não saber do arrombamento, mas sim que se procurava obter o arquivo do médico.
A estimativa de Ehrlichman, na ocasião da produção do seu livro, era de que quando todas as fitas da Casa Branca estivessem conhecidas, ficaria claro que Hunt e Liddy propuseram um plano de arrombamento a Charles Colson, a proposta específica do arrombamento, que não foi feita a Ehrlichman, sendo necessária para obtenção do dinheiro requisitado para o serviço. E além disso, Colson precisava ser contatado porque Ehrlichman negara a Hunt e Liddy participarem diretamente de qualquer operação secreta para a Casa Branca. Assim, Ehrlichman deduz que Colson deve ter ido diretamente a Nixon para obter a aprovação que Ehrlichman negara (p. 368).
Após o break-in, quanto Ehrlichman soube, de fato ele confessa sua decisão de manter secreto o caso, aduzindo os motivos ideológicos que vimos acima - além de, naturalmente, conforme diz, não saber na ocasião que Nixon pudesse estar pessoalmente envolvido.
Não obtive discernimento sobre como o governo foi implicado neste primeiro caso, do break-in do consultório do psiquiatra de Ellsberg - ao que parece, Ehrlichman não foi processado nos dois casos ao mesmo tempo. Mas quanto ao segundo, os depoimentos de Dean se tornaram um ponto chave não só pelo que ele dizia. Mas porque nessa altura, o sistema de gravação do que era falado na Casa Branca, implementado por Nixon, havia sido descoberto, e as fitas foram requisitadas no processo.
Em todo caso, o enigma histórico cerca o objetivo tão tenazmente perseguido, de envolver o governo. Quem era o inimigo de Nixon? O objetivo não se limita à imprensa - porque as fontes nesse caso foram o fator principal. Para Ehrlichman (p. 360), Deep Throat, o apelido que acima vimos de uma das fontes dos repórteres, era nada menos que Henry Petersen, amigo de Dean e procurador geral da divisão criminal, de modo que segundo Ehrlichman, John Dean era informado sobre quem iria ser visitado pelo FBI (p. 326)
Assim, o FBI, mesmo quando ligado a democratas, parece um dos prováveis apoios da antipatia pessoal de vários clãs de mídia ligados aos republicanos a Nixon, não obstante o partido republicano como um todo o impor. Em todo caso, a meu ver a operação contra Nixon não prejudicou o partido republicano, pelo contrário, a queda de Nixon só favoreceu enormemente ao partido republicano. É certo que os democratas foram eleitos após o interregno de Gerald Ford, o vice que assumiu devido à renúncia de Nixon - Ford concedeu perdão absoluto a Nixon. Porém não parece que Reagan se elegeu apenas porque Carter não foi exitoso na crise do Irã. O partido republicano provara que poderia “limpar a casa” - a mesma expressão que Nixon usou para justificar as demissões que fez com o intuito de se salvar das acusações. Provara não ser algo diferente dos interesses americanos.
    O próprio Nixon não sofreu as consequências, os presos foram os de menor importância, a autoridade do partido permanecia incólume. Na altura de Watergate, como vimos, não havia mais uma linha divisória compreensível, Nixon baralhara as cartas, e não se pode afirmar que apenas o liberal Post estava contra. Otis Chandler, do republicano Los Angeles Times, entre a hostilidade de Haldeman e alguma simpatia de Nixon, o comprova.
Ehrlichman registra várias operações contra ele enquanto réu, sendo Leon Jaworski o promotor no caso Fielding (p362). O testemunho de Nixon, pessoalmente ou filmado, vital para a defesa, não foi autorizado pelo juiz. Os pertences de Ehrlichman na Casa Branca, abrangendo os arquivos pessoais, foram apreendidos, e não foram devolvidos estes arquivos de que ele e os advogados precisavam para organizar sua defesa. Um conselheiro de Nixon, Fred Buzhardt, atrapalhou o recurso da defesa para reaver os arquivos, argumentando que eles não tinham a ver com a defesa. Inversamente, inúmeros documentos constantes nos arquivos seriam úteis, conforme Ehrlichman. Buzhardt sofreu um ataque do coração pouco depois.
Houve ilegalidade na escolha do júri por Sirica, segundo Ehrlichman, inclusive um dos jurados protestou não ser adequado para o caso por questões pessoais. A ignorância de Ehrlichman sobre o arrombamento planejado no caso Ellsberg foi confirmada a princípio por Krogh, inclusive por um afidavit contendo a referência de que Ehrlichman não sabia do break-in, mas Krogh foi posto por Jaworski numa cadeia de Maryland com alguns negros forçudos, de modo que depois disso os depoimentos dele se tornaram contraditórios (p. 365).
Por outro lado, o conteúdo das fitas gravadas, como um pivô da acusação no caso Watergate, não era de fato bem audível. Uma transcrição oficial foi feita, porém por pessoas que não conheciam o staff, e o resultado foi que o texto atribuía falas a pessoas erradas, confundindo frequentemente Ehrlichman com outros, atribuindo a ele, assim, ditos que não lhe pertenciam. Algumas palavras não eram de modo algum audíveis, mas na transcrição não apareciam as lacunas. Ehrlichman examinou as fitas e o texto. Reconstitui assim muito do que foi falsamente atribuído no processo, algo que integra a sua exposição dos acontecimentos, vistos pelo ângulo interno à Casa Branca. Essa reconstituição é importante, porque mostra o quanto Nixon mentiu, relativamente a Ehrlichman.
O pivô da acusação a Nixon é uma conversa entre Nixon e Haldeman, logo depois do break-in em Watergate. Nessa conversa, eles planejam convocar dois altos funcionários da CIA (Helms e V. Walters) para contatar Pat Gray, então dado como diretor do FBI, com o objetivo de sustar a investigação de Watergate pelo FBI. Na conversa, fica claro que o objetivo era proteger Hunt da investigação, temendo-se que ele levasse ao alto escalão.
Haldeman é ouvido dizer que se devia proteger a CIA conforme conselho de Ehrlichman, mas este afirma não ter jamais aconselhado nesse sentido, nem ter sabido desta conversa, antes.
Contudo, Ehrlichman foi convocado à reunião da Cia com Pat Gray. Ehrlichman participa assim da reunião sem compreender ao certo o conteúdo dos pronunciamentos. Ele só veio a compreender quando examinava as fitas. Mas Ehrlichman, por outro lado, afirma ter sabido logo após a notícia de Watergate, de um levantamento de fundos na Casa Branca para ajudar na defesa de Hunt. Inclusive, de que Hunt pretendera mais dinheiro para não implicar Ehrlichman - que não se incomodou na época, confiando na própria inocência, e na de Nixon.
Durante a reunião, o que se disse não revelava a cobertura a Hunt, mas sim que o FBI não devia investigar a proveniência do “dinheiro mexicano”, porque o processo poderia levar a revelações de segredos da Cia - neste caso, explicitamente referenciados o assassinato de Dim Diem e o conhecido fiasco na Baía dos Porcos, ambos os itens relacionados à administração Kennedy.
O assassinato de Dim Diem por Kennedy é reportado em Cl. Julien (op. cit., p. 440). Ele foi apoiado no Vietnã pelos USA, porém aconselhada uma abertura política, negou que o pudesse fazê-lo mantendo-se no governo. Logo, que o Vietnã do sul era uma ditadura, não há dúvida de que independente de Ellsberg os USA sabiam há muito.
A desculpa foi aceita, malgrado o aconselhado por Landsdale, que assim perdeu crédito na Cia, porém não aceita por todos. E segundo Julien, a CIA esperou pelo governo de Kennedy, quando um dos agentes se encarregou do assassinato de Dim no Vietnã. Na referência de Ehrlichman, parece que há evidências de que o fiasco na invasão dos USA à Cuba não foi casual, de modo que Kennedy teria sido realmente o responsável. Lembrando o que observou Vicentino (História geral, São Paulo, Scipione, 1997, p.405) a propósito, o plano de invasão a Cuba para derrubar Fidel Castro, foi elaborado pela CIA durante a administração de Eisenhower. Não na de Kennedy, que ainda assim teve que admitir o fracasso quando ocorreu a operação.
Em todo caso, todas essas referências encobriram, na reunião com Pat Gray, o verdadeiro motivo da solicitação da Cia ao FBI para não levar à frente as investigações de Watergate, solicitação mediada pela Casa Branca. Ehrlichman acreditou no que ouvia nessa reunião de 23 de junho, dias após o break-in. Porém ele descobriu que Colson mentira a propósito de Hunt. Este estava registrado, sim, na Casa Branca. Além disso, constatou que no escritório de Hunt havia um cofre. Ehrlichman sugere a Dean que ele se aposse do conteúdo do cofre, registre e arquive o que encontrasse. De fato, alguns dos papeis de Hunt acabaram nas mãos de Pat Gray, para arquivo, mas Gray os destruiu. Haldeman acusou depois a Ehrlichman de ter ordenado a destruição dos papeis, o que este nega.
Em todo caso, Ehrlichman continuou pensando que se tratava apenas de esconder os “segredos da Cia”, na injunção a Gray. Mesmo quando Nixon, após a reunião, teve uma conversa telefônica com Gray, e pela reação de Nixon logo após, Ehrlichman tenha se convencido de que Nixon não estava tranquilo, que temia o FBI ainda que Gray tivesse apenas comunicado que não iria investigar, para proteger a CIA.
Ouvindo as fitas, inclusive das conversas de Nixon e Haldeman, antes e depois da reunião, quando ficou claro que o objetivo era proteger Hunt, Ehrlichman ficou furioso. Além disso, nas memórias de Nixon ficou registrado que ele temia que a investigação levasse à CREEP.
Mas isso não ajudou Ehrlichman a provar sua inocência. Pelo contrário, foi imputado a Ehrlichman, acreditando-se nas acusações de Dean e nas duvidosas transcrições das fitas: co-conspiração por ter autorizado levantamento de fundos para os arrombadores, perjúrio ao tribunal, aconselhar Nixon a mentir, aconselhar o abafamento de Watergate, aconselhar a fuga de Hunt do país, saber do sistema das fitas, mentir sobre o que revelaram as fitas.
Assim que Nixon assumiu o segundo mandato, Ehrlichman foi afastado de qualquer conexão com Watergate. O presidente anunciara medidas impopulares: aumento de impostos, corte nas despesas do governo, revogar leis que impedissem seus programas de governo, substituir todos os funcionários da burocracia por pessoal da confiança de Nixon, subordinar a política interna (economia e política racial) aos interesses do Executivo. E ao longo dos acontecimentos, a doutrina Nixon do privilégio do Executivo, de modo que somente o presidente informaria sobre o caso ao congresso, os auxiliares não precisariam testemunhar.
Com efeito, logo depois da reeleição, Nixon reuniu todo o pessoal ligado à burocracia da Casa Branca e agências, agradeceu profusamente os seus auxílios, e em seguida Haldeman foi ouvido demitindo a todos conjuntamente.
Porém o Congresso fez passar logo em seguida, o orçamento da despesa para melhorar a qualidade da água, antes vetado por Nixon, enquanto a imprensa redobrava as histórias ligadas a Watergate e aos fundos ilegais de campanha. Os democratas obtiveram então no senado um comitê de investigação sobre Watergate. Sam Erwin desponta como aguerrido investigador, não se deixando cooptar em quaisquer das tentativas do staff Nixon. A partir desse ponto, a Casa Branca se tornara porta-voz apenas de seguidas negações das histórias da imprensa, cada negação desafiada pelo que se descobria a seguir.
A doutrina Nixon do privilégio do Executivo não funcionou, e a certa altura, Ehrlichman e Haldeman foram encarregados por Nixon, de investigar sobre o que realmente havia acontecido. O apurado por Haldeman não teve repercussão por que segundo Ehrlichman, pode não ter sido recebido por Nixon. Ehrlichman, em seu próprio documento, reconstitui as responsabilidades desde Hunt e Liddy até Jeb Magruder da Casa Branca.
Logo que Ehrlichman completara o documento de sua investigação que devia apresentar a Nixon, o próprio Magruder se dirigiu a Ehrlichman e o informou da responsabilidade pessoal no caso. A oferta do plano de Hunt e Liddy foram feitas a Mitchel por Magruder e La Rue na Flórida, e depois Dean subornou Magruder para mentir, assim como para destruir o seu “diário”.
Ehrlichman se encaminhou imediatamente a Nixon, para informar do apurado. Então Nixon recusou-se a ouvir Ehrlichman, ou mesmo a tomar conhecimento do conteúdo do documento da apuração dos fatos. Nixon, juntamente com Petersen, ouviram, inversamente, a Dean, que mentiu sobre Ehrlichman, afirmando que ele conhecera antes o plano.
Somente nesse ponto Ehrlichman se torna preocupado com o rumo dos acontecimentos. Ele entende que Nixon perdera o controle da situação, que estava temeroso sobre o que podia revelar o conteúdo do cofre de Hunt na Casa Branca, antes de saber que Pat Gray destruíra os papéis. Ehrlichman notifica Nixon de que as declarações de Dean na imprensa poderiam levar ao impeachment. Ao invés de clemência, como requisitara Ehrlichman, Nixon requisita que ele renuncie ao cargo, junto com Haldeman. A essa altura, Ehrlichman aparecia acusado nas histórias da imprensa relacionadas a Dean, e o Los Angeles Times circulou uma nota falsa sobre Ehrlichman fazendo favor ilegal a Robert Vesco, um contribuinte da campanha de Nixon.
Nas duas versões, de Magruder e de Ehrlichman, as informações que Hunt e Liddy ofereciam obter para a Casa Branca, com possível colaboração do pessoal do Creep e Sloan levantando fundos, foram primeiro interessantes a John Mitchel. Ehrlichman soubera por Dean que Mitchel, inversamente, havia recusado um plano ridículo, como infiltrar prostitutas e iates na convenção dos democratas, para fins de escândalo. Mas depois revelaram-se inúteis. Outros planos foram oferecidos, mas eram muito caros.
Na versão de Ehrlichman sobre o verdadeiro plano aprovado, o resultado foi inicialmente nulo porque o aparelho de escuta era defeituoso, então o plano foi sustado por Mitchel. Mas por conta própria Hunt e Liddy voltaram ao local do crime, para consertar o aparelho e colher mais documentação - nesta versão, a escuta clandestina havia sido instalada primeiro em maio.
Sobre o sistema das fitas na Casa Branca, Nixon dissera a Ehrlichman que gravava menos que Kennedy, que frequentemente os governos o faziam, e que, quanto a ele mesmo, quando se tratava de escuta clandestina, seu governo só estava interessado em informações relativas a grupos estrangeiros em contato com subversivos. Vimos acima que Mitchel foi implicado na investigação da imprensa, o que era esperável devido à ligação com Liddy. Mitchel foi na ocasião afastado da campanha da reeleição, Macgregor tendo-o substituído.
Quando depois Nixon pediu a renúncia de Ehrlichman e Haldeman, a cena que Ehrlichman reconstitui é porém extremamente emotiva. Nixon chora, assim como o próprio Ehrlichman. A injunção é absolutamente além do que Nixon queria, afirmara este. Após mais um encontro com Nixon, em que Ehrlichman não se mostra mais tão confiante nele como até então, nunca mais Ehrlichman esteve com Richard Nixon pessoalmente. Como sabemos, a culpa de Nixon foi apurada, e Ehrlichman estava o tempo todo, e até durante o processo quando ainda o negava convictamente, enganado.
Ehrlichman esteve preso em Sanford, Arizona, por dezoito meses. Foi cassada a autorização para atuar como advogado, e durante algum tempo ele e a família sobreviveram da contribuição de amigos, além de economias. Durante o processo, se divorciou da esposa. Recebeu apoio de muitos americanos que lhe visitaram na prisão ou escreveram cartas encorajadoras. Como cristão, tornou-se mais fervoroso durante a crise. Retornou da prisão fixando-se em Santa Fé.
e) A Modernização
A cobertura do Vietnã pelo Post não foi um evento decisivo historicamente. Naquele momento, o New York Times ainda era o modelo, e de fato o jornal ganhou dois Pulitzers pelo Vietnã, seus heróis em campo tornaram-se lendários, como Johny Apple, Neil Sheehan, Charles Mohor.
Bradlee não se interessava particularmente pelo Vietnã, ainda que o Post tivesse em Ward Just um correspondente notável. Ele foi um herói na guerra, ferido na batalha, exigindo ser tratado depois dos outros pelo fato dos soldados serem mais necessários, ganhando assim reputação entre os militares. Mas Ward era um romancista, o que lhe interessava era ser o Hemingway do Vietnã, captando todos os aspectos da bravura humana em situações singulares, porém não os aspectos políticos. E o Vietnã era realmente político, o que o Post não admitia revelar. As histórias de Ward eram pequenos romances, mas a história real, a que informaria da situação concreta seria uma que mostrasse ser o Vietnã para os USA um capítulo da bravura perdida, totalmente inútil.
Não foi o Vietnã que serviu de teatro interno para Bradlee derrubar Wiggins, apoiando-se na completa devoção de Kay à sua liderança. Assim Kay até mesmo superou algo do seu conservantismo, aceitando o segundo casamento de Bradlee - na realidade ela não havia aprovado Tony, a primeira esposa, mas gostado de Sally. A amizade de Bradlee a fazia sorrir, como antes Phil, mas a fazia sentir-se moça, descompromissada, mais do que Phil.
É interessante que Sally Quinn seja lembrada por Ehrlichman, à página 58 do “Witness to Power”, como um exemplo da nulidade da imprensa como veículo de informação segura, ao invés de simples amplificação de opiniões vulgares. Ela escrevera uma nota no Washington Post, em inícios dos anos setenta, sobre o engano de um alto oficial da Casa Branca, que ao ser indagado sobre a personalidade de Haldeman, respondeu com uma série de características para depois ligar desculpando-se porque havia falado na verdade de Ehrlichman. Sally continua porém informando que tal engano era compreensível, uma vez que Ehrlichman e Haldeman eram colegas de quarto na universidade, o que vimos ser verdadeiro, porém, a partir daí, ela começa a listar uma série de características que seriam comuns a ambos, as quais Ehrlichman se põe a desmentir.
Ao invés do que Sally disse, Ehrlichman informa que ele não era republicano nos tempos de universidade, somente Haldeman o era; que este não era cientista cristão, somente Ehrlichman, que também era o único dos dois que não bebia nem fumava. Ehrlichman lembra que esse tipo de erro foi comum por todo o tempo do governo Nixon, e que o próprio Nixon tinha dificuldade em chama-lo pelo nome porque o confundia com o de Haldeman. Em 198O, quando Nixon enviou a Ehrlichman o “The Real War”, de sua autoria, na dedicatória grafou “for John Erlichman”.
A princípio Kay estava embaraçada sobre como se inteirar não somente dos negócios, mas dos próprios assuntos que moviam o interesse dos que publicavam no Post, e Walter Lippman, um dos jornalistas considerados intelectuais do Post a aconselhou a não se intimidar, a convidar os repórteres para absorver informações deles, apenas transformando os assuntos em temas de conversação, superando assim a barreira dos arcanos de conhecimentos técnicos.
Isso funcionou bem, e quando ela escolheu Ben Bradlee para editor, a combinação revelou-se exitosa porque Bradlee estava justamente interessado num jornalismo não acadêmico, numa modernização que se sublevasse contra aquilo para o que ele não tinha paciência, o trabalho sério, lento, tenaz - conforme os adjetivos de Halberstam. Para quem o “jornalismo, com sua adoração do novo às expensas do antigo, era exatamente assim” (p. 749).
Se alguém contesta a definição do jornalismo assim apresentada, não é que não tivesse pares que o apoiassem. Dessa forma, Halberstam voluntariamente se alinha numa das partes do conflito que estava de fato ocorrendo, entre a modernização de Bradlee e o domínio já estabelecido de Wiggins. Ainda que Halberstam tenha coberto com cuidado a parte que saiu perdendo na história, especialmente Walter Lippman, e mostrando como isso ocorrera de um modo tão injusto. Principalmente como ocorrera de um modo tão generalizado, não apenas o interior do jornal, mas a própria inteira cidade de Washington. Tudo o que podia agora ser alinhado com Wiggins como representante da mentalidade de Phil Graham estava sendo excluído. Mas a luta pela modernização no interior do Post era o foco do que repercutia em Washington, e Lippman, que não concentrava nenhuma simpatia pela dominação férrea de Wiggins, ou pela guerra de posição, sofreu um ostracismo penoso, não só porque ele havia sido o homem de Phil, mas por que ele havia mudado de ideia a propósito do Vietnã, e se tornado crítico da guerra.
Lyndon Johnson tornou-se inimigo de Walter Lippman, e a linha do Post não estava contra a guerra. Ele enfrentou a batalha simplesmente abandonando a sua querida Washington, onde antes havia sido tão feliz, onde suas festas antes haviam atraído tantas pessoas importantes, na verdade o critério de quem era importante era até aí ser o convidado de Lippman. Ele abandonou a cidade depois que suas festas já tinham mudado de personagens convidados, não eram mais os antigos amigos, ou os grandes personagens, mas apenas todos aqueles que estavam contra a guerra. Lippman tentou se adaptar em New York, mas não conseguiu com um apartamento, apenas quando transferiu-se como hóspede permanente a um hotel.
A cidade de Washington não trazia mais prazer, tornara-se fria, pesada. Havia claramente perseguição política de pessoas. Como se exemplifica pelo fato do governo, ainda que antes de Lippman ficar contra a guerra do Vietnã Johnson tivesse sido seu amigo, expressamente o marcar como inimigo político da administração.
Um pouco mais de tempo seria necessário para a opinião pública se tornar anti-guerra, muito mais revelações das atrocidades do exército americano, ou da precariedade das condições da luta, ou das mentiras do governo à nação. Em todo caso, aqueles foram anos em que a situação política e social tornara-se complexa porque Lyndon Johnson polarizava duas posições ao mesmo tempo, o apoio à guerra do Vietnã e o apoio à questão racial - nisso inteiramente contrário a Nixon, que segundo Ehrlichman, acreditava pessoalmente na inferioridade mental do negro.
Segundo Halberstam, porém, o compromisso das pessoas esclarecidas com a questão racial estava declinando. Ainda que Halberstam não o deduza, uma leitura de Ehrlichman em conexão com o que ele revela sobre a mudança em questão parece autorizar supor ver aí uma causa da eleição de Nixon. Em todo caso, é o pivô da oposição de Bradlee a Wiggins, este braço de Johnson no Post, um pivô do que para Bradlee definia a modernização. A questão racial pertencia ao antigo, não ao novo, e assim se definia gradualmente o contexto da modernização enquanto se aproximavam os anos setenta. Já havia acontecido a integração, mudanças sociais correlatas já haviam sido implementadas, mas novos problemas sociais foram criados em decorrência.
O que era considerado antigo agora era a atitude de alinhamento unilateral com a causa racial assim como ela podia ser suportada antes das mudanças, ou seja, uma atitude de simples recusa de se conscientizar dos novos problemas. Wiggins começou a ter que censurar histórias trazidas pelos repórteres, à medida que os conflitos de rua não eram minimizados pelas medidas de integração. Como a de uma sublevação de rua depois de um jogo de futebol americano entre times de brancos e de negros. Ou da migração de brancos das cidades do interior por causa dos problemas criados nas escolas pela integração de alunos negros, uma história que vinha da reportagem feita no próprio departamento de saúde.
O ponto da ruptura entre Bradlee e Wiggins expressou-se na briga em torno de uma foto, revelando um homem branco, no interior de uma loja de roupas, com uma espingarda na mão, esperando, devido ao caos pelo atentado a King, “página 1”, ordenava Bradlee, “não”, contestava Wiggins. A foto saiu na página 1, mas não com a amplitude que Bradlee desejava (p. 755).
A meu ver temos aí a origem, não tanto de uma regressão na trajetória da superação do conflito social, mas do que está hoje muito expandido na televisão norte-americana, internacionalizada pela tecnologia, como o apartheid etário - contra os idosos, ao contrário do cinismo dos search de internet, que põem sites defendendo jovens quando se pesquisa a expressão “apartheid etário”, com se as vítimas fossem eles. Quando se pesquisa “terceira idade”, nas páginas do “search” , o Google, ao lado da lista dos sites adiciona uma nota gênero enciclopédia, constando nas “palavras associadas” , apenas “morte”, “mal de alzenheimer”, “velhice”.
