este blog escrito em 2015 está agora integrando o meu livro Riqueza e Poder, a Geoegologia, lançamento , pela Quártica editora, em 2018, com uma palestra
minha na internet que pode ser acessada pelo título do livro. Porém até agora a editora
não o colocou nas
páginas do site nem nos canais de venda da internet onde constam
meus livros antes publicados: "O pós-moderno, poder, linguagem
e história"; "Filosofia, Ceticismo, Religião, com um
estudo sobre Diógenes Laércio", "contos do espelho"
e "contos da musa irada". O "Riqueza e Poder, a geoegologia" pode ser solicitado pelo meu email: "elianecolchete@gmail.com".
A propósito do significado de "Geogologia", corresponde a meta-teoria que criei a partir do que pude haurir do meu estudo da modernidade intitulado "Pensamento e Expressão" (2009) e tenho proposto desenvolvendo desde então. Geo-ego-logia como autodefinição do ocidente "sujeito da história" desenvolvimentista em função apenas da oposição que constrói relativamente ao que domina como "subdesenvolvido" ou primitivo , é portanto uma leitura crítica da "modernidade" como dominação cultural imperialista. Ferramenta da desconstrução do discurso da dominação, as categorias geoegológicas e aplicações na história estão explicadas neste livro com trechos publicados na série numerada de blogs intitulados "Riqueza e poder, a geoegologia", (especialmente o II e o IV), em demais blogs na internet com o nome "geoegologia" e já algo tendo sido introduzido em meu já citado "O Pós-Moderno, poder, linguagem e história".
postado em abril 2019
A propósito do significado de "Geogologia", corresponde a meta-teoria que criei a partir do que pude haurir do meu estudo da modernidade intitulado "Pensamento e Expressão" (2009) e tenho proposto desenvolvendo desde então. Geo-ego-logia como autodefinição do ocidente "sujeito da história" desenvolvimentista em função apenas da oposição que constrói relativamente ao que domina como "subdesenvolvido" ou primitivo , é portanto uma leitura crítica da "modernidade" como dominação cultural imperialista. Ferramenta da desconstrução do discurso da dominação, as categorias geoegológicas e aplicações na história estão explicadas neste livro com trechos publicados na série numerada de blogs intitulados "Riqueza e poder, a geoegologia", (especialmente o II e o IV), em demais blogs na internet com o nome "geoegologia" e já algo tendo sido introduzido em meu já citado "O Pós-Moderno, poder, linguagem e história".
postado em abril 2019
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DENUNCIE
O FASCISMO BRASILEIRO, tanto os partidos clandestinos nazi-fascistas como também a mentalidade fascista difusa nos costumes ou instituições
COLABORE NA RESTITUIÇÃO DAS GARANTIAS constitucionais DOS CIDADÃOS
COLABORE NA RESTITUIÇÃO DAS GARANTIAS constitucionais DOS CIDADÃOS
EXIJA
O FIM DA DITADURA Do business info-midiático
A
Escalada do Império = percurso do capital de mídia no século XX
norte-americano
Eliane
Colchete
Livro
I = escrito em inícios de 2015
A
Escalada do Império = O Business da Comunicação em Massa no Século
XX Norte-Americano
1)
O banditismo dos homens importantes
A
história começa com a necessidade do leitor visualizar um bando de
homens, jovens e relativamente jovens, percorrendo de carro, à
noite, as ruas de uma cidade dos USA, à cata de telefones públicos.
Ao localizar um, eles saltam do carro, entram na cabine e ligam para
certo número. Ao ocorrer da pessoa do outro lado da linha atender,
pousam o fone fora do gancho, saem da cabine, voltam ao carro à cata
do próximo telefone público. Gastam uma porção de moedas,
deixando um rastro de fones fora do gancho atrás de si.
Quem
são os moleques? Nada menos do que a equipe de Richard Nixon,
disputando eleição com o democrata Pat Brown. Este planejara
contatar por telefone todos os possíveis voluntários colaboradores
do partido democrata numa campanha corpo a corpo, à véspera da
eleição. Os fones fora do gancho significavam que os telefones dos
possíveis voluntários estavam presos pela linha dos moleques da
equipe de Richard Nixon.
Ao
que parece, o sistema de telefonia norte-americano já não está
limitado por essa circunstância – que ainda vige em Brasil. Em
todo caso, Richard Nixon perdeu a eleição para Pat Brown.
Nixon
passou a noite da eleição perdida bêbado, tornando-se a partir
daí, de modo manifesto aos seus íntimos, praticamente um
alcoólatra. Na manhã seguinte, dado o estado precário de Nixon, os
correligionários do partido republicano planejaram uma saída
secreta do hotel, enquanto os repórteres eram distraídos por uma
coletiva orquestrada pelos mesmos.
O
que aconteceu não poderia conservar melhor o frescor do relato,
senão citando-se o observador engajado. Quando Nixon, saindo, de
passagem entreviu por uma porta os repórteres entretidos na
coletiva, “de repente, num impulso, ele voltou-se e atravessou a
soleira da porta… Estava abatido, tremendo e com os olhos
vermelhos” – mas, com voz “mais firme que nunca”, pronunciou
a célebre frase: A imprensa, declarou, “não vai ter Richard Nixon
para chutar nunca mais”. E o anúncio: “Nixon falou menos que
cinco minutos, durante os quais ele anunciou estar retirando-se da
política”.
O
espectador em questão se chama John Erlichman – um dos “homens
do presidente” –, portanto, Nixon não cumpriu a promessa de
1962, e, inversamente, tornou à cena política em 1967.
Porém
esse “homem do presidente” é um caso especial: o único, dentre
o escalão decisório, condenado à prisão, quando alguns anos
depois de estar Nixon na presidência do país, estourou o escândalo
da invasão da sede do Partido Democrata pelos homens do governo.
Erlichman
foi considerado pelo tribunal o responsável por ordens de invasão,
dentre as quais a mais importante foi à sede do partido democrata no
edifício Watergate, com objetivo de obtenção ilegal de
informações. Também foi preso o executor Buddy Krogh. O processo
deveria continuar até a decisão sobre a responsabilidade do próprio
Nixon, que, no entanto, a certa altura, renunciou à presidência.
Na
autobiografia que citamos (Witness
to Power;
the Nixon years. New
York: Pocket Books, copyright 1982, p. 17, 8), Erlichman procede à
sua defesa, alegando jamais sequer ter tido conhecimento das
operações de invasão.
Esse
caso estava interligado a outros escândalos, principal para o
processo de Erlichman sendo a invasão dos aposentos privados do
psiquiatra de Daniel Ellsberg pelos agentes do governo Nixon.
Ellsberg havia acusado o governo de distorção deliberada de
informação ao público a propósito do verdadeiro estado de coisas
no Vietnã. Ele estava sendo processado por ter publicado documentos
do próprio Pentágono, que revelavam, porém, a situação real –
o Vietnã estava sob uma sangrenta ditadura, uma das piores do mundo,
e, ao invés de Ho Chi Minh ser apenas um líder comunista, como na
versão governamental para justificar a guerra, protagonizava a
resistência nacionalista contra a dinastia opressora.
Porém,
o processo governamental contra Ellsberg foi interrompido, quando
estourou o escândalo que revelou a manobra dos seus acusadores. A
invasão aos aposentos privados do psiquiatra de Ellsberg pelos
agentes do governo Richard Nixon, visou à posse dos arquivos do
médico sobre Ellsberg, que informariam dos planos de ação deste.
Erlichman
informa que o plano de invasão partiu dos nomeados Hunt e Liddy. À
questão de quem os apresentou a Nixon, para depois passar a ordem do
presidente ao executor Krogh, Erlichman responde que sem dúvida foi
Charles Colson. Assim há um consenso informal de que Nixon foi
o responsável.
Se
Nixon realmente sabia? Segundo Erlichman, isso se tornou algo
consensual entre os próprios envolvidos (p. 368), ainda que a
princípio ele mesmo estivesse convencido da inocência de Nixon. O
que já não era o caso, pois Bob Haldeman, um dos mais importantes
managers da carreira Nixon, publicara nesse interim The Ends of
Power, relatando que numa conversa privada consigo Nixon afirmou
ter ordenado a invasão ao psiquiatra de Ellsberg, algo de que se
arrependera depois por ter feito.
Conforme
a citação de Erlichman, Haldeman comenta como a confissão privada
contrastava com todas as atitudes de Nixon até então, inclusive
mostrando-se chocado pelo acontecimento quando houve a denúncia,
além de não ter prestado qualquer solidariedade a Erlichman, como
testemunho que pudesse tê-lo inocentado no processo durante o qual
Erlichman sempre manteve que Nixon não ordenara a invasão.
Também uma “memoir” de Nixon é citada: “Dadas as
circunstâncias daqueles tempos amargos e tensos e o perigo que eu
percebia, não posso dizer se estava informado disso a princípio...
Eu não lembro disso [sobre se Erlichman lhe contara sobre o fato
antes ou depois de acontecido], e as fitas do período junho-julho
1972 indicavam que eu não estava consciente disso então, mas não
posso garantir (‘I cannot rule it out’)” (p. 367).
Erlichman
registrou assim que um agente que fôra processado com ele
revelara-lhe já ter feito mais de duzentas invasões para a CIA, nos
USA, Cuba, Canadá e outros países (p. 364).
=====
2)
O diabo não gosta da escritura
A
promessa havia sido de que a imprensa não mais teria “Richard
Nixon para ficar por aí chutando”. Portanto, a imprensa de nada
mais se lembrava sobre Nixon desde então. Assim
informa David Halberstam (The
Powers that be.
New York: Dell Publishing, copyright 1979, p. 821).
Porém
“aquela cena de despedida, desastrosa, embaraçosa, tão
imperdoável, estava gravada permanentemente em suas mentes. Uma cena
final”. E, no entanto, agora, em 1968, uma reedição daquelas
imagens não traria qualquer benefício para os adversários de
Nixon.
Os
repórteres estavam errados, segundo Halberstam, ao considerar a
designação para cobertura de Nixon, desde que ele retornara à
política em 1967, como incumbência de menor importância. Para eles
“Era como se por terem sido destinados a um perdedor eles eram de
algum modo perdedores também”. Ao ver de Halberstam, raciocinavam
conforme a lógica da impressora, quando a profissão já estava
definida pelo filme.
A
televisão relançou Nixon, a televisão a cores, onde a tonalidade
demasiado morena de sua figura não parecia tão pronunciada. Entre a
escrita da imprensa tradicional, e a emergente televisão, a carreira
de Nixon redefiniu uma era na política.
Nixon
iniciou o relançamento da carreira, cortejando a imprensa escrita,
aproveitando-se o quanto podia da imagem de pobre homem, igual a
tantos marginalizados pelo poder, não de fato interior aos seus
meandros. A estratégia de atração da imprensa funcionou à base de
segregação etária. Os repórteres mais velhos conheciam Nixon,
mesmo o “ogro” que ele havia sido durante o McCarthysmo, a
implacável perseguição aos suspeitos de comunismo, que aconteceu
nos USA dos anos cinquenta. Mas a nova geração, que estava agora
por volta de trinta anos, não.
Estes
jovens se deixaram impressionar pela montagem do “novo Nixon”,
que lhes aparecia extremamente brando de maneiras, tímido,
simpático, acessível, chegado a conversinhas informais com os
repórteres. Não acreditavam no que lhes diziam os mais velhos. Uma
reedição do velho Nixon perdendo a eleição apenas reforçaria a
imagem do novo Nixon, sensível, franco e humilde.
Assim
que Nixon começou a não mais parecer um perdedor devido a essa
estratégia, Bob Haldeman entrou em cena, tornando-se responsável
pela campanha. Cortando o acesso à imprensa escrita, logo a brandura
se foi, o “new Nixon” não mais existia. Para a imprensa escrita
o acesso se tornou sempre menor, mais limitado.
A
preocupação da equipe era que de Nixon não transparecesse qualquer
deslize, além de alcançar mais e mais pessoas. Todo o esforço se
concentrou na televisão, o que contagiou o próprio Nixon. Frank
Shakespeare, antes da CBS, e Harry Treleaven, assim como Haldeman,
organizaram a campanha televisiva de Nixon (p. 824). Contrataram
Roger Ailes, um jovem ambicioso que trabalhava no Mike Douglas Show.
A
estratégia era de apagamento de todos os traços do passado, e
revisão de como as apresentações de Nixon ao público haviam sido
conduzidas antes, para proceder ao contrário, corrigindo na mente do
espectador qualquer ressonância com uma outra imagem de Nixon, a do
antigo perdedor, o sul-direitista radical.
Não
se veriam agora o que na época da TV preto e branco se permitia, a
cabeça falante do homem sério, despersonalizado, ditando informes
ao público. A cena colorida devia mostrar Nixon de corpo inteiro,
descontraído, informal, inserido num contexto. Ailes tinha que
evitar porém a demasiada informalidade a que a personalidade de
Nixon tendia. “Ele é um cara engraçado” (“a funny looking
guy”). Ele parece ter pulado da cama de manhã com sua roupa toda
amarrotada e começado a correr à volta anunciando, “eu quero ser
Presidente” (p. 826).
Ao
que poderíamos acrescentar as informações de Erlichman, sobre a
época do confronto com Pat Brown na Califórnia, ilustrando que era
preciso “Fazê-los esquecer tudo aquilo” – conforme a expressão
de Halberstam para o escopo dos managers.
Nixon
e Patricia, sua esposa, haviam sido acusados de racismo pelos
democratas, conforme registra Erlichman. Este atuava como advogado em
Seattle, quando retornara ao serviço de Nixon nesta então nova
campanha. Erlichman especializara-se nos aspectos legais do uso da
terra, planejamento urbano e litígios de pioneiros a propósito da
propriedade imobiliária na região. Parecia a pessoa certa para
elaborar a defesa de Nixon à acusação de racismo, uma vez que
estava relacionada ao endereço escolhido pelos Nixon para fixarem
residência, uma grande casa decorada à grega, em Truesdale Estates,
numa colina atrás de Beverly Hills. Mas Erlichman sabia que a
acusação era verdadeira.
O
foco da acusação era a compra da casa por Nixon e Patricia, numa
região que entrava nas cláusulas dos pactos restritivos de
propriedade, pelos quais grupos de conveniados racistas se
comprometiam a não vender propriedade imobiliária a qualquer pessoa
que não fosse caucasiano, isto é, branco de origem europeia (p.
15). Erlichman testemunha: “Eu vi pelas suas assinaturas que
Patricia e Richard Nixon tinham indubitavelmente comprado sua casa na
California sujeita à cláusula discriminatória”.
Conversando
com Nixon, Erlichman compreendeu porém que ele não tinha muita
consciência da substância do pacto, e havia assinado sem ler a
escritura incorporando as convenções raciais (“racial
covenants”).
Nixon
era também advogado, porém não competente, atuando para a firma
prestigiosa onde trabalhava em Los Angeles apenas como promotor de
negócios (“business-produtor”), não um profissional. Nixon
negava não ter lido, porém não garantindo se o lera de fato. Ele
estava, em todo caso, comprometido pelo documento que limitava a
ação. A equipe se defrontara com o dilema. Ou admitir que Nixon
assinara sem ler, fazendo-o parecer idiotamente irresponsável, ou
nada responder, ainda que isso permitisse que os outros pensassem que
ele era racista. Nixon optou por esse último curso de ação.
Processos
de campanha contra o staff de Nixon se apresentaram, apelações
deles e processos movidos pelo próprio Nixon também. Os pontos de
acordo políticos que Erlichman firmara com Nixon quando haviam
podido conversar logo que Nixon viera a Seatle, em função do que
Erlichman conhecia bem, se esvaíram na acrimônia com que os
candidatos passaram a se enfrentar.
Tornando
aos fatos de 1968, conforme Halberstam, só quando Joe McGinniss
publicou The Selling of the President, as pessoas na imprensa
se deram conta a que extensão estava sendo conduzida a
reestruturação da campanha presidencial de Nixon, em função da
utilização máxima dos recursos de fascinação das massas por meio
da televisão. “Agora havia um novo tipo de campanha, muito mais
aproximativa. A imprensa iria cobrir o que os nixonianos (‘the
Nixon people’) queriam que fosse coberto” (p. 827).
Mas
a história das relações de Nixon com a imprensa não começa nem
termina aí, na exposição de Halberstam. A trajetória conduz ao
grand finale do sobejamente conhecido desastre de Watergate, onde a
imprensa teve papel decisivo. Mas inicia-se de um modo tão obscuro,
que nem mesmo Erlichman referencia a proveniência, como do primeiro
benfeitor de Nixon dentro do partido republicano, o homem que o
lançou como vedete do partido. O índice onomástico de Erlichman
não tem referência para “Kyle Palmer”.
A
investigação de Halberstam, a propósito dessa origem e tudo que
dela se segue, de fato permite refutar as versões mais comuns sobre
o que teria provocado a específica animosidade da imprensa contra
Nixon, manifesta pelo modo como ela conduziu o escândalo de
Watergate.
Kyle
Palmer era o empregado número um do clã Chandler, família que se
tornara praticamente monopolista na imprensa da Califórnia como
proprietária do Los Angeles Times, e uma das maiores fortunas
do partido republicano. O Washington Post, de Catherine
(“Key”) Graham, sem qualquer traço de oposição aos Chandlers
da Califórnia, e, pelo contrário, a eles relacionada, foi o algoz
de Nixon em Watergate.
Algo,
portanto, está errado, quando se propaga o caso como o faz Francis
(Paulo Francis, Uma coletânea dos seus melhores textos já
publicados. São Paulo: Editora Três, copyright 1978). Ou seja,
em termos de “uma mulher contra Nixon”. E tal que, tratando-a por
“Kathy”, inversamente à “Key” de Halberstam, Francis assim
moteja no seu estilo mais típico: “Kathy Graham – como o japonês
(de anedota) que puxou a válvula de descarga do sanitário de
Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, seguindo-se um ‘certo’
estrondo – podia ter dito: eu contra o mundo inteiro” (p. 101).
A
história em Halberstam não se limita a algo tão simples. O pecado
de Nixon foi contra uma coletividade, a dos clãs de imprensa que
funcionaram nos USA do século XX como o censor das ditaduras
militares em qualquer país dominado por governos totalitários
impostos pelos próprios USA. Bem ao contrário do que Francis
acreditava, os USA não eram a pátria da liberdade da informação
segundo revela David Halberstam. Além disso, todo o processo de
representação eleitoral foi sempre mais engolfado pelo poder de
manipulação dos clãs dos vários estados, a partir de sua íntima
conexão com o partido Republicano, até se tornar um fantoche nas
mãos deles – o que se pode afirmar do próprio partido, que os
clãs pretenderam que fosse apenas o fiel espelho das suas ordens
estabelecidas.
Nixon
acreditou, a uma certa altura, que podia governar sozinho, sem
conceder poderes decisórios aos clãs, além de ostensivamente
forjar uma imagem hostil a eles. Ele pareceu transferir a
personificação de sua base, desde as eminências pardas do partido
Republicano ao seu próprio Staff, a partir talvez da crença comum
desses homens em que o impacto direto, carismático, do presidente
sobre as massas seria o novo veículo, suficiente, da garantia do
poder político nos USA.
Nixon
renegava assim, imprudentemente, os seus benfeitores de origem,
subestimando-os sem razão. O que teria acontecido para Nixon romper
com os Chandlers – pessoalmente, com o casal protagonista do clã,
os proprietários do Los Angeles Times, Norman e Buff
Chandler? E qual o papel de Kyle Palmer nesta ruptura?
Poderíamos
afirmar que qualquer que tenha sido o fato em si, o importante na
decisão de Nixon era apenas a mudança de orientação, o poder da
televisão? Porém, devia ser claro que esse poder estava apenas por
um lado, mas não por outro, à parte do domínio dos clãs
tradicionais da imprensa.
Um
estudo mais acurado da questão Nixon se torna necessário ao
interesse de obter alguma perspectiva sobre como se pode responder a
essas indagações, sendo também muito oportuno como embasamento
histórico na origem da época atual, definida pelo açambarcamento
total da produção de informação pelo domínio dos monopólios
info-midiáticos.
Como
se pode aquilatar, é forçoso que a história da dominação da
informação pelo capitalismo midiático nos USA seja uma chave para
a compreensão da nossa era enquanto cenário do neoimperialismo,
formado na circunstância das guerras por libertação nacional
afro-asiáticas, e resultando na equilibração conflituosa da
geopolítica Norte/Sul. Pois nenhum governo estadunidense que se
exerceu nesse teatro de guerra está isento do ônus das decisões
que até agora tem determinado os seus rumos.
3)
Cherchez las femmes
Todos
conhecem a expressão “cherchez la femme”, procure o móvel, o
motivo, do crime, se você quer descobrir quem o praticou. Mas
literalmente significa: “procure a mulher”. Na conexão histórica
da comunicação em massa com os rumos políticos do imperialismo, os
usos literal e idiomático se confundem, o feminino é um fator
chave: no plural.
I)
Na linha, a Casa Branca
Na
noite de 27 de outubro de 1972, uma sexta-feira, a esposa de Frank
Stanton, o número um da CBS TV, além do chefe proprietário, Bill
Palley, estava ao telefone. Ela conversava com uma amiga, quando foi
bruscamente interrompida por um operador da Casa Branca, ordenando
que desligasse, para que a Casa Branca pudesse contatar o marido.
Quem chamava era Charles Colson. Stanton encontrava-se ausente, não
por acaso.
Enquanto
a esposa de Stanton tentava ela mesma contatá-lo, Colson mudou de
ideia, para não perder tempo, passando a ligar para o próprio Bill
Palley. Encontrou dessa vez um ouvinte profundamente interessado,
ainda que a mensagem de Colson não fosse muito agradável.
O
que havia acontecido, para despertar a fúria de Colson? A CBS
mostrara, nessa noite, seu especial a propósito de Watergate,
protagonizado pelo star Walter Cronkite. Com a arrogância
característica da posição que atingira, pelo telefone Colson
forçava Palley a comprometer-se com a obrigação de não repetir
qualquer programa sobre Watergate.
Palley
concordaria sem resistência. Porém, até mesmo para ele, não era
fácil deter o processo, àquela altura. Um segundo documentário
pôde ir ao ar, Cronkite contribuiu sem dúvida para acelerar a
recepção de Watergate como um escândalo nacional, que de outro
modo, apenas como matéria de jornal coberta pelo Post, provavelmente
não atingiria grandes proporções.
Contra
as expectativas de Palley, Watergate se tornou um assunto sempre mais
requisitado, impossível de censurar, e fonte dos maiores números de
ibope. O que ele pôde fazer para manter intacta a pele sob a
ditadura do Staff Nixon, que então já ameaçava “quebrar” toda
a cadeia CBS, foi tirar de cena o “Instant Analysis”. Segundo
Halberstam, uma “forma inócua de crítica” a que comentadores e
repórteres tinham se habituado a propósito do presidente. Os
profissionais sentiram a perda como uma vitória sobre a CBS, por
parte de Nixon. Na verdade, havia sido praticamente uma ordem de
Haldeman.
O
Staff de Nixon, a essa altura, já havia transformado a cena do
poder. O uso da TV por Nixon para eleger-se havia sido uma farsa, e
tão logo instalado na presidência, Nixon realizou sua reforma na
política de imprensa da Casa Branca, que passou a contar com uma
equipe própria, dirigida por Spiro Agnew e Colson, com Haldeman e
Erlichman intrinsecamente relacionados. As poderosas redes de
televisão particulares se tornavam agora meras tributárias da
equipe da Casa Branca.
A
própria farsa de Nixon, cortejando a CBS, NBC e demais cadeias de
televisão do país, havia sido apenas um hábil estratagema pelo
qual Nixon se beneficiava do ápice de um processo que se iniciara
antes dele, entre as campanhas de Eisenhower e Kennedy.
O
processo, culminando em Nixon porém como num turning point, é uma
escalada ascendente do desequilíbrio do poder democrático – não
reduzido ao significado do partido democrata. O uso das televisões
pela presidência desestabilizava o papel do legislativo, tornando o
cargo do presidente da república menos uma função do aparelho
racional-legal burocrático- administrativo, do que uma liderança
passional-carismática.
As
televisões tiveram parte igual nesse processo, elas o integraram de
bom grado, porque mostrar o presidente provou-se um meio de obter
“ibope”, mas o compromisso ético para com a nação, de mostrar
igualmente os homens do Congresso e de instituições políticas
correlatas, não.
Assim,
o presidente passou a ter um veículo de acesso direto ao público,
enquanto o legislativo caía no esquecimento deste ou se tornava algo
menos receptivo aos sentimentos da nação.
O
resultado do “ibope” não era também de todo casual. É evidente
que a figura do presidente é um atrativo devido à sua importância,
mas o processo envolveu um ajuste de todo o desempenho do Presidente
da República às leis de ferro da tela, não só a produção da
aparência física, mas principalmente o teor e a forma dos
comunicados. Este último, um dos fatores chave do distanciamento do
legislativo, uma vez que os verdadeiros homens políticos não podiam
ser indulgentes nisso.
A
orientação nas televisões é de substituir os pronunciamentos dos
políticos, que necessitam desenvolver por vários ângulos alguns
dos temas de suas respostas, por correspondentes que se tornam
famosos pela tela, mas que têm a incumbência de reduzir a “dois
minutos” a substância de qualquer comunicado.
O
político é mostrado sendo entrevistado, mas não tudo o que ele
responde, quem fala por ele informando ao público o que realmente
significa a resposta, é o correspondente da emissora, e segundo a
lei dos “dois minutos”, um formato de apresentação que
conhecemos bem hoje em dia. O que obviamente implica distorção da
matéria. Mesmo que não fosse pelo fato de sempre se tratar de uma
interpretação, e direcionada ideologicamente, vemos que o problema
reside não apenas quanto ao aspecto do conteúdo, mas especialmente
quanto à forma. O público fica convencido de que tudo é
compreensível instantaneamente, quando de fato nem tudo o pode ser.
Uma
questão real que envolve não apenas o tratamento do legislativo,
mas todo correlato das mensagens de mídia, como já foi sublinhado
por alguns teóricos – especialmente com relação a conteúdos da
ciência. As pessoas letradas por vias não restritas à televisão
não são tão prejudicadas quanto o sempre maior número que limita
suas fontes de informação a ela.
Erlichman
tangenciou esse problema, na crítica acerba da mídia de que se
compõe o capítulo “The press”, do seu citado livro. Trata-se do
registro de vários confrontos entre o staff de comunicação da Casa
Branca dos tempos nixonianos e a mídia, elaborado tal que de forma
alguma parece ter sido uma operação de domínio sobre a imprensa,
mas sim uma forma de defesa de Nixon contra o abuso do poder da
própria mídia.
Em
todo caso, ele conta sobre os dois jornalistas com quem pôde
conversar pessoalmente, de modo a obter resposta a propósito de sua
observação de erros da parte deles. O primeiro, um colunista do
Cristian Science Monitor que porém não era cristão, havia
respondido que estar certo a metade do tempo já devia ser
considerado extremamente satisfatório. O segundo, Hugh Sidey do Time
Magazine de Harry Luce, dissera que havia muitas lacunas difíceis
de preencher, e assim era impossível elidir os erros: “toda
história contém erros” (p. 257). Erlichman comenta não
compreender como alguém pudesse ser tão tolerante.
Ainda
que alguns erros sejam esperáveis em qualquer ato humano, creio que
o problema está no próprio modo como as empresas jornalísticas
escrita ou televisiva monopolizam homogeneamente toda e qualquer
informação para fins de mercado. Em vez de não interferir quando
se demonstram os limites do meio, contentando-se em fazer o possível,
investem pesadamente na veiculação propagandística de sua
infalibilidade. Halberstam compreende o problema, porém não tão
interligado ao aspecto teórico da distorção formal. Para ele, um
repórter instruído pode reduzir o que importa na matéria a
um comunicado rápido, ainda que enfatizando que assim a fonte da
resposta se desloca da pessoa “eleita” para a função da
mensagem, e em tratando do político, para o poder da imprensa.
Ao
ver de Halberstam, o problema histórico real consiste em que tudo
isso implicou o desequilíbrio do tempo concedido ao presidente e ao
legislativo. Esse é o ponto crucial, podendo-se considerar uma
mudança na composição do poder.
Eisenhower
utilizara-se pioneiramente da televisão como veículo da imagem do
presidente para ganhar a eleição, mas foi Kennedy quem tornou a
presidência um veículo da própria televisão, o que é
compreensível, dada à vantagem da sua beleza física. Segundo
Halberstam, Eisenhower tinha escrúpulos que desde Kennedy deixaram
de ser acalentados, de modo que na orientação deste virtualmente
tudo na vida do presidente devia se tornar mostrável, capitalizável
para efeitos de imagem.
Em
1968 e 1972 Nixon colheu os frutos do que Kennedy havia plantado, não
sem ironia, uma vez que Nixon havia sido, em 1960, a primeira vítima
da nova arma da arena eleitoral. Kennedy o arrasara num debate
televisionado, grande parte planejado como verdadeira arapuca cênica,
explorando o que sabiam os seus partidários serem os pontos fracos
de Nixon relativamente às leis da tela.
O
triunfo de Kennedy, tão desastroso para Nixon, não apareceu como o
do partido democrata contra os republicanos, mas sim como o triunfo
do novo meio de comunicação de massas, conforme Halberstam (p.
477). O processo que estamos examinando pode ser, a seu ver, do mesmo
modo designado como da transferência do papel de seleção e
organização de campanhas eleitorais, dos partidos para os
manipuladores da mídia.
É
nessa designação que encontramos o elo das relações de Nixon
entre as já divididas imprensas, escrita e televisiva. Os problemas
de Nixon com as figuras femininas chave da imprensa escrita, Buff
Chandler e Kay Graham.
//
ANTES,
A “FLOR DE CUBA”
“Feeling
sluggish, feeling sick?
Take
a dose of Ike and Dick”
Estes
versos de Maria Mannes (Nota 1), citados em David
Halberstam, integram o engraçado poema que ela compôs a propósito
da inclusão do presidente na lista de mercadorias tornadas célebres
pelo poder da propaganda:
“Philip
Morris, Lucky Stricke
Alka-Seltzer,
I like Ike”
Assim
se demonstrava que o eleitorado norte-americano não se deixava
mesmerizar pela mera atração da imagem manipulada, que percebia a
operação ideológica da dominação midiática a degenerar o
processo racional-democrático num mero rito passional-carismático,
a livre deliberação da consciência subjetiva do eleitor numa
demagogia de massificação. E também que os agentes não eram
desconhecidos, que, ao contrário dos inocentes úteis que confundem
propaganda com arte, sabia-se bem que o procedimento de mídia era
direcionado, ao invés de estilo e de livre expressão.
O
poema de Mannes, com efeito, começa assim:
“Hail
to B. B. D. & O.,
It told the nation how to go;
It told the nation how to go;
It
managed by advertisement
to sell us a new president”
to sell us a new president”
B.B.D.&O.
é o nome da agência de propaganda contratada para “vender” a
chapa de Ike Eisenhower na eleição presidencial em que “Dick”
Nixon era o vice.
Tinha
a propaganda – ou quem quer que fosse – direito de ditar à nação
o que pensar e o que fazer? Se obviamente não o tinha, conforme a
ironia do “thanks”, o comprometimento da democracia a partir dos
procedimentos de direcionamento massificado não era, porém, a essa
altura, uma novidade. Apenas se comprovava um passo a mais na rota da
dominação da consciência, a partir da cooptação planificada do
elemento passional, quando o procedimento passou a abranger a
propaganda de mercadorias.