Atualmente o Brasil protagoniza a triste radicalização desse sócio-apartheidismo, que se irradia pela televisão internacional como obsessão do romance do homem velho com a menina nova, a exclusão total da “mulher”, a partir de campanhas fascistas como a que apregoa que com a crise econômica o pagamento de aposentadorias só poderá ser feito com a imposição de uma taxa a toda a população. O que é calúnia, uma vez que as aposentadorias são pagas com os depósitos feitos pelo próprio trabalhador antes de se aposentar por um período muito longo de tempo, mais de trinta anos de contribuição (nota em 2017: o governo, que desde há um ano está atrasando sistematicamente por meses todos os salários dos funcionários públicos, aumentou o desconto para 14% do salário mensal).
O governo ainda na vigência do “pt”, indo à televisão para dizer que as aposentadorias atrasadas só poderiam ser pagas “tirando” de outros quesitos, assim jogando a população contra as pessoas mais velhas, o que estão fazendo por vários meios, também não lembra de informar que o retorno do desconto para aposentadoria só ocorre se o pagamento não for interrompido antes por qualquer motivo, neste caso não resulta o montante do que pagaram por anos senão na apropriação pelo governo. Apresenta este as coisas como se a aposentadoria dos idosos fosse uma esmola arrancada dos trabalhadores que estão atualmente na ativa.
O governo, pretensamente “trabalhista” mas na realidade seguindo os Friedman e Haekel do neoliberalismo econômico, age como aquela mulher que conheci dos tempos de Reagan, que ao casar com um rapaz divorciado de uma mocinha de pouco mais de quinze anos, com uma filha no colo, reclamava que esta aceitasse pensão dele como “esmola” - sem notar que mesmo que quisesse a moça não poderia recusar a pensão, que não era para ela, e sim para a filha, uma vez que essa moça não requerera pensão para si, e o juiz apenas destinou a que era devido ao bebê de colo. Depois, quando a menina cresceu um pouco, a madrasta mudou de tática, passando a exigir que ela chamasse a madrasta de mãe. Ao entrar na adolescência, a menina manifestou sintomas, tendo sido diagnosticada esquizofrênica. Mas a essa altura também a primeira madrasta já havia há muito se divorciado do pai, por ter descoberto a infidelidade dele - o qual já se “casou” dezenas de vezes desde aí.
Assim comprova-se que doutrinas ditas científicas como o neoliberalismo de Friedman não passam de mesma coisa que comportamentos maníacos de doentes impingindo doença às pessoas. Por outro lado há realmente o problema de meninas novas que estão, atualmente, seguindo a propaganda televisiva, se casando com homens idosos, aposentados, colocando o problema da pensão para o Estado, pois não são mulheres idosas como os que se aposentam.
Se ao longo do século XIX a modernidade originou o abuso de indivíduos que a cada geração, se supondo donos da verdade não são mais que assassinos da verdade anterior, o quadro que estudamos da evolução do conflito social nos USA é mais efetivo da patologia social como origem.
As cidades tem se tornado desde então antros de delinquência juvenil, os muros todos imundos de poluição visual, todos os dias se acrescem de imagens aberrantes, palavrões, violência dos direitos a partir de intrusão digital, neonazismo, etc. A partir dos anos noventa, a integração racial no próprio partido republicano acabou com todo o sentido possível na atribuição de linha política definida apenas pela causa racial.
A repressão no Brasil, na campanha nazista da mídia (“drogas nem morto”) de Bush a Clinton, campanha de milhões de dólares, massificada por todos os menores meios impressos, das capas de caderno escolares até propagandas totalmente aversivas à consciência humana, foi feita concomitante à inculcação da ideologia do negro puro, contra jovens brancos que para efeitos de roubo de propriedade para apaniguados políticos, eram caluniados ou meramente associados com o uso de drogas. Porém essa campanha apenas cumpriu objetivo de implementar pelo fascínio terrorista de mídia o neoliberalismo econômico oficial. Não ocorreu qualquer minoração do problema do crime organizado - bem pelo contrário, intensificou-se enormemente na década de 2000.
O próprio Halberstam indulge nisso, como já acentuei, ao contrário de Ehrlichman, que publicou a carta de Noyer, do Star, a Nixon. Uma carta amigável, de alguém que sabia gozar das boas relações com o presidente, mas contendo críticas, tais como a de que muitas pessoas ainda em boas condições de trabalho, alta performance intelectual e que sabiam lidar bem com os problemas, estavam sendo deslocadas por pessoas apenas porque eram da nova escola de administração, cujos instintos eram simplesmente de deixar as coisas seguirem por si só. “Eu acho que esse é um comentário crítico razoável, sem implicações severas”, ajunta Noyer, citado por Ehrlichman, que considerava tais críticas como importantes (p. 306).
Mas Nixon não as acatou e a modernização na acepção de simples substituição de pessoas, cortando nomeações com ligações estratégicas apenas por questões etárias, seguiu conforme o que ele já havia planejado. O que o próprio capitalismo a essa altura não estava fazendo, como informa Cl. Julien, registrando que generais do exército americano aposentados eram pagos regiamente por multinacionais interessadas nas ligações deles com pessoas que pudessem obter as permissões necessárias para o que fosse considerado oportuno aos negócios.
Assim vemos que o Post prestou mais serviços a Nixon do que talvez pudesse se conscientizar, lutando contra os ideais de patriotismo que fizeram de Johnson herói contra o comunismo vietnamita, o que Nixon não tencionava ser e o que significava estar diretamente contra Wiggins; atuando contra radicalismos da causa racial, como algo que Johnson igualmente protagonizava, e assim se colocando diretamente contra Ben Gilbert, o promotor da causa racial no Post dos tempos de Phil. Ou promovendo a ideia da modernização na base de uma simples exclusão de pessoas.
Foi Watergate, contudo, que simbolizou a tomada do poder por Bradlee, este homem que queria tanto ter sido um judeu (o que ele não era), e isso num momento em que os negócios do Post estavam mudando para operar como sociedade anônima. Uma mudança que Kay não queria, que a assustava porque para ela tratava-se sempre de manter o negócio em família, porém, como Otis Chandler a aconselhou, ele mesmo já tendo feito o mesmo, não era uma questão de escolha, era o que determinava o mercado.
Assim porém Bradlee teve que renunciar ao cargo para não revelar o montante do salário, o que teria que fazer conforme as regras do mercado aberto. A essa altura, ele ganhava em torno de 100.000 dólares. A empresa gastara também milhões de dólares com advogados, para defender-se contra os processos do governo.
Ao contrário do que temia, Kay revelou-se um sucesso em Wall Street, não obstante ela ter temido o relacionamento com os homens de negócios, que não eram do mesmo feitio ou mentalidade que seus repórteres e editores. Ela os agradou, ainda assim, tornando-se uma mulher requestada entre os integrantes do clube fechado dos grandes magnatas norte-americanos. A essa altura, pouca gente detinha tanto poder em Washington como Kay Graham, não obstante ao longo do drama jornalístico de Watergate, ela e seus repórteres estarem sendo tratados como párias por toda uma facção na cidade, entre a imprensa leal a Nixon e os nixonianos eles mesmos.
Porém, se Watergate obteve para Ben Bradlee o que ele realmente queria, a vitória contra Wiggins, como vimos a glória do Post não foi totalmente imerecida, porém não inteiramente devida como a algum atuante único na história. O Los Angeles Times teve atuação decisiva, mas a essa altura, o peso na balança foi de fato contado pelas decisões tendo curso na CBS.
4- A Escalada da Violência
a) O Cômputo das Consequências
Hoje nós conhecemos o horror da dominação da mídia na vida cotidiana, a partir da perseguição fatal a pessoas privadas, como Michael Jackson e Lady Diana Spencer; a partir do uso indecente de imagens extorquidas do cotidiano dos cidadãos que não tem governo para defende-los porque são governos dispostos pelos aparatos de mídia, associados ao capital de mídia; a partir da distorção sistemática da informação, calúnias, imposição de modelos podres, eliminação de pessoas comuns pelo banditismo da mídia; a partir do terror tecnológico, a lavagem cerebral por dispositivos aversivos à escrita, totalmente desrespeitosos à subjetividade e sabotadores do exercício pensante subjetivo, com o fim da legalidade pela entrega dos documentos públicos a impérios de firmas privadas, total avassalamento dos direitos das pessoas físicas, como decorrente do monopólio da microsoft no Brasil, a devassidão da venda de aparelhos intrusados por criminosos.
A escalada da violência da mídia, configurando o que hoje está definido como dominação planetária do capitalismo info-midiático, teve porém origens singelas, não começou como um plano orientado.
b) Trajetória da CBS
A trajetória da CBS se inicia com o século XX, quando Isaac Paley, um judeu russo imigrando aos Estados Unidos, sonha construir para o filho uma riqueza invejável. Próspero na Rússia, mas descontente com as restrições que sofria oriundas do anti-semitismo europeu, ele não conseguiu o que pensava obter nos USA, e o filho, Sam Paley, teve que trabalhar muito, ao invés de ser um mimado scholar.
Porém esse filho pôde, quando ele mesmo se tornou pai, dotar o seu próprio filho da fortuna que precisava para escolher como queria sua carreira. Sam Paley tornara-se um grande homem de negócios, um self-made-man milionário, exitoso na indústria de cigarros. Seu filho, Bill Paley, pôde estudar nos melhores colégios dos Estados Unidos.
O neto do imigrante russo revelou -se porém talentoso no rádio, apresentando um programa chamado Miss La Palina - naturalmente, o nome derivado dos cigarros do pai, o nome da família. O pai não acreditava no rádio, já havia tentado e não dera certo. Mas as pessoas começaram a perguntar a ele, nas ruas, porque havia sustado o Miss La Palina, e ele quis checar com o filho o segredo do sucesso.
O rapaz havia apenas empregado uma boa cantora e uma orquestra, aplicando não conhecimentos especializados, mas sua experiência de ouvinte dos programas exitosos, algo que ele havia acumulado. Ao contrário do pai que investira milhares de dólares na propaganda do cigarro no rádio, sem sucesso, com poucos dólares o filho obtivera enorme êxito, aumentando as vendas do cigarro devido à propaganda durante o programa.
O pai comprou assim o que era necessário para o filho, Bill Paley, iniciar uma companhia de rádio duradoura, que marcou época na história dos Estados Unidos, e que mais tarde se tornou a CBS Televisão. O negócio dos cigarros foi vendido a bom preço depois da grande depressão, e o investimento em rádio tornou-se um negócio maior que o dos cigarros.
A trajetória da CBS ilumina muito sobre as relações do business de mídia com o grande capital e a trajetória política do governo americano. Mas até 1945, o que se pode constatar da convergência entre os mass-media e a história política nada tem de desabonador para o business da CBS. Inversamente, na segunda guerra mundial a CBS foi um canal importante da união da nação, um marco histórico na formação da consciência do país.
A contratação de Edward Murrow foi o acontecimento decisivo. Conforme Halberstam, se Murrow é historicamente o responsável pela moralização da cadeia de transmissão em massa e tornou o rádio jornalisticamente respeitável, nessa época a televisão ainda não o era, e Murrow também se tornou o responsável pela moralização da televisão, aventurando-se corajosamente, indo de uma posição confortável no rádio para inovar o trabalho em TV.
O homem Ed Murrow, na expressão de Halberstam, “era mais um educador que um jornalista, e cuja carreira e a tecnologia da qual fez parte foram um dos condutores da transformação da América, de uma sonolenta nação isolacionista pós-depressão, a maior superpotência internacional.” (p. 59)
De fato, a voz de Ed Murrow foi a ligação dos americanos com a Europa, desde a tomada da Áustria pelos alemães em 1938, quando Murrow, da Áustria, anunciava para milhões de ouvintes: “esta foi designada uma conquista sem sangue, e em certo sentido isso é verdade, mas eu gostaria de poder esquecer o aspecto assombrado dos rostos daquelas pessoas na imensa fila nos bancos e agências de viagem. As pessoas tentando ir embora. Eu gostaria de esquecer o aspecto de cansaço vão dos oficiais do exército austríacos, o ruído surdo dos tacões das botas, a destruição dos tanques de manhã na Ringstrasse, e as lamentáveis confusão e incerteza daqueles forçados a levantar a mão direita e gritar “Hy Hitler” pela primeira vez. Eu gostaria de esquecer o som do vidro quebrando enquanto as ruas delojas de judeus eram patrulhadas, os clamores e as chacotas dirigidas àqueles forçados a limpar a calçada”. (p. 66)
Hoje podemos questionar que a história fosse apresentada como algo que devesse ser esquecido, antes que aquilo que precisamos vitalmente que seja sempre mais revelado e conhecido, de modo que o neonazismo atual não possa contar com a ignorância do público a propósito dos campos de concentração e inominável violência racial. Na Europa, com efeito, multiplicaram-se os monumentos em homenagem às vítimas raciais da Guerra, para que o tempo não o oblitere, como o “Monumento aos Heróis do Gueto”, em Budapeste. Porém podemos compreender a força impactante que movia o locutor, perante um horror para o qual ninguém educado pelo mito da modernidade ocidental havia sido preparado.
Todas as noites, enquanto Hitler estragava a paz do mundo inteiro, a história chegava à América pelo rádio. Em New York, Kaltenborn, ancorando o show, vinha e anunciava: “Chamando Ed Murrow, chamando Ed Murrow...”.
Uma década antes de Ed Murrow, como o que conduziu à sua contratação, o interesse de Paley pela moralização do jornalismo havia sido despertado pelo trabalho de Ed Klauber. Conforme Halbertam, “Klauber educou Paley a propósito da importância das notícias, mas apenas porque Paley queria ser educado.” (p. 53)
Antes de 1930, quando Klauber foi para a CBS, o ramo de notícias no rádio estava totalmente corrompido, existia apenas como um pretexto para a propaganda (“advertising”). Klauber transferiu os conhecimentos que acumulara atuando no ramo de notícias em jornal de elite para este novo meio com alcance de massas, tornando possível a vinda de Murrow e seus repórteres.
Klauber foi exceção num meio de imprensa escrita, porque ele não se mostrou automaticamente hostil ao rádio, não se importava com o dano potencial que a propaganda poderia causar por vender produtos pelo rádio. Ele pensava que as pessoas tinham condições de decidir sobre o que lhes era apresentado como produtos para comprar, pois era o que conheciam por experiência própria, e que elas não iriam comprar coisas sem qualidade apenas porque estavam sendo oferecidas por algum tempo no rádio. Mas jornalismo não era a mesma coisa, as pessoas comuns não podiam julgar sobre o que não cabia na sua experiência cotidiana, sobre as pessoas, assuntos, lugares e eventos com que o jornalismo lidava. Assim as pessoas comuns não estavam preparadas para julgar o jornalismo.
Na opinião de Halberstam, sem Klauber o rádio na América iria rapidamente degenerar numa tal vacuidade que finalmente se tornaria um sistema controlado pelo governo, assim como o sistema francês - o que Halberstam sempre desaprova. Ou então iria se limitar a programas de notícias de tipo Walter Winchell. Halberstam afirma que pelo trabalho de Klauber na rádio CBS, em uma década o nível de integridade e inteligência desta ultrapassava o da imprensa tradicional americana em 90%.
Fred Friendly, contratado pela CBS para perpetuar a linha de Klauber, e que depois se tornou intimamente associado a Ed Murrow, explicava aos repórteres que eles deviam esclarecer ao público, como analistas, o conteúdo das notícias obtidas com as fontes. Eles deviam mostrar os fatos pelos dois lados, mostrar contradições relativas ao que já se sabia antes, e assim por diante.
Eles deviam estar conscientes, sobretudo, de que numa democracia as pessoas não devem apenas saber, mas compreender o que sabem, avaliar e julgar, mas não deviam eles mesmos julgar pelo público.
Para exemplificar a atuação de Klauber, Halberstam registra sua oposição a Kaltenborn, um dos novos analistas que porém Klauber criticava por usar demasiadamente a primeira pessoa do singular.
A vinda de Kaltenborg marcara a vitória contra a brutalidade, a vitória da inteligência, e ele era um observador arguto. Um profissional que não podia ser desafiado. Prejudicado pelo uso da primeira pessoa, tinha porém além disso um bom domínio da língua. Todos pensavam na CBS que ainda assim Kaltenborg não iria longe por causa da mania do “I”, até que Klauber assinalou uma vitória importante, expressando que não queria interferir com sua liberdade de expressão, ainda que não permitindo que ele dissesse “Eu ouvi o discurso de Wendell Willkie na noite passada. Foi admirável”, ele teria que anunciar “milhões de americanos de ambos os partidos ouviram o discurso de Wendell Willkie na noite passada. Foi admirável.” (p.56)
Klauber foi o predecessor de Frank Stanton. O trabalho de lidar com as paixões e intensas controvérsias despertadas pelo tipo de situação gerada pelo negócio de notícias e temas públicos, como o exemplificado por Kaltenborn, ficara com Klauber, liberando assim o verdadeiro responsável, o patrocinador e proprietário Bill Paley. Stanton sucedeu Klauber na mesma função. Porém Stanton desenvolveu uma rivalidade frontal contra Ed Murrow, que na era Klauber se alçara a um sucesso estrondoso, de projeção nacional.
O motivo foi que o segundo casamento de Paley, com Barbara Cushing Mortimer, filha de um célebre cirurgião de Boston, havia sido uma cerimônia íntima. Stanton aceitou a desculpa como válida para não ter sido convidado, até que, ao rodar o filme da reunião em casa de Paley, descobriu que Ed Murrow havia sido convidado. Stanton ficou deveras decepcionado, constatando que a despeito da importância do seu cargo, ou da magnitude do seu salário, para Paley ele era apenas um empregado, não um amigo íntimo como Ed Murrow, o verdadeiro homem de sucesso. Dessa inimizade não brotou nenhum fruto imediato, mas na ocasião propícia Stanton soube se vingar.
Paley havia se casado uma primeira vez com Dorothy Hearst, uma intelectual partidária de Roosevelt, com visão independente. Nessa época Paley já havia obtido invejável posição na sociedade, mas era assediado pela consciência de ser judeu, e ele não dizia sobre suas origens que era um judeu russo, ele se apresentava quando era preciso se referir a isso, como judeu americano. Na verdade o anti-semitismo tem um triste papel nessa época também nos USA. Phil Graham não sabia o quanto, assim convidou Bill Paley para associar-se a um clube elegante, ao que Paley recusou, aduzindo que não iriam aceitar registra-lo devido ao preconceito. Phil teimou, ele mesmo iria apresenta-lo como amigo pessoal, mas para vergonha de Phil realmente o clube barrou a entrada de Paley. Como vimos, o próprio Phil refletiu o anti-semitismo como sintoma da doença mental, chegando ao preconceito contra os próprios filhos e a esposa.
Dorothy, divorciada de John Hearst e a favorita do velho William Hearst ele mesmo, aquele que provocara a guerra da Espanha em inícios do século, era a jovem mais bonita de Los Angeles, brilhante e enérgica. O casamento com Paley devia aproximar a este da mentalidade liberal. Na verdade, Dorothy era demasiado crítica, e Paley, um homem traumatizado pelo preconceito, mas que pelos próprios méritos fizera uma carreira e fortuna invejáveis, precisava de incentivo e consideração. O divórcio se seguiu algum tempo depois.
Babe Cushing era uma moça extremamente prendada, uma socialite que tornava qualquer lugar onde fosse um lugar da moda. Bonita e elegante, sabia receber e frequentar, suas respostas para tudo eram sempre bem equilibradas, fazendo Paley se sentir confiante, suas ações eram sempre as mais apropriadas, de modo que ele se sentia relaxado. Conforme Halberstam, as outras moças procuravam um modelo externo de conduta, mas Babe, inversamente, agia orientada apenas pelo seu interior.
O próprio Paley era um homem extremamente bonito. Babe Paley era considerada então a mulher mais bela da sociedade, porém Marella Agnelli, mulher do proprietário da Fiat, também era muito elogiada, e certa vez Kay Graham perguntou a Truman Capote qual das duas era a mais bonita. Capote hesitou perante a dificuldade de elucidar a questão, mas afinal respondeu “bem, minha cara, eu creio que se ambas estivessem numa vitrine da Tifany Marella custaria um pouquinho mais caro” (p. 177).
Em todo caso, isso ilustra como, ao contrário de Kay e Phil Graham, Bill e Babe Paley formavam um par perfeito. Ela o aproximou do Partido Republicano, ao qual Paley se converteu, tornando-se o protetor de Ike Eisenhower ao longo do que Halberstam designa a era dourada da economia americana em matéria de propaganda (“merchandising”), logo após a guerra contra Hitler.
A sociedade americana inteira parecia ter se concentrado na classe média, carros, casas e máquinas de lavar eram oferecidos a todos, todas as coisas, todos os luxos pareciam subitamente possibilitados, havia lucros abundantes, e particularmente havia os novos meios de comunicação, o rádio e a televisão. Os Estados Unidos estavam ricos, enquanto o resto do mundo estava pobre. Mas politicamente, ao contrário, o momento americano era depressivo, um tempo obscuro (“a dark time”), uma era de suspeitas que terminou na paranoia do McCarthysmo (p. 180).
Conforme Halberstam, a contradição norte-americana entre o bem estar econômico e a patologia política produzira na CBS uma tensão única. Por um lado, os lucros eram tão imensos, a riqueza tão largamente produzida, que nenhum dos executivos da CBS queriam se preocupar com o problema político da nação, e assim, por outro lado, eles foram como que automaticamente cooptados ao papel a-crítico de simples porta-voz da histeria nacional. A consciência crítica se tornara de repente cara demais para o padrão de lucros da CBS. Quem pagou o preço foi principalmente Ed Murrow, que com Klauber havia construído a assim designada tradição Klauber-Murrow, signo de respeitabilidade e honestidade que foi demolida a partir da conversão de Palley aos republicanos como expressão de sua própria transformação em tycoon, isto é, magnata.
O rádio, mas especialmente a televisão, como informa Halberstam, ostentam uma cisão interna entre o que é designado serviço público, o setor de notícias, e os programas como o que serve de fundo para a propaganda - assim o Pulitzer do Post por Watergate foi pelo quesito serviço público. Esses dois rumos do negócio são inconciliáveis, porém, e o serviço público de hábito se torna apenas um pretexto para o incremento da propaganda. Na CBS foi o que ocorreu, enquanto a NBC, que antes havia sido líder mas depois fora deslocada desse status pela CBS, tornou-se inversamente mais aplicada como veículo de notícias.
A essa altura, tanto Paley já estava relacionado pessoalmente ao partido Republicano, quanto o rumo dos negócios da CBS se esmerava no setor de notícias apenas para manter a fama, pois durante os anos cinquenta ela era, já como televisão, o maior meio de propaganda do mundo, um meio de entretenimento de massas. Foi a CBS que transformou a veiculação da propaganda, tornando um programa compartilhável por vários anunciantes. O critério do que chamamos ibope tornara-se o único como critério de seleção do que omitir ou mostrar. Assim o patrocínio converteu-se num controle explícito sobre a programação durante a guerra fria.
Nesse ponto há uma ambiguidade, contudo. A junção público-patrocínio que embasa essa consideração de Halberstam, logo se contrasta por acontecimentos que mostram direcionamento político explícito refletindo a cisão do público e do capitalismo, de modo que os interesses deste predominam na mídia, cujas leis de atração da imagem formando um corpo de técnicas autônomas, acabam por alterar o que era primitivamente a consciência pública.
Murow, e num grau menor também Shirer, pontuam os episódios que ilustram a crise na instituição a partir do objetivos gerados pela opção pelos lucros, confrontados ao que antes havia sido a opção pela qualidade da análise. Eles mostram o quão inexorável resultou a linha de ação escolhida, assim como o peso das deliberações do grande capital patrocinador.
    A tradição Klauber-Murrow foi construída, como vimos, pelo Paley democrata ou ao menos liberal, não comprometido politicamente com o conservadorismo republicano. Em 1936, Klauber recusara a oferta de compra de propaganda na CBS, pelo partido republicano, sem qualquer reprovação por parte de Paley. Recusara, pois, a junção da frivolidade da propaganda com a política como tema importante, atuando explicitamente segundo as regras da consciência democrática.
A demolição da tradição Klauber-Murrow foi orquestrada pelo Paley convertido ao conservadorismo republicano após 1947, ano do seu casamento com Babe Cushing. Não se trata de um simplismo maniqueísta na visão da história. Como vimos, Halberstam mostra que a manipulação política da mídia começou com o partido democrata na era F. D. Roosevelt, o primeiro líder carismático produzido conscientemente pelo uso do rádio, e ao modo como a utilizou Roosevelt, Halberstam associa um curso completo de manipulação, “a textbook course in manipulation” (p. 19).
Essa “nova ordem” introduzida por Roosevelt, foi também uma invasão da vida privada, pela qual “o governo poderia penetrar na existência cotidiana de quase todos os cidadãos, regulando e ajustando suas vidas” - “ajuste” a objetivos alheios aos da pessoa, obviamente.
Porém como ilustra o padrão Klauber-Murrow construído sob os auspícios de Bill Paley, a própria mídia se defendeu do dirigismo político, ao menos enquanto os seus organizadores se consideravam a si mesmos como cidadãos do país. O que muda sempre que eles deixam de se considerar assim para se identificarem com o poder. É somente nesse ponto que a história da CBS se torna exemplar da corrupção da consciência pública e profissional pelo que se pode designar o business de mídia.
Mesmo considerando desse modo as coisas não são simples, e vemos que o poder penetra na forma da coação econômica via patrocínio, mas também na forma de ligações pessoais esperáveis do próprio empresário de mídia que se torna grande.
A cooptação resultar numa integração total do grande capital incluindo a mídia como business não é o fenômeno que explica a história, e sim o que deve ser explicado entre vários fatores subjacentes, como por exemplo mecanismos de defesa psicológica contra a constatação de estar sendo coagido a partir de uma ação de classe e status abrangente, que ultrapassa a cisão de público e privado uma vez que atua na esfera da passionalidade.
Assim cooptado, ao longo dos anos cinquenta Paley pessoalmente trabalhou contra a orientação de Murrow, que havia, em inícios dos anos cinquenta, transportado o padrão da respeitabilidade, de sua atuação no rádio para a televisão. Paley passou a trabalhar, portanto, para destruir o que ele próprio havia tão ciosamente construído ou ajudado a construir.
As rupturas explícitas como crises na instituição, rupturas pessoais de Paley com seus antigos amigos, e não importando o quanto estes haviam se tornado importantes na consciência nacional, ilustram do mesmo modo episódios seminais da guerra fria.
As celebridades Murrow e Shirer eram alguns desses amigos. Shirer havia sido o correspondente em Berlim da CBS, na segunda guerra, quando o rádio era ainda o único veículo do jornalismo sério na mídia elétrica, enquanto Murrow se celebrizara como correspondente na Europa. Ambos eram também amigos íntimos, ainda que com uma rivalidade subjacente como as duas vozes da nação, a qual os identificava completamente não obstante cada um deles seguir seu próprio estilo, o civilismo elegante de Murrow, a crítica mais cerebral de Shirer.
Murrow exigia dos seus repórteres inteligência e informação acurada, sem ostentação de idiossincrasia, com um sentido alerta para o tipo de receptor a quem estavam se endereçando. A equipe de correspondentes estrangeiros da CBS, naqueles dias, sob a orientação de Murrow, se orgulhava de que integrantes da CIA, os maiores experts da nação, acordassem com o programa “Morning News Rondup”, além da leitura obrigatória do New York Times.
O rádio era uma tecnologia confiável, não interpondo coisa alguma entre o texto do correspondente e o que ia ao ar, nenhum aparato de produção ou requisito técnico. / p.188.
Quando Shirer retornou aos Estados Unidos em 1945, porém, compreendeu que a amizade com Paley esfriava paralelamente à expansão de suas críticas ao programa de Truman para funcionários do governo, à doutrina Trumam para a Grécia e a Turquia, e ao governo de Chiang. Conforme Halberstam: “Muito sutilmente a norma para a maioria dos jornalistas americanos estava se tornando a aceitação da Guerra Fria, e de algum modo Shirer estava recusando se integrar nela.” (p. 191).
A ruptura explícita de Paley com Shirer ocorreu logo depois do retorno deste, sob o pretexto da recusa de Shirer mudar-se para Chicago, cidade de que ele não gostava. Paley havia aproximado Shirer do milionário do chiclete, Phil Wrigley, para um almoço. Wrigley era admirador de Shirer, e pretendera que este realizasse coberturas para ele por uma soma considerável semanal, apenas devendo ir morar em Chicago. Shirer já estava comissionado para lecionar nesta cidade, porém não desejando mudar-se definitivamente. A recusa decepcionou Paley, mas a partir daí, Shirer se tornou um problema porque suas críticas políticas, feitas conforme a consciência liberal, atraíram a hostilidade do patrocinador, J. B. William Company, e Paley o demitiu.
A decisão de Paley pode ter sido precipitada por sua decepção inicial, ou não. Em todo caso, Murrow, que pessoalmente não aprovara o arrojo de Shirer, interpôs-se, em nome da autonomia profissional, organizando uma espécie de piquete pró-Shirer. O que enfureceu Paley ainda mais, tornando sua decisão irrevogável.
Murrow, responsável pelo setor, teve que assumir o ato de demissão de Shirer, que por isso cortou a amizade, profetizando que também Murrow seria vítima da censura institucional. Shirer escreveu, depois, um romance tendo como alvo um personagem parecido com Murrow.
Murrow começou na televisão, em 1951, associando-se ao produtor Fred Friendly. A ruptura traumática com Shirer representara não apenas a perda da amizade, mas também o enfrentamento de questões para as quais Murrow não estava preparado. Optara pela convicção de que o patrocinador podia escolher o profissional, porém não podia controlar o conteúdo. Segundo Halberstam, ele sabia no entanto que essa era uma opção claramente insatisfatória, pois uma vez escolhendo o profissional muita coisa já estava pré-estabelecida, não havia algo como conteúdo puro.
Sobretudo, o incidente Shirer mostrara que já não era a CBS News quem tinha o direito de limitar ou fomentar a carreira do profissional, mas sim o patrocinador, o que implicava que já não era o melhor jornalismo, mas sim o mais ofensivo, o que passaria a ser premiado. O início de Murrow na televisão foi cercado por hesitação e cautela, objetivando preservar a consciência profissional e as qualidades do seu estilo.
O talento de Friendly como produtor era bastante conhecido, porém do mesmo modo a sua ambição. Ele moldou o novo Murrow televisivo, convicto de que com Murrow atingiria as alturas a que sempre pretendera. Ainda que naturalmente muito devido aos dotes e pretérita celebridade de Murrow, o sucesso da fórmula Murrow-Friendly resultara num hábito reiterado de Friendly começar uma frase assumindo que ele era um simples garoto do interior para concluir pela implicação de ter ainda assim inventado Murrow, omitindo que a respeitabilidade de Friendly se estabilizara a partir de sua atuação com o grande jornalista.
Em 1951, com efeito, o Hear it Now se transformava em See it Now. Foi essa a época em que a aliança do business de mídia com o governo e os interesses do capitalismo se tornou estabelecida em torno da extensão da televisão a status de penetração nacional, na atmosfera marcada pela guerra fria que confrontava os USA como superpotência, à URSS com igual poder, ambos pugnando por maior influência internacional. O business não pretendia prejudicar em nada aos poderes da nação, julgando porém que isso significava cortar a consciência crítica.
Com o McCarthysmo, a caça do senador homônimo às bruxas do comunismo local, muitos profissionais de mídia foram atingidos, assim como tantas pessoas do país. A celebridade, a respeitabilidade do intelectual perante o público, já não era garantia. Uma vez que Murrow não acreditara na extensão da crise institucional, confiando na tradição que consolidara, a ruptura com Paley se tornou inevitável, mediada pela recusa do patrocínio, primeiro pela Alcoa, depois pela General Motors. Mesmo com todas as concessões que Murrow já havia feito ao novo meio.
A principal concessão, conforme Halberstam, foi a corrupção do conteúdo não por direcionamento político, mas pela exigência de ser misturado a frivolidades. Num show de Murrow em Berlim, com Howard Smith entrevistando o prefeito da cidade, Murrow introduziu como que casualmente o comentário de que entre outras celebridades de um novo show que ele estava produzindo, convidara Lucille Ball. Profissionais formados pelo padrão da respeitabilidade Klauber-Murrow, como Joe Wershba, ficaram perplexos. Como parecia incongruente, Lucille Ball em meio a conversações políticas de alto nível e com importância histórica…
Os projetos de Murrow para seus escritores Johnny Aaron e Jessy Zousmer, que abrangiam primitivamente trazer à cena americanos índios, negros e operários, foram logo mudados, com Murrow comentando que seus escritores iriam ter que se adaptar. Somente importava a ambição da celebridade, a estima de Bill Paley tornando Murrow cada vez mais desconhecido de si mesmo, frente a frente com um lado de sua personalidade antes desconhecida, atiçada pelo montante do patricínio - Paley designara um milhão de dólares para os novos shows frívolos de Murrow, o que não era apenas amizade pois incluía maior controle sobre os resultados.
See it now”, o programa do Murrow original, potencialmente controvertido, se tornara rivalizado por “Person to Person”, o programa do Murrow frívolo, etiquetado não-controvertido.
As equipes do See it now e do Person to person estavam em guerra devido à irredutibilidade dos estilos e interesses de cada uma. Nessas condições o confronto de Murrow com McCarthy tornou-se surpreendente. Ele mesmo um homem que se projetara midiaticamente, McCarthy revelou-se intocável pelos padrões de Bill Paley para a CBS, e Murrow não aquilatara o quanto a decisão havia sido irrevogável.
A censura explícita contra as primeiras críticas de Murrow a McCarthy introduziu a crise, em meios da década de cinquenta, de que Stanton, que como vimos alimentava um ciúme implacável de Murrow, aproveitou-se. A televisão podia assim focalizar durante o programa de Murrow, alguém que este estava criticando, como ocorreu com o senador John Bricker, que Murrow desfavoreceu retirando alguns minutos de exposição, e inversamente concedendo-os ao senador Kefauver. Stanton focalizou Bricker, além dos minutos previstos por Murrow, comprometendo a estratégia discursiva do apresentador.
Ao perceber que era inaplicável a tática da omissão deliberada quanto a McCarthy, Murrow tentou uma armadilha, convidando McCarthy para um show que iria contudo ridicularizá-lo, com Murrow fechando a apresentação com algumas críticas mordazes ao que McCarthy dissera durante o programa. Porém isso resultou num desastre, com Stanton furioso, brandindo estatísticas que supostamente demonstravam que o público, ao contrário, se solidarizara com McCarthy. A Alcoa, que até aí havia sido uma patrocinadora liberal de Murrow, concedendo-lhe inteira autonomia, retirou os proventos, também pelo apoio explícito de Murrow a Oppenheimer, perseguido pelo McCarthysmo.
Paley pessoalmente interveio. Sua injunção a Friendly e Murrow, convidados ao escritório do chefe absoluto, significava a mudança completa do formato dos programas deles, que deviam agora ser constantes pela semana, algo que implicava muito maior poder de controle por parte da CBS. Mas a General Motors retirou o patrocínio combinado para alguns destes programas, logo que seu pessoal soube que seriam sobre o vice-presidente Richard Nixon, assim frontalmente exposto a críticas ácidas.
Logo depois, o partido republicano exigiu tempo igual para o secretário de agricultura, Ezra Benson, responder as críticas que num programa Murrow havia feito a ele. Murrow negou, mas a CBS concedeu o tempo mesmo assim. A crise estava se tornando aguda. Murrow, furioso, pensava contudo ter ainda poder de barganha, mas Paley afinal decretou unilateralmente a morte do “See it Now”.
O gesto implicava a total perda de poder por parte de Murrow, na organização CBS. Como celebridade, ele estava ultrapassado. O exemplo de Murrow tornou-se traumático. Um homem que do ápice do sucesso se tornava um nada, de um dia para o outro.
A visão de mundo de Murrow conservara algo de obscuro desde a cobertura da guerra, e agora isso se tornava radicalizado pela decepção. Paley, o grande colega dos tempos aventurosos em que a tarefa de cada um era criar um verdadeiro canal da consciência crítica e da informação respeitável, já não era um amigo. Era meramente um utilizador das pessoas para fins corruptos, a tarefa mudara para a criação de um meio de manipulação que pudesse obnubilar a compreensão real.
A queda de Murrow, que logo depois adoeceu gravemente, foi a consagração de Stanton como líder da CBS. A mídia tornara-se a ambição do poder sem responsabilidade, comentário de Halberstam que ecoa o que constatei na leitura do sociólogo Peter Mann, em “Métodos de investigação sociológica”, aduzindo este que essa ambição da mídia é a mesma da prostituição. Mann revista vários procedimentos dolosos da imprensa, como falsidade ideológica da informação.
Como estamos constatando e Mann também observa, a corrupção da mídia não parece ser um fator inerente ao veículo, inversamente aos efeitos colaterais que MacLuham conceituou como o que os mídia elétricos podem provocar do ponto de vista cerebral, pelo fato de isolarem o espectador do meio ambiente a partir da forma de recepção sensível, puramente passiva e não linear como a escrita, além de projetarem uma comunidade fantasiosa, passional-identitária, impossível de ser politicamente organizada pelos padrões da consciência civil.
Ao contrário, a corrupção ideológica da mídia como business corresponde a um processo não-necessário, mas que corre paralelamente ao capital-imperialismo de hegemonia estadunidense.
Em 1958, com efeito, Murrow pronunciou-se num congresso de diretores de rádio e televisão em Chicago, afirmando: “e se houver historiadores... daqui há cem anos, e forem preservadas filmagens (kynoscopes) de uma semana de todas as três cadeias (networks), eles encontrarão registrados, em preto e branco ou a cores, evidências da decadência, escapismo e isolamento das realidades do mundo em que nós vivemos. Se as coisas continuarem como estão, a história se vingará e retribuirá os feitos de cada um de nós.” (p. 215)
Paley ficou furioso, ali estava Murrow traindo Paley, aquele que, ao ver do próprio Paley, havia tornado Murrow rico e famoso. Conforme Halbestam, “a coisa mais perigosa no que Murrow dissera, é claro, era o fato de ser verdade”.
Que um Jack Gould do Times estivesse escrevendo coisas desse tipo àquela altura já era algo ruim, porém muito diverso surgia o caso em se tratando de um homem da estatura de Murrow, o sujeito mais respeitado da indústria de mídia. Isso era bastante injurioso. A crítica vindo de dentro provara-se insuportável. O pronunciamento de Murrow nunca foi bem assimilado. A CBS tornava-se extremamente hostil a todo tipo de crítica, respondendo de modo radical a observações de muito menor peso, como a de Roger Mudd. Os profissionais da CBS, admirados por sua verve crítica contra outros assuntos, tornavam-se odiados quando o alvo era o próprio business de mídia.
Mas o rumo da mudança estava pré-estabelecido no contexto da guerra-fria. Como ilustra a cobertura de Halberstam a propósito da conexão da televisão com o processo eleitoral em curso ao longo da década de cinquenta, quando a violência do imperialismo norte-americano se armou para alcançar status planetário.
Conforme Halberstam, “em 1952, pela primeira vez a televisão afetou profundamente a escolha dos candidatos das duas convenções, e assim indiretamente a capacidade dos adeptos (“regulars”) dos partidos controlarem suas próprias organizações” (p. 319).
Porém os efeitos dessa transformação interposta pela inter-relação técnica/sociedade não foram de modo algum os mesmos nas duas convenções referenciadas, dos democratas e republicanos. Pode-se afirmar que foram precisamente o inverso uma da outra.
Entre os democratas, a competição de Adlai Stevenson e Kefauver representou o último reduto da consciência política não midiaticamente manipulada nos Estados Unidos. Os republicanos, tendo que escolher entre Taft e Eisenhower, pontuam nesse momento a primeira articulação intrínseca, como campanha política televisiva.
Contra Stevenson, o senador Kefauver era o homem de mídia, “catapultado à proeminência nacional por seus inquéritos criminais televisionados”, o que os democratas repudiavam como um meio de atingir a população sem a intermediação do partido. Não sendo um homem bonito, não obstante Kefauver soubera se adaptar às regras da câmera, assim escondendo o que ele era, um graduado na universidade de Yale, para mostrar-se como o estereótipo do garoto caipira interiorano tentando manter sua integridade entre os grandes de Washington. Ele, porém, embaraçara realmente, com suas investigações de jogatinas e negociatas, alguns desses grandes administradores democratas, e tornara Truman um inimigo poderoso por sua amostra da política da água em New Hampshire.
Adlai Stevenson parecia perfeitamente talhado para uma estratégia partidária de dirigentes pretendendo manter suas prerrogativas tradicionais de nomeação de candidatos. Estratégia que devido à popularidade de Kefauver, adentrando a convenção como homem do povo circundado por seus próprios delegados, quando em nível nacional a lealdade partidária estava decrescendo pela suspeita do povo contra conclaves secretos, não podia ser a de simplesmente rejeitá-lo. Já Stevenson era o homem do partido, cujo talento era a retórica cultivada, de longo alcance dedutivo, o contrário de tudo o que cabia num estereótipo televisivo como idealização de um tipo a partir de uma visão de câmera instantânea. E já naquela época Nixon era um referencial da mudança, com seu discursos nacionais justificando-se contra acusações de corrupção que ele assim logrou convencer o público de que não era culpado, e Stevenson foi forçado a assistir.
Como um homem de sua geração, Stevenson não possuía um aparelho de televisão, ele os detestava. Newton Minow, um jovem que integrava sua equipe, quisera fazer ver a ele que mesmo que considerasse que a televisão veiculava apenas irrealidade, milhões de americanos consideravam o que viam real, e por isso a diferença tornava-se pouco importante. Mas para Stevenson, isso era essencialmente demagógico, contrário ao seu estilo de apresentação pessoal dirigida a uma plateia que responderia a suas sofisticadas prédicas buriladas, tradutíveis em grego ou latim.
Contudo, a equipe de Stevenson logo se tornou consciente de que Eisenhower estava planejando apresentações contínuas na televisão, designadas para saturar áreas cruciais. Lou Cowan, produtor da CBS que mais tarde se tornou presidente da rede, foi consultado e confirmou o boato. Ele pensava que podia neutralizar o peso das apresentações de Eisenhower, produzindo Stevenson, mas a resposta ao que propôs foi desencorajadora: (“Isso é a pior coisa que jamais ouvi. Vender a presidência como cereal”).
Cowan tentou, ainda, minimizar o impacto negativo de Stevenson ser divorciado, enquanto Eisenhower podia por uma Mamie na Casa Branca. Cowan sugeriu que um dos filhos de Stevenson o cumprimentasse simpaticamente, “boa sorte papai”, quando ele fosse subir à tribuna. A essa altura o próprio Cowan já se sentia algo corrupto ao meramente propor - e Stevenson, indefectivelmente respondeu, “Lou, nós não fazemos esse tipo de coisa em nossa família” (p. 323). A campanha pela nomeação foi toda feita ao jeito de Adlai Stevenson, lembrada com nostalgia pelos organizadores dentro da inteligentzia estadunidense.
Eisenhower também não se sentia muito à vontade com a televisão, mas ao inverso de Stevenson, ele sabia que não podia recusá-la. David Shoenbrun da CBS se encarregou de convencê-lo, a princípio lembrando como De Gaulle usara o rádio para se tornar a voz da nação, mas logo percebendo que estava na direção errada, Eisenhower não queria ser De Gaulle. Ele considerava De Gaulle egocêntrico. A referência à linha Klauber-Murrow, como a homens honestos na televisão, provou-se argumento melhor.
Halberstam relata alguns dos desastres que ocorreram nas primeiras filmagens, correlatos da insipiência do novo meio - Eisenhower ensopado no meio de uma parada em Abilene, as lentes dos óculos escorrendo, porque havia caído uma pancada de chuva em meio à filmagem. “Para o inferno com isso, eu não vou fazer nada disso”, Ike exasperava-se. (p. 326)
Muito seria impossibilitado não fosse a intervenção de Henry Cabot Lodge, da equipe de Ike. Ele orientou as coisas para transformar a convenção do partido numa peça de teatro, de modo que Robert Taft, o oponente de Eisenhower, iria desempenhar à revelia o papel do conservantista dos velhos dias, avesso à consciência do público, enquanto Eisenhower emergiria como o homem do povo, sendo público e povo o mesmo que permissão para cobertura televisiva.
Aqui  seria desnecessário transpor os incidentes pelos quais a estratégia de papéis de Cabot Lodge foi tão exitosa. Taft comportando-se como esperado, tentando barrar o “público” para manter a convenção como supunha ser o respeitável, Ike sendo visto como o representante do “público”, aquele que iria descortinar finalmente o mistério à vista de todos.
De fato a invasão de convenções pelos constrangimentos de edição televisiva, que repugnou a muitos políticos com formação intelectual esmerada, provou-se o contrário da revelação a público, a demonstração de que o acesso visual de forma inadequada induz a julgamentos contrários aos interesses da própria pessoa que ingenuamente julga ter assim testemunhado a realidade. Como as imagens e o som não são captados simultaneamente, mas montados depois, os políticos foram instruídos a não ler jornais no saguão do hotel, porque a imagem que mostrariam deles estaria concomitante, na tela, ao som dos pronunciamentos que na verdade estavam sendo feitos posteriormente. Assim o público iria pensar que aqueles homens estavam ociosamente lendo jornal ao invés de estarem assistindo aos pronunciamentos.
Já em se tratando da eleição presidencial, ocorreu a contratação da agência BBD& O para catapultar Ike na consciência nacional.
A agência devia projetar o estereótipo de Ike, e havia alguns à escolha. Ike Eisenhower, o homem que limpou a bagunça em Washington, o anticomunista ideal, ou o general, o herói que destruiu o poder de Hitler na Alemanha? A inclinação para Ike o herói já existia, porém Rosser Rivers, um voluntário na campanha que exerceu bastante influência, projetou uma consulta aos leitores de Seleções, pelo correio. Uma quantidade de 1O.OOO leitores respondeu preferir Ike, o herói anti-nazista.
A televisão estava vendendo a presidência como cereal. Cenas rápidas das multidões excitadas, Ike parecendo tão modesto, o herói comovendo as massas, um flash em Mamie, “não devia todo herói ser chamado Ike, e não devia ele ter uma Mamie?” Um breve discurso de Ike, e depois a única coisa que podia emparelhar com a volta do herói, a anterior partida do herói para vencer na guerra. Flash nas bandeiras da América. “Tudo muito bem feito”. / p.331 / Eisenhower, o herói, conviria com Ike, o homem que nos trouxe a paz, aquele que poderia acabar com a guerra na Coreia - porém esse slogan não foi aprovado por Eisenhower, ele não podia garantir paz alguma, então algo mais sutil, menos comprometedor porém com o mesmo subentendido: “Eisenhower, o homem da paz”, o que significava exatamente “Adlai Stevenson, o homem da guerra”.
O resultado das eleições foi como o esperado, Ike o herói presidente, eleito na primeira campanha em âmbito nacional da história. Como presidente, Eisenhower fez um uso notável do novo meio televisivo, mas não tanto quanto Kennedy e Nixon. Ike se tornou popular entre os repórteres, apelidando “Merrian” a Merriman Smith, o correspondente da agência UP e deão do corpo de imprensa da Casa Branca, Ike começando sempre as conferências de imprensa com “hello, Merrian”, assim como anos antes Franklin Roosevelt apelidara Belair de Butch.
Na perspectiva de Halberstam, Ike não dominou totalmente a imprensa porque ele não precisava disso. Ele tinha o anticomunismo, alvo que surgiu com todo o peso da guerra fria, na transição dos anos cinquenta para os sixties. Tanto mais o comunismo se tornasse o símbolo de tudo o que era antiamericano e hostil à América, mais o povo, o congresso e a imprensa estariam naturalmente inclinados a conceder ao presidente controle inquestionável sobre todos os interesses nacionais.
Jim Hagerty foi o produtor de imprensa de Eisenhower, provando-se bastante talentoso e útil. O presidente aceitou a televisão mais do que a explorou, ainda que ele o tivesse feito um instrumento do poder presidencial. Ao contrário de Kennedy, que logo a seguir explorou todos os recursos da mídia. Ironicamente, ele repetiu a ênfase nos truques contra o adversário que havia garantido o êxito a Ike, desta vez a vítima tendo sido Richard Nixon.
Resta a questão de porque Nixon aceitara os debates televisionados com Kennedy, que tanto o prejudicaram, fazendo-o parecer um pobre-diabo escuro aos olhos do público, inversamente a Kennedy, o galã que cuidava de cada detalhe da aparência, da maquiagem ao creme Max Factor “puff” quando mais apropriado. A resposta parece ser que Nixon não estava consciente do quanto era necessária a produção da aparência em meio televisivo, de modo que nenhuma garantia ulterior de popularidade permaneceria decisiva frente à exposição na tela com grande número de expectadores. E o machismo americano fazia o resto. Nenhum repórter iria ao ponto de mostrar um candidato se maquiando.
Em todo caso, Halberstam assinala que até 1964, a televisão havia afetado profundamente a campanha presidencial, mas só desde 1964 a televisão veio a se tornar a própria campanha presidencial. Walter Cronkite, o homem da classe média, era agora a estrela, como uma instituição, sua influência igualando a dos presidentes (p. 577).