Temos
então três fases na história da integração midiática da
governamentalidade norte-americana: a do jornal, do rádio e da
televisão acoplada à propaganda. Nenhuma delas foi menos
direcionada. Antes da propaganda, se limitava ao modo como se
produzia o noticiário de campanha. Quanto se tratava da linha
republicana de um jornal, por exemplo, limitava a cobertura ao
candidato do partido, o democrata era apenas alvo de críticas ou da
calúnia aberta.
F.
D. Roosevelt marcou a entrada na era do rádio. Como tecnologia de
alcance de massas superior à simples cobertura escrita, restrita à
distribuição local, a mudança que o rádio introduziu não foi
apenas o fator quantitativo. A cobertura de audiência nacional que
ele possibilitava foi imediatamente integrada à política
presidencial de Roosevelt. Conforme Halberstam, o presidente
costumava dizer a Orson Welles que havia apenas dois grandes atores
nos Estados Unidos, e Welles era o outro. O presidente, o ator
principal da nação (p. 24).
Antes
os jornalistas em Washington cobriam questões relacionadas aos
interesses regionais do seu próprio jornal, mas depois de Roosevelt,
eles eram especialistas treinados que escreviam sobre as implicações
nacionais das decisões, implicações que afetavam o país inteiro.
Conforme Halberstam, “a velocidade da decisão se tornava mais e
mais rápida, o governo local não podia fazer frente ao crescente
poder e influência do governo federal”. A tecnologia estava
possibilitando a formação de um “Estado central” que “podia
alcançar áreas previamente isoladas. Mais, ele podia desempenhar
funções, dispor serviços, e fazer julgamentos inconcebíveis numa
outra era”.
Nessa
era do rádio, o fenômeno midiático não foi menos abrangente,
portanto, do que na transformação crucial do marcketing e
televisão, e como Halbestam registrou, não se limitou aos Estados
Unidos. O Estado central, a centralização do poder federal, foi a
marca da era do rádio, ocorrendo paralelamente na Alemanha e na
União Soviética. A mola mestra dos regimes totalitários europeus
que as democracias ocidentais tiveram que enfrentar nas duas guerras
foi, porém, fator de reforço na construção do governo
centralizado na América, e por outro lado um fator de questionamento
da democracia: “se o poder estava o mais claramente centralizado
alhures, não se provaria a democracia vulnerável, numa era de
bombardeios, cada vez mais rápidos e destrutivos, e de outras armas,
a democracia não seria demasiado lenta, demasiado desajeitada?”. A
democracia aqui se deve ler, o Legislativo, a representação da
heterogeneidade da população, e o Judiciário.
Conforme
Halberstam, portanto, a emergência dos Estados totalitários
reforçou o poder do Executivo na América. O presidente usou o seu
inusitado poder de influência “não apenas contra os Estados
adversários, mas contra o público americano, o congresso e a
imprensa, conforme o argumento das necessidades de segurança
nacional”. Assim que as guerras acabaram, o foco de Roosevelt mudou
“da política interna, sobre que o Congresso estava bem informado,
para a política externa, área em que ele se sentia sempre ignorante
e desajeitado, portanto inevitavelmente subserviente”. A mídia era
usada pelo presidente, mas conforme suas próprias regras de ibope,
jamais de um modo que as desafiasse. A mídia era usada, mas ela
determinava as regras do jogo para qualquer utilização.
Roosevelt
não devia se impor como fonte de obrigatória informação
burocrática, um assunto sério que causasse tédio no horário do
entretenimento, ele devia produzir-se como um ídolo desejado, ele
mesmo o entretenimento, o redentor que todos esperavam numa época
tão obscura como a da crise da bolsa, que Roosevelt fez terminar,
introduzindo o Estado de bem-estar social.
Creio
que pouca gente sabia que Roosevelt era aleijado. Como Halberstam
observa, por um pacto sempre respeitado, os fotógrafos da Casa
Branca nunca o mostraram em cadeira de rodas ou muletas, e os
repórteres dos jornais respeitaram igualmente esse “direito do
presidente”. O ar extremamente confiante, a haura do poder, a voz
rica, familiar, as mãos possantes e atraentes, tudo em Franklin
Delano Roosevelt inspirava um ardor que contaminava a imprensa, por
vontade própria os repórteres abafavam notícias que pudessem
comprometer sua imagem. Como quando Roosevelt foi votar e um
dispositivo falhou, provocando sua irritação: “essa maldita coisa
não funciona”, vociferou irado. Se Belair, do Time,
imprimiu a nota “Roosevelt estava irado”, ninguém
acreditou deveras. Naquela “época de alma pura”, que o
presidente dos Estados Unidos pudesse incorrer em tamanha profanação
era impossível, os repórteres haviam sempre protegido o público
contra a revelação insidiosa, e Roosevelt negou que havia sido
blasfemo (p. 21).
Por
um efeito de compensação, nessa altura da mercatorização da
presidência, a entrada da televisão no processo de açambarcamento
midiático do político flexibilizou o antigo modo, e os candidatos
passaram a serem ambos cobertos pelos jornais. Porém Ike usou o novo
meio com certo comedimento, certo pudor, que a partir de Kennedy já
não existia.
A
crise na estrutura presidencial-midiática assim estabilizada, no
episódio Nixon, corresponde na verdade a um clímax paroxístico,
numa trajetória que não deixou por isso de ser sempre ascendente
até hoje.
Halberstam
soube como ninguém manejar o paradoxo desse momento nixoniano. Não
só porque Nixon, como vimos, começou por usar a imprensa, e
seletivamente, num golpe magistral que aprofundou a cisão dos
veículos escrito e eletrônico, para, por turnos, se livrar depois
de um e de outro, impondo uma agência própria e oficial, da Casa
Branca. Mas por que ele soube explorar as regras do jogo.
Assim
Spiro Agnew, o vice-presidente de Nixon que se lançou numa longa
cruzada de crítica à imprensa liberal, na própria imprensa,
produziu-se cuidadosamente como um homem carismático de imprensa.
Por outro lado, a crítica do staff de mídia nixoniano soube se
articular contra um construído estereótipo que unia a imprensa
liberal a todas as inovações tecnológicas e sociais que, num ritmo
demasiado acelerado, surpreenderam a nação, deixando grandes grupos
de pessoas descontentes, desconcertadas.
Esses
grupos podiam não ser necessariamente conservantistas republicanos,
porém o construto era irresistível como alvo do ressentimento, o
novo, as inovações que de modo arbitrário mudavam intoleravelmente
os ritmos e os hábitos da vida, as multidões indo às ruas movidas
pelo conflito racial ou protestos de jovens contra a guerra,
impedindo a normalidade. Além disso, o staff soube misturar críticas
procedentes, ecoando as que os próprios intelectuais liberais vinham
tecendo, visando à mídia como clique potencial de posições
unilaterais, e monopólio privado da informação.
A
imprensa liberal, ou meramente autônoma, foi sendo encurralada
sempre mais na defensiva. Os proprietários das afiliadas das grandes
cadeias de televisão eram eles mesmos republicanos e aprovaram
entusiasticamente a estratégia de Nixon. Chegaram a exigir, das
cadeias televisivas com que estavam associadas, cobertura
heroicizante do exército americano no Vietnã, a fim de reforçar a
opinião a favor da guerra. Foi uma tarefa árdua para Sallant, o
presidente da CBS, convencer os proprietários das afiliadas que isso
causaria apenas imenso ressentimento.
Um
fator que contribuiu para o sucesso da estratégia nixoniana de
domínio sobre a mídia é que para muitos era notório que isso
equivalia a domínio sobre a nação, e muitos americanos sentiam,
conforme Halbestam, àquela altura, que era preciso alguém retomar o
pulso, que o presidente anterior, Lyndon Johnson, havia perdido o
controle do país.
O
que é irônico, uma vez que a aceitação por intelectuais, da
estratégia Kennedy de total midiatização da campanha presidencial
pela televisão, superando os escrúpulos de Eisenhower, ocorreu,
segundo Halberstam, porque, para os intelectuais da nação, Kennedy
era uma fórmula contra Nixon. Na era Nixon, os intelectuais mesmos
já estavam na defensiva, massas descontentes com mudanças que elas
não compreendiam ou que resultaram em novos conflitos foram vitais
para o retorno de Nixon à política.
Até
estourar o escândalo de Watergate, Nixon provocara, pois, uma cisão
na estrutura midiático-governamental norte-americana que vinha se
estabilizando há décadas, porém se apenas para transformá-la num
veículo inteiramente direcionado pelo Executivo, ainda segundo as
próprias regras de cooptação midiática. A estrutura em si era
inabalável.
Para
Halbestam, o momento inicial, a era pré-franklin-rooseveltiana, a
era da imprensa jornalística escrita, foi marcada por um passo
lento, “relaxado e gentil”, homens de chapéu e bengala que não
se importavam muito com a cobertura nacional, poucos homens como
Oulahan do The New York Times ou Fred Essery do Baltimore
Sun, cavalheirescos, de ar ocioso, cobrindo atividades de
dignatários, não como se fossem de políticos práticos. Esses
jornalistas cavalheiros eram essencialmente diferentes dos outros,
aqueles que cobriam as histórias policiais.
As
histórias dos dignatários nunca ultrapassavam o ditado da Casa
Branca, mas eram os jornalistas que, como relativamente ao presidente
Hoover, construíam a reputação. Somente na era Franklin Roosevelt
teria havido algo como uma “explosão de notícias”. Não havia
mais chapéu ou bengala, o passo se tornou rápido, havia sempre
muitos e mais eventos, agências, fontes governamentais, Roosevelt
pessoalmente apressava os repórteres à publicação imediata do que
lhes comunicava (p. 17/19).
Cl.
Julien (L’Empire Americain. Paris: Bernard-Grasset, 1968),
inversamente, cobre o período pré-franklin-rooseveltiano como uma
primeira integração estrutural que, para se lançar, atuou com
grande impacto e sensacionalismo. A estrutura midiático-governamental
coalesceu após a Secessão, no bojo da transformação dos Estados
Unidos, de uma nação autônoma em um império neocolonialista que
hoje abrange a hegemonia planetária do capitalismo. A violência com
que a mídia se integrou pioneiramente como um fator intrínseco ao
poder Executivo teve por pivô precisamente essa transformação, que
não foi unilateralmente direcionada pelo próprio Executivo
norte-americano.
A
opção pelo imperialismo teve a princípio dois ingredientes. Por um
lado, um alvo concreto e próximo, as pequenas ex-colônias da
América Central, até aí orbitando em torno da antiga metrópole, a
Espanha. Se o partido republicano, ao contrário do democrata, se
notabilizou na história pela opção “isolacionista” junto com o
ideário econômico liberal inversamente à ação anti-cartel dos
democratas, isso não quer dizer anti-imperialista. O famoso
“isolacionismo” republicano ressoa apenas como recusa de
participar dos conflitos europeus. E o seu “liberalismo” na
verdade implicou num verdadeiro fechamento protecionista dos Estados
Unidos a toda ingerência de negócios estrangeiros, com objetivo de
aumentar ao máximo o poder do empresariado norte-americano. Se em
vez de isolacionismo e liberalismo dos republicanos, os democratas
pregavam os direitos civis e o internacionalismo, o resultado quanto
à política externa não era muito diverso.
Sobre
o citado fechamento, de que o Dingley act, de 1897 a 1909, é um
exemplo no tocante a firmas não-americanas, taxando em 57 % vários
produtos na alfândega, segundo Julien, atuou inclusive sobre a lei
de imigração.
Os
Estados Unidos como terra da promissão para todos foi uma propaganda
interessante apenas para uma parte da indústria ou para os
dirigentes trabalhistas contra os trabalhadores sindicalizados.
Inversamente, tanto os sindicatos quanto os republicanos insistiram
em leis contra imigrantes. Aproveitando-se de limitações que
pudessem mover a opinião pública, proibiram o acesso de
anarquistas, iletrados, prostitutas ou condenados, assim como de
chineses, mas também houve o recurso de minoração de quotas de
entrada para vindouros de outros países. Inversamente, a atração
de intelectuais do mundo faz parte de uma política que despovoa a
inteligentzia nacional. A “diplomacia do dólar” ou o “big
stick” – falar macio mas portar um “grande porrete” – foram
lemas presidenciais do tratamento designado para os liderados, por um
país que se considerou “líder espiritual dos povos bárbaros e
senis”, na fórmula do senador Beveridge, isto é, os
não-ocidentais e os europeus. Harding, que não chegou a cumprir o
mandato – ao que parece assassinado pela esposa, porque tinha uma
amante – apregoava o “America first”, todos os esforços da
nação deviam ser apenas para ela mesma. A corrupção de negociatas
durante Harding foi radical, apurada por número expressivo de
processos escandalosos.
Por
outro lado, o segundo ingrediente da transformação imperialista dos
Estados Unidos consta de uma ideologia expansionista laboriosamente
construída por vários agentes integrados. Homens poderosos da
imprensa como Pulitzer e William Hearst; da política
norte-americana, como os senadores Beveridge e Henry Cabot Lodge, ou
ainda a “gang de Ohio” integrada entre outros pelo senador do
Arizona, Albert Fall; líderes da igreja como Josiah Strong; líderes
militares como o almirante Mahan; o escritor Herman Melville, e
doutrinas presidenciais. (Nota 2 )
Porém,
até abranger a conta certa da contribuição presidencial, a clique
imperialista teve que romper a resistência de presidentes como
McKinley. O apoio precedente de Theodore Roosevelt não se demonstra
portanto como prova de um pensamento unívoco pró-imperialista
existente desde o início. É justamente na época da presidência
McKinley que, na pessoa de Hearst, a imprensa faz sua estreia como
elite do poder, mudando o direcionamento do Executivo, a partir da
manipulação da opinião pública. Tratava-se para Hearst de
impulsionar a guerra contra a Espanha pela libertação de Cuba do
imperialismo espanhol, verdadeiramente tirânico, porém não que
líderes da resistência cubana como José Marti desconhecessem o
perigo do imperialismo norte-americano. Tão certo que, na sequência
das ações pró-imperialistas de Hearst, consta a sua amizade com o
ditador mexicano Porfirio Díaz, uma das razões pelas quais o
Morning, de Hearst, passou atacar o presidente Wilson,
reclamando intervenção militar no México. Antes, Hearst havia
apoiado Wilson, aliado na cruzada em prol da obtenção da
ascendência sobre Cuba, através da guerra contra a Espanha. Outras
razões foram, além do aumento das tiragens pela agitação da
massa, que a mãe de Hearst possuía um rancho e outros interesses no
México.
Na
época da promoção por Hearst da guerra contra a Espanha, uma
verdadeira histeria nacionalista de massas foi desencadeada nos
Estados Unidos pelo seu jornal, que para isso chegou a produzir uma
heroína, a “flor de Cuba”. Evangelina Cosio Y Cisneros, havia
sido presa pelos espanhóis, conforme informaram os correspondentes
de Hearst em Cuba, e logo estava ela apresentada à opinião pública,
pelo Morning Journal, como a “Joana D’Arc cubana”.
Uma
campanha visando ao apoio das mulheres norte-americanas à causa da
“flor de Cuba” envolveu inúmeras signatárias cujos nomes
apareceram em várias colunas do Journal, inclusive o nome da
própria mãe do presidente McKinley, assim como da esposa do
secretário de Estado, Mrs. Sherman.
A
campanha atingiu o outro lado do Atlântico, milhares de assinaturas
se seguiram, um apelo do papa foi endereçado, e quando afinal a
“flor de Cuba” conseguiu fugir de Cuba com auxílio de um
mercenário, Karl Decker, subvencionado por Hearst, ela desembarcou
em New York provocando, segundo Julien, “um verdadeiro delírio
popular” (p. 88). McKinley tencionava continuar resistindo ao
populismo, porém, a onda dos protestos movida pela propaganda do
jornal foi demasiado potente.
O
episódio não foi isolado, e a conhecida história das primeiras
anexações imperialistas, abrangendo São Domingos, Cuba, México,
Filipinas, Havaí, Panamá etc., se esclarece na cobertura de Julien,
a partir da intervenção de Hearst e outros integrantes da clique
expansionista. Podemos desde esse episódio, caracterizar os momentos
principais da construção daquilo que seria bem designável a
“articulação mídia/Executivo” como estrutura do Poder
imperialista estadunidense, a qual visou não apenas anexar as
instituições do governo para os objetivos do imperialismo,
monopolizando-as. Mas também transformar o Executivo numa forma de
poder carismática, na terminologia de Weber aquela forma
oposta ao desempenho racional. Construindo uma relação passional
direta do presidente com o povo, neutraliza a democracia legal
pela minimização da importância do legislativo e judiciário.
Se
bem que Julien não o tangencie, é notório que o pensamento liberal
nos Estados Unidos teve bastante alcance em inícios de século, como
na Escola de Sociologia de Chicago, sendo como demonstra os artigos
de Robert Park, expressamente anti-imperialista. Assim compreendemos
a resistência de McKinley, mas também, conforme o que Julien
observa, pelo fato de que os banqueiros e industriais estavam contra
a intervenção bélica que julgavam prejudicial naquele momento aos
negócios. Porém, logo o idealismo americano se tornou uma
mentalidade abrangente, e os presidentes passaram a contribuir com
doutrinas que reinterpretaram ao corrente do objetivo imperialista, o
ideal oitocentista da doutrina Monroe.
O
lema dessa doutrina, “a América para os americanos”, em 1826,
foi um enunciado ecoando a guerra da libertação nacional frente à
metrópole inglesa. Agora, em princípios do século XX, a ideologia
expansionista construía-se como um verdadeiro idealismo, nitidamente
reconstituível tanto na letra dos seus enunciados quanto nos
acontecimentos de sua produção histórica.
De
fato, Julien cuida dos dois aspectos. Já vimos o bastante para os
limites do nosso estudo a propósito das práticas construtivas do
imperialismo. Quanto à letra, a doutrina Monroe foi primeiro
modificada pelo “corolário Roosevelt”, em 1904, condensando os
princípios de Richard Olney e L. Drago. Tratou-se, na ocasião, de
um conflito com a Inglaterra, provocado pela recusa da Venezuela em
pagar dívidas contraídas com potências europeias, num contexto de
litígio por fronteiras. O presidente Theodore Roosevelt aprovou a
política belicista dos europeus para recobrar a dívida, porém
recuou quando soube que se tratava do envio de navios ingleses,
italianos e alemães. O que violava a doutrina de Monroe. Richard
Olney, que se tornara procurador geral desde que lograra lançar na
prisão a Eugene Debs, líder sindicalista por ocasião das greves
das estradas de ferro, enunciara, em carta ameaçadora à Inglaterra
devido ao conflito de fronteiras, o princípio pelo qual “Os
Estados Unidos são praticamente soberanos sobre este continente e
sua vontade é a lei para quaisquer matérias em que intervenham”
(p.127).
A
doutrina Calvo, do homônimo jurista e diplomata argentino, enunciava
que um estrangeiro deveria submeter seus processos ao poder
judiciário do país em que exerce sua atividade, ao invés de tentar
obter reparação por meio de intervenção diplomática. Podendo ser
utilizada na ocasião do conflito anglo-venezuelano, a doutrina foi
complementada pelo protesto de Drago afirmando que nenhum país
poderia recorrer à força armada para constranger uma nação
americana a pagar suas dívidas.
Essa
doutrina Drago não foi aceita nem pelo Congresso Americano em 1906,
nem pela conferência de Haia em 1907, porém, já em 1903, Roosevelt
havia obtido julgamento da questão da dívida venezuelana pela Corte
internacional de justiça de Haia, a qual abateu o valor da dívida
de quarenta para oito milhões de dólares – o que deixou a
Inglaterra indignada.
Roosevelt,
inversamente, considerou bastante satisfatório o desfecho, e em sua
mensagem anual de 1904, enunciou o “corolário Roosevelt” à
doutrina Monroe, pelo qual os Estados Unidos respeitam todas as
decisões das nações relativamente ao continente americano enquanto
eles não fossem perniciosos ao direito internacional, porém, a
doutrina Monroe concedendo aos Estados Unidos o direito de “exercer
um poder de polícia internacional”, a fim de garantir a vigência
das relações civilizadas sempre que fossem elas desafiadas por
infrações de suas regras. Assim, conforme ainda o Corolário
Roosevelt, os Estados Unidos são “praticamente soberanos” sobre
o continente americano, e “sua vontade tem força de lei” (p.
129).
Vicentino
(História geral. São Paulo: Scipione, 1997), enuncia mais
simplesmente o corolário Roosevelt: “Visando preservar seus
interesses econômicos e políticos, os Estados Unidos garantiram-se
o direito de usar a força para intervir nos países do continente,
na posição de ‘salvadores da América’” (p. 330).
Julien
referencia o idealismo americano como enunciado da “liderança
espiritual” dos Estados Unidos como designado por Deus ou pelo
“destino manifesto” a serem os civilizadores da
contemporaneidade.
A
“doutrina Wilson”, com efeito, rezava que os interesses dos
Estados Unidos deviam ser definidos como os interesses de todas as
nações do globo, conforme a orientação deste presidente que assim
pretendera eliminar a oposição de nacionalismo e internacionalismo.
Foi nesse princípio que o anticomunismo desde Truman se apoiou para
sustentar o aparato da guerra fria, contra a expansão da União
Soviética, em que vemos o momento nixoniano envolvido. Na verdade,
acontecia então, após as duas guerras mundiais, as guerras
afro-asiáticas contra a dominação colonial europeia, e os USA
intervieram maciçamente, a fim de impedir que as nações emergissem
com regime comunista, pró-soviético.
Lembrando
que Nixon se elegeu presidente em 1968, quando nações
latino-americanas estavam sob ditaduras militares anticomunistas,
implementadas pelos USA, nesse ano houve no Brasil o assim designado
“golpe dentro do golpe”, de modo que a prometida redemocratização
rápida não aconteceu, desde o regime militar instalado em 1964. E
quando Nixon se reelegeu, ocorreu o golpe no Chile, contra Salvador
Allende.
Os
anos setenta não foram tais que o terceiro mundo deixava de importar
na cena política internacional – ao contrário do que Fredric
Jameson afirmou. Bem inversamente, o anticomunismo foi um limiar pelo
qual o imperialismo norte-americano de fato alcançou o âmbito
de consequências planetárias. Porém, nem sempre como uma realidade
da oposição local. Em vários casos, o anticomunismo foi uma
desculpa deliberada, a fim de evitar emancipação econômica e
democracia política das nações sob ingerência dos interesses
capitalistas, isto é, imperialistas, americanos, atuando em conjunto
com os europeus e japoneses. Mas, a essa altura, os interesses de
algo como um império já estavam organizados nos Estados Unidos, num
só bloco do poder interno, designável “complexo
militar-industrial”. Atuando sobre todas as partes do mundo,
conforme Julien demonstrou, o império norte-americano pode manobrar
conforme os interesses do seu empresariado para obter as requisições
que lhe pareçam necessárias, mesmo em questões de menor alcance –
por exemplo, o Canadá teve que ceder quanto a uma taxa de importação
de revistas americanas como Time Life e Reader’s Digest,
que estavam subtraindo o montante dos anúncios das publicações
canadenses, sob ameaça de Kennedy, de um corte de milhões de
dólares já acordados para empréstimo a uma firma nacional. O caso
de Cuba é exemplar, posto que Fidel Castro não fez uma revolução
comunista, mas se tornou comunista depois que as firmas americanas
Texaco e Standard, assim como a Shell, atuando em Cuba, se recusaram
a tratar o petróleo bruto comprado da União Soviética, em moeda
nacional e muito mais barato do que o americano a comprar em dólar.
A nacionalização dessas empresas por Fidel foi seguida da retirada
de enormes quantidades de compra do açúcar pelos USA em represália,
o que provocou a ruptura do regime, o qual, enquanto durou, fizera
saber que o embaixador americano devia ser “a pessoa mais
importante em Cuba”, conforme Julien (p. 302 e segs.)
Nessa
fase do complexo militar industrial, que é a da atualidade, os USA
são líderes do mundo, mas já não tratam do mesmo modo os povos
bárbaros e os senis. Atuando em função do imperialismo
capitalístico, se acoplam aos interesses das multinacionais com sede
na Europa. O mapa do conflito norte-sul parece a alguns uma realidade
supranacional devido à formação de blocos econômicos e o papel
preponderante das empresas multinacionais, mas, além da União
Europeia, não houve qualquer ruptura das realidades nacionais, como
podemos exemplificar pelos “tigres asiáticos” e o Japão. Na
perspectiva da hegemonia estadunidense também continua nacional. As
multinacionais têm na verdade sedes em países e/ou regiões cujos
interesses são estreitamente ligados a elas.
Uma
nota interessante da biografia de Ehrlichman, é ter ele sido
preceptor de um dos netos de W. R. Hearst. Isso ocorreu após
Ehrlichman ter-se graduado na Universidade de Los Angeles, onde
estudou ao retornar da segunda guerra, em que participou pela força
aérea. Logo que se formou, casou-se com Jeanne, também graduada,
formando um grupo de amigos com Haldeman e a esposa Jo. Após o
emprego com Hearst, Ehrichman mudou-se com a família para Seattle, e
se empregou numa firma de advocacia, sendo também professor na
escola dominical da igreja, quando recebeu o convite de Haldeman para
integrar a equipe de Nixon, no final dos anos cinquenta. Ehrlichman,
pronunciando-se sobre a política externa do governo Nixon,
ridiculariza bastante Henry Kissinger. Uma figura caricaturada, o
“bom doutor” universitário perseguindo neuroticamente membros do
Staff nixoniano, a toda hora ameaçando demitir-se e voltar para
Harvard se não acabassem com os odiados perseguidos.
O
ressentimento de Ehrlichman se explica, uma vez que Kissinger era um
querido da imprensa, e especialmente de Katharine Graham do
Washington Post, tradicional alvo da hostilidade de Nixon e
que desencadeou – ou não pôde evitar que seus repórteres o
fizesssem – o escândalo de Watergate. Para Halberstam, de fato
Kissinger era um especialista em creditar aos outros nixonianos a
culpa pela agressividade da política externa de que ele mesmo,
Kissinger, era o arquiteto – lembrando que Nixon prometera a paz no
Vietnã, mas de fato o bombardeou cruelmente, e para alguns, segundo
Halberstam, ele preferiu a via do bombardeio por ser algo que a
televisão não podia filmar.
Mas
Ehrlichman reconhece, afinal, que Kissinger estava certo ao afirmar
que, retirando-se os soldados americanos da guerra, o regime
pró-americano no Vietnã não duraria mais que um ano e meio. A quem
Ehrlichman ridiculariza sem piedade é a Spiro Agnew, num capítulo
intitulado “O vice-presidente”. Agnew é visto como um pretenso
intelectual pernóstico, que só propunha itens irrealizáveis ou de
fato incompreensíveis. Uma vez engajado no projeto Nixon de
contenção de despesas, Ehrlichman se orgulha de ter cortado o
programa espacial de viagem a Marte, que Agnew consertara com grande
estardalhaço a partir da sua cooptação pelos bajuladores da Nasa.
Se não fosse por esse corte, a viagem a Marte deveria ter ocorrido
em 1981.
II)
Doroty “Buff” Chandler
A
derrota de Nixon na Califórnia em 1962, desta vez concorrendo para
governador do Estado, não foi algo intrinsecamente relacionado ao
uso da televisão, mas igualmente relacionado ao poderio da imprensa.
Pat Brown estava sendo apoiado diretamente pelos Chandler do Los
Angeles Times, não obstante o compromisso deles e do seu jornal
com o Partido Republicano. A estabilidade desse compromisso, que
inclusive se restaurou depois, tornaria o fenômeno quase
inexplicável sem o conhecimento do papel de Buff Chandler, não
tanto pelo que ela fez quanto pelo que simbolizou.
Ou
seja, Buff, na apresentação de Halberstam, surge como o símbolo do
modo confuso e não inteiramente planejável pelo qual os
conservadores do Sul, entre os quais os Chandler como referência
principal, precisaram confrontar o fato de que os USA, e até mesmo o
seu próprio território, a Califórnia, estavam se tornando cada vez
menos homogeneamente adaptados aos rígidos padrões do preconceito
tradicionalista que até aí pudera imperar. Mas não havia qualquer
inclinação destes conservadores para mudar factualmente as posições
assumidas, o conservantismo não era seriamente pensado como o que se
devia abandonar. Daí as idas e vindas, as reviravoltas, ora apoiando
uns, ora apoiando outros, dentre os partidos em confronto.
Trama
rocambolesca, que se reflete exemplarmente nas relações
Chandler-Nixon, um pêndulo entre os dois extremos da total ruptura à
estreita colaboração política. Não surpreende assim que, de tudo
o que Halberstam registra, possa se afirmar que a tradição
republicana do Times não foi seriamente desafiada. Os valores
dos Chandler não chegavam a algo que pudesse facilmente se
transportar para o outro lado de um modo total ou sequer totalmente
convincente.
Afinal,
Buff nunca deixou de ser racista. Já em 1976, tendo organizado o
Blue Ribbon 400, “a elite das organizações de elite em Los
Angeles”, para obter fundos destinados a um centro musical,
almoçando com Betty Ford, então esposa do presidente em visita a
Los Angeles, recebeu desta a sugestão de convidar a negra Ethel
Bradley, mulher do prefeito negro Tom Bradley, para o almoço.
Conforme Halberstam, “Buff respondeu que isso estava fora de
questão. A senhora Bradley não era, antes de tudo, um membro” (p.
384, 85).
Como
um todo, o núcleo dos Chandler, composto pelo maior proprietário
Norman, Buff e o filho Otis, singularizam-se pela deliberação de se
tornarem os realizadores da ruptura dos novos tempos no Los
Angeles Times. Ficariam para trás, abrupta ou gradualmente
conforme o caso, os nomes da história do Times ligados ao que
agora se tornara a política autoritária do passado.
Os
antepassados, como o avô Otis, um homem brutal, e o histórico Harry
Chandler, um típico líder de cartel, igualmente duro, mas usando
mais as táticas das leis do que da força, não deviam ser modelos
de conduta. E os mais velhos, que permaneciam nos quadros ativos,
eram cada vez menos preponderantes nas decisões.
O
novo Otis, filho de Buff e Norman, um aluno da nova educação e
“lestizado”, não tão tradicionalmente californiano, que se
tornou o responsável pela administração nesses novos tempos, não
pretendia ser o produtor do rei (“kingmaker”), isto é, o
responsável pela campanha do Partido, como antes os administradores
do Times haviam sido. Inversamente, para Kyle Palmer, o número
um de Harry Chandler, e que continuava na ativa ainda que sem papel
decisivo, o Times e o próprio Palmer não apenas apoiavam o
Partido Republicano, eles eram o Partido Republicano.
Ainda
assim, vemos que Norman, atuando entre os mundos do tio Harry e do
filho Otis, fez o papel de “kingmaker” em campanhas como de Patt
Brown e subsequentemente, apesar da ruptura, do próprio Nixon. Mas
as considerações que podem ser tecidas em torno desse consenso
comum do núcleo familiar, entre pai, mãe e filho, não bastam. Buff
e Otis formam uma história à parte. Norman, como pai, estava
envolvido num círculo mais vasto da dinastia Chandler. Esse círculo
de parentes deviam ter recebido Buff como a mais nova integrante da
família, mas não foi assim. Eles a receberam com ressentimento. Não
estavam interessados em ceder para Norman como pai do novo Otis, este
o neto do velho Otis, a direção dos negócios, um verdadeiro
“império”.
Norman
Chandler foi exitoso em obter para Otis, e não para o círculo
exterior da família, a sucessão na direção do “império”.
Segundo Halberstam ele foi justo, organizando pensões polpudas para
os outros membros. Porém, o antagonismo contra Otis e principalmente
contra Buff nunca deixou de existir, e Buff logo descobriu que não
era apenas uma questão de família. Devido à importância dos
Chandler, era toda a sociedade de Los Angeles que estava contra ela.