Na História, a eleição de Eisenhower é o primeiro trunfo do meio televisivo. Na história da CBS, porém, o lance seguinte à introdução revolucionária da tv na política presidencial, foi o escândalo do Quizz Show, em 1958. Os boatos de que o programa de perguntas valendo 64.OOO dólares estava sendo manipulado foram protelados como problema a enfrentar pelos responsáveis na CBS, até que a imprensa escrita furou o bloqueio e o caso se tornou público. Cowan foi responsabilizado pessoalmente. Ou ele sabia, ou ele não tinha controle algum sobre seu próprio pessoal.
A tradição Klauber-Murrow na CBS estava definitivamente encerrada, propaganda e política já não eram coisas imiscíveis, o intelecto do profissional já não devia ser respeitado perante os desmandos dos donos do capital. Para suceder Cowan, foi contratado Jim Aubrey, o homem mais rapace, mais desonesto, mais indecente de que jamais se teve notícia, o qual introduziu o padrão baixo-nível na programação que conhecemos até hoje.
Houve reações contra a dominação televisiva da política, como a de Sam Rayburn, a figura mais tradicional do legislativo americano (“House of representatives”), que insurgira-se. Todas as providências contrárias, que visaram banir a cobertura televisiva do legislativo, apenas tornou a “House of representatives” menos apta a competir com o Executivo, tornando menor a importância do legislativo aos olhos do público (p. 352).
A nota final da tradição Klauber-Murrow poderia ser o que Halberstam anteriormente anotou sobre David Shoenbrun em Paris, ou seja, algo já previsível a partir do rumo traçado pela ambição de Paley. Shoenbrun, o homem que mais tarde criou Ike o herói, o presidente da república, em inícios da década de cinquenta era o correspondente da CBS em Paris. Logo tornara-se celebridade, uma figura importante que conquistara a França e conhecia pessoalmente De Gaulle. Contudo, Paley telefonara solicitando-lhe o favor de servir de cicerone ao casal Jack Benny e Mary Livingstone. Shoenbrun iria adorá-los, garantiu Paley.
Benny, estrela do programa Amos “n” Andy, era nesse momento o trunfo mais importante de Paley para sobrepujar a NBC. De fato, David Sarnoff, da NBC, havia errado clamorosamente ao subestimar Jack Benny como algum tipo ultrapassado de artista na era da televisão. Substituindo-o por Horace Heidt que logo provara-se um fracasso, enquanto Paley recolhia Benny, que continuava um grande sucesso, assim como outros programas que Sarnoff não mantivera. Sarnoff reclamara com Paley: como ele podia ter feito isso, contratar todo o seu stock de celebridades, quando havia existido um acordo de cavalheiros pelo qual nenhum deles roubaria a cena do outro ? Paley respondeu apenas: porque precisava deles - e um amigo de Paley comentou que essa havia sido a única vez em que ouvira Paley falar de modo tímido.
Contatado como cicerone de Benny em Paris, Shoenbrun não esperava ser tratado por Jack e Mary como um simples garoto de recados. Mas foi o que aconteceu, Mary exigindo de Shoenbrun, por telefone, no meio da noite, que lhe comprasse o perfume mais famoso, o qual ela pretendia usar numa festa. Não lembrava o nome, era o que Babe Paley usava. Shoenbrun consultou uma lista de perfumes, recitou nome por nome, até Vent Vert, quando Mary informou ser o que queria. Porém Shoenbrun lembrou que não poderia comprá-lo quando acordasse, pois seria feriado. Mary informou secamente que Paley havia garantido que Shoenbrun faria tudo o que ela e Jack precisassem, e se ele não o fizesse, então eles abandonariam a CBS.
Shoenbrun, em desespero de causa, lembrou-se de seu amigo Balmain, proprietário da loja homônima, telefonando ao amigo que por sua vez ligou para a loja onde atendeu o segurança. Instruído, o segurança pegou o perfume para Shoenbrun. Orgulhoso, ainda que espicaçado, Shoenbrun escreveu a Paley sobre o que fizera - para a companhia. Nunca recebeu qualquer resposta.
Mais importante que correspondentes, ainda que tivessem ganho a França e conhecido De Gaulle, provara-se o comediante de domingo à noite. As coisas haviam mudado. A mulher de Shoenbrun concordou: quando tratam repórteres como lacaios de comediantes, era melhor ir-se embora – ela comentou.
Em 1955, o escândalo do Quiz Show provocou um retorno da companhia à ênfase no setor público, isto é, de notícias. Porém já dentro do novo espírito, e foram precisos mais quatro anos para obter-se a fórmula: Fred Friendley, o melhor produtor de documentários da CBS, contratado para um tipo de programa que relembraria o See it now, porém sem Murrow ou tendo-o apenas como um entre demais correspondentes - conforme esperado, Murrow incentivou Friendley a aceitar o convite, devido à necessidade de salário. “See it now” se tornou “CBS Reports”. Para Murrow não se conseguiu uma fórmula adequada na CBS, e ele já estava muito doente a essa altura. Multiplicavam-se porém êmulos de Murrow, apenas sem a consciência crítica. A mulher de Murrow acabou elegendo Bill Moyers como o que mais se parecia com ele. Casey Murrow, o filho, nunca quis comprar um aparelho de televisão.
A estadia de Jim Aubrey aumentou consideravelmente os proventos da CBS, porém abaixando o padrão a um nível torpe. As pessoas mais velhas foram impedidas na tela, somente jovens deviam ser mostrados, especialmente mulheres. Os assuntos de interesse sociológico proibidos, somente deviam ser ventilados assuntos interessantes a pessoas pouquíssimo inteligentes. Os programas deviam limitar-se a comédias muito simples, de esquemas sempre repetidos, como “The Beverly Hillbillies”, uma série que Halbestam designa “tão demente e sem gosto como nem se pode imaginar, delineando, como fazia, nas palavras de Murray Kempton, ‘uma confrontação de personagens de John Steinbeck com o meio ambiente de Spyros Skouras’ “ (p. 355). O jargão profissional consagrou o padrão Aubrey com a expressão “broads, boobs and busts” (“mentiras, besteiras e peitos”).
Halberstam atribui a Jim Aubrey o epíteto de “O patife dos patifes”. (p. 354) Ele exemplifica. Quando Kennedy foi assassinado, Blair Clark, um dos cabeças da CBS News muito amigo de Kennedy, chocado, estava também obcecado pela questão de como condensar nas imagens o drama nacional de modo a não ferir os sentimentos do público, até que Aubrey, totalmente dessensibilizado, ordenou-lhe que apenas repetisse incessantemente, a intervalos de alguns minutos, a cena do assassinato, aduzindo que “é só o que eles querem ver”. Quem, se não Aubrey assim procederia, indaga-se Halbestam, em meio a outros exemplos da rapacidade do produtor. (p. 355)
Porém o sucesso fácil terminou por se revelar desastroso. Em 1964 a convenção do partido Republicano devia ser o ápice do processo em que se estabilizara a estrutura governo-mídia, mas para o padrão Aubrey era apenas uma coisa aborrecida, apenas conteúdo de notícias, e Aubrey detestava o setor de notícias da CBS. A propaganda provara-se fonte milionária por meio de programas de baixo nível, seria perder muito concentrar-se na convenção.
Mas a NBC, que se especializara em notícias, pôde assim bater a CBS dado o interesse nacional na convenção de 1964. Com efeito, o sucesso da NBC nesse ano tornara-se espantoso, e Paley, já algo aturdido pelo êxito do baixo nível de Aubrey, que por um momento parecera inquestionável devido aos números, agora estava furioso, obcecado pelo desejo da reconquista da proeminência, espicaçado ainda mais por que a nomeação de Lyndon Johnson significara uma vantagem para a NBC devido a ligações pessoais de Johnson com o repórter Sandor Vancour.
Então Cronkite tornou-se o trunfo da CBS, e quando Stanton tentou censurar uma palavra do discurso de Cronkite - “erosão” - Cronkite pôde barganhar, ele deixaria a rede, “e de repente alguém estava gritando ‘pelo amor de Deus, diga a ele que volte, não o deixe ir embora” (p. 597). Paley parece ter aprendido a lição de que não poderia manter a proeminência sem investir o bastante em talento.
Mas a importância do setor de notícias só fez crescer. Foi a cobertura do Vietnã que trouxe mais uma vez a atenção do público à CBS. De fato, houve um momento em que a censura do novo Paley, aquele que abandonara os amigos conscientes e se tornara o protótipo do conservantista rico, cercando-se de tipos iguais, não pôde impedir que as atrocidades da guerra fossem reveladas, não apenas com relação aos vietnamitas, mas à precariedade de condições que cercava os jovens combatentes americanos.
Moler Safer captara a cena dos soldados em fila, portando tochas para incendiar Cam Ne, simples aldeia civil que nada tinha a ver com os vietcongs, porém havia se tornado alvo da fúria do potentado local por não ter pago impostos num ambiente de profunda crise, com os soldados americanos servindo de veículo por não saberem bem do que se tratava. Atrocidade em si, tanto quanto pelo fato de que soldados eram feridos na fila pelo fogo portado pelos que se encontravam atrás.
Além disso, havia se tornado prática lançar granadas nos buracos onde se refugiavam civis, ou incendiá-los, aparentemente por ignorância sobre a identidade dos refugiados e houve um momento em que o cameraman vietnamita da CBS conseguiu salvar uma dúzia de pessoas por que, podendo falar em vietnamita, inglês e francês, pôde também demonstrar aos mariners que as vozes que se ouviam do buraco eram de mulheres e crianças, de modo que os soldados não o bombadearam (p. 680/1).
Certamente Halberstam sublinha que as atrocidades não foram tanto dos americanos, quanto da ação sob injunção da crueldade da ditadura vietnamita local contra os vietcongs - até mesmo chegando a considerar honroso devorar testículos de vietcong capturado, o que revoltou os mariners presentes à cena, como a consciência de que a dinastia odiava o seu próprio povo.
As reportagens tornaram-se comoção nacional, alterando a opinião pública a propósito da guerra.
A partir da segunda metade do século XX, a televisão estabilizou de modo aparentemente indecomponível a articulação mídia/Executivo que vinha sendo construída, como vimos, desde o começo do século, quando se iniciara por uma clique de homens da imprensa e poderosos prosélitos do imperialismo. Após os primeiros êxitos, na época de Hearst, vimos que Roosevelt protagoniza o momento da afirmação dessa articulação que passou a caracterizar a estrutura de Estado norte-americano. Com a televisão, o processo completava-se, transpondo por vários recursos da fraude os interesses da sociedade norte-americana anti-imperialista, tornando a presidência foco do Poder pelo carisma, inversamente à ordenação racional do Estado compósita de Executivo, Legislativo e Judiciário, que caracteriza a plena democracia. Porém não significando que a imprensa escrita deixasse de ter papel intrínseco na composição do Poder, uma vez que a articulação  havia sido construída inicialmente por meio desta.
c) Time Magazine e o New York Times
Na Califórnia, como vimos, a modernização do Los Angeles Times implicou alguma reserva ao primitivo papel de kingmaker, também verificamos que o Washington Post de Phil Graham, pelo contrário, o empreendeu tenazmente, compondo a articulação de Kennedy e Lyndon Johnson. E se Kay Graham não quis ou não pôde preservar esse papel, ainda assim pode-se constatar que nenhum destes igualou a Time Life e Fortune, de Harry Luce na consecução dos acontecimentos políticos. O que se pode demonstrar especialmente relacionado à guerra fria. Harry pessoalmente pode ser responsabilizado por algumas das mais proeminentes posições norte-americanas, como relativamente à China e ao Vietnã.
Assim como apresentado por David Halberstam, Henry Robinson “Harry” Luce, seria o tipo ideal que resume todas as demais personas que influíram tão poderosamente por meio da mídia na história do século XX norte-americano. Também especificamente a atuação de Harry, como ele preferia ser chamado, espelha a ligação dessa influência com a política internacional.
Protestante presbiteriano, filho de um missionário, ele mesmo se sentia dotado com uma missão e uma visão cristãs, odiando especialmente o comunismo e o existencialismo sartriano, ainda que ele tivesse feito muito pela teologia de Paul Tillich e pelo historiador Niebuhr. As revistas Time e Life trouxeram o fotojornalismo a uma altura nunca antes atingida, inclusive sendo produtos de novas tecnologias na área da reprodução de imagem e fabricação de papel.
Harry marca a mudança de uma era. Ficaram para trás os tempos do aventureirismo de Pulitzer e Hearst. O investimento em educação escolar formou um público com aptidões de crítica e expectativa de qualidade que já não os tolerava, na presença de publicações de pessoas que refletiam o novo ambiente civil, além de Harry , Adolph Ochs, que criou o New York Times apostando na mesma mudança intelectual.
Se bem que a atuação de Ochs tenha começado muito antes, nos idos de 1878, de modo que a linha do Times perpetuou-se por meio da filha e seu marido, Iphigene e Arthur Sulzberger, ele mantém em comum com a Time magazine de Harry a mesma opção pela seriedade, mantendo o foco em seu endereçamento, especialmente governo e empresariado. Somente em meios de século XX o Times se tornou um jornal popular, mas sem ter mudado a linha editorial.
Para o New York Times, porém, seriedade implicava o não-partidarismo. Harry, inversamente, tornou a Time magazine intensamente política e partidária. A escolha do Times restringia-se a informação, o tipo de fato que o financista ou o político precisava saber. Quanto mais cinza, menos florido, estilizado ou agressivo, melhor.
A história do Times se constrói por um série de vitórias e feitos importantes, mas sempre relacionados à mesma opção, tendo a coincidência de várias mentes, proeminentes na organização da empresa, caracterizadas pelo mesmo tipo de temperamento, marcado pelo patriarca Ochs e Iphigene - dentre os quatro publicistas do Times, ela foi a filha do primeiro, a mulher do segundo, a sogra do terceiro e a mãe do quarto. Com efeito, nessa linha de sucessão,  Halberstam referencia Orvil Dryfoos, que se casou com Marian, filha de Iphigene e Sulzberger. E os jornalistas mais destacados em postos importantes da empresa, Reston e Van Anda.
Reston, na opinião de Halberstam, seria o símbolo do bom jornalismo, a mais poderosa figura da profissão nos Estados Unidos de meios de século, e Van Anda, uma mente brilhante e matemática. Van Anda é o referencial de dois feitos notáveis. Ele foi o único jornalista que apostou no naufrágio do Titanic, quando todos os outros acreditavam na invulnerabilidade, logo que se soube que o navio se chocara com um iceberg. Foi um grande feito, que criou a lenda de Van Anda.
           Além disso, ele corrigiu o próprio Einstein, quando este começou a publicar sua tese na América em visita a Princeton, onde mais tarde como sabemos ele lecionou.  Um repórter do Times cobriu uma preleção de Einstein, obtendo para o jornal a cópia da extensa fórmula que o gênio delineara no quadro negro. Van Anda checou o papel e registrou um erro. Um professor de Princeton foi consultado e devido à fama de Van Anda, resolveu levar o caso ao próprio Einstein, que verificou as notas e ligou para confirmar que ele havia cometido um erro ao transcrever a equação ao quadro.
A sobriedade como algo em comum entre as linhas de Ochs e Harry Luce aporta a uma ideologia comum, a do protestantismo. Mas Harry era cristão de família, enquanto Ochs era filho de um judeu-alemão imigrado, Julius Ochs. O filho já estava sustentando a família com o Times de Chattanooga quando ainda era um rapazinho que precisava da assinatura do pai para caucionar os documentos do próprio negócio. Sua aguda consciência de ser judeu era, assim como a de Paley, temperada pelo patriotismo da nacionalidade norte-americana.
O jovem Arthur desprezava os judeus imigrados que não renunciavam aos seus papeis tradicionais e mantinham os longos cabelos e barbas. Ele pensava que estes homens, cultivando modos estranhos no novo mundo, eram os culpados pelo anti-semitismo.  Também Ochs era o que se chama o “judeu branco”. Uma piada sobre o Times, o jornal endereçado à classe governante, era que havia sido comprado por judeus, editado por católicos e lido por protestantes. Porém pela altura da década de trinta, o judeu branco se tornara o tipo dominante entre os judeus americanos, com a educação escolar em seus horizontes - se não na própria formação, como o que almejavam para os filhos. Eles fortaleceram o jornal como seus leitores mais assíduos e típicos, porém não o típico editor escolhido para profissional do Times. Este devia ser, inversamente, protestante e impecável de maneiras. Judeus só eram permitidos como empregados até o nível do repórter.
Quando Krock, um velho jornalista, pretendeu a vaga de editor-chefe, Sulzberger negou francamente por ser Krock judeu. Krock argumentou que ele não o era por parte de mãe, apenas por parte de pai, e segundo a lei mosaica, somente se é judeu legítimo por filiação materna. Sulzberger respondeu: ”Arthur, como você saberia de tudo isso se você não fosse judeu?” (p. 305).
Ochs, o patriarca, era um maníaco-depressivo, porém muito mais controlável que Phil Grahan. Ochs tinha pesadelos constantes, insegurança, obsessão com a morte. Quando a obsessão se tornou insuportável, comprou um jazigo, costumando desde aí a convidar os amigos para visitá-lo, insistindo que devia ser perfeito, assim quando morresse estaria bem acomodado, acalmando-se desse modo. Como tivesse adoração pela filha Ihigene, a sua princesa, confidenciou à esposa que a filha teria tudo o que quisesse neste mundo, se ao menos ele pudesse viver por mais dez anos. E essa inclinação otimista se manifestara apenas por Ochs estar de fato entusiasmado.  Roosevelt havia autografado uma foto de presente à Iphigene, o que Ochs considerou ótimo augúrio.  
     Ochs tinha demasiada consciência da fragilidade de sua posição, da possibilidade constante da perda. Ele batera inegavelmente, contudo, Hearst e Pulitzer. Na época da guerra da Espanha, tópico que vimos acima com Julien, segundo Halberstam circulava uma piada. Remington, o grande artista, reclamara com Hearst de que quase não havia ação. Hearst respondera que ele próprio forneceria a guerra,  Remington devia fornecer somente as imagens.
Uma vez que Ochs não podia desafiar os gigantes, Pulitzer  do World e Hearst do Journal, ele atacou por outro lado. Tornou o preço do jornal muito menor que os outros, além da opção pela seriedade, inteiramente contrária ao sensacionalismo. Visou assim um público alternativo ao deles.
Ironicamente, a guerra da Espanha fez o Times, na concepção histórica de Halberstam, pois um ano depois da mudança do preço, a circulação do jornal de Ochs triplicava. Ele não competiu pelos mesmos leitores dos gigantes.
Quando o World fechou, Pulitzer o ofereceu a Ochs por pouquíssimo, mas Ochs não o queria nem de graça. A história de Hearst - que Julien considerava o pior tipo de jornalismo - é similar. Conforme Halberstam, ele ofereceu o jornal aos Chandler, porém estes compraram a circulação da manhã. Nessa época, o rádio estava acabando com a circulação da tarde. Os Chandlers fizeram o melhor negócio, dominando o mercado matutino, que resistia bem ao rádio.
Roubar Reston do Times foi um dos grandes desejos de Phil Grahan, porém apenas resultando numa grande frustração. Reston, bom calvinista, pensava no Times como parte de si mesmo, ou uma honorável senhora contra quem uma greve ou abandono surgia como algo tão impróprio. O outro lado do Reston do Times era apenas o Reston marido de Sally Fulton. Bom calvinista, Scot Reston era, como os outros líderes do Times, um homem da empresa e da família.
A opção ideológica do Times pela mentalidade protestante, porém não partidária, era o reflexo natural do patriotismo, tão intenso porque artificial, produto da consciência do imigrante, de Ochs.
Assim, quando William Hale, em 1908, entrevistou o Kaiser Wilhelm, que revelou tão ardorosamente sua opção pela guerra, Ochs estudou o material com Van Anda e outros editores do jornal, decidindo consultar o próprio presidente Theodore Roosevelt, que aconselhou que não  publicassem. Assim fez Ochs, censurando a entrevista histórica. Porém uma década depois, quando o país estava orgulhoso pela participação na guerra, o apoio de Ochs à opção pela paz dos austríacos resultou desastroso, e a rejeição ao Times assim como a Ochs foi tão generalizada que ele quase perdeu tudo, por onde iniciou-se a depressão incurável, não obstante ele ter recuperado a boa sorte do Times algum tempo depois.
A depressão tinha ainda um lastro no anti-semitismo generalizado na época das duas guerras. E por um longo período, o Trib (“Herald Tribune”) foi um sério rival do Times, não obstante a vitória deste sobre o aventureirismo de princípios do século.
A decisão do governo racionar a imprensa, em 1942, resultou em opções diversas dos dois jornais. Sulzberger pensou que a época não era para grandes proventos, assim seria melhor conceder o espaço limitado mais a notícias que a propaganda. Helen Reid, do Trib, acreditou que investir na propaganda seria um meio de superar o Times. O Trib agradava aos republicanos que abundavam nos subúrbios, enquanto o Times fazia mais sucesso na parte central e mais liberal da cidade.
O Trib conseguiu por algum tempo superar o Times em proventos devido a propaganda, porém a cobertura da segunda guerra pelo Times gradualmente consolidou a posição deste entre os leitores mais respeitáveis, e logo a sua reputação tornava-se inquestionável.
Quando a guerra acabou, também o racionamento foi suspenso, e com o espaço livre, o Trib já não pode continuar a competição com o Times. Afinal Homer Bigart, dois prêmios Pulitzer pelo Trib, cruzou a rua para solicitar emprego ao Times. Lester Markel garantira uma fórmula imbatível para o New York Times dominical, o famoso Toynbee e Barbara Ward entre as seções de propaganda da indústria têxtil, do futuro do mundo ocidental, e das tendências do Ocidente em roupas íntimas.
As inquietações depressivas de Ochs já não tinham correlato na situação da empresa. O Trib não restava competidor para o Times. Na expressão de Halberstam, “Assim o Times tinha na primeira metade do século vinte alcançado a posição do jornal mais influente não apenas no país mas no mundo.” (p. 309) O Times tornara-se respeitado pela qualidade da informação. Time e Life Magazines, com influência quase igual, eram contudo apenas temidas.
A influência direta, partidária, de Harry Luce sobre os políticos do tempo, inversamente a Ochs, era a de um patriota americano, crítico do New Deal de Franklin Roosevelt, tanto porque ele não gostava de Roosevelt, que havia sido preconceituoso com Clare Booth Luce, sua segunda esposa, julgando-a frívola de maneiras quando na verdade era inteligente e conscienciosa, como porque ele pensava que os dias da primeira guerra haviam passado, crente na guerra fria como o desafio da América, a verdadeira missão dos americanos na luta ideológica mais decisiva da história da humanidade.
Time magazine refletia mais do que Life, a opção de Harry.  Life era mais à vontade, F. D. Roosevelt podia até aparecer nela, devido ao seu intenso carisma. A opção de Harry: não apenas a sobriedade, o desprezo por roupas elegantes, por ninharias sociais - quando Clare Booth Luce, sua segunda esposa após divorciar-se de Lila Hotz, pediu de presente um colar de pérolas, Harry custou a se recuperar do susto diante do preço, não obstante ser um dos homens mais ricos da América. Não só a rusticidade, pois, traduzia a opção de Harry. Mas, especialmente: americanismo, protestantismo, presbiterianismo, republicanismo, e, sobretudo, capitalismo.
A guerra fria traduziu na mente de Harry, uma luta por tudo isso. A infância de Harry havia sido na China. O  pai havia sido missionário neste país. Pearl S. Buck, a grande escritora, comentou certa vez com Harry como ela se sentia feliz por ter tido, como ele, uma infância na China, sendo igualmente filha de missionários cristãos. Muito surpresa ela ficou diante da resposta de Harry: “não, isso não teve nada de maravilhoso, ele odiara, o fizera sentir-se tão diferente em Hotchkiss e Yale, ele havia detestado ser aquele pobre, e era dolorosamente embaraçado por isso.” (p. 86)
Sua admiração por Eisenhower vinha justamente por este ser tão à vontade, tão sem qualquer sentimento de inadequação pessoal, o contrário da inadaptação permanente de Harry e seu sentimento de solidão, o que resultara da infância, do temperamento rígido do pai.
Com relação à China, Harry sentia-se contudo uma espécie de patrono, considerando Chiang Kai Check não apenas um partidário dos seus interesses anticomunistas, mas um amigo pessoal. Por outro lado, a  amizade de Harry com Teddy White, seu correspondente na China, sofreu o impacto dessa opção política, exemplificando até onde o republicanismo, orgânico em Harry, poderia ir na consecução dos seus objetivos.