Buff,
cujo verdadeiro nome era Dorothy, e cujo apelido é abreviação do
sobrenome, Buffum, reagiu à depressão a que primeiro sucumbira
devido à estigmatização familiar, por meio de um tratamento
psiquiátrico com a então famosa terapeuta Josephine Jackson. Com
relação ao conflito social, ao retornar do sanatório, Buff
utilizou a seção feminina do Los Angeles Times como uma
trincheira. Conforme Halberstam, “a importância do que ela
realizou por meio das páginas femininas [do jornal] não pode ser
subestimada na história da Los Angeles contemporânea” (p. 383).
Se ela havia sido “ferida e rejeitada por uma ordem social, Buff
Chandler objetivou redefinir a ordem social da cidade inteira”.
Seu
instrumento mais agudo foi a seção social do Los Angeles Times.
A partir de que ela pôde eliminar ou punir aqueles que não se
coadunavam com seus valores, e premiar aqueles a quem estimava.
Buff
repetia assim, na escala da vida social, a ordem invariavelmente
repetida da política conservantista norte-americana em seus mais
altos escalões. O partido republicano ou a mídia que o apoiava e
com ele se identificava, a mídia escrita ou eletrônica como negócio
de homens poderosos, milionários. Eliminar os adversários, promover
e proteger os amigos.
Os
adversários eram, portanto, o mais frequentemente, os políticos em
campanha pelo Partido Democrático. Mas quando, por um motivo de
circunstância, não era esse o alvo, nunca deixava de ser o
qualquer-um acusado de “comunismo”. O mais frequentemente era o
candidato adversário do Partido Republicano. Mas nem sempre. A
propaganda anticomunista de Kennedy foi bastante eficaz, esse era um
item infalível da retórica política, contra o “comunismo”
sempre se arranjavam correligionários. Assim devemos lembrar que foi
o partido democrata de Kennedy quem deflagrou o golpe ditatorial
militar no Brasil, em 1964, expressamente programado para derrubar o
honesto e democrático governo João Goulart – conforme o que
iremos demonstrar à frente (Livro 2).
O
pragmatista Richard Rorty documentou a unidade anticomunista da
própria esquerda norte-americana nessa época. Creio ser oportuno
lembrar que o pragmatismo no Brasil foi a doutrina oficial do DIP
(departamento de imprensa e propaganda) da ditadura Vargas, o assim
designado Estado Novo que tinha, porém, inclinação fascista. Ch.
Reich, em The Greening of America, de fato considera a época
precedente aos sixties como demasiado integracionista naquele país,
sem muita consciência da subjetividade.
A
retórica anticomunista foi não apenas o ítem infalível do ataque
ao adversário, mas a senha do imperialismo norte-americano que até
aí, o pós-guerras, comentaristas como Cl. Julien afirmam que havia
sido brando, quase involuntário da perspectiva do Executivo. Na
verdade, algo típico de um setor de extrema-direita, minoritário em
princípios de século. Como vimos na história do jornalista Hearst,
insuflando a guerra contra a Espanha, apenas para aumentar suas
tiragens, e manobrando tão bem a opinião pública que ela, e não
qualquer político ou o presidente, passou a exigir a guerra. A qual
foi risível – não havia praticamente oposição viável aos
combatentes norte-americanos, com o resultado tendo sido a penetração
dos USA nas até então possessões neocoloniais espanholas na
América Latina. Mas, após as duas guerras, estava em marcha a
guerra afro-asiática pela libertação, e os USA se tornaram os
artífices da ordem que agora está vigente, com domínio sobre o
terceiro mundo. A parte importante dessa história está interligada
à escalada do poder das assim designadas, sociologicamente,
“comunicações em massa”. Não feita pelas massas, não “de
massas”, mas para elas, por uma das elites mais poderosas do mundo.
Quando
Buff e Norman Chandler se tornaram os patrocinadores (“spounsors”)
de Nixon, isto foi resultado das atividades de Kyle Palmer, quando
ainda gozava de prestígio e permanecia o “kingmaker” da
Califórnia. Ele vendeu Nixon aos Chandler, iniciando a “conexão”
Nixon-Times. A ocasião foi propícia. Nixon, apresentado aos
Chandler como o vencedor da campanha contra Voorhis, o candidato
democrata praticamente destruído pela falsa história plantada pelo
Times, de Voorhis como líder de um ala vermelha radical do
Partido Democrático. O Partido não representou problemas a Voorhis,
a falsidade da história era notória, porém, o público acreditou,
ao menos, num Voorhis diferente dos democratas mais confiáveis, mais
radical do que eles.
Como
um vencedor, o primeiro encontro de Nixon com Buff e Norman no
edifício do Times, em 1946, não resultou, porém, numa
amizade real. Buff não simpatizou com Nixon, que não devia ainda
assim ser descartado, e, bem pelo contrário, estava solidamente
amparado como instrumento político do poder dos Chandler.
A
mãe de Nixon estava presente, e, à indagação de Buff sobre o que
desejavam beber, ordenou leite, ao que o filho ecoou. Mas subindo aos
aposentos privados dos Chandler, Nixon solicitou um Bourbom a Buff,
escondido da mãe. O que não causou boa impressão. Buff considerou
impertinente que um homem adulto devesse esconder a bebida de sua
mãe. Em todo caso, o incidente não desfez a conexão. Conforme
Halbestam, Buff “não deixou que isso interferisse no modo do
patrocínio do Times a Richard Nixon. Os Nixon, antes de tudo, eram
políticos, pessoas para serem usadas, não para serem amadas. Eles o
usariam, ele os usaria. Não precisavam ser amigos” (p. 364).
O
que realmente interferiu? Anos mais tarde, a derrota de Nixon na
campanha contra Kennedy. As circunstâncias militaram contra Nixon,
porque na ocasião os Chandler estavam envolvidos ao máximo na sua
deliberação de se tornarem o marco dos novos tempos. Contribuiu
para isso um movimento social ultradireitista, designado “John
Birtch Society”, cuja estratégia havia sido inundar as redações
dos jornais com cartas panfletárias, usando termos violentamente
injuriosos contra tudo que se relacionava aos novos tempos e às
mudanças sociais recentes. A propósito, a John Birtch Society é
reportada na literatura de ficção norte-americana como responsável
por cooptação corrupta do atendimento em hospitais e por
intervenção de sabotagem séria nas instituições educacionais –
há referência contundente em O Zen e a Arte da Manutenção de
Motocicletas; uma investigação sobre valores, de Robert M.
Pirsig (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984). Halberstam não relaciona
diretamente à Birtch porém, o episódio por ele narrado, em que
Buff salva a vida de Otis, que havia sido acidentado, ao recusar o
diagnóstico de um hospital e levá-lo a outro, onde de fato
constataram que o rapaz podia ser curado, e, assim, empregaram os
aparelhos necessários.
A
“Sociedade” Birtch estava bastante estruturada, e o círculo
exterior da família Chandler, a parte contrária a Buff,
profundamente envolvida. Norman fez o papel do cavalheiro das boas
novas, investindo contra os birtches na Califórnia, mas isso
repercutiria melhor se ele se tornasse do mesmo modo partidário de
Kennedy.
A
campanha de Kennedy é uma história à parte na exposição de
Halberstam. Não só pelo uso da mídia, que, entretanto, tornou-a
fenômeno nacional: “as multidões eram incríveis, enormes,
intensa, obviamente sexuais...”, resultado “da intrusão da
televisão na vida política” (p. 419). Mas, também, pelo uso das
técnicas estatísticas de Lou Harris, que informavam Kennedy quais
cidades eram pivôs da campanha – assim Virgínia Ocidental foi
decisiva, pois, conforme as informações de Harris, concentrara a
mais séria oposição a Kennedy, porém, algo que ele poderia e
deveria confrontar diretamente, a saber, o problema do seu
catolicismo. Kennedy pôde então cortar os argumentos principais
explorados contra ele, salientando amplamente pela televisão o seu
compromisso de separar igreja e Estado.
Unir-se
ao ímpeto das multidões e apoiar Kennedy seria, pois, a opção
mais condizente com os objetivos dos Chandler. Porém, eles não
estavam preparados para uma ruptura tão abrupta. O que é
compreensível, uma vez que a reserva de Nixon para a campanha
presidencial havia sido arquitetada muito antes por Kyle Palmer, num
negócio bastante sujo, com que colaborara decisivamente Buff
Chandler.
Nixon
não foi um vice-presidente de que Eisenhower gostasse. A rivalidade
deste contra Nixon revelou-se persistente, e moveu pessoas como Frank
Staton a uma permanente suspeita anti-nixoniana. Kyle Palmer devia,
pois, ainda nessa época, e para proteger a carreira de Nixon,
afastar da rota do poder aqueles que futuramente poderiam ser seus
antagonistas. Isso mudou o destino do governo da Califórnia. Goody
Knight, o governador, detinha sem dúvida popularidade suficiente
para reeleger-se, mas Kyle Palmer não o desejava, prevendo que se
Knight se tornasse tão poderoso, dividiria o partido na decisão
sobre a campanha para a presidência.
Palmer,
unilateralmente, decidiu que Bill Knowland deveria concorrer para
governador, e Knight para o senado, como uma estratégia
Nixon-Palmer.
Convencer
Goody Knight foi a parte suja do negócio, uma vez que ele já estava
certo de ter o número de votos necessário para vencer largamente o
pleito governamental. Palmer atuou por meio do tráfico de
influências, de modo que todas as fontes de patrocínio da campanha
de Goody Knight, por parte dos contribuintes milionários do Partido
Republicano, foram cortadas. A cada vez que Knight reorganizava as
forças, e contatava pessoas que pensava poderem obter fundos,
recebia um telefonema de Kyle Palmer informando de uma fonte
retirada.
Goody
não tinha muito o que dizer, a palavra de ordem estava do outro lado
da linha, com Palmer: “quando o telefonema acabava o governador da
Califórnia estava abatido; ele deitava no sofá na posição fetal,
uma pessoa alquebrada” (p. 374).
Buff
Chandler, então, completava a operação. Após outros, como
Ahmandson, que deviam parecer mais gentis na denegação de fundos
para a campanha, tudo bem orquestrado, era agora ela em pessoa, do
mais alto escalão, e, portanto, não habitualmente uma
interlocutora, quem telefonava.
Quão
maravilhoso seria, para Goody e Virginia, sua mulher, mudar para
Washington. E o quanto o Times já havia feito por eles, no passado…
O
resultado dessa orquestração foi porém desastroso para o partido.
Tanto Knowland quanto Goody Knight perderam. Pat Brown tornara-se o
segundo democrata governador da Califórnia, êxito que ele iria
repetir logo depois, contra o próprio Nixon.
Halberstam
nota que concorrer para governador da Califórnia não foi algo que
Nixon particularmente quisera. A campanha não foi bem conduzida. Mas
nesse ínterim, a cisão dos Chandler com Palmer já havia ocorrido,
e do mesmo modo a enorme decepção pela vitória de Kennedy. Buff,
especialmente, sentiu-se, na noite da eleição, pessoalmente
atingida. Como Nixon
podia ter feito isso com eles?
O
apoio do Times foi brutalmente denegado na campanha de Nixon
contra Pat Brown. Esses acontecimentos sem dúvida vão se refletir
na maneira como Nixon tratou a imprensa ao vencer contra todas
as expectativas, as eleições presidenciais, em 68. Não teria ele
motivos para se mostrar ressentido?
Mas
nesse ponto devíamos também conceder atenção a como a história
das relações Nixon/imprensa foi contada pela ótica da “testemunha
do poder” nixoniano, John Erlichman - ele mesmo agente de imprensa
da Casa Branca, na qualidade de responsável pelos assuntos internos.
III)
Marianne Means
Ehrlichman
não parece preocupado em justificar as assumidas sabotagens contra
os democratas. Os números dos telefones para quem Pat Brown
deveria ligar conclamando a colaborar no corpo a corpo eleitoral,
aquelas linhas que a equipe de Nixon ocupou como vimos acima, foram
obtidos pela equipe com um empregado da companhia telefônica. Assim
também, o lixo do escritório do oponente de Nixon para governador
da Califórnia havia sido regularmente coletado por um amigo de
Chotiner, colaborador da equipe de Nixon, de modo que Ehrlichman
tinha acesso à agenda de Brown pelo exame dos rascunhos que este
jogava no lixo salvo depois pelos lixeiros.
A
família de Nixon, grande, tumultuosa, sempre reclamando de sua pouca
atenção, especialmente um irmão problemático que tinha acentuada
tendência para aproveitar-se da ligação com o presidente para
obter acesso fácil a canais de crédito destinados contudo a
negócios não muito lícitos, é assunto de um capítulo
interessante de Ehrlichman sobre como o Serviço Secreto do governo
norte-americano atuou na vida privada dessas pessoas.
A
família foi habilmente produzida para encontros formais, que se não
satisfizeram a ninguém, criaram uma imagem de harmonia bem
irredutível à distância e conflito potencial que existiam na
realidade.
Os
embaraços que o irmão criou para Richard Nixon tornaram-se caso de
apuração, mentiras desse irmão foram descobertas ainda que ele
pensasse estar sendo convincente, negócios duvidosos dele ou
ligações embaraçosas para o presidente foram afinal francamente
proibidos pelo Serviço Secreto.
Nada
disso transpira como algo que Ehrlichman pense ser necessário
justificar, não há uma palavra sobre o sentido dos atos, tudo é
apresentado como decorrência natural da máxima da política de
Maquiavel pela qual os fins justificam os meios. Eram os
objetivos da administração Nixon o que importava, a tomada do poder
pela equipe, o sentimento de estar fazendo o que devia ser feito.
Independente de perspectivas pessoais, azeitar as engrenagens da
máquina racional-burocrática, apenas permitir que funcionasse
sozinha.
Também
não há uma palavra de Ehrlichman no sentido de justificar a
perpetuação da guerra do Vietnã, a dominação sobre o terceiro
mundo. E o que ele pôde dizer de positivo a propósito do FBI
limitou-se ao apoio deste à posição antipopular do governo Nixon,
como repressor dos “black panthers” - mas recusando ocupar-se do
crime organizado e negócio de drogas - conforme a ligação do
governo com o diretor do FBI, Edgar J. Hoover, então com 74 anos.
Ligação
cuidadosamente planejada por Haldeman, de modo a evitar o acesso
direto de Hoover a Nixon, mas por outro lado fazer com que o FBI
tivesse um canal privilegiado de acesso ao staff por meio de
Ehrlichman. Hoover e Nixon mantinham, não obstante, relações
amistosas, como exemplifica o jantar que Ehrlichman relata, na
suntuosa casa de Hoover.
Como
advogado, homem de letras, crente da “ciência cristã”,
Ehrlichman esconde mal sua característica reserva frente ao aparato
do poder policial. Sua perspectiva ao visitar Hoover na sede do FBI,
ao inverso do que é habitual ao longo do livro, concentra-se na
aparência: o corte de cabelo, o modo de vestir e se calçar, dos
rapazes do saguão.
Hoover
ocupa o centro, a sólida escrivaninha, numa sala cuja aparência
semelha a Ehrlichman uma fortaleza. Erhlichman fica um tanto aquém
de Hoover, que domina os fatos com profissionalismo. Ehrlichman não
consegue mascarar sua incapacidade para entender os meandros do
discurso e atos de Hoover. Ou talvez Ehrlichman tenha deliberadamente
criado uma imagem de candura e de inocência, a juventude bem
intencionada, pura ainda que ingênua, frente aos planos rebuscados
dos mais velhos, comprometidos com o que a boa consciência poderia
recusar. Porém Ehrlichman não enfrenta a questão Vietnã.
Inversamente,
como se estivesse amparando a sua posição de vítima injustiçada,
acredita que o FBI não tencionou de fato apoiar o presidente. Ele
positivamente crê numa história sobre a amizade de Hoover com o
sogro de Daniel Ellsberg, o que explicaria o fato deste ter podido se
apoderar do documento secreto no Pentágono, um estudo requisitado
por Macnamara a propósito do verdadeiro estado de coisas no Vietnã.
As
coisas se tornam algo engraçadas, depois, com Hoover exemplificando
as famosas hesitações de Nixon quando se tratava de demitir alguém
importante, que houvesse obtido relações pessoais com ele. Uma vez
tendo havido o jantar, e contra todas as expectativas, mais uma vez
Nixon não consegue demitir Hoover, ainda que isso houvesse sido
planejado. Haldeman admoesta Ehrlichman, ansioso por saber se a
demissão acontecera: “Não pergunte. Ele [Nixon] não quer
falar sobre isso. Não pergunte”. E Ehrlichman é instruído
para não dizer nada a ninguém sobre as ligações Hoover-Nixon (p.
145).
Afinal
Ehrlichman consegue completar a produção da imagem do FBI de Hoover
como uma instituição à beira da total incompetência. Hoover
comunicou diretamente a Nixon o que havia sido uma denúncia sobre
ligações homossexuais entre Ehrlichman, Haldeman e D. Chapin. A
história era completamente falsa, mas houve muitas investigações,
e os envolvidos tiveram que provar onde estavam nas ocasiões em que,
segundo a denúncia, participavam conjuntamente de orgias.
Ehrlichman comenta ter Murray Chotiner descoberto que a história havia sido “reportada” por um agente de Jack Anderson, agente que fazia a ligação da periferia com a imprensa de Washington.
Ehrlichman comenta ter Murray Chotiner descoberto que a história havia sido “reportada” por um agente de Jack Anderson, agente que fazia a ligação da periferia com a imprensa de Washington.
Mas
o capítulo da imprensa é uma exceção na sequência de capítulos
característicos como esse, sequência destinada a corroborar, ao
longo do livro, a versão de Ehrlichman como um anjo de candura. Ou
talvez um homem perplexo devido à injustiça sofrida, em todo caso
sempre podendo parecer algo desajustado para os outros, apenas por
não ter a capacidade de prever a crueldade deles.
A
imprensa não podia ser tratada de um modo automático. Do outro lado
estava a interpretação, estreitamente interligada ao ânimo, à
disposição das pessoas envolvidas, não apenas o direcionamento
pré-estabelecido do “negócio”. O episódio envolvendo a
jornalista Marianne Means tornou-se proverbial. Ehrlichman nunca se
livrou, depois, de indagações a propósito. Ele parece convencido
de que mostrou o lado verdadeiro dos fatos, e que todas as suas
repetições posteriores apenas melhor o corroboram. Porém o leitor
tem o direito de questionar a certeza em torno de que Ehrlichman
constrói a sua perspectiva.
Ele
começa por justificar o seu “direito absoluto” (“absolute
right”, p. 253) - assim como o da CBS em designar quem quisesse
para a Casa Branca - de ter sua própria opinião a propósito da
competência da pessoa escolhida. Porém Ehrlichman não compreende o
alcance do pronunciamento endereçado, além da mera escolha pessoal.
Pode
ser que a peça tenha sido montada. Que não tenha sido por acaso que
Dick Salant, o presidente da CBS, tenha aparecido durante o almoço
de Ehrlichman com John Hart, no Plaza de Nova York em abril de 1971.
Tendo Ehrlichman viajado de Washington na noite anterior, o que cria
a versão de um Ehrlichman sonolento, algo atordoado, participando do
programa de entrevistas de Hart na CBS, algo tão cansativo que o
almoço ocorre em meio à gravação do programa. Salant, ao se unir
a ambos no restaurante, introduz uma questão difícil, e Ehrlichman
não percebe estar sendo apanhado na rede.
A
questão é sobre Dan Rather, um remarcado crítico da política
interna de Nixon na imprensa - nesse ponto, Ehrlichman se expressa em
termos de ser Rather um crítico de “nossas iniciativas em
assuntos internos” (“our domestic-policy initiatives”, p. 250,
o grifo é meu). Uma forma de expressar sua identificação com o
governo Nixon como um todo, o que Ehrlichman nem sempre mantem, bem
inversamente, muitas vezes se colocando como uma peça adjacente num
esquema não inteiramente dominável.
Ora,
Salant quisera saber a opinião de Ehrlichman a propósito do pessoal
da CBS que ele escolhera para cobrir a Casa Branca. A resposta de
Ehrlichman foi que Don Rather, especificamente, era um preguiçoso,
“lazy”, ou um mal intencionado, “biased”, ou seja, alguém
“tendencioso”, com um viés já predisposto. A resposta viera tão
ligeiro porque segundo Ehrlichman pelo menos uma versão totalmente
errada de fatos relativos à política de Nixon estava circulando na
imprensa, e, pior, ninguém tinha se dado ao trabalho de checar a
história com o pessoal do Staff.
Em
Junho, Marianne Means, que Ehrlichman apresenta como “uma
colunista política de Washington” (“a sindycated
Whashington political columnist, p. 251), reportou,
“erroneamente” segundo ele, o seguinte. O “principal
assistente de política-interna de Nixon” teria visitado
Salant na CBS, para solicitar que este demitisse o veterano
correspondente da TV na Casa Branca, porque “o presidente não
gostara do modo como ele estava reportando as notícias”.
O
“principal assistente de Nixon”, Ehrlichman, transcreve em
seguida vários desmentidos que tiveram lugar na imprensa: O Times, o
Post, e o próprio Star em que Marianne colaborava, publicaram notas
dizendo que ele não havia solicitado a demissão de Rather.
Porém à época do escândalo de Watergate a história da solicitada
demissão de Rather retornou na imprensa, focalizando a versão do
próprio Rather, como alguém preterido e eventualmente visado para
exclusão pelo staff de Nixon.
A
repetição da mesma questão por jornalistas sempre que se
aproximavam de Ehrlichman, então em evidência como testemunha nos
inquéritos e processos de Watergate, querendo saber se era verdade
que ele tinha pedido a demissão de Dan Rather, tornou-se frequente.
Ehrlichman repetia sempre a história inteira. O que não bastava
para formar uma opinião consolidada a propósito.
Para
o assistente do presidente, o caso é exemplar da hostilidade ou
má-vontade da imprensa.
A
meu ver, realmente não há como separar a acusação de ser mal
intencionado ou preguiçoso, feita para um empregador, da intenção
de que este demita o empregado. Tanto mais que se tratava de uma
acusação visando o modo como se devia continuar procedendo na
cobertura de nada menos que a Casa Branca. Eis o ponto que
Ehrlichman jamais apreende. Para ele o episódio devia seu
significado inteiramente a uma opinião pessoal. Porém segundo ele é
fato que suas palavras não foram literalmente um pedido de que
Rather fosse demitido.
Um
outro episódio envolvendo a falta de tato na interpretação alheia
ocorre na exposição de Ehrlichman, quando o governo Nixon reclama
que os repórteres faziam perguntas infantis. A imprensa publica que
para o governo Nixon, os jornalistas são infantis. Nada menos exato
para Ehrlichman. A seu ver o governo jamais disse que os jornalistas
são infantis, ao afirmar que as perguntas deles são infantis.
Ehrlichman
não esconde revelações, porém, quando se trata do planejamento do
Staff a propósito da imprensa. A filosofia do governo se expressava
num slogan, “a imprensa é hostil” ( “the press is hostile”
), o que se explica porque Nixon havia logrado, por sobre a cabeça
da mídia, alcançar diretamente o público. “A imprensa é hostil,
e nós vamos continuar indo por sobre suas cabeças até o público”
( “The press is hostile, and we’ll continue to go over their
heads to the public”), a palavra de Nixon para Ron Ziegler.
(p.246)
De
que resultou um estudo de Herb Klein e Ron Ziegler intitulado
“Aqueles com quem podemos contar”, uma lista curta; e um
outro intitulado “Aqueles com quem não podemos contar”, de
duas páginas e meia. Eram nomes de jornalistas.
Richard
Valeriane da NBC estava listado como “inamistoso”, tendendo à
negatividade, devendo ser forçado ao positivo; Bob Pierpoint, da
CBS, rotulado como “neutro”, porém demasiado emotivo; Cliff
Evans, “amistoso”, um bom guia para questões importantes, porém,
“deploravelmente com pouca audiência”. Bill Gill era “pouco
inteligente”, e como Frank Reynolds, não muito confiável,
mas por vezes aproveitáveis. O pior era Sander Vancour: “você o
conhece...” (p. 247). Arrolado como o mais “vingativo”. Vancour
havia sido amigo pessoal de Kennedy.
A
intenção da presente pesquisa corresponde ao desenvolvimento da
questão: o que implica tal atitude, além da constatação óbvia de
uma crise institucional? Havia realmente um plano do governo Nixon
para controle total da informação, que incluiria domínio sobre a
mídia mas também sobre as organizações políticas? Como “uma
campanha de alto escalão visando sabotagem e espionagem num grau
aparentemente inédito na história da América”, como anunciou
Cronkite no primeiro documentário da CBS, de quatorze minutos, sobre
Watergate?
E
de que modo podemos situar a ação da própria mídia, se existiu
algo que pode ser unificado nesse sentido, como, inversamente, o que
o governo Nixon estava confrontando, independente de Watergate?
Ehrlichman,
após os anos de prisão, continuou por algum tempo “on parole”,
sob vigilância oficial. O responsável por ele ficou sendo Norman
Mugleston. Ehrlichman logo se empregou na Mutual Broadcasting System,
que o convidou para uma série de pronunciamentos no rádio
objetivando atrair o máximo da atenção da imprensa, em 1978.
Mugleston o chamou, porém, uma vez, para prestar esclarecimentos.
Ele parecia bastante preocupado acerca da mais recente conferência
de Ehrlichman à imprensa, e perante um Ehrlichman perplexo, para
quem, ao contrário do que Mugleston dizia, não havia ocorrido nada
de polêmico, explicou que a Parole Comission estava decidindo se a
permissão para viajar envolvia permissão para conduta que poderia
levar a processos legais. Dan Rather reclamara de Ehrlichman à
Parole Comission de Washington, acusando-o de circular falsas
acusações contra ele.
Erhlichman
realmente havia se pronunciado sobre Rather, mas devido às perguntas
que a imprensa não parava de lhe fazer sobre isso, ele mantendo que
não havia solicitado demissão de Rather a Salant, e até relatando
que um dos repórteres afinal lhe disseram que era da CBS Televisão,
e que tendo trabalhado para Rather por anos, realmente o considerava
preguiçoso.
Ainda
assim, a questão para Mugleston era se o pronunciamento podia ou não
ser considerado contencioso, uma vez que a Comissão - e o chefe de
Mugleton - deviam responder à reclamação de Rather. Ehrlichman
reagiu energicamente, indagando a Mugleton se isso significava
calá-lo coercitivamente, subtraindo sua liberdade de expressão.
Mugleton garantiu não estar pretendendo injuriar Ehrlichman, mas
também assim considerava não ser o caso do próprio Rather.
O
inquério da Parole Comission não prosseguiu, devido à veemência
de Ehrlichman, declarando a Mugleton, como sua resposta à Comissão
ou a Rather, que não iria mudar sua conduta a não ser que seu
advogado ordenasse de outro modo.
Ehrlichman
relata ainda que um ano depois encontrou-se com Tom Brokaw, o
concorrente, da NBC, de Rather da CBS. Brokaw contou a Ehrlichman que
havia sido convidado para o lugar de Rather na CBS. Ehrlichman
reflete assim que seu pronunciamento a Salant, em 1971, pode ter
salvo o emprego de Rather por todos aqueles anos, uma vez que a CBS
talvez não o tivesse demitido então apenas para não ser acusada de
estar agindo sob o impacto da crítica da Casa Branca.
IV)
Missy Chandler
A
esposa de Otis, filho de Buff e Norman Chandler, Missy Chandler, o
esperado ponto de mutação, o marco a partir de que o Los Angeles
Times devia resplandecer como o signo do novo.
Porém
Mrs. Otis Chandler não se tornou a filha querida de Buff, esta a
artífice da transformação histórica. Halberstam a apresenta como
alguém “de quem Buff não gostava” (p. 377).
Buff
havia se tornado neurótica a propósito de qualquer dúvida sobre
seu status de mais importante dama da cidade de Los Angeles. Não
poderia alguém atrever-se a não convidá-la para um jantar
considerado importante, e ao convidá-la era imperioso fazê-la
sentar no lugar principal. Assim, ficaria furiosa se, por engano, um
colunista social reportasse que num jantar em homenagem a Ronald
Reagan, Missy Chandler sentara-se ao lado do governador, não, a
reportagem teria que ser corrigida, havia sido a Sra.
Norman Chandler quem se sentara ao lado do governador. (p. 375,
376)
A
essa altura, Buff estava sendo chamada pelos amigos a “Rainha
Vitória”, enquanto os menos sinceramente afetuosos, como uma irmã
de Norman já obrigada a tratá-la cortesmente, a designava “Senhora
Rainha”. Missy confidenciava aos amigos ter compreendido, desde que
Otis a escolhera por esposa, que não haveria alternativa, iria ser
uma vida com pouquíssima liberdade de opção pessoal, devotada às
obrigações familiares há muito prescritas. (p. 410) Na verdade,
como responsável pelos negocios da família, Ottis nem mesmo podia
escolher o candidato que o jornal apoiaria nas eleições, mas apenas
seguir a orientação consolidada. Ele não pensava em Nixon senão
como uma opção dos pais, não de si mesmo, e havia pessoalmente
simpatizado com Hubert Humphrey. Por temperamento, Otis criara uma
espécie de vácuo político em torno de si, inversamente à
tendência dirigista do avô e do pai, mas, mesmo assim, Missy chamou
sua atenção para a necessidade de decisão a propósito, e ele
declarou seu apoio a Nixon, em 1968, mais uma vez cedendo à
obrigação inerente à responsabilidade do cargo na condução do
Times.
Como
casal, Otis e Missy passaram a ser convidados para ocasiões sociais
importantes, em lugar dos pais, quando Buff já estava com idade
considerável, mas a princípio a elite do jornalismo preferia tratar
de negócios com Norman e Buff, mesmo com Otis já encarregado do
jornal, porque não se sentia à vontade com ele e Missy,
considerados ainda muito jovens.
Os
pais ditaram praticamente toda a carreira de Otis como publicista
(“Publisher”, o termo inglês na acepção de “proprietário de
jornal” diferente do sentido histórico na língua portuguesa como
meramente alguém que publica artigos escritos por si mesmo). Ele não
fez realmente suas próprias escolhas além do parâmetro puramente
administrativo.
Se
existiram crises, elas foram sempre devidas a ocasiões em que o
Times refletiu alguma opção política dele mesmo, coerente com o
que ele sentia ou pensava sobre si como pessoa e como cidadão, isso
significando que todas as opções divergentes foram depois
revogadas, o jornal voltando ao Partido Republicano, e,
consequentemente, entre 67 e 73, a Nixon.
Mesmo
o que se poderia considerar algo como uma linha puramente
administrativa, ela foi constantemente posta em cheque quando
refletisse na contratação de um bom profissional. Como Frank
McCulloch, que viera do Time magazine, ou o humorista Conrad.
A
contratação imediata de Frank Haven, conservador representando a
perspectiva tradicionalista californiana, anulou a iniciativa de Otis
em “lestizar” o jornal a partir de McCulloch, e mesmo assim algum
tempo depois McCulloch retornou ao Time magazine de New York,
traumatizado com o período no Times dos Chandlers em Los Angeles.
Conrad foi útil a Buff e Otis numa crise, quando eles haviam apoiado
um candidato minoritário na convenção do Partido. Mas
progressivamente, à medida que a impossibilidade de romper com o
partido Republicano precipitou a volta do patrocínio a Nixon,
consolidou-se como estorvo no jornal. Sendo porém demasiado
importante, Conrad não foi mandado embora, e sim reservadas as suas
charges para a seção expressamente dedicada à palavra dos outros,
destoante da linha do jornal.