Na história do jornalismo, Harry inovou decisivamente. Ele inventou o jornalismo não restrito a política e crime. Harry introduziu como noticiável cada parte do que Halberstam designou a estrutura social (“social fabric”): medicina, lei, esportes, lazer, até a própria imprensa. A curiosidade fazia parte de sua personalidade, porém de um tipo raro, incompreensível para os circundantes mas geralmente antenado com o gosto do público.
Certa vez, viajando à França, em meio ao tour de apresentação à cidade, Harry indagou: Os franceses são felizes? Como assim, replicaram, não se pode saber se os franceses como um todo são felizes. Ele queria saber. Num estádio de futebol, olhando a plateia, sua pergunta era: quantos deles são comunistas?
Nascido em 1898, ele criou a Fortune, na década de vinte, para mudar a sua geração de jovens capitalistas, que ele via além de si mesmo como tipos de Babbits - o personagem do rico bobo, caricaturado por Sinclair Lewis. Inapropriados para o próprio papel. Não, Harry educaria  a classe dominante a fim de que ela pudesse cumprir o seu dever.
Harry inventou o formato da revista de notícias semanal. Quando alguns estudantes contestaram que ele tivesse o direito de chamar Time de revista de notícias, uma vez que estava cheia de opiniões dele mesmo, Harry respondeu: “Bem, eu inventei a ideia, então estou certo de que posso chama-la como eu quiser” (p. 71). Assim também respondia a quem reclamava por ele ser tão tendencioso que era verdade, mas todos sabiam que o jornalismo não era objetivo. A verdade era apenas uma estratégia, como qualquer outra.
A reportagem de capa (“cover story”) foi introduzida por Harry , segundo Halberstam a inovação que trouxe o maior impacto ao jornalismo da nossa era. Ela respondeu aos conceitos de Harry sobre o que as pessoas deviam ler, o que seria bom para elas que lessem, e sobre o jornalismo como sendo de alta qualidade porque qualquer assunto importante poderia ser reproduzido como algo interessante.
Ele criou o Sports Ilustrated, quando ninguém acreditava que esportes fossem noticiáveis. Harry anteviu o interesse crescente do público nesse assunto.  Ironicamente, comenta Halberstam, quando o sucesso da televisão como veículo obrigou ao fechamento da Life, nos sixties, como a todas as similares, foram os esportes e o lazer, itens que Harry exclusivamente trouxera para o jornalismo, o carro chefe do sucesso televisivo.
Harry tencionou criar uma revista intitulada Murder (assassinato). Ele tinha grande curiosidade sobre o assunto e achava que as pessoas também tinham. Ele adorava estar à frente dos próprios editores, uma vez ligando de Phoenix para Otto Fuerbringer, um dos principais editores da Time, porque uma espécie de sombra de Harry, perguntando se Fuerbringer sabia que em Chicago havia um milhar de gangs de assassinos.
A John Crosby, que estava escrevendo uma coluna sobre televisão no Trib, Harry reclamou que não via televisão porque não sabia o que era bom para ver, sugerindo a Crosby que este poderia ganhar muito dinheiro criando uma revista que noticiasse programas de televisão e quais eram os melhores. Harry projetava assim o que foi produzido como TV Guide, segundo Halberstam um dos maiores sucessos comerciais da época.
Harry de fato ganhou muito dinheiro com suas revistas, começando nos anos vinte, alcançando o auge do sucesso em meios de século. Life gozou de posição principal nas vendas antes que  a televisão levasse à obsolescência o tipo de publicação que representava. A  preocupação da empresa, então, era não deixar que ela engolisse todo o empreendimento, como ameaçava fazer devido ao enorme sucesso de público. Pois Harry se interessava muito mais pela Time, o veículo de suas ideias pessoais - assim Sartre jamais foi capa da Time e quando se cogitou nos Beatles, a preferência foi para Westmoreland, o general americano no Vietnã.
Na altura do fechamento de Life, nos sixties, quando também Time Inc. vendeu com grande lucro, à MacGraw-Hill, as cinco estações de televisão que possuía, Harry deixava para o filho, Hank Luce,  um império que na fusão com a companhia de Temple tornou-se uma grande indústria de papel. (p. 1012-14). Na verdade a empresa não podia ser considerada um negócio de família, e Hank Luce agiu mais conforme aos associados do que como um novo educador.
Harry  quis e logrou preencher o papel de ideólogo do Ocidente, conforme Halberstam observa, pretendendo-se  um educador antes que um jornalista. Como vimos com Julien, os ideólogos da América já existiam, porém Harry inovou também nesse campo. É certo que nas pegadas de Theodore Roosevelt, prolongando o mesmo mito da liderança espiritual da América, porém projetando-a como a superpotência do superséculo da educação, quando a massa se tornara culta, endereçando-se a esse público bem educado por meio da linguagem internacional.  Ser homem de grande força de vontade, Harry o demonstrou ao superar completamente a gagueira que havia sido traço tão forte na sua juventude.
Sedução das mentes, dirigismo, indução à falsa compreensão dos fatos, não era o que Harry  pretendia como fins, porém não hesitando em utilizá-los como meios, por que para esse cristão radical os fatos não diziam algo por si, eles eram apenas parte da Verdade, aquilo em que ele acreditava piamente, a missão de Deus para a América. Harry não era de modo algum corrupto. Na noite do discurso de ingresso de John Kennedy no partido democrata, Harry conversava com Joe Kennedy, o pai, sobre filhos, e este sugerira a ele que comprasse para o filho Hank Luce uma cadeira no congresso. Harry protestou, não se faz uma coisa dessas, e Joe apenas sorriu, é claro que se faz, todo mundo sabe. Mas Harry permaneceu incontaminável.
Como vimos acima, muito da campanha presidencial de John Kennedy deveu-se ao emprego da companhia de pesquisa de opinião de Lou Harris, e Halberstam comenta que se a conta foi ficando cada vez mais alta, Joe Kennedy não era um homem disposto a deixar seu filho perder uma eleição por causa de dinheiro.  Inversamente, o dinheiro não era o alvo de Harry tanto quanto a influência com objetivos morais,  e ainda que fosse um amigo ostensivo de Bill Paley, nutria certo desdém por ele, assim quando Paley e Frank Stanton quebraram por causa dos programas impiedosos de Jim Aubrey,  Harry sentiu algum prazer nisso.
Problemas como raça e segregação racial não existiam na imaginação de  Harry, a América era o mundo livre pugnando para eliminar o inimigo, o comunismo ateu. A ideia de que Harry pudesse dominar uma cadeia de televisão inteira com suas perspectivas e atitudes não fazia os seus íntimos associados sentirem-se muito à vontade. Quando um fato não refletia por si só a Verdade, ele devia ser simplesmente ignorado, na sua concepção.
Assim quando Mao Tse Tung tomou posse do governo na China, Harry se recusou a aceitar o veredito da história, continuando a guerra muito depois que Chiang já havia desistido. Nas páginas das publicações de Harry, a China continuava sendo governada por Chiang, ou era a nação que refletia o desejo desse governo. Harry se conscientizara da importância das relações sino-americanas na guerra-fria, projetando uma aliança ideal entre Chiang e um presidente republicano dos USA, agindo nos anos quarenta como o embaixador do nacionalismo americano. Compreende-se o gracejo de um amigo, com quem Harry confidenciara, quando Clare Booth Luce se tornou embaixatriz na Itália, que não considerava isso muito positivo, Clare estava parecendo alguém que pensava dever carregar o mundo em seus ombros – “mas é você mesmo o homem ideal para isso” - respondeu o amigo.
E quando em 1944 Teddy White, um judeu correspondente e amigo de Harry,  enviou uma entrevista com Chiang, feita em parceria com Annalee Jacobi, ficaram ambos desagradavelmente surpreendidos quando viram a publicação inteiramente distorcida, praticamente reescrita, com perguntas que nunca foram feitas e respostas que nunca foram dadas, resultando numa propaganda anticomunista que anunciava a vitória iminente das forças nacionais.
White já havia escrito sobre uma terrível fome grassando na província de Honan, em 1943, quando a situação era tão desesperada que ele teve que chicotear o cavalo que o transportava para que se movesse o mais rápido possível, do contrário a multidão faminta iria derrubar a montaria a fim de devorá-la, deixando o jornalista abandonado para morrer de fome.
Salvando-se, porém, White forçou uma resposta do governo, devido à impressão causada pela reportagem na América, inclusive designando a causa da fome pela cobrança de imposto sobre o grão a camponeses extremamente pobres,  além disso, perante várias colheitas fracassadas, o governo não distribuindo grãos. Na China, Madame Chiang tentava obter a demissão de White, enquanto o governo negava a informação sobre Honan, por sorte White obtendo o testemunho de fotos que alguém fizera dos camponeses. A vida de provavelmente milhares de pessoas foi salva pela reportagem, que forçou o governo chinês a enviar grãos.
Nessa época Pearl S. Buck instou com Harry para publicar um artigo em Life, expressando perspectiva bem oposta a de Chiang sobre a situação chinesa. Harry não negou, porém não mudou a própria concepção da necessidade vital de apoio a Chiang. Numa carta a White, explicando porque editara o artigo de Buck, Harry instava a conservar a fé na China capitalista e em seu Generalíssimo, o qual importava acima de tudo manter. Mas White estava perdendo a fé diante dos fatos.
Mas continuava confiando em seu amigo Harry. White continuou pensando, até bem tarde, que a censura estava sendo feita por Whitacker Chambers, um editor do Times que havia sido antes um membro do partido comunista americano, porém passado para o lado oposto, tornando-se um propagandista da guerra fria,  convencido da inevitabilidade do conflito total entre o Ocidente e o comunismo, e que considerava os correspondentes inimigos por sua mentalidade liberal, e se isso irritava todo mundo no jornal, Harry não se importava minimamente, considerando Chambers um trunfo, instalando-o como editor em 1944, o que significava sinal verde para a censura e o dirigismo - Chambers, autor do famoso “Witness”,  sendo para a geração dos anos quarenta o que Halberstam considerou a palavra definitiva, junto com Algers Hiss.
White compreendeu que a censura estava procedendo do seu próprio jornal, não apenas pelo governo chinês. A essa altura, um conselheiro de Chiang, o general Joseph Stilwell, estava contradizendo abertamente o presidente chinês, e instando por maior liberdade de movimentos contra os japoneses assim como algum tipo de acomodação com os comunistas, mas a censura frustrava os esforços de esclarecimento de White para a América a propósito dos rumos da orientação de Stilwell.
Já certo de que Chiang era o inimigo dos chineses, White voltou-se à prospecção da realidade do comunismo, descobrindo que as forças de Mao estavam muito bem organizadas, grandemente apoiadas pelos camponeses, militar e politicamente muito mais eficientes que a do governo. A história enfureceu Harry, porém o que ocorreu não foi a demissão de White, e sim a promoção do nome do correspondente associado entretanto a publicação de artigos que diziam o contrário de tudo o que White pensava e estava informando aos editores.
John Fairbank, oficial de Informação de Guerra na Índia e antes um professor de White em Harvard, perfeitamente consciente do que estava ocorrendo na China, escreveu a este uma carta desaforada, destoando de toda a amizade que sempre havia existido entre eles como se fossem pai e filho, pelas mentiras que White andava publicando. Chocado, contudo White recobrou nisso alento para a elaboração do seu livro, “Thunder out of China”, revelando o que era realmente sua perspectiva dos acontecimentos.
O livro fez grande sucesso - porém apenas um elemento no quadro maior da ruptura a caminho, com Harry.
Em 1944, as forças de Chiang foram batidas naquilo que foi designada Retirada da Asia Oriental. Para White e Stilwell, ocorrera um colapso, não uma simples retirada, era a confirmação do que vinham prevendo há tempos. De fato, Washington afinal aceitava tomar consciência do estado de coisas na China, e Roosevelt ordenou a Chiang que concedesse a Stilwell  “irrestrito comando de todas as suas forças”. Chiang resistiu, sabendo que Stilwell era simpático aos comunistas. Roosevelt foi desobedecido, tendo que retirar Stilwell da China.
Ao contrário de repórteres menos conscienciosos, que apenas resumiram o momento da partida de Stilwell, White escreveu a história inteira: “Chiang sobreviveu à sua utilidade histórica”, como “um homem de espantosa ignorância. Ele não é apenas ignorante mas é inconsciente de sua ignorância”. (p. 120) A fúria de Harry aumentou, nada disso foi editado. White escreveu a Harry admoestando-o de que estava prejudicando a China, enquanto Harry defendia-se, Chiang era melhor porque sua ideologia era a mais aceitável por “nós”. Após a cobertura da capitulação do navio de guerra Missouri, conforme a ordenação de Harry, White devia retornar aos Estados Unidos, não continuando como correspondente na China.
Harry e White fizeram as pazes mais tarde. Mas nesse ínterim a demissão fora ruinosa. White foi salvo financeiramente pela venda de “Thunder out of China”,  escrito com Analee  Jacobi, ao “Livro do Mês” . Ele considerou bom que a oferta pelo livro fosse feita depois de já ter se demitido da Time. Harry detestou, mais que o livro, a sua influência, por exemplo sobre George Marshal, responsável por uma tentativa falhada de armistício, invectivando que Marshal estivesse “carregando o livro daquele judeuzinho feio filho da puta” (p. 125).
Para Harry era algo espantoso que alguém que ele não apenas havia contratado, mas que havia “feito” - conforme pensava - pudesse estar agindo de modo inverso a tudo que ele podia esperar. Páginas de Time não deixaram de ocasionalmente ferir White, que ficou mais alarmado ainda quando leu a entrevista de Harry ao Post-Dispatch de Saint Louis, em que designava White como um comunista, explicando porque o demitira. A essa altura, os livros de White eram banidos do país, e ele não tinha muitas ofertas de emprego - era o momento do McCarthysmo.
Porém o livro de White sobre a China havia sido um imenso sucesso, vendera 43.000 cópias na edição regular e 400.000 na do Livro do Mês. Ele se mudou para a Europa, quando sobreveio a crise, onde escreveu sobre o renascimento da cultura europeia-ocidental em “Fire and Ashes”, e obteve posição proeminente como articulista político na Collier’s, uma revista que, como a Saturday Evening Post, reproduzia o formato de Time e Life, porém sem o aparato fotográfico que Harry introduzira  tão   exitosamente.
Em 1956, quando White estava ainda em Paris,  amigos comuns o reaproximaram de Luce. A revista  falira, e Harry convidou White para a Life, o qual aceitou ainda que com certa hesitação. Com o tempo a antiga amizade refloresceu e White ficou sendo o único colaborador de Harry com licença para interrompê-lo - Harry tinha a mania de enveredar por monólogos que não admitia serem interrompidos. Porém com reserva: “mas não me interrompa muito, Teddy! Não me interrompa muito” (p. 129).
Os acontecimentos na China não fizeram de Harry um McCarthysta apenas devido ao montante de vítimas que obviamente eram pessoas respeitáveis e não comunistas de fato, o que tornou-se intolerável. Mas de fato o anticomunismo de Harry tornou-se mais vivo, e ele aproveitou o momento para estigmatizar o partido democrata, responsabilizando-o diretamente pelo desastre na Ásia e lançando o estigma da “moleza com o comunismo” (“softness on comunism”).
Tornou-se uma obsessão de Harry produzir um presidente republicano, ainda mais porque fazia vinte anos que um republicano não se elegia, e se não ocorresse agora seria como se o sistema bipartidário estadunidense houvesse colapsado. Na convenção do partido, a estratégia de Harry obrigou-o a trair o amigo Robert Taft, que contava com o apoio dele. Harry não acreditava que Taft pudesse ganhar a eleição, posto que era forte apenas em estados que os republicanos ganhariam de qualquer modo ou naqueles em que os democratas eram maioria, enquanto Eisenhower demonstrava boas chances justamente onde o partido mais precisava.
A publicação de um artigo mostrando essa simples aritmética da nomeação culminou uma série de outros  francamente antipáticos a Taft, o que o surpreendera grandemente, dada a antiga amizade. Eisenhower, porém, tornara-se o ídolo de Harry, e de fato Eisenhower era um líder em qualquer grupo, segundo Halberstam. Harry relacionava Taft com uma imagem que acima vimos os republicanos estarem tentando afastar de si mesmos, modernizando-se, sendo ele o estereótipo do conservador elitista, quando o partido almejava propagar uma imagem popular e democrática.
Harry obtivera êxito em convencer o público e o partido de que se os republicanos quisessem vencer, eles tinham que optar por Eisenhower, assim como antes obtivera êxito em convencer o mesmo Eisenhower a concorrer. Ideologicamente porém Harry era bem aproximável a Taft, e quando um dos seus repórteres, Robert Elson, foi enviado para entrevistar Eisenhower, Harry  ficou algo espantado com a vagueza das respostas do general, a evitação  óbvia de se pronunciar sobre questões determinadas. Segundo Halberstam porém era por isso mesmo que o partido republicano simpatizara com Eisenhower, ele era ideal para a modernização da imagem, um homem que não tinha um passado na acepção de uma causa.
Porém a modernização do partido republicano, como vimos acima, era um movimento hesitante. Se o visado era a imagem popularesca, Nixon era o ideal, como observou Paulo Francis em seu estudo sobre a disputa com MacGovern - Nixon, tão inconsequente e apaixonado, tão imediatista e impaciente quanto o homem comum da América, contradizendo as taxas de alta educação; mas a elite patrocinadora do partido, oriunda do business de mídia, não estava disposta a ir tão longe, e o próprio Harry não se sentia à vontade com Nixon. Essa elite acreditava então na sua própria missão educadora.
A vitória nas eleições suavizaram o ardor anti-comunista e republicano de Harry, que para Halberstam criou literalmente o cenário do McCarthysmo, uma vez que os desejos de Harry eram contemplados na retórica agressiva de Eisenhower.
Halberstam convém com os admiradores de Harry, que observaram que seu registro dos desmandos de MCarthy foi o melhor naquele período sombrio, porém crendo que a história real é mais complexa. Pois Harry, paralelamente, estava colocando o partido democrata na defensiva, acusando Acheson de “moleza com o comunismo”,  e produzindo um vácuo a partir da censura da informação tal que permitia o surgimento de teorias conspiratórias, não expressando de fato qualquer compaixão pelas vítimas decentes, posto que em todo caso elas eram relacionáveis à questão comunista. Além disso, continuava a cobrir Chiang como o verdadeiro líder da China.
É até algo jocoso o modo como Chiang bajulou Harry na sua visita à China, instando por um encontro quando ele já estava a caminho do aeroporto após os compromissos agendados, e quando Harry concedeu a visita, meio sem saber o que ainda havia para falar, pensou ser apropriado perguntar o que Chiang antevia para o futuro da China, sendo a resposta a antevisão de “grandes perigos”. Harry insistiu por um esclarecimento, algumas vezes. A todas a resposta era a mesma, “grandes perigos”.
A meu ver, o lema do anticomunismo como uma questão de “segurança nacional” não foi bem uma criação de Harry, mas uma formulação adequada ao que os Estados Unidos haviam se tornado, um complexo militar-industrial, como acentuou Julien. Em todo caso, sem dúvida Harry refletiu a tendência e produziu-se como seu ideólogo, o que explica a posição singular da Time com relação ao Vietnã. Para Halberstam, o próprio Harry  “claramente considerava que o Vietnã era até certo ponto o seu bebê” (p. 639).
O curso histórico que conduziu à maximização do conflito bélico na Ásia intercepta de forma crucial a atuação da imprensa, conforme o tratamento de Halberstam: “O governo americano estava menos lutando na guerra do que numa campanha de relações públicas” (p. 626). Nesse ponto Halberstam se coloca ele mesmo como um personagem na trama dos eventos, já que atuara como correspondente para o New York Times. As duas administrações,  de Kennedy e Johnson, o estigmatizaram pessoalmente.
Uma política definida de cooptação da imprensa havia sido estabelecida, e não devia haver complacência, a mentira era a ordem do dia. Não devemos deixar de observar que os acontecimentos contribuíram para esse resultado, uma vez que a princípio não havia muitos que duvidassem da vitória dos americanos. A resistência a mudar  a opinião frente aos fatos é que não só revelou-se demasiada, como foi verdadeiramente produzida pela estratégia equivocada dos governos - como sabemos, nisso não importando a origem do partido.
Os honestos repórteres de campo, contudo, conhecendo a verdade pela experiência, foram críticos da mentira  dos grandes da administração na América, mas nunca deixaram de ser simpáticos aos membros das forças armadas que lutavam efetivamente. Porém como leais à verdade eles foram exceções num meio extremamente corrompido a partir de uma estratégia cuidadosamente orquestrada: bajulação de profissionais de campo, resumos assinados pelo alto-escalão publicando informações contrárias às que profissionais reportavam, e como por “razões extremamente básicas” isso não adiantou, mandar VIPs para Saigon, que deviam monopolizar a atenção dos repórteres para depois voltarem relatando que estava tudo muito bem com as tropas e a vitória estava à mão.
Por outro lado, os profissionais que insistiam em não se deixar cooptar eram caluniados, francamente hostilizados. Eles eram chamados de demasiado jovens, desinformados, maricas (“sissies”), dizia-se que choravam quando viam fotografias de corpos de vietcongs, ou então que grassava entre eles perigosos radicalismos políticos (p. 627).
Sobre Halberstam, Kennedy se pronunciara a Sulzberger: ”o que você acha do seu jovem em Saigon”? Sulzberger respondeu favoravelmente ao rapaz, que nessa altura tinha vinte e nove anos. Kennedy insistiu, indagando: “não acha que ele está demasiado envolvido com a história”? Sulzberger continuou na linha defensiva. Finalmente Kennedy sugeriu: ”será que vocês não estariam pensando em manda-lo para Paris ou Roma”?
Halberstam aduz que se Kennedy estava irado com a cobertura da imprensa em Saigon - ao contrário do que Reston informara a Sulzberger sobre a natureza do encontro com ele  – era particularmente porque Kennedy sabia que os repórteres estavam mais rapidamente informados sobre as lutas de facções na embaixada do que a própria administração nos Estados Unidos. Consigo mesmo, Halberstam afirma que Kennedy estava sobremodo furioso por que como repórter ele tinha as melhores conexões, estando há quinze meses em Vietnã, sendo o único repórter de tempo integral para um jornal americano em Saigon.
Quanto a Lyndon Johnson, quando tomou posse já não havia apenas 15.000 americanos na Ásia como nos anos Kennedy, mas 100.000, e, logo, 200.000. Repórteres comissionados pela Casa Branca estavam sendo enviados ao Vietnã para dizerem o que a Casa Branca queria que fosse dito, e esses visitantes, conforme Halberstam, estavam deveras desinformados, suas fontes limitavam-se aos resumos produzidos pelo alto escalão administrativo. Johnson gostava particularmente deles, e os admoestava: “não sejam como aqueles garotos, Halberstam e Sheeran... eles são traidores da nação”. (p. 628).
É interessante observar que se Sulzberger precisava do conselho de Reston na ocasião, é porque Sulzberger estava reassumindo os negócios do New York Times como sucessor de Orvil Dryfoos, que morrera de um ataque do coração. Sulzberger havia sido designado, porém afastado pela preferência da família por Orvil. Sulzberger, judeu, era um homem muito bonito, segundo Halberstam, mas a família o apelidara “Punch” - um pequeno “peso-leve”, como alguém que não tinha muita seriedade.
Ele se sentia, pois, inseguro na profissão, e devendo entrevistar o presidente estava demasiado pouco à vontade, por isso tendo interrogado Reston sobre o que devia ser o teor da conversação. Reston respondera que o presidente perguntaria sobre os seus filhos, e Sulzberger deveria indagar do mesmo modo,  sobre os filhos de Kennedy. Nada disso verificou-se, e ao invés Kennedy estava furioso com o Times e seu correspondente radical, David Halberstam. Afinal Sulzberger negou a Kennedy que estivesse pensando em retirar o correspondente do cenário bélico.
Uma das variáveis do curso histórico da guerra poderia ser equacionada como a eleição de Kennedy contra Nixon. Ainda que este não tenha deixado de bombardear, não parece ter sentido que aquela era de fato a sua guerra, o que ficou claro quando Nixon assumiu mais tarde. E Luce foi algo responsável pela eleição de Kennedy, não obstante o antagonismo partidário.
Luce expressava-se francamente seduzido por Kennedy, e se a Time apoiou Nixon, não o fez com qualquer intenção real, Harry arrependendo-se ao ver que um democrata havia ganho, culpando-se por isso - mas no fundo deliciando-se: “você sabe”, confidenciava aos amigos “eu não gosto de Nixon”, ainda que fosse sua obrigação apoiá-lo, “eu não gosto de Nixon, mas eu gosto de Kennedy”, ainda que não concordasse com tantas coisas nele: “ele me seduz”. Os amigos respondiam “não é tão ruim assim, Harry”, e Harry retrucava “é sim, quando estou perto dele me sinto como se fosse uma prostituta” (p. 498).
Na verdade, Kennedy trabalhou por esse resultado, objetivando se não o apoio, tornar Time parte de sua estratégia de governo a fim de contornar a oposição aberta, e assim também devia fazer Lyndon Johnson. Eles visaram suas relações com a  imprensa como uma das mais importantes questões do seu governo, e entre todas as publicações da época, Time e Life ou, alternativamente, o New York Times.
As relações de Kennedy com Sidey, empregado por Harrym  são algo reveladoras da personalidade de Kennedy e de sua estratégia política. Quanto a esta, já vimos que se  a relação com a imprensa tornou-se central a ponto de suplantar todos os demais objetivos, estes contudo os únicos legitimáveis como responsabilidade do governo, tratou-se de um jogo duplo em que a oposição se complementava pela bajulação. Nada o espelha melhor do que o exemplo da estratégia kennedyana relativamente a Time Inc. Porém neste caso o valor do exemplo é igualmente duplo, uma vez que Harry  estava pessoalmente interessado em ser o condutor nas decisões que no entanto deveriam ser exclusivamente responsabilidade do governo eleito e  representativo.
O momento histórico é particularmente interessante para o demonstrar, posto que singularmente concentrado num ponto único, a guerra do Vietnã, condensando todas as paixões e contradições da guerra fria como aquilo que havia substituído a multiplicidade de atribuições da sociedade americana.
A cobertura de Halberstam permite a meu ver considerar que a intenção de Kennedy com relação a Harry era obter exatamente o efeito que vimos ocorrer, a sedução pessoal, dadas as fragilidades a que estava exposto, a condição religiosa minoritária e a oposição partidária.
Pois,  quanto ao momentun, a guerra do Vietnã, não havia muito o que Kennedy pudesse temer da parte de Harry. Pelo contrário, segundo reporta Halberstam o presidente foi até mesmo chantageado pelo proprietário da Time, com a promessa (“pledge”) ao pai, Joe Kennedy, de que se ele mudasse a política americana na China ou parecesse mole no Vietnã, Time o isolaria (“will tear him apart”). A propósito, Mert Perry, repórter da Time no Vietnã, maravilhado com o número de celebridades enviadas, designou o Vietnã de “Time Magazine Disneyland.” (p. 639).
E Halberstam acentua o quanto o Vietnã foi um divisor de águas na história política americana, deslocando inteiramente a oposição tradicional de presidência e congresso para uma oposição real entre presidente e imprensa, enquanto o anticomunismo da era McCarthy transformava-se no imperialismo da era atual. Houve constantes investigações da CIA e das forças armadas sobre as fontes dos repórteres no Vietnã, com uma piada correndo a propósito, os correspondentes recebendo mensagens dos escritórios centrais perguntando por que os coronéis que os informavam nunca eram nomeados, e eles respondiam, porque se fossem nomeados eles não seriam mais coronéis.
A batalha era sobre a informação de como e quanto durava a guerra. Nunca houve, segundo Halberstam,  conflito de repórter contra repórter, propalado pela Casa Branca e o Pentágono, inversamente o consenso dos correspondentes em Vietnã sobre o rumo desastroso da guerra era completo, destoava sim apenas a informação de correspondentes e  visitantes pagos para perpetuarem a versão falsa da administração. Se os repórteres não confiavam na diplomacia, mas viam como honestos aos soldados que lutavam, era porque aqueles funcionários eram os que haviam sobrado após o mcarthysmo, ou seja, sem consciência política, sem convicção existencial.
Nesse cenário a censura tornou-se um requisito do aparato do Poder imperialista, articulado entre a Cia, a Casa Branca e o Pentágono. Aos itens que vimos acima compondo a estratégia de contra-informação do governo na guerra, ajustou-se ulteriormente a doutrina da segurança nacional com o componente expresso do dever de autocensura por parte dos repórteres, uma vez que o debate seria oportuno ao inimigo (p. 625).
Compreendemos assim a pressão sobre o New York Times quando Kennedy soube que Tad Szulc, um repórter com boas conexões na América Latina, descobrira que a CIA estava recrutando e treinando cubanos exilados num quartel secreto da Guatemala. Algo dessa história já havia transpirado em The Nation, contudo houve uma cortina de silêncio, como desinteresse motivado por um sentimento de temor. A história de Szulk no Times era algo bem diverso em termos de recepção. Kennedy convocou Scotty Reston, quando o Times ainda estava sob Orvil, instando para que a história fosse cortada, de modo que não impedisse o plano de segurança nacional.
Orvil, seguindo Reston, concordou com a censura de Kennedy, não sem resistência da parte de editores em New York que se sentiram particularmente irritados, Theodore Bernstein argumentando argutamente sobre a irredutibilidade entre segurança nacional e interesse nacional, não era atributo do governo impedir a livre expressão garantida por lei num país democrático. Surpreendido pela veemência dos seus próprios colaboradores, contudo Orvil sentiu-se demasiado ameaçado para desafiar a autoridade de Kennedy e a história não foi publicada. Porém, como Halberstam observa, como segredo o caso não tinha razão de ser, uma vez que se Szulc sabia, Fidel certamente também sabia.
Como já deve ter ficado claro, o treinamento integrava o projeto de invasão da Baía dos Porcos, que resultou no fiasco que a história registra. Após o que, Kennedy chegou a arrepender-se, se a reportagem fosse publicada poderia tê-lo salvo do desastre, confidenciou a testemunhas, porém a atitude  de Kennedy perante os repórteres no pronunciamento oficial à imprensa foi uma mistura de ostentação pessoal e reforço à doutrina de segurança nacional, recusando-se sob essa escusa a informar o que todos queriam saber, o que realmente havia acontecido na Baía dos Porcos, ao invés apresentando a doutrina da autocensura.
Com a Time nunca ocorreram tais conflitos de interesses em política externa - que agora invertendo a hierarquia era a marca da liderança nacional - mas sim os que pudessem decorrer da pretensão do presidente dominar os pormenores da veiculação de sua imagem pública. Sidey, o repórter da Time para a Casa Branca, se tornou assim o alvo natural da instabilidade emocional kennedyana.
Não havia na Time voz discordante de Harry que permanecesse deveras audível. Emmet Hughes, grande amigo e colaborador de Harry, que se comprazia em discorrer sobre questões teológicas com ele, mesmo não sendo presbiteriano e sim católico, e a quem Halberstam considera um homem de profunda inteligência, dotado de beleza e cultura, se viu envolvido num prolongado confronto a propósito da nomeação do editor chefe. Hughes fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar a nomeação de Fuerbringer, um luterano conservantista que almejava apenas servir como o melhor instrumento das intenções de Harry, tencionando ao invés que a nomeação fosse para alguém mais cultivado e liberal. Porém o jogo de pedir conselhos era mais aparente que real, Harry queria apenas concordância, e se Hughes afinal não a concedeu, então ele apenas desistiu de procura-la e decidiu por si mesmo. Ainda que soubesse que também os seus repórteres de campo não gostavam de Fuerbringer.
As relações de Hughes e Harry afinal expressaram os dois pesos e duas medidas de Lucy, após o interregno de 1958 a 59 quando não havia ninguém tão íntimo deste quanto Hughes, que ficara famoso por ter inscrito na Time a sentença mais importante de Eisenhower no ano de 1952: “I shal go to Korea” (“Irei à Corea”). É que Hughes escreveu depois um livro crítico sobre o governo Eisenhower, o que irritou Harry.
Nomeado Otto Fuerbringer para editor manager de Harry, o caminho para a aprovação da beligerância imperialista em política externa estava garantido, porém Kennedy queria mais do que isso, ele queria pessoalmente inspirar uma atração irresistível, que fosse sentida até pelos oponentes partidários. Por meio dessa atração ele esperava neutralizar ataques relativos à sua posição interna liberal, o que porém ele dificilmente poderia esperar de Fuerbringer.
Sua estratégia consistiu em ser visto, em momentos importantes de exposição pública, lendo a Time, profundamente interessado na linha editorial, convidando Harry para constantes jantares na Casa Branca. Certa vez, quando Fuerbringer esteve doente, mesmo antes de Kennedy ser eleito,  surpreendeu Harry, perguntando-lhe se Otto estava de férias. Harry indagou porque ele perguntava, Kennedy  respondendo que era por ser claro que a revista não estava como de costume naquela semana.
Quando Kennedy se elegeu, Fuergringer adoeceu gravemente, de um aneurisma, sendo substituído por Tom Griffth na Time, em quem Harry não confiava tanto. Kennedy refletiu a mudança, pois quando Fuerbringer retornou, ele o compreendeu de imediato. Ao desembarcar numa noite de viagem, deteve-se um pouco na pista do aeroporto,  lendo a Time sob as luzes do avião, os dedos correndo pela página enquanto lia, a face se tornando cada vez mais severa: “Isso está errado... isso está errado... isso está errado...”, vaticinava. Chamou Sidey que esperava junto ao corpo de imprensa: “Sidey, ouvi que Fuerbringer voltou.”  O repórter confirmou a informação. “Sidey, você havia me garantido que ele estava virtualmente às portas da morte. ... Você me enganou” -  ele estava  totalmente furioso. As relações de Kennedy com a imprensa não foram comprometidas apenas pelo movimento pacifista, como se demonstra pela curiosa batalha de Kennedy na Time.
Conforme Halberstam, 1961, o início da década, é uma era favorável ao incremento de lucros na imprensa, o próprio Kennedy era uma fonte de notícias, uma garantia de prosperidade, e Time se beneficiou igualmente. Ao contrário, para Kennedy a época não era boa, uma época de grandes fracassos pessoais, e ele procedia nisso de modo oposto a Nixon. Este, sob pressão, apelava para repórteres de publicações favoráveis a ele, e restringia o acesso a estes. Kennedy apelava para os críticos, os que lhe eram favoráveis não precisavam de atenção a seu ver, no máximo alguma confirmação. Na Time, Fuerbringer estava sofrendo oposição de Clurman, responsável pelo setor de contratações, e  Sidey era  um homem de Clurman, em quem Fuerbringer não confiava, o que o levou a tentar sustar a nomeação de Sidey para cobrir a Casa Branca, porém Harry, sendo o único satisfeito com o conflito entre a sede do jornal e os repórteres de campo, permitiu que ele continuasse.
Kennedy passou a uma constante perquirição de tudo o que era publicado sobre ele e seus íntimos. Se o artigo versasse sobre política ele se mantinha controlado, mas não se fosse sobre detalhes da vida pessoal, uma referência ao velho Joe, ou às aulas de tênis da célebre esposa, a bela Jackeline Kennedy, que depois do assassinato dele casou-se com o milionário Onassis.
 Kennedy nutria suspeição diretamente voltada contra Sidey. Mesmo quando nomeado Homem do Ano, ficara irritado. Chamou Sidey para reclamar: “soube que os seus filhos das putas fizeram isso de novo”. Qual era o problema? - Sidey tentando entender. Kenny O’Donnell havia registrado que Kennedy estava sendo retratado por um famoso artista, uma operação difícil, com Kennedy nada satisfeito com o resultado, parecia cansado, os olhos não alinhados. Kennedy acusou o artista de tê-lo feito parecer vesgo, e o pintor respondeu, “bem, ele é vesgo”.
Certa vez a fúria de Kennedy parece mais justificada - Time havia coberto um evento mas cortado o número de pessoas na multidão para 40.000 quando o número beirava os 80.000. Nessa ocasião a fúria foi descarregada não em Sidey, mas em Harry,  Kennedy  invectivando repetidamente que sua revista não era decente, não agia honestamente, até que vindo do Salão Oval, deram com  Sidey que lá fora esperava por Harry. Kennedy aproveitou para desancar Sidey - “aí está, Sidey, o melhor repórter de Washington. Sidey, se você for a Pensilvânia Avenue e perguntar a qualquer um que seja razoável, se Time foi decente comigo, o que você acha que ele responderia”? O repórter, chocado, ouviu a si mesmo balbuciando que provavelmente  Kennedy estava certo, era verdade, mas que o trabalhador comum de Washington não era representativo do trabalhador em geral uma vez que Washington era uma cidade da companhia. (p. 504).
Algo engraçado como possa parecer o incidente, Harry compreendeu que as coisas estavam mal, que não era interessante Kennedy estar pensando que sua revista não era decente com ele, porém quando confidenciou sua preocupação a Fuerbringer, este indagou o que o proprietário da Time queria que seu empresário-editor fizesse, e obteve como resposta apenas, nada.
       Mais um incidente registrado por Halberstam, mostra Kennedy absolutamente furioso pelo fato de que a seção social da Time havia publicado que posara para a capa do Gentlemen’s Quarterly. Sidey relaxou, pensando que fosse assunto de menor importância. Havia ficado temeroso porque Kenny O’Donnel lhe dissera que algo sério havia ocorrido, Kennedy estava realmente aborrecido.
Sidey foi chamado ao Salão Oval e Kennedy, sendo a  ocasião em que John Glenn havia completado a pioneira órbita espacial, ligava para cumprimentar o astronauta. Enquanto esperava na linha, descompunha Sidey: o que as pessoas iriam pensar dele, o que significava publicar que ele havia posado, “Sidey, seu filho da puta, vê se você faz as coisas direito”, subitamente voltando-se ao fone, para cumprimentar Glenn com a voz mais gentil do mundo, “quão maravilhada, quão orgulhosa dele a nação inteira estava”, continuando nesse tom por vários minutos até que pousando o fone no gancho, voltou-se para o repórter, xingando-o de novo, amaldiçoando a publicação.
E Sidey, que despertara ainda maior raiva porque sem notar o quão séria a coisa era, rira quando Kennedy mencionara a Quarterly,  agora estava rindo novamente, ao sair da Casa Branca sob o pior agravo que um repórter já sofrera, mas isso significava acesso, “maravilhoso acesso para ele e a Time” (p. 506).
As relações de Harry com o presidente Lyndon Johnson deveriam ser melhores do que com Kennedy. Fuerbringer gostava de Johnson e Sidey não teria dificuldades uma vez que era amigo pessoal do presidente. Sidey ligou para Johnson, sob injunção de Fuerbringer, para combinarem um encontro em que Fuerbringer seria apresentado a Johnson, e este, que adorava errar o nome das pessoas como uma forma de coloca-las na defensiva, respondeu: “então, quem é esse velho amigo que eu devo ver? Otto Foofinger? Otto Fingerbinger”? Durante o encontro Johnson tornou-se bem claro quanto à preponderância do Vietnã em seu governo. Ele seria muito mais duro, aprestado para a guerra e a vitória. Isso era porém o contrário do que Johnson estava anunciando publicamente, prometendo suavizar a política externa.
Nessa época ainda não havia os termos opostos que se tornaram correntes, dove e hawk, respectivamente pombo e falcão conforme os que eram contra ou a favor da guerra. Assim Frank MacCulloch não podia ser chamado ainda um hawk porém quanto ao sentido das palavras, ele certamente não era dove, e estava frustrado com o rumo da guerra - Halberstam nota que o pensamento dele era bastante complexo, porém resumindo estava a favor do conflito bélico. Consequentemente, publicou uma reportagem sobre o envio de tropas por Johnson a Da Nang, quando o presidente estava ainda anunciando que ele não iria mandar tropas americanas - nessa altura, os protestos de rua contra o alistamento de jovens soldados se tornando maiores.
Uma mensagem da Casa Branca foi imediatamente despachada, negando autorização para publicar, quando a consulta da Time fora feita - a importante reportagem, mostrando a contradição de palavras e atos da presidência, não pode chegar ao público. Nada menos que o próprio Lyndon Johnson enviara a mensagem negando consentimento para a publicação, e o procedimento se tornou corriqueiro. Johnson concedia muito acesso a Time Magazine, mas apenas para controlar o que a revista publicava ou não. McCuloch gradualmente se tornava o White do Vietnã. Sempre mais consciente da realidade, sempre mais censuradas as informações pela Casa Branca, e a Time não rompia com o sistema de contrainformação instituído.
Quando McCuloch se demitiu, não houve sucessores imediatos. Não muitos profissionais pretenderam o cargo, mas os que o queriam eram barrados. Fentress obteve o emprego, porém para chocar-se com a mesma dificuldade. Mas nessa altura, em 1967, Donovan era o novo encarregado da Time, sucedendo o proprietário, e as coisas mudaram um pouco. Qualquer contato com a realidade estava agora patentemente contrastada à informação oficial. Donovam foi ao Vietnã e constatou que havia 500.000 americanos, porém mesmo essa quantidade já se sabia não ser suficiente. A linha mudara, ainda que Fuerbringer não o aprovasse pessoalmente.
Ralph Graves, da Life, foi o jornalista que expressou a mudança, e segundo Halberstam, sua reportagem na Life em 1969 foi a maior contribuição para o movimento pacifista - nada além de fotografias das vítimas no Vietnã, 242 jovens americanos  mortos na guerra, em uma semana (p. 676). Quando a revista faliu, três anos depois, Graves deplorou que sua remanescente posse como editor jamais resultaria numa publicação tão importante e poderosa na história.
Com relação a Watergate, incidente que encerra a cobertura das fontes que estamos examinando, Time Inc. refletiu as desilusões de uma era de republicanos que se não a princípio bem dispostos relativamente a Nixon, estavam ao menos convictos de que as decisões do partido deviam ser respeitadas para logo se tornar claro o proveito para todos. Harry pessoalmente não gostava de Nixon, mas desde os anos cinquenta Time produziu a boa imagem do político que o partido requeria. Como os acontecimentos se sucederam, porém, mesmo as mais arraigadas fidelidades tiveram que ser postas de lado.
Como uma tendência geral do business de mídia, isto é, do alto escalão dos proprietários e managers que compunham  a articulação do poder com o Executivo, houve a necessidade de refletir a cisão em curso, a partir da reação do legislativo frente aos descalabros de uma administração não dotada intelectualmente, francamente hostil à inteligentzia, enquanto os jovens eram dizimados no Vietnã, os protestos de rua beiravam a guerra civil devido a inépcia na política racial minada pela demagogia e unilateralidade, e a carestia grassava no país como à época de Nixon.
Em 1967, a morte do proprietário de Time Inc., tendo antes designado o sucessor Hedley Donovan, facilitou  que a revista acompanhasse a tendência de ruptura para com a tradição de décadas do principado da presidência. Para Donovan a fé no partido republicano e o anticomunismo não eram uma adesão da alma. Ainda que ele tivesse sido apontado como sucessor, o contrário virtualmente não ocorreria, ele não  apontaria o próprio benfeitor se fosse ele que estivesse tendo que escolher.
Time apenas acompanhou a tendência. Cronkite e Friendly da CBS, são mais exemplares do desencadeamento da mudança, assim como uma série de incidentes relacionados à cobertura da imprensa, quando a reação do legislativo implicou a necessidade de ampliar o leque das opções do que mostrar, o presidente já não resumindo a unidade da atração.
Os inquéritos de William Bill Fullbright desencadearam a reação do congresso e apelaram a uma mudança na política de cobertura, o que Friendly empreendeu, ainda que para chocar-se com grandes resistências. Não obstante, ele obteve atenção do público para as tremendas revelações da inépcia e corrupção governamental que estavam surgindo dos inquéritos.
Cronkite, a princípio como todos os conservadores tendo se alinhado com a decisão governamental contra o Vietnã, foi uma peça chave na aceleração da mudança da opinião nacional a propósito da guerra, ele mesmo mudando ao visitar pessoalmente o Vietnã, tendo que voltar num veículo com doze corpos de GI’s, de uma suposta cidade pacificada.
O que o chocou não foi tanto a ferocidade da batalha, ainda que realmente impressionante, mas  testemunhar generais simplesmente mentindo, escrevendo resumos para correspondentes informando que a batalha na cidade de Saigon estava terminada, quando Cronkite verificava pessoalmente, como todos que lá se encontravam, que estava obviamente pendente: “o que significava que os generais era mentirosos ou tolos, e se eles mentiam sobre algo como aquilo, poderiam mentir facilmente sobre qualquer coisa”, conforme Halberstam (P. 714).
A viagem de Cronkite ocorreu em 1968, quando da ofensiva Tet, o que implicou uma mudança na estratégia dos guerrilheiros vietcongs em Hanoi, que até aí só lutavam à noite, pois não dispunham de força aérea e à luz do dia podiam ser filmados. Não sendo muito visíveis, a televisão pudera cunhar a impressão do inimigo fraco, não totalmente sério. Mas com a ofensiva Tet a batalha a céu claro tornou-se obrigatória, e a ferocidade, organização e eficácia dos vietcongs ficaram evidentes à cena televisiva, o que minou a credibilidade da administração de Washington.
Mas desde Lyndon Johnson a tradição da mídia como veículo presidencial começou a perigar, devido à instabilidade emocional que ele também revelou após Kennedy. Johnson era inseguro especificamente com a aparência diante das câmeras - o nariz, os óculos, os modos pouco à vontade.
Até o desastre no Vietnã tornar-se patente, contudo, a mídia perseverou no papel de sedimentação do monopólio do poder presidencial. Conforme Halberstam, ela ampliava os argumentos do governo e silenciava as críticas dos especialistas mais conscienciosos. Ela dava a impressão de que o governo estava não apenas unido, mas confiante no curso da guerra, quando o contrário é que era verdadeiro, a presidência estava solapando as atribuições dos outros ramos do governo, a partir da doutrina da segurança nacional desdobrada numa prerrogativa da informação secreta, o que funções do Departamento de Estado estavam agora drenando para a CIA.
Congressistas importantes como Fullbright estavam sendo cooptados por meio de bajulação, sendo consultados sobre decisões cruciais, porém quando elas já haviam sido tomadas secretamente pela Casa Branca. O Conselho de Segurança Nacional, protagonizado por homens como Rostow, Bundy e Kissinger, é que realmente importava à decisão, uma vez que eles eram completamente “homens do presidente”.
Veiculando a imagem de um governo confiante e unido, o business de mídia escondia a verdade de que, pelo contrário, ele estava terrivelmente dividido, a maioria na Cia, Departamento de Estado e forças armadas, eram críticos do andamento da guerra, enquanto a minoria que a conduzia concentrava a decisão contrária, por ser hierarquicamente mais importante. O consenso era tão frágil que mesmo homens como McNamara e o próprio Johnson nutriam dúvidas, porém a mídia, particularmente a televisão, nunca as registravam,  passando a convicção de um governo confiante porque informado pelos experts.
Assim o desafio de Fulbright à presidência foi um evento histórico de grande importância, ocorrendo um ano depois da intervenção dos Estados Unidos no Vietnã. Em quase quinze anos, essa era a pioneira concessão da mídia de uma plataforma nacional a uma figura do congresso. Fulbright a princípio não se incomodou, e até se divertiu com o modo como Kennedy usou a mídia, enquanto o partido republicano tentava barra-lo com o Ev e Charlie Show, mas na ocasião da guerra tornou-se perplexo pela total cooptação da mídia como veículo presidencial, a política do governo sendo sistematicamente vendida pela televisão, e pelo fato de que além da prerrogativa de exposição presidencial assim como de altos cargos relacionados ao presidente, não havia na televisão meio de expressar opiniões em desacordo. Ele mesmo não tinha acesso ao ar.
Com os seus inquéritos na Comissão para Relações Externas, ele se tornou uma figura maior na mídia, sendo irônico, ao ver de Halberstam, que personagens como Dean, que reclamaram tanto de que ele os havia emboscado num ambiente  manipulado, não sabiam que a equipe de Fulbright pudera sentir prazer com as câmeras, mas ele propriamente não, ainda que não proibisse que os inquéritos fossem televisionados, de modo a alertar a nação.
Antes Fulbright tentara alertar pessoalmente a presidência, entre Kennedy e Johnson. Escrevera um memorando a Kennedy, porque ouvira rumores sobre uma operação clandestina, desaconselhando-a, argumentando que esse tipo de política arbitrária, de força, era aquilo mesmo contra que os Estados Unidos estavam se batendo na guerra fria, porém se Kennedy considerara cuidadosamente o memorando,  como sabemos a desastrosa invasão da baía dos Porcos não foi detida.