Ainda
assim, parece-me afirmável que Halberstam acreditou na trajetória
linear do antigo ao novo. Otis era o ideal-tipo dos anos
sessenta, tão profunda, tão óbvia e dicotomicamente oponível aos
tempos do passado. Otis se sentia, se via a si mesmo, como o jovem
dos sixties alinhado numa tríade: “o negro, o jovem, o pobre”.
Ainda que seus atos não o pudessem refletir, ainda que ele não
fosse precisamente nenhuma dessas três coisas, ele era tudo
isso, para si mesmo.
Desde
os anos oitenta, e como algo que hoje podemos designar “pós-moderno”,
não temos razões para crer que a tríade seja algo real, que algum
bloco unívoco da condição marginalizada possa ser composto como
algo além de mera fantasia, mascarando os fatos e impossibilitando
conhece-los, ou que a mera designação de ser jovem pudesse
compatibilizar-se com a marginalidade da situação do pobre e
do negro mesmo quando o ativismo estava no auge e muitos jovens
tenham participado.
Halberstam
crê portanto numa falácia convenientemente explorada pela mídia
até hoje, mas hoje à contrapelo da pós-modernidade, ao escrever
sobre Frank Haven como “um homem cujos costumes e atitudes
sócio-culturais, humanas assim como jornalísticas, haviam sido
formadas em outro tempo.” (p. 557). Inversamente a uma visão
limitada a acontecimentos cobertos até 1979, estamos conscientizados
sobre que Watergate não significou o fim do domínio
imperialista, que forçosamente havia jovens alinhados em ambos os
lados do espectro político.
Obama
protagonizou decisões liberais em matéria de direitos civis, como a
liberação do uso da maconha e o casamento homossexual, porém o
imperialismo continua mais feroz do que nunca, pois nunca houve uma
dominação direta sobre a escrita e a consciência como a que está
se impondo com a microsoft, num país como o nosso: num quadro
político de tamanho conservantismo, tão interligado à
desnacionalização total da economia que os fatos chegam ao absurdo.
O imperialismo da microsoft, como monopolismo info-midiático contra
a privacidade e o letramento, no Brasil foi consolidado
principalmente na época do governo Obama e do “pt”.
Como
hoje podemos avaliar, a trajetória linear da “modernização” ao
longo do século XX e culminando nos sixties, de que Halberstam não
parece seriamente suspeitar de modo que Otis e o Los Angeles Times
seriam exemplares, era uma fantasia em si mesma. Não apenas por um
fator de circunstância, a fortuna dos Chandler impelindo a
decisões conservantistas, o que poderia apenas exemplificar a
clássica tese marxista dos capitalistas cegos, rumando tenazmente
para a própria destruição. O capitalismo, “dialeticamente”
ponte para o novo, criando o novo, porém obstáculo, necessariamente
devendo vir a ser ultrapassado pelo novo.
Os
acontecimentos, dos anos oitenta até hoje, sinalizam para algo mais
do que circunstância, e ao invés de uma reta nós vemos um círculo.
Ao invés da racionalidade da empresa capitalista, que como em Marx
supera suprimindo a irracionalidade colonialista, o banditismo
imperialista que apenas o reedita. De fato, Halberstam não
inter-relaciona o que ele destaca como as atrocidades do Vietnã, com
um planejamento cuidadoso dos USA como “complexo militar
industrial” direcionado para a dominação do terceiro mundo, o que
é algo objetivamente demonstrado, especialmente de Eisenhower em
diante, em Cl. Julien (“L’empire americaine”).
Ele
vê as atrocidades no Vietnã como algo sem sentido, assim como supõe
que foram recebidas pelo público as imagens dos soldados
norte-americanos pondo fogo em aldeias civis - imagens cuja
transmissão custaram caro à CBS, e assim como para algumas das
crises no Times, não refletem o espírito dos proprietários, mas
intervenções forçadas de profissionais de mercado que haviam se
tornado irrecusáveis. O que agora não vemos, porém, como uma
lógica implacável da modernização linear, ínsita ao mercado, e
sim como algo que foi plenamente dominado subsequentemente pela
administração ligada ao espírito dos pioneiros proprietários.
Independente
dos acontecimentos, a contradição não-dialética era contudo
manifesta. Algo atuando poderosamente num presente histórico,
determinando os fatos, mas sendo invariavelmente etiquetada como o
outro tempo, o passado, o que não tinha vigência atual.
O
que impossibilitava que pessoas do mais alto nível intelectual, como
David Halberstam, a compreendessem, de modo que eles mesmos caíam
nela? A meu ver o mito do progresso, como o mito da razão, responde
adequadamente, sendo porém esse mito o da trajetória do Ocidente
colonialista.
Oponentes
do “pós-modernismo” como Eagleton, o odeiam porque precisamente
ele é a recusa desse discurso da razão moderno-ocidental, assim
como de toda totalização identitária indemonstrável na realidade,
vista agora como algo não racional, mero mito, contudo construído
por meios próprios, modernos, até a mídia ela mesma - e só ela
mesma desde os anos oitenta, uma vez que além de intelectuais cegos
como Jameson e Egleton, cegos tanto para os acontecimentos quanto
para as mudanças no plano dos conhecimentos
histórico-antropológicos, ninguém continua acreditando.
Mas
tais oponentes nem mesmo conseguiram identificar o que estão assim
tão sensacionalisticamente recriminando, e definiram
“pós-modernismo” por teorias que do mesmo modo o recusavam, como
o pós-estruturalismo, ou o definem por artistas dos sixties
como Andy Warhol, que na verdade são “pop”, não necessariamente
assumidos como “pós”. Não significa que teóricos como Linda
Hutcheon, que recusam a arte dos sixties como pós-moderna, mas
aceitam o pós-estruturalismo francês como tal, permaneçam
referenciais consoantes com a atualidade, uma vez que o
pós-modernismo para Hutcheon é um fenômeno apenas da “cultura
ocidental”.
Examinando
a ação ilegal no Irã, do general Norman Shwartzkopf, agente da CIA
na época de Eisenhower quando o diretor da Cia era Allen Dulles,
vemos como o Saturday Evening Post construiu o mito: “A deposição
de Mossadegh foi feita pelos iranianos eles mesmos”. A citação é
de Julien (p. 408). Porém, como Julien cobriu, foi a ação de
Schwartzkopf que deliberadamente produziu o que o Saturday Evening
Post apresentou como um cortejo grotesco de saltimbancos iranianos
que atraiu uma multidão. Ajuntamento engrossado logo depois pelas
forças armadas, leais ao Xá, para investir “conforme a estratégia
e a logística de estilo americano” contra os grupos leais a
Mossadegh, derrubando-os e capturando o próprio Mossadegh após nove
horas de conflito. Eisenhawer, cujas memórias são utilizadas por
Julien, não estava inocente nessa história. Mosssadegh, então o
primeiro ministro iraniano, foi um dos políticos mais votados da
história.
De
fato, o conflito foi desencadeado porque Mossadegh, apoiado em
referendo popular por quase a unanimidade dos iranianos, havia
nacionalizado o petróleo, expulsando a companhia inglesa que
monopolizava o negócio local. Porém essa companhia estava unida aos
interesses do Xá, que solicitou ajuda aos USA.
Eisenhower
apoiou o plano estadunidense pelo qual o petróleo iraniano seria
novamente desnacionalizado, mas desta vez não para monopólio
inglês, e sim para monopólio da ARAMCO, grupo de multinacionais
petroleiras norte-americanas que não obstante concederiam
porcentagem de exploração aos ingleses, assim como à Royal Dutch
Shell e à Companhia Francesa de Petróleo. Fundos milionários
fornecidos pela ARAMCO foram distribuídos pela CIA aos adversários
de Mossadegh, de modo que alguns iranianos se tornaram ricos da noite
para o dia, enquanto Mossadegh perdia partidários pelo mesmo motivo
do suborno. A CIA instalou, consoante indicação do Xá, Zahedi como
primeiro-ministro após a deposição de Mossadegh. Zahedi era
conhecido de Schwartzkopf dos tempos da segunda guerra. Quem era
Zahedi?
Fitzroy
Mac Lean é quem o registrou em suas memórias, tendo sido Mac Lean
encarregado de o prender como traidor dos “aliados” na segunda
guerra.
Ardashir
Zahedi, conhecido por negociatas, atuara como líder de duas tribos
iranianas (Kachgais e Bakthtiares), que tinham posição regional
estratégica, porém pró-nazistas. Ao articular um levante nazista
na então Pérsia contra os aliados, Zahedi se tornou alvo da
operação de Mac Lean, agente dos aliados, que logrou prendê-lo. Na
casa de Zahedi, foram apreendidas armas alemãs, ópio, arquivos de
prostitutas de Ispahan, outros documentos importantes.
Norman
Shwartzkopf sabia disso indubitavelmente, pois ele estava no Irã na
época da guerra: “A CIA sabia pois perfeitamente com quem
estava lidando”, escreve Julien (p. 411). Zahedi havia sido
nomeado ilegalmente pelo Xá para substituir Mossadegh, na ocasião
em que este nacionalizou o petróleo iraniano, em 1953. Mossadegh
encarcerou Zahedi, não aceitando a imposição ilegal, o que
desencadeou a ação da CIA com anuência de Eisenhower.
Um
nazista que havia sido inimigo dos aliados, foi, portanto, instalado
pelos USA como governante de um país do terceiro mundo após
a segunda guerra mundial. As ditaduras militares que se seguiram
durante os sixties na América Latina, do mesmo modo articuladas pela
CIA, foram tão sangrentas, operaram por meios de tortura e
eliminação tão bárbaros durante duas décadas, atingindo tão
grande número de pessoas que se pode arrolar genocídio, como o
regime de Zahedi no Irã.
Mas
o que permitiria supor o artigo do Saturday Evening Post? Que são os
próprios não-ocidentais os arcaicos. Os manuais de história não
registram a operação da CIA. Na citação de Julien, o Monde
escreveu, sobre o Sul de Teerã, de onde partiu o grupelho armado
pela CIA: “O sul de Teerã é formado por uma favela aflitiva. A
metade da população se comprime lá, em dédalos de casebres
pútridos onde reinam como barões a miséria, a doença, a droga e o
vício” (p. 407). O Monde cobriu as duas versões dos
acontecimentos. A multidão compareceu, “prova que a revolução
é obra do povo, proclamam os partidários do regime. Erro profundo,
ripostam os fiéis de Mossadegh”. Estes argumentando que é de
favelados miserabilizados assim que se tiram os mercenários “de
todos os tempos”- opinião obviamente irredutível a preconceito.
E
por que os direitos civis seriam algo novo, ao invés daquilo que
associamos o mais intimamente com a humanidade? Ao contrário do que
Eagleton ainda pretendeu afirmar, não há uma dicotomia, entre a
barbárie primitiva e o civilizado sujeito da evolução social, de
modo que o ocidente é imperialista mas com a dominação traz o
direito constituído. O ocidente é o agente da barbárie local
contra a organização da democracia representativa local, e
teóricos políticos ingleses o sabem desde o século XIX,
argumentando que o gentleman inglês só está protegido de ser um
bárbaro enquanto não é nomeado para administrar colônias.
Ao
invés da tese ocidentalista, nossos conhecimentos atuais permitem
afirmar que há processos históricos localizados, e não uma
história universal da civilização, alguns desses processos
protagonizando a democracia, bem mais antiga do que a Grécia. O
império também não é alguma novidade, o capitalismo, portanto,
muito menos, mas os impérios não são a verdade da história, os
processos localizados permitem observar que neles também há
conflito social, as pessoas prejudicadas em seus direitos não são
passivas apenas porque não leram Karl Marx.
A
contradição que Halberstam roça, mas nunca de fato esclarece,
Daniel Ellsberg denunciava tendo por alvo toda a incorporação
militar-industrial norte-americana. Em entrevista a Paulo Francis na
seleção de artigos já citada, Ellsberg declinou da pecha de
pessimista, afirmando-se apenas conhecedor da realidade. Reconheceu
que a opinião anti-guerra contribuiu para a derrota dos USA no
Vietnã, porém, a seu ver, se os liberais impediram assim que Nixon
transformasse os USA numa ditadura, “tudo isso é admirável até
que se pense na lerdeza em reagir, os milhões de vietnamitas e
milhares de americanos mortos e feridos numa guerra inteiramente
desnecessária, ou a tentativa de Gerald Ford e de Henry Kissinger de
repetir em Angola a experiência do Vietnã, porque, tendo a
conivência dos liberais, conseguiram convencer a opinião pública
de que o Vietnã era uma guerra pessoal de Kennedy, Johnson e Nixon,
e Watergate, criação diabólica exclusiva de Nixon” (op.
cit. p. 111).
Ellsberg
conta as bênçãos da contribuição liberal e das massas onde elas
foram anti-guerra ou desmontaram dispositivos de dominação nos USA,
porém crê ser muito pouco, pois o apoio norte-america em Angola,
apoiando o colonialismo português, se não teve as mesmas
consequências, foi de fato arquitetado como uma repetição do
Vietnã. Por que Ellsberg menospreza tanto a minoração das
consequências, devido aos vetos do Congresso, não obstante
sublinhar que os USA foram pró-aparheid sul-africano? Creio
que devido justamente ao que ele observou como necessidade de romper
o consenso progressista.
Sua
declaração em manchete, destacada por Francis, ecoa: “São
todos iguais: Carter, Ford e Reagan. Para eles, Vietnã e Watergate
não existiram”. Ele poderia também ter citado Kennedy, não
só pela invasão da Baía dos Porcos. Conforme Dreifuss (“1964:
poder e golpe de classe”), que cobriu o planejamento do golpe
militar no Brasil por ação secreta semelhante à do Irã, as ações
se iniciaram aqui três anos antes do golpe, o que implica o governo
Kennedy, não só o sucessor, Lyndon Johnson, presidente em 1964.
Ellsberg
como gênio, integrara a Rand Corporation, think tank que ele
desertou depois, denunciando-a a Francis: “cuja função é
planejar o método de controle tecnocrático do mundo para o império
americano” (p. 112).
Ellsberg
permite confrontar intelectuais como Richard Rorty. Se houve uma
geração que acreditou nos USA como paladino anti-estalinista, e em
Stalin como o horror ditatorial, seria impossível continuar se
justificando por acreditar nisso a ponto de apoiar o senador Joseph
Mcarthy na perseguição “anticomunista”, ou após o que se
conhece sobre o imperialismo.
Especialmente
sobre Jimmy Carter, o candidato do partido democrata pelos direitos
humanos, Ellsberg considerava: “A campanha dele, se não se
tratasse de algo tão sério, mereceria um lugar entre as comédias
de televisão” (p. 112). Ellsberg invectiva. Carter propagava
nada ter a ver com o Vietnã, e o povo tinha a consciência absolvida
ao votar nele. Porém o povo apoiou a guerra até 1968, e depois
reelegeu Nixon em 1972, porque ele prometera paz com honra: “Que
honra, santo Deus? Que honra pode haver em termos devastado metade da
Indochina, tornando-a impraticável para a agricultura, em termos
assassinado milhões, prostituído mulheres em benefício de nossos
soldados, em termos sustentado uma fileira de ditadores sangrentos,
traficantes de drogas e cafetões?”
A
questão nesse meu estudo, não é fazer coro à criminalização da
droga, porém mostrar que é aos USA que muito se deve a legislação
desastrosa que cria bolsões de banditismo onde não há muita
esperança para tantos que integram as suas fileiras. Especialmente
no final dos anos noventa, a política dos USA foi de terrorismo
contra o usuário de drogas no Brasil, muito dirigido pela mídia. O
resultado que ainda hoje é calamitoso, foi o mega-favelamento com
banditismo generalizado, à beira de guerra civil sem ideologia
política. No final dos anos noventa, a dita campanha, que aliás foi
muito relacionada ao mito do capital italiano como redentor do
incivilizado brasileiro, representa uma linguagem de mídia tão
escandalosamente fascista como a que seria adequada para amparar o
neoliberalismo econômico que então se implementava com o governo
FHC. Além de ter propagado por toda parte, até nos cadernos à
venda nas papelarias, a mensagem “drogas nem morto”, sob uma mão
cortada por uma linha vermelha, havia propagandas nojentas como a do
rosto de um menino, mostrado parado o tempo todo, enquanto se ouvia
um som igualmente constante de descarga de banheiro sendo acionada, e
a “história” das repetências escolares dele assim como do seu
uso de maconha - narrada por uma voz de homem profundamente
cavernosa, estereótipo do padre de igreja medieval.
Mas
assim como a propaganda golpista da CIA em 1964, da modernização
tecnoburocrática, logo resultou na realidade de um passadismo
latifundiário coerente com os interesses do imperialismo no
monopólio do mercado consumidor, essa propaganda de generosamente
pagas intervenções contra as drogas resultou no contrário. A
instalação do poder paralelo do ilegalismo na cidade, que perdura
até agora.
De
fato muita gente concordava com Ellsberg já nos anos oitenta. O
governo Carter terminou na crise iraniana. Os aiatolás, líderes
religiosos, fizeram a revolução que acabou com o regime de
dominação imperialista no Irã, sem restaurar a democracia
representativa, e inversamente inaugurando o retorno de regimes do
fundamentalismo religioso típicos da era ante-moderna. Reagan, logo
depois, se tornou presidente, implementando o neoliberalismo
econômico, desmantelando o Estado de bem-estar social. A presidência
Regan significou sinal verde para carteis multinacionais - e a
radicalização da dominação sobre o terceiro mundo tem resultado
numa paranoia neofascista mundial.
“The
Powers that be” mostra Reagan sendo apoiado em 1966 pelo Los
Angeles Times, porém não pela preferência de Buff e Noman, apenas
por lealdade aos republicanos. Que Reagan não era figura importante
ao ver de Halberstam se nota por ter este registrado que Otis, aquela
altura, podia não atender chamadas de Nancy Reagan reclamando das
alfinetadas de Conrad na figura do marido - tantas ligações
interrompendo o café da manhã que Otis afinal se recusava a ouvir.
Ainda assim, foi por isso que Con ficou reservado à “op-ed page”.
Após um editorial assinado por Otis com uma nota informando que
somente
o seu editorial refletia a política do jornal (p. 783).
Missy
não se tornou uma personagem decisiva, nem mesmo Otis, numa
trajetória linear em que haveria sentido no conceito de transição,
e Buff sendo a protagonista da transição. O círculo do poder se
expressa até mesmo na escolha dos nomes de família, Otis, o bisneto, mesmo nome de Otis, o bisavô, Norman, pai de Otis o bisneto, mesmo
nome do trineto Norman, filho de Otis. Porém Halbestam, que continua uma
fonte importante na história da mídia do século XX, não
está de todo errado quanto ao sentido de mudanças no interior da
dinastia Chandler. Se o exame dessa trajetória não pode ser
ignorado, contudo, é porque ela explica a construção de um império
financeiro, não só porque Buff e Norman, afinal, quiseram
ser agentes de uma mutação.
Realmente,
sob as ordens de Buff e Norman o Los Angeles Times alterou a política
habitual desde Palmer, que consistia em não conceder qualquer
cobertura ao candidato oposto ao escolhido pelo jornal, especialmente
em ocasiões de campanha eleitoral. Além, naturalmente, das
histórias falsas, calúnias e estigmatização da imagem do inimigo,
por meio de artigos ou demais recursos da mídia.
A
carreira de Nixon, segundo Halberstam, se iniciou justamente porque
Palmer, à cabeça de um grupo californiano que vendia propaganda de
jovens candidatos ao congresso, viu nele o candidato ideal para o
tipo de propaganda que tencionava circular (p. 360/1).
Há
uma controvérsia a propósito de se Nixon foi primeiro escolhido
pelo grupo, que o levou a Palmer, ou se foi Palmer quem primeiro
escolheu Nixon, de modo que o grupo era mero reflexo de Palmer. Para
Halberstam, provavelmente a segunda opção é o caso. Em todo caso
Jerry Voorhis foi a vítima, como potencial adversário de Nixon no
congresso, mas principalmente como congressista não colocado por
Palmer - uma vez que a campanha de Palmer contra ele começou em
1946, pouco antes da vinda de Nixon. “A campanha foi
cuidadosamente orquestrada, e não havia dúvida entre os que estavam
em Washington que sabiam como funcionava a política de cobertura do
Los Angeles Times, sobre quem a estava patrocinando” (p. 362).
Como Voorhis logo compreendeu, não havia como protestar contra os
constantes ataques do Times. “Os ataques podiam ser impressos,
mas nenhuma resposta podia ser dada. O Times simplesmente dominava o
distrito”. Buff e Norman não prosseguiram essa política.
Kennedy teve cobertura assim como Nixon (p. 402), Pat Brown foi o
primeiro democrata coberto pelos repórteres do Times, e com igual
tempo que o candidato republicano (p. 385).
Porém
o prévio esquema do poder do kingmaker só pôde existir à época
de Palmer devido ao poderio do capital ligado ao Times, o qual havia
sido obtido de modos bastante desonestos ou ao menos de modo algum
altruístas ou sequer equitativos. Com relação a isso, Halberstam
permite supor que Buff e Norman não foram deliberadamente rapaces,
não há registro de abusos flagrantes além das manobras que
envolveram a tomada da direção.
O
episódio da Birtch society que vimos acima, quando um grupo de
conservantistas passou a inundar as redações com cartas violentas
contra toda medida nova corrente na época, então associada à
“conspiração da tirania comunista” como o próprio Otis
Chandler afirmou ainda que não para apoiar um radicalismo que se
voltava contra pessoas como Roosevelt (p. 417), foi um reflexo tanto
do esquema que havia antes, quanto do ressentimento do ramo preterido
da família.
Philip
Chambler tinha cinquenta e um anos, a mesma idade de Harry Truman
quando pela primeira vez se tornou senador. Mas por causa da idade,
Philip foi habilmente afastado por Norman, seu irmão mais velho, da
direção da empresa, argumentando este que Otis Chandler tinha na
época trinta e dois anos, e assim devia ser considerado
adequadamente jovem para o pesado encargo de administração dos
negócios e do jornal.
Philip
teria dado continuidade ao modo de operar de Kyle Palmer e Harry
Chandler, e se opunha à mudança nesse sentido. Assim como a esposa,
Alberta, ele foi organizador da Birtch, e Norman obteve satisfação
pessoal na reação contra a iniciativa, apoiando o editorial
condenatório assinado por Otis. Porém a reação foi o cancelamento
de 15.000 assinaturas, não apenas o esperado da oposição como um
número aproximado a trinta assinaturas. O Times assumia, porém, o
editorial, e a reação a ele eram o marco do novo e a estreia de
Otis, a evidência da ruptura relativamente aos slogans brutais do
passado, “que haviam sido Stand Fast. Stand Firm. Stand Sure.
Stand True”, a ruptura para com “a filosofia suja”
que os predecessores “haviam seguido até morrer”, e o
editorial de Otis era “um sinal da vinda de um jornal novo e
diferente.” (p. 418)
Porém,
tamanha reação foi também um sinal para Otis de que era
preciso ser prudente, consciente das pressões herdadas do passado,
contra as quais o pai o havia protegido. Uma percepção que se
repetiu depois, quando Buff interpretara a opção, a seu ver odiosa,
de Goldwater ao invés de Nelson Rockefeller, como candidato pelo
partido republicano. Na ocasião Buff arrependeu-se de não ter sido
muito mais tendenciosa no apoio do Times a Rockefeller, e sua ira
eclodiu como reação a algo que ela sentiu não apenas devido a
Rockefeller, mas como “triunfo dos bárbaros”, aquelas
pessoas mesmas, “the Califórnia know -nothing right”, que
contra ela lutariam a vida inteira, a parte preterida da dinastia. Ao
contrário de Norman, cuja decisão havia sido apenas apoiar a
escolha do partido.
Buff
violou nessa ocasião toda a estrutura do Times, sustando o editorial
que festejava a convenção, substituindo-o por um libelo que ela
escreveu como uma áspera crítica contra o partido, fazendo com que
os empregados encarregados quase não acreditassem nas ordens
recebidas. Conrad foi utilizado, segundo Halberstam produzindo uma de
suas melhores charges, um cartoon da convenção dos Republicanos
mostrando os participantes como internos de um asilo. A dinastia se
amotinou, numa das mais séries crises da história dos Chandler.
Contudo não obtiveram a evogação da liderança de Otis. Mas
não há dúvida de que o episódio o atingira, como consciência das
pressões que o pai até então mantivera à distância, consciência
dos limites da liberdade de que gozava. Com esses limites, Otis
descobrira que “nada era sem preço - e quanto melhor a coisa,
mais alto o preço.” (p. 555).
Na
verdade, não foi Norman, e sim Buff, quem arquitetara a posse de
Otis, contra do mesmo modo que qualquer direito do tio, a vigência
plena das forças do próprio Norman, então já estabilizado na
direção dos negócios. Buff não perdeu tempo, não permitindo que
Norman continuasse, pressionando para que ele instalasse Otis, e
segundo Halberstam pode ser que ela tenha raciocinado que se a
sucessão fosse feita enquanto Norman era ainda vigoroso, este podia
caucioná-la contra possíveis reações da família. Em todo caso,
ela pressionou fortemente. Norman não estava a princípio
disposto a ceder, mas gradualmente ela o convencera. Porém não para
conceder real liberdade ao filho, o novo administrador. Ela, mais do
que Norman ainda que agindo sempre à sombra deste, concentrou a
verdadeira decisão em suas mãos, não permitindo que Otis agisse
sozinho.
Ainda
na ativa, Kyle Palmer chegou a indagar a ela, diretamente, se iria
cercear sua liberdade de expressão, se ele devia submeter-se à
aprovação dela. Buff
Chandler respondeu que não: “você
escreve como quiser” (you write it just the way you want”)
(p. 174). Palmer
não causou muito transtorno à política de ruptura de Buff,
estratégica à sua própria reação contra o horrível boicote que
sofrera inicialmente por parte da dinastia. Uma vez que Kyle Palmer
logo contraíra leucemia, nem tendo sido de fato assistido pelo
jornal, tornando-se nos últimos tempos dependente de um amigo.
A
política da época anterior não foi selvagem apenas quanto ao lema
de destruição total do inimigo a partir da linha editorial e
seleção do que mostrar e do que omitir. Foi também uma escalada do
poder, entre o patriarca Otis e Harry Chandler, respectivamente o
fundador da dinastia e seu genro.
Otis
era um homem colérico, que agia sob o impulso do ódio, visando
inimigos que eram, muitas vezes, não limitados aos pobres
trabalhadores das “labour unions” ou aos membros do partido
democrata, que ele tanto perseguia e pessoalmente detestava, mas
outros barões do capital como ele mesmo, os concorrentes.
Harry,
inversamente, protagonizou a cartelização dos negócios, a
cooptação dos concorrentes: “havia uma fatia para todos, todos
os que importavam. A marca-registrada de um negócio de Harry
Chandler era uma clique de alguns dos mais poderosos homens
ricos...”, barões de terras ou negociantes, milionários
ligados aos maiores bancos, um advogado, um político, um juiz,
alguns escrivães e uns poucos menos abastados, “abaixo na
escada” social(p. 163). Lembrando que uma “clique’ é termo
sociológico para uma gang dentro da sociedade realmente estabelecida
- assim a própria Birtch, anos mais tarde, é o sintoma de uma
clique, não uma “sociedade” real, independente do nome.
Há
muitos negócios de Harry Chandler, a quem a história da cidade de
Los Angeles está intimamente relacionada, investimentos em terras,
óleo, navegação, pecuária, construção, pneus de borracha. Ele
criou novas seções na cidade, como Hollywood, ajudando a trazer o
cinema para a Califórnia, o qual desde esse início foi utilizado
para fins de dirigismo político.
De fato, dado que como vimos o Los Angeles Times a essa altura não era uma instituição do partido, era o próprio partido, o Times nomeava os candidatos, e o dirigente do partido nada tinha a ver com isso. Assim, porém, o Times garantia a barbárie contra o inimigo e a eleição do escolhido.
De fato, dado que como vimos o Los Angeles Times a essa altura não era uma instituição do partido, era o próprio partido, o Times nomeava os candidatos, e o dirigente do partido nada tinha a ver com isso. Assim, porém, o Times garantia a barbárie contra o inimigo e a eleição do escolhido.
O
movimento radical de Upton Sinclair contra o republicano Frank
Merrian foi totalmente abortado a partir de Hollywood, então
utilizado por Kyle Palmer como veículo de propaganda (p. 168).
Em
todos os cinemas da cidade houve séries de falsos documentários,
incessantemente mostrados, objetivando derrotar Sinclair por ser
socialista. Não eram apresentados como propaganda política, mas
como se fossem informação real. Num deles, uma multidão de
mendigos esperava na divisa do Estado da Califórnia para inundar o
outro lado, como uma onda, caso Sinclair fosse eleito. Havia aquele
em que uma dona de casa, de meia-idade, dizia estar votando em
Merrian. O entrevistador lhe perguntava por que. Ela respondia que
era para conservar sua pequena casa, o seu único bem neste mundo. E
um russo folclórico, com uma longa barba, vestido de modo
marcadamente estrangeiro, inversamente, informando que iria votar em
Sinclair. “Por que”? Ao que o russo esponde com forte sotaque: “
bfem, o sistema dele voncionou bfem na Roosia, pórqui não
voncionaria bfem aqui?”
Harry
Chandler também participou da ida da indústria da aviação para a
California, arregimentando o capital necessário. Com os amigos,
impediu projetos de ampliação satisfatória dos transportes
públicos, devido aos seus interesses na indústria automobilística,
na venda de carros, gasolina e pneus. Para beneficiar-se enormemente
num negócio envolvendo compra e venda de terras, impediu, graças a
esses amigos, dois projetos civis, um visando a irrigação de Los
Angeles a partir de uma cidade próxima, o outro que desenvolveria
essa cidadezinha devido a ser possuidora de água. Maurice Dobb (“A
evolução do capitalismo”) registrou que a prática do capitalismo
sórdido, constando de todo tipo de negócio sujo e perseguição de
pessoas, foi típica dos Estados Unidos na época do gangsterismo. O
caráter absurdo da ilegalidade com que se marginaliza o comércio de
drogas, ao contrário do comércio do álcool, se pode notar por uma
comparação com a “lei seca” dessa época, ridicularizada por
todos os norte-americanos dotados de senso.
Conforme
dados confiáveis obtidos pelos críticos norte-americanos da lei
seca, assim como da época de maior corrupção e paranoia
conservadora estadunidense, o número de agentes de polícia
economicamente sustentáveis empregados na vigilância da lei seca,
somava 1520 em 1920, e 2. 836 em 1930. É um número que pode ser
graficamente representado pela superposição dos agentes numa linha
costa a costa do inteiro Estados Unidos. Assim posicionados, haveria
um único homem patrulhando uma porção de espaço tão grande como
doze milhas - uma milha equivale a mil seiscentos e nove metros. O
salário de um agente policisal estava orçando entre trinta a
quarenta ou cinquenta dólares por semana, de modo que ninguém podia
crer, exceto como em um contos de fadas, que um agente ganhando um
salário assim iria se preocupar demasiado com a vigilância sobre o
uso do álcool, e, sobretudo, que teria força de caráter para
recusar suborno. Qualquer pessoa fabricava bebida em casa, e o hábito
se multiplicou, pelo escárnio à proibição caduca.