Fulbright colaborou com Johnson, quando este assumiu, tendo apoiado a nomeação de Johnson para as eleições. Goldwater era odioso, Fulbright poderia ter dúvidas sobre Johnson porém não tinha dúvida alguma de que Goldwater tinha que ser evitado a todo custo - como a redução da política às armas nucleares, a força militar como solução para problemas políticos.
Baseado nisso, Johnson aproveitou para obter de Fulbright apoio no congresso para a invasão do golfo de Tonkin, de que Fulbright mais tarde muito se arrependeu, porém convencido na época pela desculpa de Johnson sobre que não haveria muitas tropas dispensadas ao Vietnã. Fulbright, muito influenciado por Walter Lippman, começou a instar com Johnson sobre ser exequível para a América viver pacificamente com o governo unificado do Vietnã sob Ho Chi Min, porém nessa altura sobre esse tipo de proposta Johnson não se dignava sequer a enviar uma resposta.
A ruptura de relações de Fulbright e Johnson ocorreu na verdade não por causa do Vietnã, mas da República Dominicana, um episódio que equivaleu a uma miniatura do Vietnã. Fulbright considerou a operação - que devia ser incrivelmente rápida - como um símbolo do imperialismo yankee, algo brutal, reportando-o a Szulc do New York Times. Johnson passou a odiar Szulc por causa da cobertura negativa da República Dominicana: “aquele pé-rapado fodido, Schultz” - sempre a mania de alterar o nome - “aquele pé-rapado fodido. Se apenas pudéssemos jogá-lo na cadeia liquidaríamos com a coisa toda em duas semanas” (p. 697).
Johnson detestava expor-se à mídia, ainda que soubesse o quanto precisava de cobertura - ele convidou Fred Friendly para ser o seu guru televisivo, num cargo que teria importância equivalente a do seu conselheiro para assuntos estrangeiros, na esperança de acabar com a insegurança que nutria quanto à aparência, porém Friendly recusou ainda que Johnson houvesse insistido bastante.
Certa vez Johnson perguntou a um produtor da CBS, Mike Honeycut, se o rapaz estava tentando “fodê-lo”, e o rapaz: “Sir?”, chocado. Johnson repetiu a pergunta para em seguida gritar, subitamente, “tirem-no daqui”, o rapaz ainda mais perplexo. Havia ocorrido que Honeycut filmara Johnson logo após tê-lo maquiado, esperando contornar alguns dos problemas da aparência e modos, porém o resultado não agradou ao presidente - o que depois explicaram ao jovem como o motivo do estranho comportamento.
Halberstam traça um contraste notável entre  Johnson, sem qualquer habilidade conceitual mas com talento para fazer as coisas acontecerem, e Fulbright, cerebral, admirado, senão de fato amado, por seus companheiros, o residente do Senado, incapaz de empurrar um braço ou pressionar um colega para votar com ele.
Coerente com sua honestidade intelectual e ausência de agressividade sádica, Fulbright tentou convencer Johnson de que sua ofensiva contra a política no Vietnã e a corrupção interna não era pessoal, mas apenas institucional, o que de modo igualmente coerente, mas com a personalidade vingativa de Johnson -  Lyndon Johnson da Cidade de Johnson -  não foi aceito.
Fulbright se deixou levar pelos conselheiros que instaram que ele fosse até o aeroporto,  numa noite de tempestade, cumprimentar Johnson que retornava de uma viagem ao exterior, a fim de provar que não era um inimigo pessoal. Johnson olhou através dele, como se não o visse, não se dignando a reconhece-lo ou falar com ele.
Se Fulbright fizesse o seu discurso contra a política presidencial, as relações seriam cortadas - isso estava claro de início. Fulbright se ateve apenas à qualidade do pronunciamento. Uma vez obtendo a confirmação de que estava bom, recusou os conselhos para preservar as relações com Johnson.
Foram os carbonos preservados por Szulc, das entrevistas de Fulbright sobre a República Dominicana, que serviram de base para organização da comissão de inquérito. Os inquéritos de Fulbright não atraíram a atenção do congresso no começo. Porém quando Thomas Mann, o Secretário Assistente para a América Latina e um dos arquitetos da intervenção foi chamado a depor, manteve-se na clássica linha da guerra-fria: se vissem as mensagens cabografadas por si mesmos, concordariam imediatamente com a ofensiva. Apenas ver a mensagem - a arma que se acreditava suficiente.
Fulbright, bem aconselhado pela equipe, retrucou prontamente que, sim, queriam ver as mensagens. Intoxicados pelo poder, crentes na ausência de desacordo interno, a administração enviou os cabogramas. Pat Holt verificou o tráfego das mensagens, observando que havia conteúdos que confirmavam, ao contrário do que havia sido dito pela Administração, a versão de Szulc. O efeito foi devastador, mostrando a Administração não informada, depois tentando arranjar a informação de modo diferente do que realmente Johnson e Dean haviam declarado.
O tratamento de Dean por Fulbright  foi o mais amargo, devido ao montante de irritação e descontentamento deste com o rumo das revelações. A televisão não mostrou o depoimento ao vivo, ela simplesmente não estava preparada para cobrir o que Halberstam designou “o maior debate entre dois ramos equivalentes do governo na questão mais vital da década” (p. 702), e amiúde rodava reapresentações de “I Love Lucy” em ocasiões cruciais ao invés de cobrir os eventos,  o que significava na verdade adesão à política governamental.
Friendly, então presidente da CBS,  considerou a lacuna indesculpável, e quando ocorreu o próximo depoimento, de David Bell, ele o cobriu ao vivo, o que representou uma enorme despesa - 175.000 dólares - porque o inquérito durou o dia todo, o que Friendly não antevira.  Stanton ficara particularmente insatisfeito, ele era amigo pessoal de Lyndon Johnson, e não havia apoio para Friendly continuar cobrindo.
Johnson estava tão irado com as coberturas críticas que quando Safer mostrou os soldados americanos incendiando Cam Ne,  ligou de manhã cedo para Stanton, perguntando se ele estava querendo “fodê-lo”. Stanton, despertando sonolento, indagou quem estava na linha: “Frank, aqui é o seu presidente, e ontem os seus rapazes cagaram na bandeira americana.” Lyndon continuou nesse tom. Como a CBS podia ter empregado comunistas como Safer, e se comportado tão antipatrioticamente? Johnson encarregou a Polícia Montada de investigar Safer, e inclusive uma sua irmã, porém nada foi apresentado contra ele (p.683).
Significativamente, o depoimento mais importante na comissão de inquérito de Fulbright, de George Kennan, “o homem mais reflexivo e cerebral no campo da política  externa americana”, autor da política de restrição (“containtment”) e “a mais importante voz do país”, não foi televisionado pela CBS (p. 704). Stanton argumentou que voz importante ou não, Kennan não tinha um título, e títulos eram o essencial, além disso, as donas de casa não tinham interesse nos depoimentos - de fato, muitas ligaram reclamando porque suspenderam o “capitão canguru”, programa infantil que mantinha as crianças ocupadas, por causa do depoimento de Bell.
A NBC cobriu Kennan, enquanto a CBS mostrava reapresentação de antigos números de “I Love Lucy”.
Paley e Stanton estavam de fato furiosos. Friendly perdeu acesso, eles lograram encurrala-lo por uma organização especialmente designada para mantê-lo como diretor da divisão de notícias longe da sala deles, de modo que era com uma burocracia que Friendly tinha agora que se  haver para obter  decisões. Em alguns dias Friendly se demitiu, e seus superiores não se surpreenderam,  se preocuparam somente com as declarações públicas que ele pudesse fazer.
Friendly apenas permaneceu na dúvida sobre se sua demissão havia sido planejada por Lyndon Johnson. De fato, não houve novas transmissões da comissão de inquérito, enquanto Johnson anunciava estar enviando todo o pessoal a Honolulu para conferenciar com Cao Ky - a clássica política presidencial de reobtenção das atenções da mídia no momento em que o congresso o lograra.
Ainda assim, quando Nixon assumiu as relações da mídia com o executivo já não eram como na antiga tradição de veículo presidencial, a crítica já não podia ser de todo ignorada, muitos profissionais estavam pessoalmente envolvidos com a visão contrária à Administração. Os prolongados anos de guerra haviam minado a confiança do público, e em 1968, quando Cronkite mudou, tornando-se pessoalmente desimcompatibilizado com a guerra, Johnson compreendeu que estava acabado. Em 1968, a presidência estava na defensiva.
A Time Inc. refletiu a mudança na tendência, e sua cobertura de Watergate  também foi um efeito da mudança na própria estrutura da empresa sob a liderança Hedley Donovan.
Inversamene a Grunwald, o novo editor chefe da Time, a concepção de Donovan sobre o governo era típica do cidadão inocente americano, conforme Halberstam. Enquanto a perspectiva Grunwald era a de um olhar condescendente com algum esperado pecado ou corrupção, Donovan esperava apenas moralidade e comportamento aceitável. Ele estava bastante embaraçado com a inteira presidência Nixon, incomodado com o que ele sentia serem os defeitos de caráter de Nixon, o isolamento  que trouxera ao cargo, a tendência à crítica devastadora, personalizada.
Nesse comentário sobre Donovan,  Halberstam insere a repulsa que o vice-presidente despertava em Donovan, que o considerava um homem perigoso, de capacidade estreita, não compreendendo como alguém poderia ter escolhido Agnew para a vice-presidência.  Em inícios dos anos setenta, Life até mesmo escreveu um artigo sobre a necessidade de escolher outro vice-presidente.  O próprio Halberstam porém anota que “Agnew, um homem orgulhoso e sensível, ficou profundamente ofendido pelo editorial e imediatamente solicitou um encontro com os editores de Life”.
Inversamente ao que Donovan esperava, Agnew não se comportou com tato e civilidade durante o almoço, de modo que o editor e a equipe pudessem avaliar o terreno para conceber a estratégia apropriada. Agnew estava irado, ele tinha tão pouca paciência com os críticos quanto Nixon, e tudo o que puderam fazer foi tentar garantir não se tratar de um ataque pessoal, apenas de uma questão administrativa, tantas pessoas na América eram boas, porém não apropriadas para a vice-presidência. Eles não quiseram negar suas qualidades como pessoa. Mas Agnew continuou interpretando a crítica como dirigida a ele pessoalmente.
Ainda assim, quando Watergate requisitou uma decisão sobre empregar repórteres para investigar ou não, Donovan estava chocado, não aceitando comodamente o escândalo. Mas gradualmente ele se tornou um fã, profundamente interessado na evolução dos acontecimentos. Ao inverso de outros, ainda que ele pensasse no incidente como bem de acordo com o caráter de Nixon, e não acreditasse nos desmentidos da Casa Branca às acusações, mantivera-se extremamente cuidadoso, exigindo que as evidências fossem avaliadas detidamente, não permitindo ir muito longe. Time Inc. possuía a essa altura um par de excelentes investigadores, Sidey e Sandy Smith.
Quanto a Smith, Halberstam acentua o quão singular ele parecia entre os homens de Time, todos bem talhados para agirem como “embaixadores do império”, experts em almoços e com ótimas relações sociais, especialmente com fontes de alto escalão. Smith, inversamente, era péssimo em almoços, não conhecia ninguém famoso, e suas fontes eram diversificadas, tanto dos níveis suboficiais, de pessoas que atuavam ocultamente no coração do governo, quanto fontes secretas, quando se tratava do alto escalão. Para ele fontes de alto nível refletiam a política escolhida, não a realidade.
Smith era um lobo solitário em seu trabalho, totalmente ao inverso do profissional típico da Time inc., porém segundo Halberstam, provavelmente o melhor repórter investigador do país, vivendo para o emprego e a família, e seu emprego sendo as suas fontes, exigindo dele um tipo de relação das mais compreensivas por se tratarem de pessoas vulneráveis à publicidade, requerendo extrema discrição da parte do repórter para não compromete-las.
Assim como Sidey, ele estava desde o início convencido de que Watergate  era produto do alto escalão, não do baixo, provavelmente do próprio Nixon. Smith se convenceu ainda mais a propósito quando soube por suas fontes que Pat Gray do FBI e altos oficiais da CIA estavam tentando desordenar a investigação.
Sidey, por sua vez, agiu como advogado da cobertura de Watergate dentro do sistema Time, argumentando tratar-se de questão das mais sérias, o que surtiu  efeito entre aqueles que os repórteres chamavam os Pilotos do Zeppelin, os mais altos funcionários responsáveis pela edição e que conduziam o escritório de New York, a Fábrica do Zeppelin - ou seja, quem resolvia se eles poderiam ou não “voar”.
Uma mudança importante nessa época, segundo Halberstam, foi a decisão do jornalismo em geral e da Time em particular, em  abandonar o costume de seguir o New York Times como modelo consagrado de divulgação de notícias. A ponto de que mesmo se um correspondente da Time houvesse logrado uma boa reportagem, porém sobre algo ainda desconhecido, ele devia ceder ao Times a precedência da notícia a fim de que se tornasse legitimada, só então noticiável. Agora havia contudo vários repórteres talentosos na Time, que se tornara competitiva não apenas relativamente a Newsweek como também aos próprios New York Times, Los Angeles Times e Washington Post.
Ainda assim, ir totalmente contra a linha do governo não era coerente com o espírito da Time.  Sidey, em parceria com Lance Morrow, havia recentemente escrito o que Halberstam considerou um dos mais inteligentes e vigorosos editoriais sobre Watergate, mostrando que os desmentidos de Nixon não valeriam por muito tempo, o problema não iria embora tão cedo. Porém logo depois, em inícios de 1973, Time premiou Nixon e Kissinger como Homens do Ano, para desconforto dos repórteres. Se nem todos estavam satisfeitos, as viagens a China e a Moscou estavam lá, não havia nada comparável. O efeito de neutralização de Watergate seguiu-se eventualmente, porém algumas semanas depois as reportagens começaram a vir mais e mais fortes, e a revista mostrou-se receptiva a elas.
Time estava legitimando por si mesma Watergate, e afastando o centro de Nixon. O que se revelou lucrativo.  Como homenageado, Nixon vendera 214.000 exemplares, sendo 245.000 o usual para capas comuns. Alguns meses depois, a série de reportagens de capa sobre Watergate atingiram   progressivamente 280.000,  290.000 até chegar a 300.000 exemplares.
Em torno de John Dean como testemunha, o juiz Sirica e o promotor Jaworski, a Time desenvolveu sua estratégia de investigação em meio ao escândalo que havia se tornado, segundo Halberstam, a maior história policial da nação.
Quando McCord começou a falar, dando conta dos motivos da sua prisão, a defesa da Casa Branca começou a desmoronar. Se antes não havia praticamente repórteres além de Bernstein e Woodward, agora todo mundo queria uma fatia em Watergate, que como vimos provou-se muito lucrativa. A Time já não precisava ocupar-se com dúvidas, e Smith, o repórter da Time para Watergate, teve oportunidade para aplicar sua prática singular, centrada apenas em fatos, sem cor ou referências exemplares. Porém logo todo o processo se concentrou em torno de John Dean, um dos mais brilhantes jovens próximos a Nixon, lembrando aos mais idosos o próprio Nixon quando jovem político. Sobre ele, Halberstam escreveu: “Os grandes homens da Casa Branca, Haldeman e Ehrlichman, o recrutaram para fazer o trabalho sujo de Watergate, e involuntariamente ele se tonou íntimo do lado interno da Casa Branca”. Dean era funcionário tão pouco graduado e o presidente  tão incrivelmente poderoso, um deus para peões como Dean,  que a ninguém ocorreu que ele não caísse sozinho para proteger Nixon. Para Halberstam, realmente ele o faria nos bons tempos, mas não se lembraram de duas qualidades importantes nele, um agudo sentido de autosobrevivência, e uma memória exemplar.
O presidente não parecia mais uma figura poderosa. Inversamente, tornava-se progressivamente inábil e errático aos olhos de Dean. Ele estava surpreso por Nixon não ser capaz de notar a ironia no fato das agências menores do governo estarem minando a onipotência do presidente, quando antes Nixon havia se notabilizado pelo “caso Hiss”, provando que um promotor congressista sozinho poderia derrubar dominações, mesmo do presidente da república. E Dean não era um simples peão nas mãos de um ídolo. Ele estava estudando línguas na escola Berlitz, esperando se tornar embaixador de algum pequeno país de fala francesa. É compreensível portanto que se desde Maio de 1973 as evidências de Watergate se mostraram indeslocáveis, ele pensasse ser oportuno cooperar com a promotoria.
Assim, segundo Halberstam, ele e Bob McCandless, seu advogado, este muito versado na natureza do corpo de imprensa de Washington, lição que Dean rapidamente apreendeu, não lidavam do mesmo modo com a imprensa e o tribunal. Eles não confiavam nem em um nem no outro, porém usaram a imprensa para manter o processo aberto e movimentado ainda que não declarando tudo de uma vez para não perder o interesse dos repórteres. A essa altura já havia a gíria sobre a “indústria Dean” de notícias, tão segura a venda dos seus testemunhos havia se tornado.
Ehrlichman cita Halberstam a propósito de John Dean em nota à página 352 do “Witness to power”: “Para um resumo da extraordinária barganha de Dean com a imprensa, ver David Halberstam...”. De fato, “The powers to be” fala em “barganha” à página 965, porém como algo muito mais orquestrado por McCandless, o advogado de John Dean, interceptando decisivamente a história de Time Inc. O pivô da barganha era a imunidade, que McCandless tentara obter com o alto escalão da Time. Porém não sendo possível garanti-la, a obtenção do testemunho pela revista pudera ser negociada à base da promessa de honestidade e cortesia  relativamente a Dean.
Ocorrera nesse ínterim uma mudança na política da Time, uma vez que a princípio a revista não pôde alcançar Dean. Em New York não se compreendia bem o motivo de algo tão estranho como a Time não poder noticiar o mais importante testemunho. Ocorrera que a utilização da imprensa por Dean foi primeiro uma relação exitosa com o Washington Post. Dean gelara o New York Times por ter considerado que o jornal adotara uma linha contrária à pessoa dele, e Reston obteve um café da manhã com McCandless para saber como poderia reatar as relações com a indústria Dean, e a resposta foi que o jornal deveria ao menos solicitar imunidade para ele - o que ocorreu, pois Seymour Hersh foi designado para cobri-lo, paralelamente ao Post.
Porém a cobertura de revista semanal não era a mesma coisa, requisitava um certo humanismo na apresentação da reportagem, o que jornais diários não podiam produzir. Mas Newsweek já havia batido radicalmente a Time, na cobertura de John Dean, e um grande problema para esta tornara-se o fato de Newsweek estar de posse de uma grande reportagem sobre Dean, baseado em material enviado por ele, diferente dos que os demais possuíam. Seria a reportagem da acusação feita por Dean ao presidente.
Woodward e Bernstein, como os repórteres mais fortemente ligados a Dean, e realmente McCandless se dirigiu rapidamente ao Post. Bernstein tentou arrumar as coisas tal que a reportagem seria publicada em duas semanas. Mesmo confiantes na verdade dos fatos, eles não viram necessidade de apressar a publicação, assim Bernstein ficou grandemente irritado quando, estando em Omaha numa convenção de jornalistas, pegou uma Newsweek na banca e topou com a reportagem já publicada na revista. Mais alguém estava irritado, Henry Grunwald da Time. Ele não queria ter que citar a Newsweek sobre o assunto. Hays Gorey foi designado para cobrir aquela parte de Watergate para a Time e fazer a conexão com Dean.
Mas sendo McCandless o único veículo para Dean, o advogado, adepto do partido democrata, não tinha particularmente admiração pela Time. Crescera com Tom Dewey sempre na capa dizendo a ele e à nação o que era bom, o que deviam fazer, e acreditava que Time era parte da maquinaria do partido republicano. As chamadas de Gorey ficaram sem resposta. Afinal, o repórter foi até o apartamento de McCandless, esperando que ele tivesse que atender a campainha pensando que fosse o entregador de mercadorias, McCandless viria à porta e Gorey o interceptaria. Eventualmente ele conseguiu marcar um almoço.
Nesse encontro, Gorey perguntou porque McCandless os estava “matando” , e ele replicou que era porque eles eram do partido republicano e assim eles iriam “matar” Dean nas reportagens. Os dois homens fizeram as pazes, e por sorte Newsweek havia cortado uma reportagem sobre Dean naquela semana - o que New York exagerou ante as objeções de Washington. McCandles, pois, resolveu conceder uma chance a Time, baseando-se nas garantias obtidas com Gorey de que McCandless poderia controlar tudo o que fosse escrito - promessa que de fato ele não estava certo de poder cumprir.
Gorey e Dean colaboraram maravilhosamente, com Dean racionando com habilidade a informação para prender o interesse de Gorey, com o material em dois níveis, o publicável e o que só Gorey devia saber. Nesse ponto Halberstam comenta que Dean tentara obter imunidade com Gorey, mas não havia possibilidade disso ser garantido, assim a troca de favores ficou em nível da maior cobertura possível à perspectiva de Dean sobre Watergate. Grunwald, presente no almoço, garantiu a promessa de Gorey.
Hedley Donovan, em New York, estava fascinado, as reportagens seguiram-se sempre mais rapidamente, estava claro aquela altura para ele e Grunwald, que Richard Nixon devia ser afastado. No outono de 1973 o escândalo do vice Spiro Agnew arrebentou, e logo depois Time estava apelando pelo impeachment do presidente. O que muito deveu-se à orientação de Donovan, que se manteve conectado com as informações dos repórteres de Washington. Nessa altura, os dois principais executivos da Time voaram para Washington a fim de jantar com o juiz Sirica.
Gorey observara aos chefes que Sirica parecia um homem desatualizado, um hawk dos velhos tempos, porém ele não o era, e quando as pessoas se demoravam na companhia do juiz por alguns momentos mais, verificavam ser ele um homem sincero e compreensivo.
A princípio, como Gorey previa, os  executivos da Time pensaram que Sirica estava há anos luz de distância deles mesmos, pois não era nada gracioso, porém enquanto a noite passava ficavam sempre mais  agradavelmente surpresos com o juiz, e cogitaram com ele que poderia receber o prêmio de Homem do Ano. Sirica se tornara a seu ver o símbolo não apenas do funcionamento do sistema judicial, mas do funcionamento da América, e  ganhou o coração deles quando indagou se poderia comunicar à esposa que estava sendo cogitado para Homem do Ano. Efetivamente eles o premiaram, e a reportagem de capa de John Sirica vendeu 291.000 cópias nas bancas.
Em fevereiro de 1974 o ritmo do processo tornou-se mais lento. No ano anterior assistira-se a um tão vertiginoso fluxo de informação que a expectativa pela ação imediata tornara-se enorme. Mas agora era o aspecto legal e político do processo o preponderante, na “velha marcha” (“in older rhrytims”) - na expressão de Halberstam - o que tornava a mídia desapontada.
Nesse ponto vemos o quanto algumas das mentalidades ligadas à mídia são perigosas, pois é evidente que decisões graves envolvendo o destino de pessoas não podem ser tomadas sem muita ponderação e exame acurado das provas, o que é contrário ao espírito da mídia sensacionalista, e assim respondo ao artigo de um defensor incondicional que motejara do adjetivo “perigoso” habitualmente relacionado a ela. De modo nenhum se trata  de um termo vago e não definido pelo contexto.
Porém o desapontamento na época relacionava-se ao temor de que Nixon pudesse estar por trás dos procedimentos oficiais, o que deixaria grandes profissionais de mídia numa situação deveras difícil. Independente do valor das fontes jornalísticas e do senso de responsabilidade com que os profissionais as houvesse checado, se Nixon permanecesse no cargo eles iriam parecer errados aos olhos do público, enquanto Nixon pareceria inocente.
Nesse momento de incerteza, os principais editores da Time agendaram um jantar com Leon Jaworski. Ao tribunal era interessante o encontro, pois desejava manter a imprensa de New York informada e envolvida, Gorey tendo-o obtido. Esse momento, contudo, estava sendo crucial para o promotor. Ele havia recebido as fitas gravadas, e estava hesitante entre simplesmente indiciar Nixon ou aponta-lo como co-conspirador não indiciável.
Halberstam caracteriza Jaworski como um homem “da segunda geração americana” (p. 967) - talvez seguindo a classificação de Charles Reich (“The greening of América”), pela qual após os rudes puritanos pioneiros que acreditavam estar desbravando e construindo, emergiu a geração dos burocratas que acreditavam integrar um sistema totalizante permeado por eficiência e lisura, Reich defendendo a geração hippie dos sixties como a terceira, ligada ao que seria a “nova consciência”, porém não me parecendo muito convincente. Pois conscientizar-se de questões de real interesse político não deveria ser prerrogativa etária excetuando-se a condição infantil não consciente,  e, além disso, a teoria política e filosofia por trás da “nova consciência” havia sido produzida por intelectuais já não jovens, além de que sobrava apenas a ideologia da mercadoria barata - a motocicleta e a música de rádio - além das drogas letais que fizeram daquela geração de tantas vítimas os “inocentes úteis” da propaganda de algum “mundo livre” diretamente oponível ao comunismo soviético.  Realizei um exame da sociologia de Ch. Reich em meu “O pós-moderno: poder, linguagem e história” (em edição independente pela Quártica, ver site da editora).