Quanto
ao terrorismo voltado contra as uniões trabalhistas, é contudo algo
insólito o registro de Halberstam, uma vez que o movimento
socialista de Los Angeles abortou devido à ação de Harry apoiando
o sogro Otis, porém nessa circunstância decisiva, não por uma
falsa causa. O atentado a bomba que vitimou duas dezenas de
trabalhadores do Times em 1910, realmente foi obra dos acusados,
participantes do movimento trabalhista.Ainda que tivessem sido presos
ilegalmente, praticamente sequestrados no Meio Oeste para serem
levados a Los Angeles, foi comprovado que os dois homens acusados, os
irmãos J. J. e J. B.Mcnamara (nome não relacionado ao funcionário
do pentágono) foram os autores do atentado.
Quando
Otis Chandler encontrava-se no auge da cólera, pronto para
satisfazer os instintos de vingança através da condenação à
morte pleiteada no tribunal, Harry Chandler interveio. Ele estava de
posse de informações precisas a propósito da opinião pública, e
todos os trabalhadores afiliados a uniões, assim como as pessoas
comuns, estavam convencidos da inocência dos acusados. Todos seguiam
a direção de Samuel Gompers, então líder da Federação Americana
do Trabalho, que declarara os acusados inocentes, num momento em que
tal inocência aparecia como o carro chefe da campanha de Job
Harriman, o candidato socialista, protagonizando a oposição ao
candidato do Times. Mas o processo havia atingido uma proporção
nacional, trazendo Los Angeles, que por tanto tempo vinha mantendo-a
à parte, à atenção da nação.
Seguindo
o conselho de Harry Chandler, o General Otis não prosseguiu até a
acusação no tribunal, ainda que lhe custasse muito controlar-se, e,
inversamente, Clemence Darrow, advogado liberal famoso pelo apoio aos
pobres e injustiçados, que havia sido encarregado do caso, frente às
evidências e desconhecendo as consequências, pleiteou a condenação
dos acusados na corte de justiça, mas com apenas pena de prisão,
esperando evitar a condenação capital. Ao contrário do que Darrow
pensava, a candidatura de Harriman, que estava no auge, declinou
imediatamente. O candidato socialista perdeu por trinta mil votos.
O
Times, nas mãos de Harry Chandler, não era apenas o jornal de uma
cidade em acelerado processo de crescimento, era o instrumento e a
arma de uma vasta ordem econômica em expansão. O jornal era a
extensão da tarefa política de silenciar os inimigos e indicar sem
dúvida à cidade quem eram os amigos, em quem se devia votar para
estar em boas relações com o poder dominante. Kyle Palmer
revelou-se o coadjuvante ideal, o funcionário perfeito para os
objetivos de Harry Chandler.
Porém
Norman Chandler, neto do general Otis, não era um homem de
inclinações políticas, e quando ele se encarregou dos negócios do
pai, o papel de Kyle não preservou a mesma utilidade. A
circunstância que resultou na cisão da família devido à vinda de
Buff, e o temperamento desta, contribuíram para a transformação da
linha de ação.
Porém,
quando Nixon afinal se tornou presidente em 1968, foram esquecidos
todos os percalços nas relações dele com o casal Buff e Norman
Chandler, os quais refletiram a ambiguidade dessa mudança, nunca de
fato podendo atingir a ruptura para com o próprio partido
Republicano.
O modo como Buff tratou Maggie Bellows, mulher de um dos melhores editores do Times, é revelador do grau dessa ambiguidade no plano social. Ela cobria o que chamamos de coluna social em Phenix, tendo vindo a Los Angeles por ocasião do convite de Nick Williams, um dos principais do Times, que estava prestes a se aposentar, Bellows sendo cogitado para a função. Porém a modernização que Maggie imprimira nas páginas sociais femininas do Times, abordando assuntos como aborto ou causas sociais e funções habituais dos grupos privilegiados, irritaram as ricas personagens californianas, “socialites” que logo reclamaram com Buff. Esta, ao invés de apoiar a causa da liberdade de expressão, permitiu que inúmeros erros começassem a aparecer na redação dos artigos publicados de Maggie, e, além disso, realmente a descompôs numa ocasião, na frente de muitas outras pessoas, com uma terrível e bruta invectiva verbal. Os Bellow nunca sucederam Nick Williams (p. 773).
O modo como Buff tratou Maggie Bellows, mulher de um dos melhores editores do Times, é revelador do grau dessa ambiguidade no plano social. Ela cobria o que chamamos de coluna social em Phenix, tendo vindo a Los Angeles por ocasião do convite de Nick Williams, um dos principais do Times, que estava prestes a se aposentar, Bellows sendo cogitado para a função. Porém a modernização que Maggie imprimira nas páginas sociais femininas do Times, abordando assuntos como aborto ou causas sociais e funções habituais dos grupos privilegiados, irritaram as ricas personagens californianas, “socialites” que logo reclamaram com Buff. Esta, ao invés de apoiar a causa da liberdade de expressão, permitiu que inúmeros erros começassem a aparecer na redação dos artigos publicados de Maggie, e, além disso, realmente a descompôs numa ocasião, na frente de muitas outras pessoas, com uma terrível e bruta invectiva verbal. Os Bellow nunca sucederam Nick Williams (p. 773).
Os
percalços nas relações dos Chandler com Nixon abrangiam até mesmo
o deliberado desconhecimento do casal por este, quando por acaso
encontravam-se num restaurante em Veneza, onde Nixon e Patrícia
também estavam. Nixon não os cumprimentou, mas, pelo contrário,
demorou-se na saudação a um outro casal, que depois confidenciou
aos Chandler que nem o conheciam direito. Nesse ínterim não havia
sido só alguns pendores liberais que moveram a oposição dos
Chandlers, após a tremenda hostilidade despertada pela derrota, na
eleição de Kennedy. Buff se sentira desgostosa quando, em 1967, num
jantar com Nixon, que havia sido combinado para novamente unir
patrocinadores e candidato, Pat Nixon, após a fala de todos em prol
da candidatura, tomou a palavra para protestar que, se Nixon não lhe
havia perguntado, ainda que o houvesse a todos os demais presentes,
em todo caso ela gostaria de declarar não estar satisfeita com a
candidatura, pois Nixon se tornara desde o início da década um
homem mais voltado ao lar, e agora estava novamente se envolvendo com
a carreira política. Como Buff lançara o prêmio “mulher do ano”,
e Pat era uma “mulher do ano”, Buff sentia-se contrariada por
vê-la tratada desse modo.
De
fato, Pat não devia se sentir muito à vontade na Casa Branca. Ela
havia sido injuriada por Mamie Eisenhower, quando era Eisenhower
presidente e Nixon o vice. Para a visita à América Latina, Pat
havia solicitado auxílio à profissional Mollie Parnies, estilista
que assistia as mulheres dos homens mais importantes de Washington na
escolha das roupas. Parnies mencionou a requisição de Pat Nixon a
Mamie , para quem Parnies sempre trabalhava. Mamie se mostrou
perplexa: “não, não, querida”, disse ela à senhorita Parnes:
“não faça isso. Deixe que a pobre coisa vá ao Garfinckel’s e
compre o que estiver na prateleira.” (p. 470)
Por
temperamento ou como reação instintiva ao que pudesse sentir de
rejeição por parte de Buff, Nixon não deixou ocasionamente de a
provocar, contando piada escatológica em um almoço em que ela era a
única mulher nuam equipe de homens, por circunstâncias de campanha.
Ela reagiu altivamente - se ele havia maliciosamente sugerido que
talvez não devesse ter contado, antes de positivamente o fazer mesmo
sem que o houvessem incentivado, assim que Nixon terminou ela
replicou: “você estava perfeitamente certo, não devia ter
contado”.
Não
obstante as reservas de Buff, o partido nomeou Nixon para 1968, e
quando ele venceu, telefonou a Norman, agradecendo a cobertura em Los
Angeles. Assim, na expressão de Halberstam, “era como se o Los
Angeles Times tivessem finalmente colocado o menino deles na Casa
Branca, ainda que não fosse o mesmo Los Angeles Times e a essa
altura ele já não fosse verdadeiramente um menino deles” (p.
564).
Para
Halberstam era nítida a cisão dentro do Times, os dois partidos que
para ele podiam ser rotulados como o velho e o novo, não haviam sido
simplesmente um caso de sucessão, mas coexistiam como duas partes
imiscíveis, o pessoal mais constante, os que tinham funções mais
burocráticas ou técnicas, nunca tendo de fato mudado. Aqueles que
lidavam mais de perto com Otis e Buff, ou os profissionais convidados
para renovar a linha do jornal, refletiam a orientação destes em
prol de rupturas assinaláveis mas não podiam ir até onde queriam,
e ou se adaptavam ou não permaneciam. As duas partes da companhia
estavam, além disso, nitidamente distintas entre a parte
conservadora que resistia na corporação dos negócios, e o jornal,
o Times onde Otis e Buff tentavam imprimir algum eco de contido
liberalismo.
Se
Otis, na época do escândalo de Watergate, estava ele mesmo
envolvido num processo de corrupção financeira, Halberstam não
deixa dúvida de que ele estava inocente, que havia agido de modo
inexperiente, por isso tendo sido prejudicado por um amigo. E um
outro processo também nessa época também não parece ser
comprometedor - ainda que estivesse pendente enquanto Halberstam
escrevia. Otis foi, porém, um alvo da hostilidade de Bob Haldeman,
ainda que não tanto do próprio Nixon, e ao que parece Haldeman fez
o que pode para prejudicar Otis na ocasião dos processos.
Como
vimos, agindo em comum acordo com Missy, os sentimentos ambivalentes
de Otis na ocasião das eleições penderam para evitar crises, e
inclinar-se à decisão do Partido Republicano. Ele nunca cultivou um
relacionamento pessoal com Nixon. Mas Otis e Missy eram convidados
regularmente aos jantares da Casa Branca - assim como antes o eram
Buff e Norman. Pode-se considerar que Otis manteve relações
convencionais com Nixon, ainda que não tenha se beneficiado
pessoalmente por isso, pelo contrário.
Otis
revela-se um homem honesto na cobertura de Halberstam, e “The
Powers that be” reporta até o momento em que ele é mostrado
instruindo o filho, Norman Chandler, na função de líder da
corporação dos negócios da família, e do Times.
V)
Katharine “Kay” Grahan
a)
da família ao casamento
O
contraste entre as histórias do Los Angeles Times e do Washington
Post é notável. Não há um rastro, uma nódoa do capitalismo sujo,
ainda que como coisa do passado, em se tratando do Post. Não
obstante cobrir algo da personalidade e ação de Meyer, o patriarca
do Washington Post, a história do jornal é interceptada por
Halberstam mais a partir do ponto em que o negócio milionário de
Meyer, qual o Post era parte, se torna administrado por Philip
Grahan. Um dos mais brilhantes e promissores jovens universitários,
como que talhado à perfeição para desposar a filha de Meyer, o
proprietário dos negócios e do jornal.
O
percurso de Meyer não é tão importante, a partir daí, mas não é
de todo comprometedor na cobertura do “The powers that be”. O
próprio Phil Grahan não é um conservantista republicano, é um
liberal que se relacionou intimamente com Kennedy, atuando contra os
movimentos racistas que pulularam desde os anos cinquenta reagindo
contra as leis anti-racistas que começavam a ser lançadas. Porém
Phil Grahan não durou muito na direção dos negócios ou do Post,
na qualidade de consorte de Katharine Meyer.
Ainda
na vigência de Phil como administrador, ele não se revelou menos um
homem de negócios competitivo, tornando o jornal monopolista na
informação em Washington, a partir da anexação por compra do
principal concorrente, perseguindo o objetivo, que realizou com a
ajuda do sogro, de formar um conglomerado de jornal e revista, rádios
e televisão. Ainda assim ele permaneceria, ao menos até certo
ponto, numa classificação liberal do ponto de vista político. Mas
os acontecimentos dramáticos que resultaram na loucura e suicídio
de Phil Graham conduziram à tomada da administração por Kay
Graham, que revelou-se muito mais afim à mentalidade conservadora.
A
trajetória política de Phil Grahan escreve uma página inquietante
nos anais das decisões presidenciais, entre Kennedy e Lyndon
Johnson, uma vez que nelas interferiu diretamente. Mas a
administração do Post por Kay Grahan reverte a impressão de que o
jornal tenha mantido uma linha liberal dentro da grande imprensa
estadunidense, ainda que, como por ironia, ela não tenha podido
evitar que seu jornal se tornasse o veículo dos “furos” no caso
Ellsberg e em Watergate - este pelo qual o jornal recebeu o prêmio
Pulitzer em 1973. O jornal, representado por Ben Bradlee, o editor de
Kay Grahan. Não Woodward e Bernstein, os repórteres que descobriram
e apresentaram o caso, na ocasião muito para desconforto de Kay.
b)
Phillip e Katharine Graham
A
história de Phil e Kay começa com as bênçãos do mundo
universitário. Phil havia sido um dos mais brilhantes alunos,
verdadeiro “star”, na “Harvard Law School”, numa época em
que esta era “a” faculdade de direito na América, atraindo os
jovens estudantes mais promissores e dotados.
Felix
Frankfurter reinava então como o mais influente mestre, com ligações
não apenas intelectuais, dominando os departamentos em Washington e
Cambridge, mas também ligações políticas, fazendo a ponte, em
Washington, entre a universidade e os eventos e atividades mais
importantes. A sua ascendência sobre os jovens universitários
criara um tipo de maçonaria, um sucedâneo da sociedade dos fabianos
na Inglaterra. Sua autoridade intelectual era única.
Phil
Grahan se tornou logo um “protegido” de Frankfurter. Na
universidade, foi escolhido para editar a Harvard Law Review, onde
atuou bastante talentosamente. Em 1939, Frankfurter foi nomeado para
a Suprema Corte, e Phil, já graduado, tornou-se secretário de
Frankfurter. Nessa altura ele já iniciara a corte a Kay Grahan. O
jovem casal era a menina dos olhos de Frankfurter, que sempre instava
com Phil que ele mantivesse Kay ao par dos assuntos do escritório:
“Phil, você contou a Kay o que Hughes disse na corte ontem? Ele
contou, Kay?... Ele não contou? Phil, você não sabe que Holmes
conta tudo à esposa?” (p. 245)
Contudo,
ao recusar assinar a decisão de deportar Harry Bridges, num caso
famoso, Phil rompera com a ordem de Frankfurter, o que fez Kay
sentir-se orgulhosa do marido. Phil mudou de emprego, indo de
assistente de advocacia de Frankfurter para uma função em que sua
principal responsabilidade era tornar a capacidade industrial
americana apta para atender ao que dela viria a requerer a Segunda
Guerra mundial. Ele era então radicalmente anti-Hitler, algo que
para ele tornara-se uma obsessão. A tarefa revelou-se porém
difícil, o governo lento na ação, a indústria ainda mais
hesitante.
Ainda
que na época da corte a Kay alguns tivessem aventado que ele estava
interessado na fortuna dos Meyer, a verdade segundo Halberstam é que
Phil vinha de uma família rica, ele não precisava disso, e dissera
à noiva que não estava interessado no dinheiro do pai dela, “nem
um centavo” (p. 243). Essa havia sido a segunda coisa que ele
lhe dissera quando foram apresentados e ele a fez sorrir, sentir-se
jovem e bonita. A primeira havia sido que ele iria se casar com ela.
Porém
na altura em que enfrentava o esforço colossal de reformar a
mentalidade da indústria americana, a aposentadoria de Meyer começou
a ser assunto ventilado na família. Phil se tornara um filho querido
dos Grahan, Eugene e Agnes, os pais de Katharine. Entre a filha e o
genro, eles preferiam a palavra deste último, ele tinha a
preferência em tudo. Um outro filho dos Meyer não revelara
inclinação para os negócios. Phil se tornou o publicista do Post,
realizando a profecia de que viveria à sombra do sogro milionário.
Pode
ser que ele tenha amado a função de chefe do Post e de grande
magnata, onde ele pôde conceder livre curso aos seus talentos de
político e de empresário, maiores do que os de editor. Pode ser que
o incômodo perante a ideia de ser a mera sombra do sogro tenha sido
obnubilado pela vastidão dos ganhos, a amplidão das perspectivas.
Mas sempre estivera lá, e no final foi o que pesou na balança.
Quando adoeceu gravemente dos nervos, Phil Grahan passou a expressar
sério ressentimento contra a família, o fato de serem judeus,
especialmente contra o sogro. Quando a crise era severa, deplorava
que seus próprios filhos e a esposa fossem uns “kikes” - o modo
como se chamava pejorativamente o judeu.
Meyer
havia sido um homem de negócios audacioso e severo. O Post dera
prejuízo por muito tempo antes que ele lograsse transformá-lo num
negócio lucrativo, obtendo o monopólio da informação em
Washington, como vimos. Costumava restringir salários e proventos,
argumentando que ele mesmo, quando necessário, continha seus gastos
- o que exemplificava porém com o sacrifício de adiar a compra de
alguns Rembrandts para a sua coleção. Agnes não era uma mãe judia
tradicional, era uma intelectual que se engajava em intermináveis
discussões com o genro.
Cissy
Paterson, do Herald, rival do Post, tentara lhe roubar
algumas de suas melhores tiras em quadrinhos, Dick Tracy, Winnie
Winkle, Andy Gump e Gasoline Alley. Meyer se informou com um
empregado sobre a importância dos quadrinhos, descobrindo que era
enorme. Então processou Cissy Paterson, que ficou tão acabrunhada
por perder no tribunal a ponto de mandar para ele, a título de
presente, uma caixinha decorada, mas com um bife dentro. Perplexo,
Meyer indagou à esposa o que poderia significar aquilo, e Agnes,
sempre muito marcada pelo anti-semitismo, respondera que o bife
representava um judeu sujo. Meyer ficou chocado. A imagem que fizera
até então da profissão de publicista não previa que fosse tão
contenciosa. Mais tarde, porém, Meyer comprou o Herald, após a
morte de Cissy Paterson.
À
cabeça dos negócios, Phil Grahan se mostrou ambicioso. O sogro
colaborou com sua ambição, comprando para ele aquilo que tanto
desejava - as rádios WTOP e Jackson, a televisão WTOP.
Há
uma história sobre Buff Chandler perguntando a Norman sobre por que
o amigo do casal, Lee Wasserman, sendo tão inteligente não era
nomeado para a CalTech, o famoso centro de tecnologia, e pelo que
Norman sabia, era devido a ser ele judeu, além de liberal Democrata.
Porém Norman, atendendo a Buff, durante um jantar informou ao
reticente Wasserman que ele poderia ser nomeado, ao que Wasserman
ripostara não estar disposto a enfrentar uma batalha, mas Norman lhe
dissera que não, não haveria nenhuma batalha, de fato sua nomeação
por voto unânime havia ocorrido naquela manhã (p. 387). Assim
também há uma história sobre Phil e Katharine Graham. Ela pedira
que ele lhe comprasse uma revista. Ele comprou a própria empresa
Newsweek.
As
mudanças que Phil Graham imprimiu no Post acarretaram a vitória
final deste sobre o Star, o concorrente principal que sempre
zombara do Post como jornal menor. O Star perdeu toda a
importância na cidade.
Enquanto
subia na carreira de homem de negócios, Phil se envolvia mais
profundamente com a política. O McCarthysmo, que ele odiava, foi o
pretexto da sua aproximação ao partido Republicano, vendo em “Ike”
Eisenhower uma esperança de deter McCarthy, ainda que depois se
revelasse uma esperança vã. Atuando ainda nesse sentido, Phil
contribuiu generosamente para as campanhas dos candidatos
republicanos que pudessem ser considerados centristas.
Para
alguns, especialmente californianos, Nixon era centrista, e Phil
refletia essa concepção. Há registro em Halberstam de uma
associação de Otis Chandler com Phil Graham, de modo que o Times
pudesse circular em Washington.
Porém
Phil não era racista, apoiando a causa dos direitos civis até o
ponto em que não roçasse a acusação de comunismo. Assim o Post se
tornou um jornal partidário, de modo óbvio politicamente envolvido.
Como
político, Phil era brilhante, sempre obtendo os objetivos, porém
contraditório. Ele mais freava do que impulsionava algumas das mais
audaciosas coberturas dos repórteres, agindo portanto como os
republicanos e conservadores. Porém sua atuação como íntimo de
Lyndon Johnson, cuja recomendação para compor como vice a chapa de
Kennedy foi obra de Phil, tornou-se frenética por ocasião da crise
de Little Rock, um motim contra a lei de inclusão racial nas
escolas. E como vimos, foi radicalmente contra o McCarthysmo. Duas
posições que o tornam mais tendente a liberal. Em todo caso, ele
era o poderoso homem de negócios, o kingmaker.
Quando
Allan Barth escreveu um editorial apoiando Earl Browder, o líder do
Partido Comunista Americano, que se recusara perante McCarthy a
revelar os nomes dos outros comunistas, Phil ficou furioso.
Ele
interpretou o editorial de Barth como uma adesão do jornal ao
comunismo, o que o editorial não era, limitando-se a uma defesa dos
direitos de Browder, Barth argumentando que “nem todos na
América testam a lealdade de um homem ao seu país pela sua
boa-vontade na traição dos antigos amigos” (p. 271). Ainda
assim, e ele mesmo contra McCarthy, só não despediu Barth devido à
intervenção de Frankfurter, amigo de ambos.
Phil
reagiu imediatamente, ainda que não despedindo Barth, escrevendo
críticas ao editorial, e publicando-as como comentário negativo a
propósito da bagunça que se poderia esperar caso comunistas
tomassem a liberdade de expressão, distorcendo-a, ou se insurgissem
contra a lei da cumplicidade. Porém, contra o senador Joe McCarthy,
em plena caça às bruxas, nacionalmente odiado àquela altura, Phil
aduzia que o valor do testemunho de exilados comunistas ou antigos
comunistas era nulo, podendo ser injurioso a pessoas de bom caráter.
A
crise de Little Rock, porém, foi um divisor de águas no aspecto da
sanidade mental. Phil nunca tinha revelado sinais da doença,
além de uma tendência para perder o controle com o álcool. O
episódio precedeu uma série de demonstrações do mesmo teor,
posteriores. Multidões de brancos se amotinaram em Little Rock,
1957, contra a aplicação da lei anti-segregacionista de Brown, que
permitia alunos negros se matricularem nas escolas públicas. A lei
era de três anos antes. Kyle Palmer havia se enfurecido contra a lei
de Brown, argumentado que Deus não queria que as raças se
misturassem, invectivando diretamente Brown, que na ocasião apenas o
abraçou, após a série de injúrias recebidas, dizendo que sempre
seria seu amigo.
Nessa
época Phil havia se tornado o homem de Lyndon Johnson, então líder
do senado (“Senate Majority Leader”). Phil havia tentado uma
aproximação real com Eisenhower, mas já se desiludira, “Ike”
era um homem do status quo, o que Phil não era, e a desilusão o
impulsionou para Lyndon, o jornal tornando-se claramente o veículo
de Lyndon. Quando a crise de Little Rock estourou, porque o próprio
governador do Arkansas, Orval Faubus, perante a ordem federal de
aplicar a lei relativamente a nove estudantes negros, negou-se a
acatá-la, incentivando a resistência local dos brancos, Phil se
envolveu intensamente como se fosse ele mesmo a autoridade que Lyndon
Johnson era.
Noite
e dia ao telefone, falando com todos os que podia contatar, Nixon,
Bill Rogers, inúmeros outros, os editores de Little Rock, repórteres
da Casa Branca, líderes do movimento negro, Phil chegou a idealizar
“Ike” entrando ele mesmo na escola, dando uma mão a um menino
branco, outra a um menino negro. A Casa Branca rejeitou a ideia, Phil
apresentou a variante, Ike entrando com uma criança, e ele, Phil,
com a outra.
Especialmente
tentando cooptar Nixon, ele era bom nessas coisas ao ver de Phil, e
se as pessoas ficavam um tanto surpresas pela conexão de Nixon com
uma causa anti-racista, Phil respondia que Nixon era melhor do que se
pensava, estava argumentando com Ike para fazer alguma coisa.
O que Ike finalmente fez, após muito mais esforço de Phil, foi
mudar da inércia total para o envio da 101’s Airborne, uma divisão
da artilharia do exército americano. A crise de Little Rock foi
sustada, mas a essa altura Phil Graham estava tendo um colapso.
Refugiou-se
em casa, numa profunda depressão, Kay sem saber ao certo como
trata-lo. Argumentando contra si mesmo, confidenciando a ela que
perdera a confiança, ridicularizando-a quando ela protestava que ele
era tão charmoso. E de fato ele era, Phil Graham era famoso por
tantalizar as pessoas, um homem incrivelmente bonito, expansivo,
habilidoso, comunicativo. Não, ele dizia, ele não era nada disso,
era um fracassado, devia aprender com as pessoas, não mais fingir
que tinha algo a ensinar a elas, não mais aceitar o jogo de que
podia manipulá-las à vontade.
A
crise passou, Phil voltou ao trabalho, mas o “problema x” foi
piorando. Phil estava maníaco pela política, a armação da chapa
Kennedy-Johnson coroou seu sonho de kingmaker, “seus amigos,
Kennedy e Johnson. Kennedy, Johnson e Phil”, expressa
Halberstam os sentimentos exaltados de Graham. (p. 443)
Com
a progressão da doença, a depressão se tornou cada vez pior, até
que transformou-se numa paranoia contra o sogro e a própria família,
sob o pretexto do anti-semitismo. Phil tornara-se religioso, cristão
fervoroso, esperando melhorar. Porém as ações tornavam-se sempre
mais frenéticas, descontroladas. Afinal envolveu-se com uma jovem
australiana do staff da Newsweek, Robin Webb. Ela passou a
acompanha-lo a todos os lugares, Phil tornando público que pretendia
divorciar-se e casar com Robin, porém não abrir mão da direção
do Post e da Newsweek.
A
nova atração não logrou deter o processo da desagregação mental.
Phil fez um escândalo numa convenção de jornalistas, a que
comparecera com Robin Webb, quando afastou o porta-voz do Star que
apresentava sua palestra, tomando a palavra para descompor a equipe
com uma série de injúrias e palavrões, aparentemente a equipe do
star mas de fato dirigindo-se a todos os presentes. Após o dramático
episódio, Phil foi internado num hospital psiquiátrico, iniciando
tratamento intensivo. Ao ser liberado de uma internação ele voltou
com Kay, e todos supunham que havia ocorrido a melhora, senão a
cura. No entanto, Phil Graham se suicidou subitamente, com um tiro,
num quarto ao lado daquele em que Kay se encontrava.
Segundo
a explicação médica, houve falha na avaliação da equipe
psiquiátrica, ele não devia ser liberado ainda, e a série dos
degraus que devia subir para a cura da síndrome maníaco-depressiva
foi bruscamente interrompida em algum ponto. Para alguns amigos, Phil
Graham se suicidou porque calculou exatamente o que lhe restava na
vida, mais nada, nenhuma carreira, ninguém voltaria a leva-lo a
sério. Não há registro em Halberstam de qualquer suspeita de que
não tenha sido suicídio.
c)
Mrs. Washington Post
Para
Katharine Graham, o tempo das terríveis humilhações decorrentes da
doença de Phil não foi de fato único. Todo o processo do casamento
fora insatisfatório, prolongando os problemas que ela havia tido
desde menina, com a mãe. Agnes não era uma mãe devotada, porém
especialmente não tinha carinho pela filha.
Sendo
a mais velha, tornou-se objeto privilegiado da ojeriza de Agnes pela
maternidade em si, sempre reclamando que o neném Kay parecia tão
feio, tão marcado pelos fórceps. Agnes não ensinara a filha a ser
bonita ou elegante. Ela incutira em Katharine o sentimento de ser
inferior, burra, inadequada. Certa vez, quando Kay perguntara o que a
mãe estava falando com Phil tão animadamente, ela respondera à
filha que não se intrometesse pois não poderia compreender,
tratava-se de uma discussão intelectual que eles estavam tendo.
Quando
Kay viajou para estudar, amigos tiveram que insistir para ela comprar
roupas, pois se limitava a duas blusas e eles fizeram ver que
chegavam a cheirar mal, por muito usadas. Ela não sabia pôr uma
mesa, servir ou receber. Também não sabendo se vestir, quando
casada Phil designara uma amiga para orientá-la, à “pobre Kay”.
Que no entanto, recebera um dia uma bronca da mãe por indagar o que
alguns hóspedes que Kay especialmente prezava, podiam fazer quando
viessem para se divertir. Como assim, reverberou a mãe, não via ela
que tinham a criação de cavalos de raça, e a mais elegante, a
maior das piscinas?
A
fortuna dos Graham era invejável, de fato enorme, porém Kay Graham
sentia-se como um patinho feio, uma outsider, terrivelmente
horrorizada a cada vez que o marido, um homem totalmente dedicado à
vida elegante da alta sociedade, lhe informava do próximo evento a
que compareceriam. Certa vez, para exemplificar do modo mais sucinto,
Kennedy estava presente, e por acaso Kay estava sentada numa
espreguiçadeira ao lado da qual Kennedy veio também sentar-se.
Ao
se conscientizar que estava ao lado do grande Kennedy, Kay ficou
chocada, seu rosto contraído como se sentisse uma dor aguda,
parecendo lançada ao mais terrível desespero. Nesse ponto seu olhar
encontrou o de Phil, que compreendeu imediatamente a situação dela,
e riu.
Assim
que se casaram, ele costumava perguntar aos amigos que convidava, se
eles sabiam qual era a primeira coisa que Kay fazia quando acordava,
e então lhes dizia que ela olhava o espelho e falava para si mesma o
quão feliz era ela por ter se casado com ele.
Não
havia espaço social, papel social, para Kay. Ninguém lhe dirigia a
palavra na sociedade que o casal frequentava, nas festas ou ocasiões
a que compareciam, a não ser, de vez em quando, para perguntar algo
sobre Phil, sobre o que ele estava fazendo ou planejando. Casada, ela
tinha sido reduzido à função de dona-de-casa, e ao longo do tempo,
na meia-idade, constatou que para essa função a sociedade não
concedia nenhum papel.
Quando
Phil se suicidou, ela se encarregou porém dos negócios, tornando-se
a publicista do Post. O pronunciamento de Kay na ocasião da posse,
constou de um primeiro agradecimento aos presentes por terem mantido
o jornal até então. Ao que se seguiu a informação dela de que o
Post sempre fora, e continuaria sendo, o negócio da família Meyer,
porém havendo agora a vinda de uma nova geração de jovens, e
portanto a família pretendia “tornar o jornal pronto para eles”.
Para
várias pessoas presentes, a declaração da posse soou como uma
demissão. A meu ver é notável como o momento exemplifica o quanto
o argumento da modernização era flexível, tendo se tornado de fato
instrumento para qualquer mudança de mãos do poder. Relativamente a
Phil, a administração de Kay Graham apertou o cerco, tornando-o
mais conservantista, mais autoritário.
Na
verdade, ao assumir a direção do Post, Kay interrogou alguns dos
mais respeitados profissionais do jornalismo, como Scotty Reston do
New York Times e Walter Lippman, então considerado intelectual
importante, colaborador do Post. Ambos reforçaram a sua própria
conclusão de que Phil havia sido bom amigo e bom empresário, mas
não um bom publicista, o Post a essa altura reduzira-se a um jornal
medíocre, o que lançava dúvida sobre a qualidade dos profissionais
com quem ela podia contar na qualidade de pessoal do Post. Kay
socorreu-se de Bem Bradlee, então na Newsweek, como o profissional
certo para o cargo de editor chefe.
O
Post se tornou um escritório regulado por normas rígidas, relativas
ao comportamento dos repórteres, proibindo que participassem de
outras atividades quando fossem julgadas prejudiciais ao trabalho,
que comessem ou bebessem quando estivessem na prefeitura, que
invadissem os seus concorrentes, o New York Times ou o Washington
Star, - esta uma regra auto-defensiva, já que o Post havia
retroagido para uma posição menor.