Em todo caso, para Halberstam, Jaworski, típico da mencionada geração, seria ao mesmo tempo um homem vaidoso e hábil, apreciando ligações com pessoas importantes. Phil Geyelin e Meg Greenfield do Post sedimentaram sua  boa reputação em Washington, e também Tony Lewis do The New York Times havia se provado útil nesse sentido. Agora Jaworski interessava-se por uma conexão comparável com a Time. Ele precisava da simpatia dos líderes, pois com efeito estava para amarrar uma corda bem apertada.
O jantar correu agradavelmente, Jaworski evidentemente necessitando de aliados e de auxílio, e por isso deliberadamente resolvido a ultrapassar alguns limites. Assim, quando todos pareciam bem relaxados, Jaworski indagou aos editores se na suposição - “apenas hipoteticamente” - de evidências seguras da implicação do Presidente dos Estados Unidos numa impeachiável ação ofensiva, o que eles pensavam que o presidente deveria fazer. Alguém perguntou o que era “uma impeachiável ação ofensiva”, mas Jaworski pôs de lado a questão e simplesmente repetiu a indagação: “o que o presidente deveria fazer?”
Ed Magnuson,  escritor chefe da Time, que estava escrevendo as reportagens de capa e estabelecera para elas um novo record na Time - de fato, na quinquagésima primeira reportagem ele ganhou a imagem da capa para o seu escritório, sendo, é claro, sobre Watergate de Richard Nixon: “O impulso para o impeachment” (“The Push to Impeachment) -   respondeu ”ele renunciará”. Algumas pessoas começaram a rir.
Jaworski protestou, ”não se deve rir disso, devemos realmente pensar nisso por um momento” (p. 267). Ele prosseguiu. Projetou a situação do presidente tomando conhecimento de que o  tribunal já se encontrava na posse das fitas irreversivelmente comprometedoras. Jaworski induzia nitidamente à concepção de que seria elegante para Nixon renunciar, porém pondo-se no lugar dele, como se tratasse de uma decisão do próprio promotor, evitando obviamente nomear o presidente dos Estados Unidos como conspirador.
As pessoas deixaram de rir. Jason McManos, editor da seção Nacional, escreveu um bilhete para Magnuson: “nós o conseguimos”, a propósito de Jaworki (p. 968). Jim Doyle, secretário de imprensa de Jaworski, estava deliciado pela indiscrição do seu próprio cliente. Enquanto ele se maravilhava, ainda que temesse um pouco as consequências, David Beckwith , apoiou: “Este é o melhor jantar que já tivemos!”. Doyle intimamente concordou com ele.
Tudo isso era a estratégia de  Jaworski para manter Time informada, tentando fazê-los entender o que ele próprio empreendia e obviamente tentando se tornar capa da Time, o que significava muito para ele. Com efeito, a reportagem de capa com Jaworski, duas semanas após o jantar, vendeu 325.000 cópias nas bancas.
Magnuson escreveu depois uma carta a Jaworski, perguntando por que ele havia sido tão franco.  O promotor respondeu que acreditava em ser sincero, e que exceto se soubessem como o processo estava correndo os jornalistas poderiam cometer erros. O efeito entre os Pilotos do Zepellin foi devastador. Eles ficaram mais excitados do que nunca, mais ainda do que os seus próprios repórteres. Como se as incertezas, as tensões que pesavam sobre a redação em New York naquelas semanas desaparecessem.
Eles sabiam que tudo agora  era apenas uma questão de tempo.
O discurso de renúncia de Nixon causou desfavorável impressão. Ao ver de Halberstam, provavelmente para os padrões de Nixon foi algo pior do que 1962, quando fizera o discurso de despedida da política. Porém, como Halberstam acentua, de fato Nixon não estava assumindo culpa factual pelos crimes de Watergate, nem - o que era pior - por deixar a nação aterrorizada pelo pesadelo de Watergate quando ele e somente ele sabia ser culpado do abafamento do caso. Ele estava renunciando, ao que parecia, porque havia inexplicavelmente perdido o apoio do Congresso. Se havia alguma culpa para ser atribuída  pelo seu abandono do cargo, parecia assim dever ser atribuída ao Congresso.
Não sendo uma performance atrativa, talvez não podendo ser de modo algum dado o horror que representara Watergate, o trabalho de cobertura da CBS aquela noite foi péssimo. O pior de Cronkite, Sevareid e Rather. Até o topo a CBS estava temerosa de que Nixon não se arredaria sem amaldiçoar a imprensa em geral e a CBS em particular. Os principais executivos fizeram passar uma ordem pela qual os correspondentes deviam ser o mais educados, não parecer de modo algum que estavam se vingando.
Mas de fato CBS havia feito parte da história e parte da batalha. Mesmo assim o espírito centrista, o desejo de não parecer radical ou rebelde não pode ser  ocultado, pelo contrário, mostrou-se inapelavelmente.
Cronkite classificou o discurso de conciliatório, Sevareid o tratou como o mais magnânimo e efetivo dos discursos nixonianos: “poucas coisas na sua presidência o mostraram tanto quanto sua maneira de deixar a presidência - como Walter disse - ... um toque de classe, um toque de majestade... naquela parte de tantas pessoas que pensam consigo mesmas, reverenciar e respeitar o presidente: A República e o país vem primeiro...” (p. 981)  Para Halberstam, “eles estavam fazendo sua parte na política do país, tentando facilitar a transição do poder, tentando limpar seus próprios quadros eleitorais e reduzir o antagonismo contra eles, mais interessados em proteger sua própria base política como um instrumento de massas do que em cumprir suas assinaladas tarefas.”
Halberstam foi bastante cuidadoso, elaborando por cinco anos o seu material que constou de bibliografia recomendada e entrevistas pessoais. Seu livro é um dos mais bem escritos e talentosos dentre os que conheço. Mas inspirado pelo clima de uma época, creio que ele publicou mais uma peça otimista a propósito do destino do veículo de comunicação em massas do que propriamente uma lição sobre como seria impossível que ele se tornasse politicamente não comprometido.
Dialeticamente, a culminância do processo de sedimentação da estrutura governo-mídia num fracasso tão grande quanto foram Vietnã e Watergate pode ter sido naquele momento, em que a verdade se evidenciava de modo insofismável e  a honestidade triunfava, interpretado como uma necessária tomada de consciência.
Especialmente o Vietnã havia forçado a mudança na posição de homens como Donovan, que então tiveram que impulsionar os companheiros à mesma mudança. Não só tiveram que alterar o teor do que haviam asseverado - não, o Vietnã não estava para ser derrotado nem a causa era justa, ao contrário do que eles mesmos haviam alardeado por tanto tempo. Donovan e a imprensa devia ainda sentir que havia contribuído decisivamente para o curso do desastre nacional, que como  se podia dizer relativamente a Lyndon Johnson, eles haviam se deixado apaixonar por aquilo que nada mais era que um “tar baby”, um presente envenenado (p. 671).
Porém na atualidade, avaliando o curso das três décadas recentes, sabemos que a profecia não se cumpriu. A mídia se tornou o veículo de um novo despotismo, e em termos de Brasil, de um neofascismo generalizado.
O acoplamento da microinformática radicalizou as possibilidades de lavagem cerebral e dominação da liberdade de consciência - os protestos que estão anexados aqui e em vários dos meus escritos publicados o registram. Podemos imaginar o que aconteceria se os editores de mídia tendenciosos que estudamos  pudessem interferir com o que as pessoas escrevem assim como o faziam com seus repórteres, mas é isso que o “personal computer” pré-configurado de mercado permite, por ser obviamente intrusável ainda que isso não esteja no contrato de compra pelos usuários. Com efeito, a mídia-informática da atualidade está permeada pelos fatores criticados por Halberstam a propósito daquilo que deveria então ter sido considerado uma mentalidade ultrapassada - uma bonita teoria assassinada pela evidência feia, a teoria da supremacia ideológica da classe dominante, a evidência do imperialismo e da corrupção correlata como em Watergate.
Não foi ultrapassada tal mentalidade no business midiático, pelo contrário. Muito menos se pode dizer que foi na mentalidade da política norte-americana. A pecha do “império” tem sido recentemente circulada - ainda que a meu ver de modo algo presunçoso, traindo uma tendência sensacionalista que deveria ao contrário estar sendo repudiada. Os autores, Hardt-Negri,  acreditam estar acontecendo algo totalmente novo, mas os prosélitos não noticiam que “o império americano” de Julien precede de cinco décadas o seu título homônimo, revelando as bases factuais da dominação atual.
Sabemos que a globalização corresponde a uma estratégia de “industrialização complementar” do terceiro mundo, viabilizada pela tecnologia mais recente, e que estamos num quadro pós-soviético. Porém a estratégia serve ao mesmo objetivo imperialista renovado em seus métodos pela hegemonia da clique do capitalismo que dominou fraudulentamente a sociedade norte-americana, sem confundir-se de todo com ela, sendo porém o que vem se verificando constante após 1945 – como iremos estudar à frente, portanto não resumindo-se a ação da clique capitalística aos Estados Unidos.
     Como seria esperável, essa renovação dos instrumento do antigo colonialismo-imperialismo, que é apenas a mentalidade despótica agindo na atualidade, implica mudanças necessárias nas concepções daqueles que se organizam para opor-se ao neoescravismo, e defender a ecologia – que ela sim é um elemento novo e indispensável a equacionar politicamente. O conhecimento detalhado das operações, mentalidade, e meios de influência da domimação atual é o que mais precisamos, pois como vimos, se ao capital de mídia é o eixo da instrumentação, a crítica da ideologia como hegemonia ou consentimento não basta, a violência é – digamos – neural, atua na base da informação circulante, etc. O que torna axial a “história efetiva” - a que se faz pelos fatos documentáveis de um processo conceituado – como o meio da resistência e mudança social com vistas a garantir os direitos humanos.
Meu interesse neste estudo relaciona-se contudo à minha convicção sobre a importância dos Estados Unidos e da história efetiva na mudança da compreensão histórica. Uma vez que a mola é o  imperialismo, e que quanto a este não é secretado pelo Estado assim como a bílis pelo fígado, mas sim é a dominação do capital sobre as instituições conquistadas pela sociedade civil representada pelo seu Estado constitucional, autonomia da nação e garantia dos direitos dos cidadãos, a história da emancipação das nações europeias não fornece a inteligibilidade necessária. E sim a história que abarca a Secessão e a articulação mídia/Executivo, cujo  modo de operação internacional estudaremos a seguir (Livro 2). Assim também a Revolução Soviética não tem potencial de modelo. É a inteligência dos processos efetivos o que necessitamos tanto na conservação da nossa consciência e humanidade contra o avassalamento escravista das máquinas, como naquilo que essa conservação faculta, a  reelaboração de políticas saudáveis e legalidade do Estado constitucional, que não tem antagonismo algum com a erradicação do crime e segurança pública mas nestes se baseia. O que precisamos num quadro caótico como tem se apresentado o nosso, devido a imposição de tantas mudanças profundas e não refletidas, num tão pequeno intervalo de tempo, desde os anos noventa. Além disso, um motivo que me impulsionou a este estudo primeiro publicado em Blog na Internet – e cuja elaboração ali foi traumática devido a sérias sabotagens que o documento sofreu – eu li Halberstam há alguns anos, e sendo livro de mais de mil páginas, em inglês (não conheço tradução local), fiquei com várias pontas soltas, as quais eu quis ligar num todo coerente a propósito de um assunto que me parece dos mais importantes na reelaboração histórica que preconizo.
  
Notas do Livro I :
    Nota 1 : Tradução adaptada dos versos de Mannes :
Sentindo-se lerdo, sentindo-se doente?
Tome uma dose de Ike e Dick”
Philip Morris, Lucky Strike
Alka-Seltzer, eu gosto de Ike”
Salve a B.B. D. & O
que disse à nação para onde ir
que negociou pela propaganda
como nos vender um novo presidente”.
Nota 2 : O almirante Mahan é referenciado no artigo de Gerth e Mills sobre “A mudança histórico-social”, que faz uma resenha das teorias da modernidade conhecidas. O artigo consta em “Teorias da estratificação social” (São Paulo, Companhia editora nacional, 1978, p. 29). por seu brilhante estudo sobre o papel do poder marítimo no conflito de Napoleão e Inglaterra. É de fato exemplar a meu ver, mais do que de teoria da modernidade como era da expansão do poder econômico, como sugerem Gerth e Mills. É na verdade como eles mesmos evidenciam, uma tese do poder econômico moderno como imperialismo, logo, como militarismo. Pois não foi apenas a “barateza do bloqueio” que fez a superioridade bélica da Inglaterra, mas sobretudo “a aquisição de possessões ultramarinas pela Grã-Bretanha”, conforme demonstra o estudo do Almirante Mahan.
 O tema do colonialismo e imperialismo é obviamente importante ao mundo inteiro, porém a tese do Almirante Mahan sobre a Grã-Bretanha sendo particularmente interessante à história do Brasil, já que foi a estratégia inglesa contra Napoleão que pressionou a vinda da família real portuguesa para o Brasil, interferindo com o processo de independência local, que já vinha de algumas décadas antes a partir da organização dos movimentos de libertação nacional. Assim resultou na dominação imperialista da independência pífia, da mesma dinastia coloniazadora.
A tese da modernidade como expansão do poder armado militar, de E. A. Ross e E. M. Early entre outros, é um complemento da tese da expansão econômica, como a meu ver corresponde ao que o Almirante Mahan pensou demonstrar. Mesmo que seu estudo enfatizasse que frente aos elementos que destacamos da estratégia inglesa, de nada adiantou a imensa capacidade militarista de Napoleão ou a superioridade técnica do exército francês.
A tradução do “poder econômico” moderno por “possessões imperialistas”, é tese da atualidade verdadeiramente muito mais pertinente que a cooptação identitária branda à Foucault – que, como vemos por Vigiar e Punir, poderia fazer um piquenique com Lipovetski, em vez de ser considerado tão oposto a tal basbaque cantor das branduras da sociedade industrial.
Assim também os estudos que aqui desenvolvo mostram a neurose discursiva da esquerda anti-estatal, que assim mascara o fato da dominação como exclusivamente imperialismo – porque desse modo esperava ela demonstrar teses do progresso psicossocial ocidental, como protagonista da ciência social ocidental, a ser imposta sobre o terceiro mundo como modelo. Assim como venho afirmar, o “Imperialismo” não é só poder econômico mas principalmente dominação cultural, e como todo mundo já sabe há décadas, atuante por igual de esquerdas e direitas corruptas contra os interesses da sociedade de direitos civis representada – e não antagonizada – pelo Estado constitucional.
Minha tese da modernidade, como exponho nos livros 2 e 3, é pois instumento de crítica do discurso neurótico que designo “geo-ego-logia”, ali definido e desenvolvido.
O artigo de Gerth e Mills como referenciei, consta na coleção de artigos organizada por Otavio Ianni, intitulada “Teorias de estratificação social, leituras de sociologia” . Não obstante apresentar ele mesmo trabalhos sociológicos e históricos importantes, como sobre a “doutrina de segurança nacional” vigente na época da ditadura, Ianni não acertou a meu ver na perspectiva sobre a globalização (“Teorias da Globalização”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1996), como aliás ocorreu com vários bons autores nacionais, o que decorre entre outros fatores da reiterada atitude da esquerda totalmente sem crítica do que até na União Soviética já se considerava o “fetichismo da tecnologia” (Ver Romanova, A Expansão dos Estados Unidos na América Latina, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968, p.66, mas interessante sendo todo esse trecho intitulado “os Estados Unidos criam uma base social na América Latina”, p. 64).
A atitude atávica do progressismo esquerdista temperado apenas pelo obsoleto gramscismo de um “consentimento” que inexiste, ao qual até mesmo a própria dita esquerda se esmera por impedir que seja efetivo, tanto mais continua pregando Gramsci, Deleuze, etc., resultou pelo governo de esquerda associado à Globalização, na pior baixeza a que se tem submetido a inteligência humana, política suja a nível de Orwell, porém contra a cidadania detentora de garantias do Estado democrático.
       Os cidadãos estão sendo mero apêndice de programas microsoft utilizados com certeza por redes de mafiosos com fins de dominação sobre a vidas privadas, sabotar textos, destroem arquivos,  plagiar com fins opostos aos da pessoa que escreve, provocar stress, esgotamento nervoso, estafa, doença cardíaca, etc., - ou seja, matar simplesmente. Os programas Microsoft -  pré-configuração de pacote  em vez de programação particular solicitada a profissionais brasileiros  conforme a necessidade do cliente -   por si mesmo são porém nada além de sucata insultuosa, totalmente inútil além de perniciosa por formatação de logomarca e ideologias nazistas sobre a escrita, com disfunções óbvias visando passar doença mental como aprosexia (impossibilidade de concentra atenção), dislexia (imcompreensão de textos), etc.., quando se trata de celular (watsapp) geralmente está embutido desde a loja com máfia de prostituição que invadem o arquivo de computador com centenas de fotos de prostitutas, etc.; usam uns gatos pingados para dizerem que com o computador se pode “ganhar dinheiro”, porém o que está acontecendo é o caos financeiro devido ao monopólio da importação e circulação monetária para indústria de tintas de impressão, manutenção de computador, celular, etc. tudo isso que o país está impossibilitado sempre mais de produzir, etc. – o “etc.’, significando que não admitimos que se diga que não se sabe sobejamente do que se trata. 
           Principalmente pernicioso como aparelhagem de invasão da privacidade, derrelicção da pessoa, contra-informação, impedimento do raciocínio e da escrita, avassalamento da cultura, disseminação de padrões corruptos, doença mental, etc – tudo num discurso que visa, como é do costume dos capitalistas, vender a “coisa” micro-informática como se fosse um fenômeno da natureza personificada a que precisa se submeter a espécie, não o produto de escolhas políticas que estão sendo porém viciadas pelas fraudes imperialistas do poder econômico. Reitero, como tenho aposto em vários escritos, que nunca me foi pedida nem por mim concedida qualquer licença para intrusão de terceiros em meu computador, uso de imagens, manipulação de relações pessoais ou propaganda,  e quanto às provas de intrusão, ver nota 37,  Livro 2. O uso do computador afinal é impossibilitado – informo que enquanto estou agregando as notas, o instumento de localização de palavras está sabotado, obviamente, não sendo defeito, pois funciona intermitentemente. Um notebook comprado na Tijuca a mais de 2.000 não se pode utilizar porque destrói os arquivos, já tendo sido consertado, obviamente por ser intrusado por bandidos nojentos que visam impedir-nos, assim como a linha do telefone, etc. Tenho solicitado pena de morte contra invasão de computador – o que o abjeo imperialismmo planta na internet no search são apenas elogios a hakers, em vez dos bons usos do computador, da legalidade e da cobrança a empresas que circulam produtos podres.
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Quanto mais débil mental o comportamento planejado do criminoso cooptado pela rede de dominação, mais pensa que está “fazendo” alguma coisa ao invés de nada. O pior foi que a utilização escravista dos maus aparelhos microsoft está historicamente protagonizada pelo pt, a esquerda standard do país, durante as quase duas décadas recentes do governo. A esquerda local de fato até hoje não assimilou a crítica do business de mídia como meio principal do capitalismo.
Como exemplo da atitude de esquerda, Heloneida Studart, que se notabilizou pelo feminismo marxista, achava que a televisão era um instrumento de modernização contestador da “autoridade dos pais”, de modo que as mulheres que não aprovavam programas eram ali consideradas como a “passiva”, que “deseja a imutabilidade do mundo”, a quem “tudo lhe contesta a autoridade” assim como o vizinho cujo corte de cabelo o filho copia, e principalmente que luta pelo respeito à privacidade apenas “no desejo de manter valores que a sacrificam”. Essas mulheres são classificadas juntamente com as hitleristas da Alemanha nazista.
Quanto à defasagem das estatísticas femininas em testes de moralidade, é o tema relacionado à minha crítica de Benhabib. Aparece tratado por Studart ainda na década de setenta, rotulando a “mulher” como “retardada” - sem lembrar que não são todas as mulheres que não passam no teste, apenas um número médio maior que o dos homens reprovados.
         Além disso, ela não defende que o motivo da defasagem estatística nos testes  seja educação, como quer Kohlberg e eu mesma considero, nem que seja natureza, como critiquei Benhabib e Carol Gilligan por acreditar, isto é, segundo elas, que o teste é que está errado e que a mulher tem “mentalidade narrativa”, originária, que julga a própria questão apresentada – o que elas fazem dessa “narrativa” porém é negar a reciprocidade como fundamento dos direitos humanos, o que me parece obviamente impossível. Mas ninguém na psicologia considera o teste de juízo moral como teste de sanidade mental. Studard, inversamente, supõe que em vez do que a seu ver  se deveria, tratar tais  mulheres supostamente julgadas “retardadas” com psiquiatra, para um “tratamento de reabilitação como fazem com excepcionais”, entroniza-se a mulher como dona de casa, o que ela ainda aceitava ser de fato o papel de “rainha do lar”, em vez do serviço da casa, cuidado dos filhos, etc. - negando portanto, como parlamentar trabalhista de esquerda, o trabalho feminino e os direitos que deveriam ser correspondentes. (“Mulher, objeto de cama e mesa”, edição não comerciável, Rio de Janeiro, Vozes, 1974, ps. 1; 22, 23)
Em meu “O pós-moderno; poder, linguagem e história” (Rio de Janeiro, Líteris, 2012, p. 62) analiso o discurso contraditório da esquerda que, como o por mim citado Thabet, culpava as personalidades de jovens sonhadoras e poéticas do terceiro mundo, se afeitos à literatura, pelo fato da dependência tecnológica, o que seria a seu ver contrafactado se – vale repetir – “uma maciça campanha publicitária” que pudesse usar “todos os meios da comunicação e todas as vantagens da tecnologia”, formatasse literalmente as personalidades. Não se sabe como, pois no discurso dele a formatação aparece como resultado imediato do haver da mídia autoritariamente dirigista partidária, que lograria reduzir afinal todos os jovens à personalidade dos engenheiros, exatas, firmes e criteriosas – quanto aos não jovens parece não importar ao argumento. Aqui agrego o registro do seu receituário “desenvolvimentista” , abrangendo a reforma das línguas faladas no terceiro mundo, pois a seu ver, para virmos a produzir tecnologia, precisaríamos da “transformação e modernização do idioma num instrumento de expressão funcional e prático”, para a qual “considerações religiosas, fanátias e tradicionais não deveriam ser um obstáculo”. Bem inversamente a Jameson, é a esquerda não nacionalista que confunde público e privado, o que seria de se esperar pela origem positivista. A “análise” de Thabet da suposta inadequação linguística do terceiro mundo à tecnologia, como consta no artigo citado, visa especialmente o árabe. 
A contradição manifesta é que o referido discurso aparece num livro de artigos sobre como o terceiro mundo é dominado pelo primeiro, mencionando-se entre outros aspectos do imperialismo até o “projeto camelô” da Cia como formatadora de curriculuns escolares na margem, o qual foi desativado na época, por ter vazado a partir da recusa do Chile aceitá-lo, assim tornando-se criticado por intelectuais do mundo inteiro (F. Tabak, org. “Dependência tecnológica e desenvolvimento nacional”, Rio de janeiro, Pallas, 1975; sobre o projeto camelô, cujo objetivo era impingir o behaviorismo e a ideologia contra-revolucionária, p. 25, no artigo de Burhop; O artigo de Thabet é elogioso para com Kennedy à p. 63, omitindo que perpetrou o golpe militar no Brasil m 1964, prega a transformação linguística à p. 67 e a formatação midiática das personalidades à p. 73. A introdução por Tabak repete várias vezes o epíteto de “atrasado” aos países do terceiro mundo.
Não tenho a menor dúvida sobre o reconhecimento nítido de todos os pontos do receituário de Thabet na política de informática da Globalização brasileira ao longo dos anos recentes, que se estende da info-midia à educação escolar. As considerações presentes não contradizem o que mais à frente (Livros 2 e 3) reporto sobre os setores da esquerda que antes da Globalização estavam, inversamente, se conscientizando da dominação cultural e assim renovando o marxismo – as quais estão hoje sofrendo os ataques de banditismos vis.