Quando
Bradlee tomou posse como editor, em 1965, chocou-se com a autoridade
remanescente de Russ Wiggins. Entre as primeiras tentativas de Kay
tomar as rédeas do jornal, e as de Bradlee atualizar a seção de
notícias, no vácuo criado pela morte de Philip, Wiggins cresceu
como a voz editorial dominante.
Ao
contrário de Bradlee, cuja intenção era sintonizar-se com tudo o
que pudesse tornar o jornal vendável, Wiggins visava apenas manter
uma linha explícita de orientação setorizada, privilegiando
leitores conservantistas, na oposição a todas as inovações
liberalizantes. Wiggins era racista, pró-Vietnã. Ainda assim Lyndon
Johnson logo se conscientizou de que Wiggins manteria o Post como seu
porta-voz, assim como logo o descobriram os conservadores da Casa
Branca.
A
atividade febril de Wiggins, atendendo a todos estes interesses
setorizados, dirigia-se numa linha de total oposição aos interesses
de Bradlee, mas o que precipitou um diagnóstico de cisão real foi o
fato de que a guerra do Vietnã se prolongou, o anúncio da vitória
conservantista não ocorria, e os colaboradores de Wiggins começaram
a duvidar do êxito de sua causa. Ele confrontou pela primeira vez as
resistências, a hostilidade. Wiggins mantinha a autoridade, porém,
e a Casa Branca despendia esforços para mantê-lo na linha
editorial. O que, na têmpera de um homem como Wiggins, não
significava um ataque ao ego, mas ao patriotismo. Todos, de Lyndon
Johnson a Marder, este um herói do anti-McCarthysmo no Post,
comentavam que o jornal encontrava-se dividido.
Gradualmente
Bradlee obteve espaço, lançando o lema da “tensão criativa”,
objetivando criar um clima de competição interna no Post, todo o
pessoal atuando, uns contra os outros, visando o centro das atenções.
A modernização visava sucesso de business, não o liberalismo,
ainda que cobrir o que pudesse atrair fosse a palavra de ordem. O
executivo do Post se tornou Harwood, escolhido por Bradlee por sua
habilidade em chutar o traseiro de quem devia ser expulso. O Post
renovou-se, à sombra do New York Times, porém, como seu modelo.
Os
limites da sociedade de Washington, assim como a força dessa
sociedade, mantinham o Post e seu editor, numa circunstância tal que
não se ultrapassava a sua falta de abertura, do mesmo modo que a do
editor. Aquilo de que careciam era velocidade, o que o Times tinha de
sobra por que não se limitava ao talento de uma ou duas pessoas, mas
o produto de uma grande equipe. Consideração bastante irônica, uma
vez que Watergate foi o furo do Post, à frente dos outros
noticiários.
Porém
cobrir Watergate não reflete a opção política do Post em qualquer
sentido anti-conservantista. Ainda que isso não significasse, àquela
altura, fidelidade à pessoa de Nixon.
d)
O som e a fúria
1)
Watergate na mídia
A
atuação de Kay Graham como publicista tem nela mesma uma referência
confiável. Em carta a Ehrlichman, citada por este em Witness to
power, ela sublinha que as publicações do Post não eram “um
reflexo” dos seus “sentimentos pessoais” (p. 301). A
carta comoveu Erlichman, sendo porém evidentemente mensagem a Nixon.
Este recusou a sugestão de Erlichman a propósito de uma convite a
Kay para confabular.
O
propósito da mensagem de Kay é negar qualquer hostilidade pessoal
contra Nixon, e relacionar o que o Post vinha publicando a propósito
da corrupção na Casa Branca, entre o Vietnã e Watergate, a uma
questão de mera autonomia dos profissionais do jornalismo. Nesse
ponto em que exalta a qualidade dos seus profissionais, ela concede
que a opinião de Ehrlichman possa não ser a mesma que a sua, porém
como algo que não impediria que fossem considerados pessoalmente
amigos dado que os sentimentos dela por ele eram amistosos.
Sobretudo, ela não queria continuar sendo mal interpretada nessa
questão de relacionamento pessoal, pelos boatos que corriam a
propósito de que ela detestava Nixon, o que a carta tencionava acima
de tudo denegar como mera “childish”.
Ela
esconde, porém, que poderia não implicar que as publicações do
Post não refletissem os sentimentos pessoais de alguém mais. E de
fato refletiam, segundo Halberstam. Os de Ben Bradlee, a quem Kay
delegou todos os poderes, e que se tornou gradualmente o cérebro e a
vontade por trás dos acontecimentos relacionados às publicações
polêmicas do Post.
Podemos
indagar sobre o que teria acontecido na história do século XX, se
Kay tivesse preferido usufruir passivamente da fortuna ao invés de
escolher tomar a frente dos negócios. Ben Bradlee, um homem
audacioso cujo objetivo era jornalismo de excelência, porém de fato
atuante como business, como veículo de massas e não o arcano de uns
poucos privilegiados, não tinha tanto a perder quando tomava
decisões quanto ele teria se fosse ele mesmo o proprietário de um
patrimônio. Kay nunca recuou nisso, porém. Mesmo nos piores
momentos, quando à habitual insônia se misturava o terror pelo que
podia acontecer ou de fato já estava acontecendo, ela manteve a
delegação do poder e Bradlee jamais foi desafiado.
A
mensagem de Kay demarca, pois, um momento delicado. As histórias
sobre ilegalidades do staff de Nixon relacionadas ao levantamento de
fundos da campanha eleitoral, que foram descobertas interligadas ao
rumo da investigação principal sobre a invasão do partido
Democrata no edifício Watergate, haviam precipitado a fúria da
administração Nixon. Em novembro de 1972 porém Nixon estava
reeleito, e havia prometido vingança contra a imprensa que vinha
publicando as notícias comprometedoras que ele tomou como
pessoalmente dirigidas.
Não
obstante a publicação dos papeis de Ellsberg ter antecedido Nixon e
atingido Lyndon Johnson. Este a quem Kay escrevera também uma carta,
muito mais sentimental como declaração de fervorosa devoção
pessoal, não obstante a devastação das denúncias que o Post
publicou, desta vez com expressa anuência dela mesma, ainda que sob
pressão intensa, Bradlee contra todos, advogados e conselheiros que
tencionavam evitar a publicação do livro de Ellsberg após o New
York Times ter publicado o essencial sobre os documentos roubados.
Aquilo
fora obra de Bagdikiam, amigo de Ellsberg, Bagdikian logo percebera
que a fonte do Times só podia ser Ellsberg. Ele contatara Ellsberg,
e a publicação do livro deste pelo Post se tornou uma questão de
tempo, era publicar ou ser depois acusado de omissão censória.
Assim os conselhos contrários, especialmente de Fritz Beebe, um dos
advogados mais respeitados, puderam parecer pró-forma, de fato todos
queriam a publicação.
Lyndon
Johnson, amigo pessoal de Phil, tornara-se após a perda de Phil
extremamente ambivalente relativamente a Kay, mas agora decidira-se
por uma franca animosidade. Por último voltou atrás, em vista da
antiga amizade de família. Mas a mágoa nunca passou, Johnson havia
feito muito sob o impulso da vingança, demitindo Robert McNamara,
amigo pessoal de Kay, e processando o jornal. Assim como a mágoa de
Kay contra Bagdikian, que havia se tornado expressa a este. “Que
espécie de problemas você nos trará desta vez”? - ela provocou
com voz dura, na frente de várias pessoas, numa ocasião. Depois
aquilo ficou como “uma brincadeira”, algo que ela não quisera
dizer de verdade. Mas o tom fora inequívoco, não havia sido
uma brincadeira.
Uma
série de processos contra a imprensa se iniciara, tendo por alvo a
publicação das histórias reveladoras de corrupção na Casa
Branca. No caso de Watergate, com risco de prisão de repórteres e
editores, não só do Post. Segundo Ehrlichman, porém, especialmente
repórteres do Post haviam sido afastados da Casa Branca após o
início da cobertura de Watergate, e Nixon havia ordenado a
investigação de um repórter que estava publicando informações
sobre a atuação de Julie Eisenhower na Flórida.
Ao
ver de Ehrlichman, o motivo do ressentimento pessoal de Nixon contra
o Post era de que ele era devotado ao Star, que o Post estava porém
derrotando no mercado. Para Halberstam, o motivo eram as charges de
Herblock, apelido de Herbert Block, o cartoonista do
Post, e um dos melhores cartoonistas da história do jornalismo.
Conforme Halberstam, um cartoom de Herblock não era negável,
“ficava na atmosfera como uma visão permanente”. (842).
Ele
fôra especialmente cruel contra Nixon. Desde 1954, quando era
vice-presidente, Nixon havia cancelado a assinatura do Post para
evitar que as filhas vissem as charges diárias de Herblock. Nixon
dizia que muito de suas reações a outros tinham que ser calculadas
relativamente a quem eles visavam, não a ele mesmo, Nixon, mas ao
Nixon de Herblock. Um ser que pudesse imediatamente repugnar a todos
os liberais, feito de falsa piedade, desrespeito pelas liberdades
civis, exploração de paixões sob o pretexto de as estar
apaziguando, e de tudo o que havia de vulnerável na aparência, a
barba, a cara, o nariz, fazendo de Nixon fisicamente repugnante.
Porém
a publicação da carta de Kay por Ehrlichman contradiz a concepção
de Halberstam, de que John Ehrlichman, assim como Clark MacGregor,
Ron Ziegler e Robert Dole, personificou a saraivada de ataques que se
seguiram após as denúncias, da parte da administração Nixon, e
que eram cuidadosamente orquestradas, dirigidas de modo altamente
pessoal contra Kay Grahan e Ben Bradlee. O comentário de Ehrlichman
a propósito revela que ele mesmo considerava boa política
aproximar-se amavelmente de Kay, aproveitando-se do sinal verde que
ela emitira, de modo que as histórias pudessem parecer pura
especulação algum dia, ou, em todo caso, o caráter das pessoas
pudesse ser salvo. Mas Nixon não aceitou o conselho de Ehrlichman.
Ele considerava da máxima importância destruir os assim
considerados inimigos e não acreditava na sinceridade de Kay Graham.
Por
outro lado, Halberstam revela que as ligações sociais de Kay com
personagens importantes da Casa Branca não cessaram. Muitos eram
convidados habituais de suas suntuosas festas, tendo ela já
aprendido a frequentar e receber, passando a um status de grande
influência na alta sociedade de Washington.
Ehrlichman
e Halberstam concordam em que Nixon considerava o problema
pessoalmente, e com a maior agressividade, assim como ao menos os que
acatavam totalmente a sua linha de ação. Na Casa Branca, portanto,
havia uma cisão cada vez mais aparente.
Quando
Sloan, uma das fontes de Woodward do Post, levou a John Mitchel, o
procurador geral (“attorney general”), como figura chave do
levantamento secreto de fundos de campanha para reeleição de Nixon,
Bernstein ligou para ele, apenas para ouvir um grito - um “grito
primal”, segundo Halberstam. “Jeeeesus!” Tratando “Kay” por
“Katie Graham”, o que ainda segundo Halberstam só gente de Nixon
fazia, para todos os amigos era Kay ou Katharine, Katie nunca,
Mitchel ameaçava: ele torceria o pescoço do passarinho dela - e a
resposta de Kay ao recado, como se este fosse como qualquer outro,
havia sido: “há mais alguma mensagem para mim”? (p. 899)
Com
relação a Nixon, porém, nessa altura a ironia atinge o paroxismo.
Pois já não era o Post que estava à frente das investigações, o
Los Angeles Times sobrepujou repentinamente todas as expectativas. E
a tentativa do Post de reconquistar a preminência perdida resultou
numa vantagem tão oportuna a Nixon que pode ter sido a causa da
reeleição.
Jack
Nelson do Los Angeles Times havia logrado ultrapassar Woodward e
Bernstein, os lendários repórteres do Post que descobriram
Watergate e o modelaram para grande repercussão, estes os autores de
All the president’s men, livro que se tornou um sucesso do
cinema.
Nelson
estava enciumado pelo fato dos dois jovens terem se tornado estrelas
do jornalismo de um dia para o outro, e investigara diligentemente o
motivo do sucesso deles com Watergate, tendo constatado que consistia
simplesmente na recusa de usar o telefone, e, ao invés, contatar as
fontes apenas pessoalmente.
Segundo
Halberstam isso podia ser considerado trivial, ninguém confiava em
telefone nos USA àquela altura, porém o jornalismo ainda dependia
muito das chamadas, em grande escala. Mudando de tática, Nelson
descobrira, contudo, não apenas uma fonte com novidades excitantes,
mas que como todas as outras tinha que permanecer na sombra, não
diretamente identificada. Ele descobrira uma testemunha ocular,
Alfred Baldwin.
Após
muitas reviravoltas protagonizadas pelos dois advogados de Baldwin, a
questão era como ele seria melhor protegido, uma vez que a
administração sabia que ele sabia. Os poderes públicos envolvidos
tentaram impedir que a história fosse publicada, o próprio juiz Joe
Sirica, que condenou Ehrlichman depois, interveio para amordaçar
Nelson, proibindo a publicação. Afinal ficou claro para Nelson e os
advogados que seria melhor para Baldwin tornar-se de conhecimento
público até onde ele atuara. Assim ele concedera a Nelson a
história, e ela foi publicada, com a única condição de que Nelson
aduziria a seu respeito que ele havia sido antes da marinha - porque
ele queria que sua namorada lesse isso nos jornais.
Al
Baldwin havia sido na verdade agente do FBI, e estava trabalhando
agora para a CIA. Em seu turno de trabalho, casualmente situado em
frente a Watergate, ele monitorava fitas gravadas oriundas da escuta
clandestina, as quais deviam ser passadas para o quartel eleitoral de
Nixon. Num dado momento, ele avistou Hunt saindo de Watergate,
andando casualmente, e a polícia se aproximar. A história de
Baldwin era tão importante por ele ser uma testemunha ocular, mas a
mais importante de todas, por ser a que conectou Watergate
diretamente com a campanha de reeleição de Nixon.
O
juiz Sirica ordenou a prisão de John Lawrence, do Los Angeles Times,
e Nelson declarou ao Post que
nesse caso também ele a aceitaria com a consciência limpa. O Post
aduziu porém uma nota sobre Otis Chandler, que não se encontrava
então em Los Angeles, na qual Otis declarava que ele mesmo iria para
a prisão orgulhosamente se fosse preciso. De fato Nelson nada
dissera sobre Otis, e se tornou visado por comprometer o editor.
Otis, cavalheirescamente, respondeu depois que iria mesmo. Como em
todos os demais processos, porém, a Suprema Corte favoreceu a
imprensa e ninguém foi preso.
Mas
agora os enciumados eram Woodward e Bernstein. O Post havia perdido a
corrida, o New York Times ficara para trás há muito tempo
relativamente a Watergate, o Los Angeles Times vencia. O Post não
publicou, a princípio, a história do Los Angeles Times,
comprometendo a sociedade Times-Post de notícias. Na verdade o Los
Angeles Times já vinha fazendo uma boa cobertura de Watergate, mas à
medida em que as histórias ficavam melhores, o Post roubava os
títulos e publicava como se fossem seus.
Halberstam,
inclusive, corrige uma cena do All the president’s men, onde
Simons, um dos comissionados do Post para coordenar Watergate, é
visto pedindo a Bradlee para tornar a história nacional, e Bradlee
responde que seria melhor deixa-la ficar como estava, apenas com os
garotos. Segundo Halberstam, a cena se deve a razões dramáticas,
para fortalecer o papel do ator Jason Robards, pois na verdade, foi
Bradlee que em várias ocasiões insistiu com Simon para tornar a
história nacional (p. 897). Como vemos, o Post tencionava manter
Watergate estreitamente associado a si mesmo e à sociedade de
Washington.
Após
a vitória de Jack Nelson, os dois jovens do Post intensificaram o
uso das fontes, e Deep Throat, como eles designavam a uma delas para
evitar identificação por nome próprio, tocou num dos pontos mais
delicados do problema que consistia na extensão da ligação de
Watergate com o Staff de Nixon. O ponto era Haldeman, o mais alto
funcionário da Casa Branca, o mais próximo de Nixon. Se ele fosse
implicado, não haveria dúvidas sobre o envolvimento de Nixon. Mas
Haldeman era considerado intocável, invencível.
Até
aí Woodward e Bernstein haviam descoberto a CREEP, uma organização
clandestina, destinada aos fundos de campanha, composta porém por
pessoas tão simples e tão leais a Nixon, que tudo o que os
jornalistas puderam obter foi a comprovação de que muito medo
transparecia da parte de qualquer deles em agir contrariamente ao
governo. Mas gradualmente chegaram a John Mitchel, e deste a Donald
Segretti, que condensara um plano de vários truques sujos de
campanha contra os democratas. De Segretti foram levados a Chapin.
Ora,
Chapin era um homem de Haldeman, sem dúvida atuava sob as ordens
deste, e não faria nada que Haldeman não aprovasse. Woodward e
Bernstein estavam certos de que se chegassem a Haldeman, superariam
tudo o que havia sido feito antes em matéria de Watergate, e estavam
maximamente interessados em atingi-lo, não obstante ser Haldeman o
homem mais temido àquela altura em todo os Estados Unidos. Deep
Throat pareceu confirmar que Haldeman estava envolvido, e os
repórteres foram atrás de Sloan, que a essa altura já havia
prestado declaração ao grande júri.
Assim,
quando Sloan confirmou que Haldeman estava envolvido, Bernstein e
Woodward publicaram que Sloan havia testemunhado contra Haldeman
perante o grande júri. E isso não havia acontecido. Sloan havia
falado a eles somente, não ao grande júri, sobre Haldeman. O erro
se tornou enormemente explorado contra Woodward e Bernstein. Deep
Throat estava furioso, e a nação obteve motivos para suspeitar que
todo Watergate não passava de uma montagem. Logo depois, Nixon era
reeleito.
Mas
a essa altura, a CBS havia tomado a decisão de não omitir
Watergate. Integra a história interna da CBS, parte da qual já
visamos, o quanto a decisão é exemplar da cisão interna ao
jornalismo, entre o que pretendem os repórteres e programadores,
contrariamente aos interesses dos proprietários e seus editores. A
crise dentro da CBS foi intensa, conhecendo-a entendemos porque
Halberstam diz que Bill Paley, o proprietário da CBS, gelou quando
Kay Graham, numa festa, beijou-o no rosto, por ter ele “nos
salvo a todos”.
Porém
Halberstam explora habilmente o sucesso de Watergate, que atraiu a
atenção do público desde o início.
Assim,
mais tarde, o Post se recobrou do fracasso, ainda que não por mérito
próprio. Bernstein e Woodward tornaram-se repentinamente heróis
nacionais, e o próprio juiz Sirica convidou Woodward para conhecer
sua filha. Watergate havia se tornado nacional. Os dois repórteres
constataram a imensa competição entre os jornalistas, a multidão
amontoada dos empregados de imprensa em torno das possíveis fontes
de informação, quando antes tudo havia sido tão solitário.
Watergate não era mais apenas uma especulação sobre a honestidade
do presidente, era realmente um caso de implicação de todo o status
quo.
Mais
uma vez a aplicação do método de contato pessoal de Bernstein e
Woodward do Post, porém pelo Los Angeles Times, mudou o sentido dos
acontecimentos.
Após
a saída de Jim McCord da prisão, seguindo o método de abordagem de
Jack Nelson, Bob Jackson se aproximou dele como fonte de informação.
McCord com efeito revelou documentos que levaram a John Dean, este
tão intimamente ligado a Nixon que seria impossível negar o
envolvimento do presidente da república. Desde Maio de 1973,
Watergate se tornou um caso de repercussão nacional, a história
estava “legitimada”, não mais uma fantasia, mas uma realidade. O
impeachment se tornou inevitável, mas Nixon preferiu renunciar.
O
sucesso custou Dean ao Los Angeles Times. Ele ficara contra Jackson,
como se o Times o houvesse apresentado como mero peão dos documentos
de McCord. O Post se encarregou de John Dean. Na verdade, Woodward
tentava se apossar da testemunha, revelando que tinha conexões com a
central de telefonia, pois todas as vezes que McCord mudava o número,
Woodward tornava a ligar. Mas Jackson e McCord tinham relações
pessoais, e uma ligação de Bob Toth, da Casa Branca, não apenas
apresentou as tradicionais negações, mas também comunicados que
revelaram a Jackson a confiabilidade da testemunha, e que a Casa
Branca havia sido severamente atingida.
A
essa altura, a CBS tinha em Watergate um sucesso tão estrondoso, que
permitiu a Halberstam motejar uma conhecida teoria europeia dos mass
media, segundo a qual é o público que determina a mediocridade dos
programas, especialmente os da noite, o horário que coincide com o
do jantar e que é o de maior atração, porque desliga a TV se o
programa apresentado não for alguns dos seus favoritos, a novela ou
o futebol. Inversamente, aqueles espectadores habituais de novelas
que primeiro reclamavam que seus programas favoritos estavam sendo
tirados logo se tornaram atraídos. Os números estavam muito bons.
Watergate
se tornou mais do que apenas a história de uma degenerescência no
governo. Não só um reflexo da mídia na sociedade, Halberstam
documenta a íntima relação entre a cobertura do Post em Vietnã e
Watergate, e as mudanças históricas na sociedade de Washington, na
transição aos anos setenta. Mudanças que inserem os tópicos mais
relevantes do conflito social atual, os quais porém ainda não foram
equacionados nas visão tradicionais da história.
2)
E Ehrlichman?
Foi
só depois de ter se desligado da Casa Branca por injunção de Nixon
a renunciar, que Ehrlichman se tornou alvo dos processos que o
levaram à prisão. A injunção de Nixon na ocasião abrangeu a
Haldeman, correspondendo ainda a uma suposta exequível estratégia
para manter Nixon incólume, naquela altura dos acontecimentos que
vimos acima, em que já Dean estava identificado, prestando
declarações que não deixavam mais dúvidas sobre o envolvimento do
alto escalão.
A
acusação a Ehrlichman procede destas declarações, uma vez que os
depoimentos de Dean o comprometiam. Ehrlichman foi ainda acusado de
perjúrio, por terem-se constatado contradições entre o seu
depoimento e os de Dean.
A
crise virou “zona”, conforme a letra do hit clássico de Elis
Regina. Logo que a demissão de Ehrlichman foi anunciada publicamente
pelo presidente, ele se tornou objeto de inúmeras investigações,
entre Washington e Los Angeles, tanto do congresso quanto do FBI. Ele
desistiu de contar quantos, após o décimo quinto. Porém o
resultado concreto foram dois processos públicos impetrados contra
Ehrlichman, relativos aos dois “break-ins” (arrombamentos). O
primeiro, do consultório do psiquiatra de Daniel Ellsberg, o dr.
Fielding. Neste o juiz foi Gesell. O segundo, da sede do partido
democrata no edifício Watergate, tendo por juiz Joe Sirica. Não
obstante os dois processos correndo separadamente, Sirica usou o caso
Fielding contra Ehrlichman.
Em
ambos, Ehrlichman constatou decisões tomadas pelo tribunal apenas
visando atrair a atenção da mídia, além de hostilidade contra
ele, não obstante haver algumas diferenças no modo como as coisas
foram conduzidas pelos dois juízes. A presença da mídia em todo
caso foi massiva em todos os dois processos. Ehrlichman se tornou
celebridade, sendo reconhecido em todos os lugares, mas não sendo
isso algo positivo para ele, ou para os vizinhos de Seattle, onde
morava originalmente, a quem a imprensa incomodava.
Nada
foi feito por parte da justiça americana contra a mídia, no sentido
de defender a integridade da pessoa do réu e a discrição dos
procedimentos, pelo contrário. Conforme Ehrlichman, “os
inquéritos foram teatro de televisão” (p. 359).
Como
vimos acima, o primeiro julgamento teve por objetivo apurar a culpa
do arrombamento, em função de Daniel Ellsberg ter publicado
documentos do Pentágono relativos ao Vietnã, os quais comprometiam
irreversivelmente a versão do governo de que se tratava de uma
guerra pela democracia. O governo que estava processando Ellsberg
foi, portanto, acusado de ter arrombado o consultório do seu
psiquiatra, para obter informações que alterassem o rumo do
processo.
Mas
foi também, segundo Paulo Francis, acusado de tentar subornar o juiz
que estava processando Ellsberg. O que Ehrlichman não comenta.
Apenas registra que ele foi comissionado por Nixon para oferecer a
este juiz, Byrne, o cargo de diretor do FBI, uma vez que Pat Gray,
que até aí ocupava o cargo designado por Nixon, deveria ser
substituído por que o senado questionara a nomeação, durante a
investigação das acusações do abafamento (“cover-up”) do
crime de invasão em Watergate (p. 342).
Na
cena reconstituída por Ehrlichman, Byrne aceita entusiasmado a
designação, como para algo com que ele sonhava há tempos.
Ehrlichman o havia contatado por telefone, sem deixar de argumentar
que se o assunto parecesse impróprio, dado ser Byrne juiz do caso
Ellsberg, ele estava à vontade para não aceitar o convite do
encontro. Conforme o que vimos ser o estilo característico de
Ehrlichman, nem por um instante ele considera isso suborno.
Nesse
encontro, o próprio Nixon se junta a Ehrlichman e Byrne, instantes
depois da oferta e da resposta, para conversar informalmente com
Byrne, nem este nem Nixon tocando no assunto da nomeação, enquanto
Haldeman filmava toda a cena. Não obstante, mais à frente
Ehrlichman informa que o nomeado para o cargo de diretor do FBI foi
William Rickelshauss. (p. 356)
Na
entrevista que citamos de Ellsberg a Paulo Francis, este observa que
a ligação do break-in do consultório do dr. Fielding com
Watergate, algo que o fascinava, nunca havia sido analisada
profundamente. Ellsberg responde que são a mesma coisa,
evidentemente, porém não interessa esclarecer a conexão porque
isso seria demonstrar que a mesma corrupção utilizada normalmente
quando se trata do imperialismo (política externa) se verifica na
política interna americana.”O povo ficaria chocado. Qualquer povo”
(op. cit. p.111).
Na
verdade, Ehrlichman faz a conexão: “se o arrombamento do
consultório do dr. Lewis Fielding, na Califórnia, por Howard Hunt e
Gordon Liddy foi o episódio seminal de Watergate, como eu acredito,
então os historiadores devem continuar inquirindo sobre suas
origens” (p. 364). Ehrlichman anota então as versões que estão
em questão: na primeira, versão de David Young, ele é o personagem
do alto escalão que autorizou Hunt e Liddy no episódio Ellsberg; na
segunda, Charles Colson encorajou Hunt e Liddy, algo bem possível,
porque Colson estava sendo acusado de obstrução da justiça por
conspirar para difamar Ellsberg.
Para
Ehrlichman, parece claro que foram Hunt e Liddy quem primeiro
propuseram o plano do arrombamento do consultório. Ele sabe,
obviamente, que não foi ele quem autorizou, portanto, “o suspeito
logicamente alternativo é Charles Colson. Ele era patrocinador de
Hunt, seu confidente e amigo íntimo” (p. 368). Acima já
examinamos esse ponto, mas aqui seria preciso aduzir que Ehrlichman
não nega ter sido informado do plano de Hunt e Liddy, apesar de não
saber sobre o break-in até instantes depois de ter acontecido.
Na
realidade foi ele, Ehrlichman, quem aprovou o plano, proposto a ele
por David Young e Krogh, este reclamando que o FBI não estava
investigando satisfatoriamente. O que, pelo que vimos, seria
esperável, Hoover possivelmente ligado a Ellsberg.
Porém
Ehrlichman não foi informado de que o plano incluía um “break-in”,
somente de que se trataria daqueles agentes “investigarem” Daniel
Ellsberg - um plano de “inteligência”, conforme o jargão que
Ehrlichman registra. Ehrlichman informou Nixon, que também aprovou o
plano, sendo exatamente “ação” como Nixon queria. Ehrlichman
comunicou a Krogh o sinal verde, mas com a reserva de que Hunt e
Liddy não deviam ser os agentes diretamente envolvidos, para que não
houvesse a pista de um serviço secreto do presidente, atuando de
dentro da própria Casa Branca.
Depois,
Krogh ligou para Ehrlichman, informando de que houvera o break-in no
consultório, porém para consulta sobre uma nova proposta de Hunt e
Liddy, porque nada foi encontrado, e os arquivos do psiquiatra sobre
Ellsberg deviam estar na casa do médico. Krogh perguntava agora a
Ehrlichman, se ele queria um novo arrombamento, desta feita na casa
de Fielding.
Ehrlichman
estava porém chocado com a notícia, algo que ele não esperava.
Logo, ordenou que todas as operações de Hunt e Liddy fossem
imediatamente suspensas. “Tire-os de lá e jamais os envie de
volta”, respondeu ele a Krogh. (p.366)
Hunt
e Liddy foram presos, em 1972, como participantes da operação
Watergate. A conexão dos mesmos agentes está, portanto, reportada
por Ehrlichman. A dupla azarada, Hunt e Liddy, atacou de novo em
Watergate, e quis o azar que mais uma vez sua atuação resultasse
num fiasco.
Pelo
que pude reconstituir, cotejando David Halberstam e Ehrlichman, o que
aconteceu em Watergate foi que Hunt e Liddy deviam instalar (ou
voltarem para consertar) um microfone oculto na porta da sede dos
democratas, enquanto McCord e um grupo de quatro cubanos estavam
encarregados de fotografar documentos. Arrombaram a porta, Hunt e
Liddy saíram, logo após fazerem o trabalho com o microfone, e o
grupo de McCord começou a fotografar. Ocorreu que os dois primeiros
fizeram um mau serviço e um zelador do prédio notou o gravador
escondido, chamando a polícia. A polícia entrou no prédio devido
ao microfone mal oculto, porém assim flagrando McCord e o grupo dos
cubanos.
Segundo
Halberstam, (p. 846), Joe Califano, advogado do Post e conselheiro
geral do comitê Democrático Nacional, ligou na manhã seguinte,
sábado, para o jornal, informando o break-in. Woodward foi designado
para cobrir o que até aí era apenas uma história policial,
registrando a ocorrência de cinco homens presos, quatro cubanos e um
americano, às 2:30 da madrugada de 17 de junho de 1972, arrombando a
sede do partido democrata.
Woodward
compareceu, no mesmo sábado, ao julgamento dos presos. O juiz
perguntou a um deles sobre o que fazia para viver, e o homem
respondeu “consultor de segurança”. O juiz tornou a indagar:
“onde”? A resposta do homem foi “na CIA”. Este homem era
McCord.
No
domingo, Woodward já secundado por Bernstein na cobertura do caso,
este investigava McCord, obtendo com a Associated Press a informação
de que ele atuava como coordenador da segurança do comitê de
reeleição presidencial. Até aí, a história não tinha muito
interesse, segundo Halberstam, mas logo depois tornou-se importante a
revelação do repórter policial do Post, Eugene Bachinski. Ele
soubera por suas confiáveis fontes na polícia, que com os cubanos
foram encontrados dois cadernos de endereços, em um deles constando
o nome de Howard Hunt, com uma nota ao lado: “Casa Branca”. Havia
também sido encontrado um envelope com um cheque nominal de Hunt, no
valor de $ 6.36, de Lakewood Country Club, perto de Rockville.
Simons,
o editor do Post que designara Woodward, a essa altura considerava a
história fascinante, e se interessava por descobrir a conexão com a
Casa Branca. Bem mais tarde, em Julho, o New York Times publicava
reportagem sobre ligações telefônicas que comprometiam Gordon
Liddy, da CREEP, a “Comissão para Reeleição do Presidente”
Nixon.
Na
versão de Ehrlichman, Hunt e Liddy foram “apreendidos” em junho
- o que pode significar que tenham sido logo relacionados ao caso.
Seja como for, no primeiro desfecho do caso, um desfecho aparente, o
presidente e a Casa Branca não estavam envolvidos. Tudo terminara
com sete homens presos, nenhum deles relacionado ao alto escalão.
Hunt e Liddy eram meros free-lancers, sem relação com o alto
escalão da Casa Branca. McCord se relacionava com a CIA, não com o
staff do presidente Nixon. Este estava reeleito.
Sabemos
o que aconteceu depois, de modo que houve um segundo desfecho, no
qual Ehrlichman foi condenado por vários crimes, incluindo desde o
caso Ellsberg até perjúrio e obstrução da justiça por abafamento
do caso Watergate. A imprensa continuou inquirindo e descobrindo
histórias, até levarem ao alto escalão da Casa Branca, e ao
turning point da identificação de Dean.
Para
Ehrlichman, muito do que a imprensa publicou era mentira. Ele
identifica várias histórias que arrola como falsas. Quanto ao que
era verdade, o enigma histórico permanece. Ao ver de
Ehrlichman, a operação poderia ser vista, não obstante os seus
próprios escrúpulos, como algo normal, ou ao menos como algo não
estranho aos procedimentos de muitos governos, inclusive democratas.
Não
obstante afirmar que ficara chocado com a informação do break-in de
Fielding, num outro trecho Ehrlichman comenta que para ele Ellsberg
foi um traidor dos USA, tendo sido notório que vendera ou cedera
cópias das informações secretas à Rússia e Japão (p. 369). Num
outro momento, relata que sugerira que suspendessem todas as
acusações a Ellsberg, para ridicularizá-lo. Ele iria inutilmente
ficar implorando por atenção, dizendo “eu fiz, eu fiz”, mas sem
o processo do governo, a imprensa não se interessaria por ele. Este,
como vários outros conselhos de Ehrlichman, não foi ouvido.
Aqui
ele volta ao momento em que David Young lhe propusera, com Krogh, que
Hunt e Liddy fossem à Califórnia. Sendo Young a quem ele desmente
como depoente da versão de que aconteceu assim, porém com
Ehrlichman sabendo que o plano abrangia o Break-in.
Young
e Hunt haviam pedido à Cia um segundo “perfil psicológico” de
Ellsberg, mas os psicólogos da CIA responderam que precisavam de
mais informação para isso. Até aqui, Ehrlichman dissera que não
conhecia Hunt senão por um momento em que o vira com Colson, e que
nunca se encontrara com Liddy.
Em
todo caso, conforme prossegue Ehrlichman nesta página (369), Hunt e
Liddy sabiam que Ellsberg estava tendo auxílio psiquiátrico, e
propuseram tentar obter o que a psiquiatria sabia sobre Ellsberg,
nutrindo assim os psicólogos da CIA com informação suficiente. A
Ehrlichman foi solicitada autorização do plano, e ele a concedeu,
porém sem saber que abrangia arrombamento. Não compreendi como ele
podia não saber do arrombamento, mas sim que se procurava obter o
arquivo do médico.
A
estimativa de Ehrlichman, na ocasião da produção do seu livro, era
de que quando todas as fitas da Casa Branca estivessem conhecidas,
ficaria claro que Hunt e Liddy propuseram um plano de arrombamento a
Charles Colson, a proposta específica do arrombamento, que não foi
feita a Ehrlichman, sendo necessária para obtenção do dinheiro
requisitado para o serviço. E além disso, Colson precisava ser
contatado porque Ehrlichman negara a Hunt e Liddy participarem
diretamente de qualquer operação secreta para a Casa Branca. Assim,
Ehrlichman deduz que Colson deve ter ido diretamente a Nixon para
obter a aprovação que Ehrlichman negara (p. 368).
Após
o break-in, quanto Ehrlichman soube, de fato ele confessa sua decisão
de manter secreto o caso, aduzindo os motivos ideológicos que vimos
acima - além de, naturalmente, conforme diz, não saber na ocasião
que Nixon pudesse estar pessoalmente envolvido.
Não
obtive discernimento sobre como o governo foi implicado neste
primeiro caso, do break-in do consultório do psiquiatra de Ellsberg
- ao que parece, Ehrlichman não foi processado nos dois casos ao
mesmo tempo. Mas quanto ao segundo, os depoimentos de Dean se
tornaram um ponto chave não só pelo que ele dizia. Mas porque nessa
altura, o sistema de gravação do que era falado na Casa Branca,
implementado por Nixon, havia sido descoberto, e as fitas foram
requisitadas no processo.
Em
todo caso, o enigma histórico cerca o objetivo tão tenazmente
perseguido, de envolver o governo. Quem era o inimigo de Nixon? O
objetivo não se limita à imprensa - porque as fontes nesse caso
foram o fator principal. Para Ehrlichman (p. 360), Deep Throat, o
apelido que acima vimos de uma das fontes dos repórteres, era nada
menos que Henry Petersen, amigo de Dean e procurador geral da divisão
criminal, de modo que segundo Ehrlichman, John Dean era informado
sobre quem iria ser visitado pelo FBI (p. 326)
Assim,
o FBI, mesmo quando ligado a democratas, parece um dos prováveis
apoios da antipatia pessoal de vários clãs de mídia ligados aos
republicanos a Nixon, não obstante o partido republicano como um
todo o impor. Em todo caso, a meu ver a operação contra Nixon não
prejudicou o partido republicano, pelo contrário, a queda de Nixon
só favoreceu enormemente ao partido republicano. É certo que os
democratas foram eleitos após o interregno de Gerald Ford, o vice
que assumiu devido à renúncia de Nixon - Ford concedeu perdão
absoluto a Nixon. Porém não parece que Reagan se elegeu apenas
porque Carter não foi exitoso na crise do Irã. O partido
republicano provara que poderia “limpar a casa” - a mesma
expressão que Nixon usou para justificar as demissões que fez com o
intuito de se salvar das acusações. Provara não ser algo diferente
dos interesses americanos.
O
próprio Nixon não sofreu as consequências, os presos foram os de
menor importância, a autoridade do partido permanecia incólume. Na
altura de Watergate, como vimos, não havia mais uma linha divisória
compreensível, Nixon baralhara as cartas, e não se pode afirmar que
apenas o liberal Post estava contra. Otis Chandler, do republicano
Los Angeles Times, entre a hostilidade de Haldeman e alguma simpatia
de Nixon, o comprova.
Ehrlichman
registra várias operações contra ele enquanto réu, sendo Leon
Jaworski o promotor no caso Fielding (p362). O testemunho de Nixon,
pessoalmente ou filmado, vital para a defesa, não foi autorizado
pelo juiz. Os pertences de Ehrlichman na Casa Branca, abrangendo os
arquivos pessoais, foram apreendidos, e não foram devolvidos estes
arquivos de que ele e os advogados precisavam para organizar sua
defesa. Um conselheiro de Nixon, Fred Buzhardt, atrapalhou o recurso
da defesa para reaver os arquivos, argumentando que eles não tinham
a ver com a defesa. Inversamente, inúmeros documentos constantes nos
arquivos seriam úteis, conforme Ehrlichman. Buzhardt sofreu um
ataque do coração pouco depois.
Houve
ilegalidade na escolha do júri por Sirica, segundo Ehrlichman,
inclusive um dos jurados protestou não ser adequado para o caso por
questões pessoais. A ignorância de Ehrlichman sobre o arrombamento
planejado no caso Ellsberg foi confirmada a princípio por Krogh,
inclusive por um afidavit contendo a referência de que Ehrlichman
não sabia do break-in, mas Krogh foi posto por Jaworski numa cadeia
de Maryland com alguns negros forçudos, de modo que depois disso os
depoimentos dele se tornaram contraditórios (p. 365).
Por
outro lado, o conteúdo das fitas gravadas, como um pivô da acusação
no caso Watergate, não era de fato bem audível. Uma transcrição
oficial foi feita, porém por pessoas que não conheciam o staff, e o
resultado foi que o texto atribuía falas a pessoas erradas,
confundindo frequentemente Ehrlichman com outros, atribuindo a ele,
assim, ditos que não lhe pertenciam. Algumas palavras não eram de
modo algum audíveis, mas na transcrição não apareciam as lacunas.
Ehrlichman examinou as fitas e o texto. Reconstitui assim muito do
que foi falsamente atribuído no processo, algo que integra a sua
exposição dos acontecimentos, vistos pelo ângulo interno à Casa
Branca. Essa reconstituição é importante, porque mostra o quanto
Nixon mentiu, relativamente a Ehrlichman.
O
pivô da acusação a Nixon é uma conversa entre Nixon e Haldeman,
logo depois do break-in em Watergate. Nessa conversa, eles planejam
convocar dois altos funcionários da CIA (Helms e V. Walters) para
contatar Pat Gray, então dado como diretor do FBI, com o objetivo de
sustar a investigação de Watergate pelo FBI. Na conversa, fica
claro que o objetivo era proteger Hunt da investigação, temendo-se
que ele levasse ao alto escalão.
Haldeman
é ouvido dizer que se devia proteger a CIA conforme conselho de
Ehrlichman, mas este afirma não ter jamais aconselhado nesse
sentido, nem ter sabido desta conversa, antes.
Contudo,
Ehrlichman foi convocado à reunião da Cia com Pat Gray. Ehrlichman
participa assim da reunião sem compreender ao certo o conteúdo dos
pronunciamentos. Ele só veio a compreender quando examinava as
fitas. Mas Ehrlichman, por outro lado, afirma ter sabido logo após a
notícia de Watergate, de um levantamento de fundos na Casa Branca
para ajudar na defesa de Hunt. Inclusive, de que Hunt pretendera mais
dinheiro para não implicar Ehrlichman - que não se incomodou na
época, confiando na própria inocência, e na de Nixon.
Durante
a reunião, o que se disse não revelava a cobertura a Hunt, mas sim
que o FBI não devia investigar a proveniência do “dinheiro
mexicano”, porque o processo poderia levar a revelações de
segredos da Cia - neste caso, explicitamente referenciados o
assassinato de Dim Diem e o conhecido fiasco na Baía dos Porcos,
ambos os itens relacionados à administração Kennedy.
O
assassinato de Dim Diem por Kennedy é reportado em Cl. Julien (op.
cit., p. 440). Ele foi apoiado no Vietnã pelos USA, porém
aconselhada uma abertura política, negou que o pudesse fazê-lo
mantendo-se no governo. Logo, que o Vietnã do sul era uma ditadura,
não há dúvida de que independente de Ellsberg os USA sabiam há
muito.
A
desculpa foi aceita, malgrado o aconselhado por Landsdale, que assim
perdeu crédito na Cia, porém não aceita por todos. E segundo
Julien, a CIA esperou pelo governo de Kennedy, quando um dos agentes
se encarregou do assassinato de Dim no Vietnã. Na referência de
Ehrlichman, parece que há evidências de que o fiasco na invasão
dos USA à Cuba não foi casual, de modo que Kennedy teria sido
realmente o responsável. Lembrando o que observou Vicentino
(História geral, São Paulo, Scipione, 1997, p.405) a propósito, o
plano de invasão a Cuba para derrubar Fidel Castro, foi elaborado
pela CIA durante a administração de Eisenhower. Não na de Kennedy,
que ainda assim teve que admitir o fracasso quando ocorreu a
operação.
Em
todo caso, todas essas referências encobriram, na reunião com Pat
Gray, o verdadeiro motivo da solicitação da Cia ao FBI para não
levar à frente as investigações de Watergate, solicitação
mediada pela Casa Branca. Ehrlichman acreditou no que ouvia nessa
reunião de 23 de junho, dias após o break-in. Porém ele descobriu
que Colson mentira a propósito de Hunt. Este estava registrado, sim,
na Casa Branca. Além disso, constatou que no escritório de Hunt
havia um cofre. Ehrlichman sugere a Dean que ele se aposse do
conteúdo do cofre, registre e arquive o que encontrasse. De fato,
alguns dos papeis de Hunt acabaram nas mãos de Pat Gray, para
arquivo, mas Gray os destruiu. Haldeman acusou depois a Ehrlichman de
ter ordenado a destruição dos papeis, o que este nega.
Em
todo caso, Ehrlichman continuou pensando que se tratava apenas de
esconder os “segredos da Cia”, na injunção a Gray. Mesmo quando
Nixon, após a reunião, teve uma conversa telefônica com Gray, e
pela reação de Nixon logo após, Ehrlichman tenha se convencido de
que Nixon não estava tranquilo, que temia o FBI ainda que Gray
tivesse apenas comunicado que não iria investigar, para proteger a
CIA.
Ouvindo
as fitas, inclusive das conversas de Nixon e Haldeman, antes e depois
da reunião, quando ficou claro que o objetivo era proteger Hunt,
Ehrlichman ficou furioso. Além disso, nas memórias de Nixon ficou
registrado que ele temia que a investigação levasse à CREEP.
Mas
isso não ajudou Ehrlichman a provar sua inocência. Pelo contrário,
foi imputado a Ehrlichman, acreditando-se nas acusações de Dean e
nas duvidosas transcrições das fitas: co-conspiração por ter
autorizado levantamento de fundos para os arrombadores, perjúrio ao
tribunal, aconselhar Nixon a mentir, aconselhar o abafamento de
Watergate, aconselhar a fuga de Hunt do país, saber do sistema das
fitas, mentir sobre o que revelaram as fitas.
Assim
que Nixon assumiu o segundo mandato, Ehrlichman foi afastado de
qualquer conexão com Watergate. O presidente anunciara medidas
impopulares: aumento de impostos, corte nas despesas do governo,
revogar leis que impedissem seus programas de governo, substituir
todos os funcionários da burocracia por pessoal da confiança de
Nixon, subordinar a política interna (economia e política racial)
aos interesses do Executivo. E ao longo dos acontecimentos, a
doutrina Nixon do privilégio do Executivo, de modo que somente o
presidente informaria sobre o caso ao congresso, os auxiliares não
precisariam testemunhar.
Com
efeito, logo depois da reeleição, Nixon reuniu todo o pessoal
ligado à burocracia da Casa Branca e agências, agradeceu
profusamente os seus auxílios, e em seguida Haldeman foi ouvido
demitindo a todos conjuntamente.
Porém
o Congresso fez passar logo em seguida, o orçamento da despesa para
melhorar a qualidade da água, antes vetado por Nixon, enquanto a
imprensa redobrava as histórias ligadas a Watergate e aos fundos
ilegais de campanha. Os democratas obtiveram então no senado um
comitê de investigação sobre Watergate. Sam Erwin desponta como
aguerrido investigador, não se deixando cooptar em quaisquer das
tentativas do staff Nixon. A partir desse ponto, a Casa Branca se
tornara porta-voz apenas de seguidas negações das histórias da
imprensa, cada negação desafiada pelo que se descobria a seguir.
A
doutrina Nixon do privilégio do Executivo não funcionou, e a certa
altura, Ehrlichman e Haldeman foram encarregados por Nixon, de
investigar sobre o que realmente havia acontecido. O apurado por
Haldeman não teve repercussão por que segundo Ehrlichman, pode não
ter sido recebido por Nixon. Ehrlichman, em seu próprio documento,
reconstitui as responsabilidades desde Hunt e Liddy até Jeb Magruder
da Casa Branca.
Logo
que Ehrlichman completara o documento de sua investigação que devia
apresentar a Nixon, o próprio Magruder se dirigiu a Ehrlichman e o
informou da responsabilidade pessoal no caso. A oferta do plano de
Hunt e Liddy foram feitas a Mitchel por Magruder e La Rue na Flórida,
e depois Dean subornou Magruder para mentir, assim como para destruir
o seu “diário”.
Ehrlichman
se encaminhou imediatamente a Nixon, para informar do apurado. Então
Nixon recusou-se a ouvir Ehrlichman, ou mesmo a tomar conhecimento do
conteúdo do documento da apuração dos fatos. Nixon, juntamente com
Petersen, ouviram, inversamente, a Dean, que mentiu sobre Ehrlichman,
afirmando que ele conhecera antes o plano.
Somente
nesse ponto Ehrlichman se torna preocupado com o rumo dos
acontecimentos. Ele entende que Nixon perdera o controle da situação,
que estava temeroso sobre o que podia revelar o conteúdo do cofre de
Hunt na Casa Branca, antes de saber que Pat Gray destruíra os
papéis. Ehrlichman notifica Nixon de que as declarações de Dean na
imprensa poderiam levar ao impeachment. Ao invés de clemência, como
requisitara Ehrlichman, Nixon requisita que ele renuncie ao cargo,
junto com Haldeman. A essa altura, Ehrlichman aparecia acusado nas
histórias da imprensa relacionadas a Dean, e o Los Angeles Times
circulou uma nota falsa sobre Ehrlichman fazendo favor ilegal a
Robert Vesco, um contribuinte da campanha de Nixon.
Nas
duas versões, de Magruder e de Ehrlichman, as informações que Hunt
e Liddy ofereciam obter para a Casa Branca, com possível colaboração
do pessoal do Creep e Sloan levantando fundos, foram primeiro
interessantes a John Mitchel. Ehrlichman soubera por Dean que
Mitchel, inversamente, havia recusado um plano ridículo, como
infiltrar prostitutas e iates na convenção dos democratas, para
fins de escândalo. Mas depois revelaram-se inúteis. Outros planos
foram oferecidos, mas eram muito caros.
Na
versão de Ehrlichman sobre o verdadeiro plano aprovado, o resultado
foi inicialmente nulo porque o aparelho de escuta era defeituoso,
então o plano foi sustado por Mitchel. Mas por conta própria Hunt e
Liddy voltaram ao local do crime, para consertar o aparelho e colher
mais documentação - nesta versão, a escuta clandestina havia sido
instalada primeiro em maio.
Sobre
o sistema das fitas na Casa Branca, Nixon dissera a Ehrlichman que
gravava menos que Kennedy, que frequentemente os governos o faziam, e
que, quanto a ele mesmo, quando se tratava de escuta clandestina, seu
governo só estava interessado em informações relativas a grupos
estrangeiros em contato com subversivos. Vimos acima que Mitchel foi
implicado na investigação da imprensa, o que era esperável devido
à ligação com Liddy. Mitchel foi na ocasião afastado da campanha
da reeleição, Macgregor tendo-o substituído.
Quando
depois Nixon pediu a renúncia de Ehrlichman e Haldeman, a cena que
Ehrlichman reconstitui é porém extremamente emotiva. Nixon chora,
assim como o próprio Ehrlichman. A injunção é absolutamente além
do que Nixon queria, afirmara este. Após mais um encontro com Nixon,
em que Ehrlichman não se mostra mais tão confiante nele como até
então, nunca mais Ehrlichman esteve com Richard Nixon pessoalmente.
Como sabemos, a culpa de Nixon foi apurada, e Ehrlichman estava o
tempo todo, e até durante o processo quando ainda o negava
convictamente, enganado.
Ehrlichman
esteve preso em Sanford, Arizona, por dezoito meses. Foi cassada a
autorização para atuar como advogado, e durante algum tempo ele e a
família sobreviveram da contribuição de amigos, além de
economias. Durante o processo, se divorciou da esposa. Recebeu apoio
de muitos americanos que lhe visitaram na prisão ou escreveram
cartas encorajadoras. Como cristão, tornou-se mais fervoroso durante
a crise. Retornou da prisão fixando-se em Santa Fé.
e)
A Modernização
A
cobertura do Vietnã pelo Post não foi um evento decisivo
historicamente. Naquele momento, o New York Times ainda era o modelo,
e de fato o jornal ganhou dois Pulitzers pelo Vietnã, seus heróis
em campo tornaram-se lendários, como Johny Apple, Neil Sheehan,
Charles Mohor.
Bradlee
não se interessava particularmente pelo Vietnã, ainda que o Post
tivesse em Ward Just um correspondente notável. Ele foi um herói na
guerra, ferido na batalha, exigindo ser tratado depois dos outros
pelo fato dos soldados serem mais necessários, ganhando assim
reputação entre os militares. Mas Ward era um romancista, o que lhe
interessava era ser o Hemingway do Vietnã, captando todos os
aspectos da bravura humana em situações singulares, porém não os
aspectos políticos. E o Vietnã era realmente político, o que o
Post não admitia revelar. As histórias de Ward eram pequenos
romances, mas a história real, a que informaria da situação
concreta seria uma que mostrasse ser o Vietnã para os USA um
capítulo da bravura perdida, totalmente inútil.
Não
foi o Vietnã que serviu de teatro interno para Bradlee derrubar
Wiggins, apoiando-se na completa devoção de Kay à sua liderança.
Assim Kay até mesmo superou algo do seu conservantismo, aceitando o
segundo casamento de Bradlee - na realidade ela não havia aprovado
Tony, a primeira esposa, mas gostado de Sally. A amizade de Bradlee a
fazia sorrir, como antes Phil, mas a fazia sentir-se moça,
descompromissada, mais do que Phil.
É
interessante que Sally Quinn seja lembrada por Ehrlichman, à página
58 do “Witness to Power”, como um exemplo da nulidade da imprensa
como veículo de informação segura, ao invés de simples
amplificação de opiniões vulgares. Ela escrevera uma nota no
Washington Post, em inícios dos anos setenta, sobre o engano de um
alto oficial da Casa Branca, que ao ser indagado sobre a
personalidade de Haldeman, respondeu com uma série de
características para depois ligar desculpando-se porque havia falado
na verdade de Ehrlichman. Sally continua porém informando que tal
engano era compreensível, uma vez que Ehrlichman e Haldeman eram
colegas de quarto na universidade, o que vimos ser verdadeiro, porém,
a partir daí, ela começa a listar uma série de características
que seriam comuns a ambos, as quais Ehrlichman se põe a desmentir.
Ao
invés do que Sally disse, Ehrlichman informa que ele não era
republicano nos tempos de universidade, somente Haldeman o era; que
este não era cientista cristão, somente Ehrlichman, que também era
o único dos dois que não bebia nem fumava. Ehrlichman lembra que
esse tipo de erro foi comum por todo o tempo do governo Nixon, e que
o próprio Nixon tinha dificuldade em chama-lo pelo nome porque o
confundia com o de Haldeman. Em 198O, quando Nixon enviou a
Ehrlichman o “The Real War”, de sua autoria, na dedicatória
grafou “for John Erlichman”.
A
princípio Kay estava embaraçada sobre como se inteirar não somente
dos negócios, mas dos próprios assuntos que moviam o interesse dos
que publicavam no Post, e Walter Lippman, um dos jornalistas
considerados intelectuais do Post a aconselhou a não se intimidar, a
convidar os repórteres para absorver informações deles, apenas
transformando os assuntos em temas de conversação, superando assim
a barreira dos arcanos de conhecimentos técnicos.
Isso
funcionou bem, e quando ela escolheu Ben Bradlee para editor, a
combinação revelou-se exitosa porque Bradlee estava justamente
interessado num jornalismo não acadêmico, numa modernização que
se sublevasse contra aquilo para o que ele não tinha paciência, o
trabalho sério, lento, tenaz - conforme os adjetivos de Halberstam.
Para quem o “jornalismo, com sua adoração do novo às expensas do
antigo, era exatamente assim” (p. 749).
Se
alguém contesta a definição do jornalismo assim apresentada, não
é que não tivesse pares que o apoiassem. Dessa forma, Halberstam
voluntariamente se alinha numa das partes do conflito que estava de
fato ocorrendo, entre a modernização de Bradlee e o domínio já
estabelecido de Wiggins. Ainda que Halberstam tenha coberto com
cuidado a parte que saiu perdendo na história, especialmente Walter
Lippman, e mostrando como isso ocorrera de um modo tão injusto.
Principalmente como ocorrera de um modo tão generalizado, não
apenas o interior do jornal, mas a própria inteira cidade de
Washington. Tudo o que podia agora ser alinhado com Wiggins como
representante da mentalidade de Phil Graham estava sendo excluído.
Mas a luta pela modernização no interior do Post era o foco do que
repercutia em Washington, e Lippman, que não concentrava nenhuma
simpatia pela dominação férrea de Wiggins, ou pela guerra de
posição, sofreu um ostracismo penoso, não só porque ele havia
sido o homem de Phil, mas por que ele havia mudado de ideia a
propósito do Vietnã, e se tornado crítico da guerra.
Lyndon
Johnson tornou-se inimigo de Walter Lippman, e a linha do Post não
estava contra a guerra. Ele enfrentou a batalha simplesmente
abandonando a sua querida Washington, onde antes havia sido tão
feliz, onde suas festas antes haviam atraído tantas pessoas
importantes, na verdade o critério de quem era importante era até
aí ser o convidado de Lippman. Ele abandonou a cidade depois que
suas festas já tinham mudado de personagens convidados, não eram
mais os antigos amigos, ou os grandes personagens, mas apenas todos
aqueles que estavam contra a guerra. Lippman tentou se adaptar em New
York, mas não conseguiu com um apartamento, apenas quando
transferiu-se como hóspede permanente a um hotel.
A
cidade de Washington não trazia mais prazer, tornara-se fria,
pesada. Havia claramente perseguição política de pessoas. Como se
exemplifica pelo fato do governo, ainda que antes de Lippman ficar
contra a guerra do Vietnã Johnson tivesse sido seu amigo,
expressamente o marcar como inimigo político da administração.
Um
pouco mais de tempo seria necessário para a opinião pública se
tornar anti-guerra, muito mais revelações das atrocidades do
exército americano, ou da precariedade das condições da luta, ou
das mentiras do governo à nação. Em todo caso, aqueles foram anos
em que a situação política e social tornara-se complexa porque
Lyndon Johnson polarizava duas posições ao mesmo tempo, o apoio à
guerra do Vietnã e o apoio à questão racial - nisso inteiramente
contrário a Nixon, que segundo Ehrlichman, acreditava pessoalmente
na inferioridade mental do negro.
Segundo
Halberstam, porém, o compromisso das pessoas esclarecidas com a
questão racial estava declinando. Ainda que Halberstam não o
deduza, uma leitura de Ehrlichman em conexão com o que ele revela
sobre a mudança em questão parece autorizar supor ver aí uma causa
da eleição de Nixon. Em todo caso, é o pivô da oposição de
Bradlee a Wiggins, este braço de Johnson no Post, um pivô do que
para Bradlee definia a modernização. A questão racial pertencia ao
antigo, não ao novo, e assim se definia gradualmente o contexto da
modernização enquanto se aproximavam os anos setenta. Já havia
acontecido a integração, mudanças sociais correlatas já haviam
sido implementadas, mas novos problemas sociais foram criados em
decorrência.
O
que era considerado antigo agora era a atitude de alinhamento
unilateral com a causa racial assim como ela podia ser suportada
antes das mudanças, ou seja, uma atitude de simples recusa de se
conscientizar dos novos problemas. Wiggins começou a ter que
censurar histórias trazidas pelos repórteres, à medida que os
conflitos de rua não eram minimizados pelas medidas de integração.
Como a de uma sublevação de rua depois de um jogo de futebol
americano entre times de brancos e de negros. Ou da migração de
brancos das cidades do interior por causa dos problemas criados nas
escolas pela integração de alunos negros, uma história que vinha
da reportagem feita no próprio departamento de saúde.
O
ponto da ruptura entre Bradlee e Wiggins expressou-se na briga em
torno de uma foto, revelando um homem branco, no interior de uma loja
de roupas, com uma espingarda na mão, esperando, devido ao caos pelo
atentado a King, “página 1”, ordenava Bradlee, “não”,
contestava Wiggins. A foto saiu na página 1, mas não com a
amplitude que Bradlee desejava (p. 755).
A
meu ver temos aí a origem, não tanto de uma regressão na
trajetória da superação do conflito social, mas do que está hoje
muito expandido na televisão norte-americana, internacionalizada
pela tecnologia, como o apartheid etário - contra os idosos, ao
contrário do cinismo dos search de internet, que põem sites
defendendo jovens quando se pesquisa a expressão “apartheid
etário”, com se as vítimas fossem eles. Quando se pesquisa
“terceira idade”, nas páginas do “search” , o Google, ao
lado da lista dos sites adiciona uma nota gênero enciclopédia,
constando nas “palavras associadas” , apenas “morte”, “mal
de alzenheimer”, “velhice”.
Atualmente
o Brasil protagoniza a triste radicalização desse
sócio-apartheidismo, que se irradia pela televisão internacional
como obsessão do romance do homem velho com a menina nova, a
exclusão total da “mulher”, a partir de campanhas fascistas como
a que apregoa que com a crise econômica o pagamento de
aposentadorias só poderá ser feito com a imposição de uma taxa a
toda a população. O que é calúnia, uma vez que as aposentadorias
são pagas com os depósitos feitos pelo próprio trabalhador antes
de se aposentar por um período muito longo de tempo, mais de trinta
anos de contribuição (nota em 2017: o governo, que desde há um ano
está atrasando sistematicamente por meses todos os salários dos
funcionários públicos, aumentou o desconto para 14% do salário
mensal).
O
governo ainda na vigência do “pt”, indo à televisão para dizer
que as aposentadorias atrasadas só poderiam ser pagas “tirando”
de outros quesitos, assim jogando a população contra as pessoas
mais velhas, o que estão fazendo por vários meios, também não
lembra de informar que o retorno do desconto para aposentadoria só
ocorre se o pagamento não for interrompido antes por qualquer
motivo, neste caso não resulta o montante do que pagaram por anos
senão na apropriação pelo governo. Apresenta este as coisas como
se a aposentadoria dos idosos fosse uma esmola arrancada dos
trabalhadores que estão atualmente na ativa.
O
governo, pretensamente “trabalhista” mas na realidade seguindo os
Friedman e Haekel do neoliberalismo econômico, age como aquela
mulher que conheci dos tempos de Reagan, que ao casar com um rapaz
divorciado de uma mocinha de pouco mais de quinze anos, com uma filha
no colo, reclamava que esta aceitasse pensão dele como “esmola”
- sem notar que mesmo que quisesse a moça não poderia recusar a
pensão, que não era para ela, e sim para a filha, uma vez que essa
moça não requerera pensão para si, e o juiz apenas destinou a que
era devido ao bebê de colo. Depois, quando a menina cresceu um
pouco, a madrasta mudou de tática, passando a exigir que ela
chamasse a madrasta de mãe. Ao entrar na adolescência, a menina
manifestou sintomas, tendo sido diagnosticada esquizofrênica. Mas a
essa altura também a primeira madrasta já havia há muito se
divorciado do pai, por ter descoberto a infidelidade dele - o qual já
se “casou” dezenas de vezes desde aí.
Assim
comprova-se que doutrinas ditas científicas como o neoliberalismo de
Friedman não passam de mesma coisa que comportamentos maníacos de
doentes impingindo doença às pessoas. Por outro lado há realmente
o problema de meninas novas que estão, atualmente, seguindo a
propaganda televisiva, se casando com homens idosos, aposentados,
colocando o problema da pensão para o Estado, pois não são
mulheres idosas como os que se aposentam.
Se
ao longo do século XIX a modernidade originou o abuso de indivíduos
que a cada geração, se supondo donos da verdade não são mais que
assassinos da verdade anterior, o quadro que estudamos da evolução
do conflito social nos USA é mais efetivo da patologia social como
origem.
As
cidades tem se tornado desde então antros de delinquência juvenil,
os muros todos imundos de poluição visual, todos os dias se
acrescem de imagens aberrantes, palavrões, violência dos direitos a
partir de intrusão digital, neonazismo, etc. A partir dos anos
noventa, a integração racial no próprio partido republicano acabou
com todo o sentido possível na atribuição de linha política
definida apenas pela causa racial.
A
repressão no Brasil, na campanha nazista da mídia (“drogas nem
morto”) de Bush a Clinton, campanha de milhões de dólares,
massificada por todos os menores meios impressos, das capas de
caderno escolares até propagandas totalmente aversivas à
consciência humana, foi feita concomitante à inculcação da
ideologia do negro puro, contra jovens brancos que para efeitos de
roubo de propriedade para apaniguados políticos, eram caluniados ou
meramente associados com o uso de drogas. Porém essa campanha apenas
cumpriu objetivo de implementar pelo fascínio terrorista de mídia o
neoliberalismo econômico oficial. Não ocorreu qualquer minoração
do problema do crime organizado - bem pelo contrário,
intensificou-se enormemente na década de 2000.
O
próprio Halberstam indulge nisso, como já acentuei, ao contrário
de Ehrlichman, que publicou a carta de Noyer, do Star, a Nixon. Uma
carta amigável, de alguém que sabia gozar das boas relações com o
presidente, mas contendo críticas, tais como a de que muitas pessoas
ainda em boas condições de trabalho, alta performance intelectual e
que sabiam lidar bem com os problemas, estavam sendo deslocadas por
pessoas apenas porque eram da nova escola de administração, cujos
instintos eram simplesmente de deixar as coisas seguirem por si só.
“Eu acho que esse é um comentário crítico razoável, sem
implicações severas”, ajunta Noyer, citado por Ehrlichman, que
considerava tais críticas como importantes (p. 306).
Mas
Nixon não as acatou e a modernização na acepção de simples
substituição de pessoas, cortando nomeações com ligações
estratégicas apenas por questões etárias, seguiu conforme o que
ele já havia planejado. O que o próprio capitalismo a essa altura
não estava fazendo, como informa Cl. Julien, registrando que
generais do exército americano aposentados eram pagos regiamente por
multinacionais interessadas nas ligações deles com pessoas que
pudessem obter as permissões necessárias para o que fosse
considerado oportuno aos negócios.
Assim
vemos que o Post prestou mais serviços a Nixon do que talvez pudesse
se conscientizar, lutando contra os ideais de patriotismo que fizeram
de Johnson herói contra o comunismo vietnamita, o que Nixon não
tencionava ser e o que significava estar diretamente contra Wiggins;
atuando contra radicalismos da causa racial, como algo que Johnson
igualmente protagonizava, e assim se colocando diretamente contra Ben
Gilbert, o promotor da causa racial no Post dos tempos de Phil. Ou
promovendo a ideia da modernização na base de uma simples exclusão
de pessoas.
Foi
Watergate, contudo, que simbolizou a tomada do poder por Bradlee,
este homem que queria tanto ter sido um judeu (o que ele não era), e
isso num momento em que os negócios do Post estavam mudando para
operar como sociedade anônima. Uma mudança que Kay não queria, que
a assustava porque para ela tratava-se sempre de manter o negócio em
família, porém, como Otis Chandler a aconselhou, ele mesmo já
tendo feito o mesmo, não era uma questão de escolha, era o que
determinava o mercado.
Assim
porém Bradlee teve que renunciar ao cargo para não revelar o
montante do salário, o que teria que fazer conforme as regras do
mercado aberto. A essa altura, ele ganhava em torno de 100.000
dólares. A empresa gastara também milhões de dólares com
advogados, para defender-se contra os processos do governo.
Ao
contrário do que temia, Kay revelou-se um sucesso em Wall Street,
não obstante ela ter temido o relacionamento com os homens de
negócios, que não eram do mesmo feitio ou mentalidade que seus
repórteres e editores. Ela os agradou, ainda assim, tornando-se uma
mulher requestada entre os integrantes do clube fechado dos grandes
magnatas norte-americanos. A essa altura, pouca gente detinha tanto
poder em Washington como Kay Graham, não obstante ao longo do drama
jornalístico de Watergate, ela e seus repórteres estarem sendo
tratados como párias por toda uma facção na cidade, entre a
imprensa leal a Nixon e os nixonianos eles mesmos.
Porém,
se Watergate obteve para Ben Bradlee o que ele realmente queria, a
vitória contra Wiggins, como vimos a glória do Post não foi
totalmente imerecida, porém não inteiramente devida como a algum
atuante único na história. O Los Angeles Times teve atuação
decisiva, mas a essa altura, o peso na balança foi de fato contado
pelas decisões tendo curso na CBS.
4-
A Escalada da Violência
a)
O Cômputo das Consequências
Hoje
nós conhecemos o horror da dominação da mídia na vida cotidiana,
a partir da perseguição fatal a pessoas privadas, como Michael
Jackson e Lady Diana Spencer; a partir do uso indecente de imagens
extorquidas do cotidiano dos cidadãos que não tem governo para
defende-los porque são governos dispostos pelos aparatos de mídia,
associados ao capital de mídia; a partir da distorção sistemática
da informação, calúnias, imposição de modelos podres, eliminação
de pessoas comuns pelo banditismo da mídia; a partir do terror
tecnológico, a lavagem cerebral por dispositivos aversivos à
escrita, totalmente desrespeitosos à subjetividade e sabotadores do
exercício pensante subjetivo, com o fim da legalidade pela entrega
dos documentos públicos a impérios de firmas privadas, total
avassalamento dos direitos das pessoas físicas, como decorrente do
monopólio da microsoft no Brasil, a devassidão da venda de
aparelhos intrusados por criminosos.
A
escalada da violência da mídia, configurando o que hoje está
definido como dominação planetária do capitalismo info-midiático,
teve porém origens singelas, não começou como um plano orientado.
b)
Trajetória da CBS
A
trajetória da CBS se inicia com o século XX, quando Isaac Paley, um
judeu russo imigrando aos Estados Unidos, sonha construir para o
filho uma riqueza invejável. Próspero na Rússia, mas descontente
com as restrições que sofria oriundas do anti-semitismo europeu,
ele não conseguiu o que pensava obter nos USA, e o filho, Sam Paley,
teve que trabalhar muito, ao invés de ser um mimado scholar.
Porém
esse filho pôde, quando ele mesmo se tornou pai, dotar o seu próprio
filho da fortuna que precisava para escolher como queria sua
carreira. Sam Paley tornara-se um grande homem de negócios, um
self-made-man milionário, exitoso na indústria de cigarros. Seu
filho, Bill Paley, pôde estudar nos melhores colégios dos Estados
Unidos.
O
neto do imigrante russo revelou -se porém talentoso no rádio,
apresentando um programa chamado Miss La Palina - naturalmente, o
nome derivado dos cigarros do pai, o nome da família. O pai não
acreditava no rádio, já havia tentado e não dera certo. Mas as
pessoas começaram a perguntar a ele, nas ruas, porque havia sustado
o Miss La Palina, e ele quis checar com o filho o segredo do sucesso.
O
rapaz havia apenas empregado uma boa cantora e uma orquestra,
aplicando não conhecimentos especializados, mas sua experiência de
ouvinte dos programas exitosos, algo que ele havia acumulado. Ao
contrário do pai que investira milhares de dólares na propaganda do
cigarro no rádio, sem sucesso, com poucos dólares o filho obtivera
enorme êxito, aumentando as vendas do cigarro devido à propaganda
durante o programa.
O
pai comprou assim o que era necessário para o filho, Bill Paley,
iniciar uma companhia de rádio duradoura, que marcou época na
história dos Estados Unidos, e que mais tarde se tornou a CBS
Televisão. O negócio dos cigarros foi vendido a bom preço depois
da grande depressão, e o investimento em rádio tornou-se um negócio
maior que o dos cigarros.
A
trajetória da CBS ilumina muito sobre as relações do business de
mídia com o grande capital e a trajetória política do governo
americano. Mas até 1945, o que se pode constatar da convergência
entre os mass-media e a história política nada tem de desabonador
para o business da CBS. Inversamente, na segunda guerra
mundial a CBS foi um canal importante da união da nação, um marco
histórico na formação da consciência do país.
A
contratação de Edward Murrow foi o acontecimento decisivo. Conforme
Halberstam, se Murrow é historicamente o responsável pela
moralização da cadeia de transmissão em massa e tornou o rádio
jornalisticamente respeitável, nessa época a televisão ainda não
o era, e Murrow também se tornou o responsável pela moralização
da televisão, aventurando-se corajosamente, indo de uma posição
confortável no rádio para inovar o trabalho em TV.
O
homem Ed Murrow, na expressão de Halberstam, “era mais um
educador que um jornalista, e cuja carreira e a tecnologia da qual
fez parte foram um dos condutores da transformação da América, de
uma sonolenta nação isolacionista pós-depressão, a maior
superpotência internacional.” (p. 59)
De
fato, a voz de Ed Murrow foi a ligação dos americanos com a Europa,
desde a tomada da Áustria pelos alemães em 1938, quando Murrow, da
Áustria, anunciava para milhões de ouvintes: “esta foi
designada uma conquista sem sangue, e em certo sentido isso é
verdade, mas eu gostaria de poder esquecer o aspecto assombrado dos
rostos daquelas pessoas na imensa fila nos bancos e agências de
viagem. As pessoas tentando ir embora. Eu gostaria de esquecer o
aspecto de cansaço vão dos oficiais do exército austríacos, o
ruído surdo dos tacões das botas, a destruição dos tanques de
manhã na Ringstrasse, e as lamentáveis confusão e incerteza
daqueles forçados a levantar a mão direita e gritar “Hy Hitler”
pela primeira vez. Eu gostaria de esquecer o som do vidro quebrando
enquanto as ruas delojas de judeus eram patrulhadas, os clamores e as
chacotas dirigidas àqueles forçados a limpar a calçada”. (p.
66)
Hoje
podemos questionar que a história fosse apresentada como algo que
devesse ser esquecido, antes que aquilo que precisamos vitalmente que
seja sempre mais revelado e conhecido, de modo que o neonazismo atual
não possa contar com a ignorância do público a propósito dos
campos de concentração e inominável violência racial. Na Europa,
com efeito, multiplicaram-se os monumentos em homenagem às vítimas
raciais da Guerra, para que o tempo não o oblitere, como o
“Monumento aos Heróis do Gueto”, em Budapeste. Porém podemos
compreender a força impactante que movia o locutor, perante um
horror para o qual ninguém educado pelo mito da modernidade
ocidental havia sido preparado.
Todas
as noites, enquanto Hitler estragava a paz do mundo inteiro, a
história chegava à América pelo rádio. Em New York, Kaltenborn,
ancorando o show, vinha e anunciava: “Chamando Ed Murrow,
chamando Ed Murrow...”.
Uma
década antes de Ed Murrow, como o que conduziu à sua contratação,
o interesse de Paley pela moralização do jornalismo havia sido
despertado pelo trabalho de Ed Klauber. Conforme Halbertam, “Klauber
educou Paley a propósito da importância das notícias, mas apenas
porque Paley queria ser educado.” (p. 53)
Antes
de 1930, quando Klauber foi para a CBS, o ramo de notícias no rádio
estava totalmente corrompido, existia apenas como um pretexto para a
propaganda (“advertising”). Klauber transferiu os conhecimentos
que acumulara atuando no ramo de notícias em jornal de elite para
este novo meio com alcance de massas, tornando possível a vinda de
Murrow e seus repórteres.
Klauber
foi exceção num meio de imprensa escrita, porque ele não se
mostrou automaticamente hostil ao rádio, não se importava com o
dano potencial que a propaganda poderia causar por vender produtos
pelo rádio. Ele pensava que as pessoas tinham condições de decidir
sobre o que lhes era apresentado como produtos para comprar, pois era
o que conheciam por experiência própria, e que elas não iriam
comprar coisas sem qualidade apenas porque estavam sendo oferecidas
por algum tempo no rádio. Mas jornalismo não era a mesma coisa, as
pessoas comuns não podiam julgar sobre o que não cabia na sua
experiência cotidiana, sobre as pessoas, assuntos, lugares e eventos
com que o jornalismo lidava. Assim as pessoas comuns não estavam
preparadas para julgar o jornalismo.
Na
opinião de Halberstam, sem Klauber o rádio na América iria
rapidamente degenerar numa tal vacuidade que finalmente se tornaria
um sistema controlado pelo governo, assim como o sistema francês - o
que Halberstam sempre desaprova. Ou então iria se limitar a
programas de notícias de tipo Walter Winchell. Halberstam afirma que
pelo trabalho de Klauber na rádio CBS, em uma década o nível de
integridade e inteligência desta ultrapassava o da imprensa
tradicional americana em 90%.
Fred
Friendly, contratado pela CBS para perpetuar a linha de Klauber, e
que depois se tornou intimamente associado a Ed Murrow, explicava aos
repórteres que eles deviam esclarecer ao público, como analistas, o
conteúdo das notícias obtidas com as fontes. Eles deviam mostrar os
fatos pelos dois lados, mostrar contradições relativas ao que já
se sabia antes, e assim por diante.
Eles
deviam estar conscientes, sobretudo, de que numa democracia as
pessoas não devem apenas saber, mas compreender o que sabem, avaliar
e julgar, mas não deviam eles mesmos julgar pelo público.
Para
exemplificar a atuação de Klauber, Halberstam registra sua oposição
a Kaltenborn, um dos novos analistas que porém Klauber criticava por
usar demasiadamente a primeira pessoa do singular.
A
vinda de Kaltenborg marcara a vitória contra a brutalidade, a
vitória da inteligência, e ele era um observador arguto. Um
profissional que não podia ser desafiado. Prejudicado pelo uso da
primeira pessoa, tinha porém além disso um bom domínio da língua.
Todos pensavam na CBS que ainda assim Kaltenborg não iria longe por
causa da mania do “I”, até que Klauber assinalou uma vitória
importante, expressando que não queria interferir com sua liberdade
de expressão, ainda que não permitindo que ele dissesse “Eu
ouvi o discurso de Wendell Willkie na noite passada. Foi admirável”,
ele teria que anunciar “milhões de americanos de ambos
os partidos ouviram o discurso de Wendell Willkie na noite passada.
Foi admirável.” (p.56)
Klauber
foi o predecessor de Frank Stanton. O trabalho de lidar com as
paixões e intensas controvérsias despertadas pelo tipo de situação
gerada pelo negócio de notícias e temas públicos, como o
exemplificado por Kaltenborn, ficara com Klauber, liberando assim o
verdadeiro responsável, o patrocinador e proprietário Bill Paley.
Stanton sucedeu Klauber na mesma função. Porém Stanton desenvolveu
uma rivalidade frontal contra Ed Murrow, que na era Klauber se alçara
a um sucesso estrondoso, de projeção nacional.
O
motivo foi que o segundo casamento de Paley, com Barbara Cushing
Mortimer, filha de um célebre cirurgião de Boston, havia sido uma
cerimônia íntima. Stanton aceitou a desculpa como válida para não
ter sido convidado, até que, ao rodar o filme da reunião em casa de
Paley, descobriu que Ed Murrow havia sido convidado. Stanton ficou
deveras decepcionado, constatando que a despeito da importância do
seu cargo, ou da magnitude do seu salário, para Paley ele era apenas
um empregado, não um amigo íntimo como Ed Murrow, o verdadeiro
homem de sucesso. Dessa inimizade não brotou nenhum fruto imediato,
mas na ocasião propícia Stanton soube se vingar.
Paley
havia se casado uma primeira vez com Dorothy Hearst, uma intelectual
partidária de Roosevelt, com visão independente. Nessa época Paley
já havia obtido invejável posição na sociedade, mas era assediado
pela consciência de ser judeu, e ele não dizia sobre suas origens
que era um judeu russo, ele se apresentava quando era preciso se
referir a isso, como judeu americano. Na verdade o anti-semitismo tem
um triste papel nessa época também nos USA. Phil Graham não sabia
o quanto, assim convidou Bill Paley para associar-se a um clube
elegante, ao que Paley recusou, aduzindo que não iriam aceitar
registra-lo devido ao preconceito. Phil teimou, ele mesmo iria
apresenta-lo como amigo pessoal, mas para vergonha de Phil realmente
o clube barrou a entrada de Paley. Como vimos, o próprio Phil
refletiu o anti-semitismo como sintoma da doença mental, chegando ao
preconceito contra os próprios filhos e a esposa.
Dorothy,
divorciada de John Hearst e a favorita do velho William Hearst ele
mesmo, aquele que provocara a guerra da Espanha em inícios do
século, era a jovem mais bonita de Los Angeles, brilhante e
enérgica. O casamento com Paley devia aproximar a este da
mentalidade liberal. Na verdade, Dorothy era demasiado crítica, e
Paley, um homem traumatizado pelo preconceito, mas que pelos
próprios méritos fizera uma carreira e fortuna invejáveis,
precisava de incentivo e consideração. O divórcio se seguiu algum
tempo depois.
Babe
Cushing era uma moça extremamente prendada, uma socialite que
tornava qualquer lugar onde fosse um lugar da moda. Bonita e
elegante, sabia receber e frequentar, suas respostas para tudo eram
sempre bem equilibradas, fazendo Paley se sentir confiante, suas
ações eram sempre as mais apropriadas, de modo que ele se sentia
relaxado. Conforme Halberstam, as outras moças procuravam um modelo
externo de conduta, mas Babe, inversamente, agia orientada apenas
pelo seu interior.
O
próprio Paley era um homem extremamente bonito. Babe Paley era
considerada então a mulher mais bela da sociedade, porém Marella
Agnelli, mulher do proprietário da Fiat, também era muito elogiada,
e certa vez Kay Graham perguntou a Truman Capote qual das duas era a
mais bonita. Capote hesitou perante a dificuldade de elucidar a
questão, mas afinal respondeu “bem, minha cara, eu creio que se
ambas estivessem numa vitrine da Tifany Marella custaria um pouquinho
mais caro” (p. 177).
Em
todo caso, isso ilustra como, ao contrário de Kay e Phil Graham,
Bill e Babe Paley formavam um par perfeito. Ela o aproximou do
Partido Republicano, ao qual Paley se converteu, tornando-se o
protetor de Ike Eisenhower ao longo do que Halberstam designa a era
dourada da economia americana em matéria de propaganda
(“merchandising”), logo após a guerra contra Hitler.
A
sociedade americana inteira parecia ter se concentrado na classe
média, carros, casas e máquinas de lavar eram oferecidos a todos,
todas as coisas, todos os luxos pareciam subitamente possibilitados,
havia lucros abundantes, e particularmente havia os novos meios de
comunicação, o rádio e a televisão. Os Estados Unidos estavam
ricos, enquanto o resto do mundo estava pobre. Mas politicamente, ao
contrário, o momento americano era depressivo, um tempo obscuro (“a
dark time”), uma era de suspeitas que terminou na paranoia do
McCarthysmo (p. 180).
Conforme
Halberstam, a contradição norte-americana entre o bem estar
econômico e a patologia política produzira na CBS uma tensão
única. Por um lado, os lucros eram tão imensos, a riqueza tão
largamente produzida, que nenhum dos executivos da CBS queriam se
preocupar com o problema político da nação, e assim, por outro
lado, eles foram como que automaticamente cooptados ao papel
a-crítico de simples porta-voz da histeria nacional. A consciência
crítica se tornara de repente cara demais para o padrão de lucros
da CBS. Quem pagou o preço foi principalmente Ed Murrow, que com
Klauber havia construído a assim designada tradição
Klauber-Murrow, signo de respeitabilidade e honestidade que foi
demolida a partir da conversão de Palley aos republicanos como
expressão de sua própria transformação em tycoon, isto é,
magnata.
O
rádio, mas especialmente a televisão, como informa Halberstam,
ostentam uma cisão interna entre o que é designado serviço
público, o setor de notícias, e os programas como o que serve de
fundo para a propaganda - assim o Pulitzer do Post por Watergate foi
pelo quesito serviço público. Esses dois rumos do negócio são
inconciliáveis, porém, e o serviço público de hábito se torna
apenas um pretexto para o incremento da propaganda. Na CBS foi o que
ocorreu, enquanto a NBC, que antes havia sido líder mas depois fora
deslocada desse status pela CBS, tornou-se inversamente mais aplicada
como veículo de notícias.
A
essa altura, tanto Paley já estava relacionado pessoalmente ao
partido Republicano, quanto o rumo dos negócios da CBS se esmerava
no setor de notícias apenas para manter a fama, pois durante os anos
cinquenta ela era, já como televisão, o maior meio de propaganda do
mundo, um meio de entretenimento de massas. Foi a CBS que transformou
a veiculação da propaganda, tornando um programa compartilhável
por vários anunciantes. O critério do que chamamos ibope tornara-se
o único como critério de seleção do que omitir ou mostrar. Assim
o patrocínio converteu-se num controle explícito sobre a
programação durante a guerra fria.
Nesse
ponto há uma ambiguidade, contudo. A junção público-patrocínio
que embasa essa consideração de Halberstam, logo se contrasta por
acontecimentos que mostram direcionamento político explícito
refletindo a cisão do público e do capitalismo, de modo que os
interesses deste predominam na mídia, cujas leis de atração da
imagem formando um corpo de técnicas autônomas, acabam por alterar
o que era primitivamente a consciência pública.
Murow,
e num grau menor também Shirer, pontuam os episódios que ilustram a
crise na instituição a partir do objetivos gerados pela opção
pelos lucros, confrontados ao que antes havia sido a opção pela
qualidade da análise. Eles mostram o quão inexorável resultou a
linha de ação escolhida, assim como o peso das deliberações do
grande capital patrocinador.
A
tradição Klauber-Murrow foi construída, como vimos, pelo Paley
democrata ou ao menos liberal, não comprometido politicamente com o
conservadorismo republicano. Em 1936, Klauber recusara a oferta de
compra de propaganda na CBS, pelo partido republicano, sem qualquer
reprovação por parte de Paley. Recusara, pois, a junção da
frivolidade da propaganda com a política como tema importante,
atuando explicitamente segundo as regras da consciência democrática.
A
demolição da tradição Klauber-Murrow foi orquestrada pelo Paley
convertido ao conservadorismo republicano após 1947, ano do seu
casamento com Babe Cushing. Não se trata de um simplismo maniqueísta
na visão da história. Como vimos, Halberstam mostra que a
manipulação política da mídia começou com o partido democrata na
era F. D. Roosevelt, o primeiro líder carismático produzido
conscientemente pelo uso do rádio, e ao modo como a utilizou
Roosevelt, Halberstam associa um curso completo de manipulação, “a
textbook course in manipulation” (p. 19).
Essa
“nova ordem” introduzida por Roosevelt, foi também uma
invasão da vida privada, pela qual “o governo poderia penetrar
na existência cotidiana de quase todos os cidadãos, regulando e
ajustando suas vidas” - “ajuste” a objetivos alheios aos da
pessoa, obviamente.
Porém
como ilustra o padrão Klauber-Murrow construído sob os auspícios
de Bill Paley, a própria mídia se defendeu do dirigismo político,
ao menos enquanto os seus organizadores se consideravam a si mesmos
como cidadãos do país. O que muda sempre que eles deixam de se
considerar assim para se identificarem com o poder. É somente nesse
ponto que a história da CBS se torna exemplar da corrupção da
consciência pública e profissional pelo que se pode designar o
business de mídia.
Mesmo
considerando desse modo as coisas não são simples, e vemos que o
poder penetra na forma da coação econômica via patrocínio, mas
também na forma de ligações pessoais esperáveis do próprio
empresário de mídia que se torna grande.
A
cooptação resultar numa integração total do grande capital
incluindo a mídia como business não é o fenômeno que explica a
história, e sim o que deve ser explicado entre vários fatores
subjacentes, como por exemplo mecanismos de defesa psicológica
contra a constatação de estar sendo coagido a partir de uma ação
de classe e status abrangente, que ultrapassa a cisão de público e
privado uma vez que atua na esfera da passionalidade.
Assim
cooptado, ao longo dos anos cinquenta Paley pessoalmente trabalhou
contra a orientação de Murrow, que havia, em inícios dos anos
cinquenta, transportado o padrão da respeitabilidade, de sua atuação
no rádio para a televisão. Paley passou a trabalhar, portanto, para
destruir o que ele próprio havia tão ciosamente construído ou
ajudado a construir.
As
rupturas explícitas como crises na instituição, rupturas pessoais
de Paley com seus antigos amigos, e não importando o quanto estes
haviam se tornado importantes na consciência nacional, ilustram do
mesmo modo episódios seminais da guerra fria.
As
celebridades Murrow e Shirer eram alguns desses amigos. Shirer havia
sido o correspondente em Berlim da CBS, na segunda guerra, quando o
rádio era ainda o único veículo do jornalismo sério na mídia
elétrica, enquanto Murrow se celebrizara como correspondente na
Europa. Ambos eram também amigos íntimos, ainda que com uma
rivalidade subjacente como as duas vozes da nação, a qual os
identificava completamente não obstante cada um deles seguir seu
próprio estilo, o civilismo elegante de Murrow, a crítica mais
cerebral de Shirer.
Murrow
exigia dos seus repórteres inteligência e informação acurada, sem
ostentação de idiossincrasia, com um sentido alerta para o tipo de
receptor a quem estavam se endereçando. A equipe de correspondentes
estrangeiros da CBS, naqueles dias, sob a orientação de Murrow, se
orgulhava de que integrantes da CIA, os maiores experts da nação,
acordassem com o programa “Morning News Rondup”, além da leitura
obrigatória do New York Times.
O
rádio era uma tecnologia confiável, não interpondo coisa alguma
entre o texto do correspondente e o que ia ao ar, nenhum aparato de
produção ou requisito técnico. / p.188.
Quando
Shirer retornou aos Estados Unidos em 1945, porém, compreendeu que a
amizade com Paley esfriava paralelamente à expansão de suas
críticas ao programa de Truman para funcionários do governo, à
doutrina Trumam para a Grécia e a Turquia, e ao governo de Chiang.
Conforme Halberstam: “Muito sutilmente a norma para a maioria
dos jornalistas americanos estava se tornando a aceitação da Guerra
Fria, e de algum modo Shirer estava recusando se integrar nela.”
(p. 191).
A
ruptura explícita de Paley com Shirer ocorreu logo depois do retorno
deste, sob o pretexto da recusa de Shirer mudar-se para Chicago,
cidade de que ele não gostava. Paley havia aproximado Shirer do
milionário do chiclete, Phil Wrigley, para um almoço. Wrigley era
admirador de Shirer, e pretendera que este realizasse coberturas para
ele por uma soma considerável semanal, apenas devendo ir morar em
Chicago. Shirer já estava comissionado para lecionar nesta cidade,
porém não desejando mudar-se definitivamente. A recusa decepcionou
Paley, mas a partir daí, Shirer se tornou um problema porque suas
críticas políticas, feitas conforme a consciência liberal,
atraíram a hostilidade do patrocinador, J. B. William Company, e
Paley o demitiu.
A
decisão de Paley pode ter sido precipitada por sua decepção
inicial, ou não. Em todo caso, Murrow, que pessoalmente não
aprovara o arrojo de Shirer, interpôs-se, em nome da autonomia
profissional, organizando uma espécie de piquete pró-Shirer. O que
enfureceu Paley ainda mais, tornando sua decisão irrevogável.
Murrow,
responsável pelo setor, teve que assumir o ato de demissão de
Shirer, que por isso cortou a amizade, profetizando que também
Murrow seria vítima da censura institucional. Shirer escreveu,
depois, um romance tendo como alvo um personagem parecido com Murrow.
Murrow
começou na televisão, em 1951, associando-se ao produtor Fred
Friendly. A ruptura traumática com Shirer representara não apenas a
perda da amizade, mas também o enfrentamento de questões para as
quais Murrow não estava preparado. Optara pela convicção de que o
patrocinador podia escolher o profissional, porém não podia
controlar o conteúdo. Segundo Halberstam, ele sabia no entanto que
essa era uma opção claramente insatisfatória, pois uma vez
escolhendo o profissional muita coisa já estava pré-estabelecida,
não havia algo como conteúdo puro.
Sobretudo,
o incidente Shirer mostrara que já não era a CBS News quem tinha o
direito de limitar ou fomentar a carreira do profissional, mas sim o
patrocinador, o que implicava que já não era o melhor jornalismo,
mas sim o mais ofensivo, o que passaria a ser premiado. O início de
Murrow na televisão foi cercado por hesitação e cautela,
objetivando preservar a consciência profissional e as qualidades do
seu estilo.
O
talento de Friendly como produtor era bastante conhecido, porém do
mesmo modo a sua ambição. Ele moldou o novo Murrow televisivo,
convicto de que com Murrow atingiria as alturas a que sempre
pretendera. Ainda que naturalmente muito devido aos dotes e pretérita
celebridade de Murrow, o sucesso da fórmula Murrow-Friendly
resultara num hábito reiterado de Friendly começar uma frase
assumindo que ele era um simples garoto do interior para concluir
pela implicação de ter ainda assim inventado Murrow, omitindo que a
respeitabilidade de Friendly se estabilizara a partir de sua atuação
com o grande jornalista.
Em
1951, com efeito, o Hear it Now se transformava em See it Now. Foi
essa a época em que a aliança do business de mídia com o
governo e os interesses do capitalismo se tornou estabelecida em
torno da extensão da televisão a status de penetração nacional,
na atmosfera marcada pela guerra fria que confrontava os USA como
superpotência, à URSS com igual poder, ambos pugnando por maior
influência internacional. O business não pretendia prejudicar em
nada aos poderes da nação, julgando porém que isso significava
cortar a consciência crítica.
Com
o McCarthysmo, a caça do senador homônimo às bruxas do comunismo
local, muitos profissionais de mídia foram atingidos, assim como
tantas pessoas do país. A celebridade, a respeitabilidade do
intelectual perante o público, já não era garantia. Uma vez que
Murrow não acreditara na extensão da crise institucional, confiando
na tradição que consolidara, a ruptura com Paley se tornou
inevitável, mediada pela recusa do patrocínio, primeiro pela Alcoa,
depois pela General Motors. Mesmo com todas as concessões que Murrow
já havia feito ao novo meio.
A
principal concessão, conforme Halberstam, foi a corrupção do
conteúdo não por direcionamento político, mas pela exigência de
ser misturado a frivolidades. Num show de Murrow em Berlim, com
Howard Smith entrevistando o prefeito da cidade, Murrow introduziu
como que casualmente o comentário de que entre outras celebridades
de um novo show que ele estava produzindo, convidara Lucille Ball.
Profissionais formados pelo padrão da respeitabilidade
Klauber-Murrow, como Joe Wershba, ficaram perplexos. Como parecia
incongruente, Lucille Ball em meio a conversações políticas de
alto nível e com importância histórica…
Os
projetos de Murrow para seus escritores Johnny Aaron e Jessy Zousmer,
que abrangiam primitivamente trazer à cena americanos índios,
negros e operários, foram logo mudados, com Murrow comentando que
seus escritores iriam ter que se adaptar. Somente importava a ambição
da celebridade, a estima de Bill Paley tornando Murrow cada vez mais
desconhecido de si mesmo, frente a frente com um lado de sua
personalidade antes desconhecida, atiçada pelo montante do
patricínio - Paley designara um milhão de dólares para os novos
shows frívolos de Murrow, o que não era apenas amizade pois incluía
maior controle sobre os resultados.
“See
it now”, o programa do Murrow original, potencialmente
controvertido, se tornara rivalizado por “Person to Person”, o
programa do Murrow frívolo, etiquetado não-controvertido.
As
equipes do See it now e do Person to person estavam em guerra devido
à irredutibilidade dos estilos e interesses de cada uma. Nessas
condições o confronto de Murrow com McCarthy tornou-se
surpreendente. Ele mesmo um homem que se projetara midiaticamente,
McCarthy revelou-se intocável pelos padrões de Bill Paley para a
CBS, e Murrow não aquilatara o quanto a decisão havia sido
irrevogável.
A
censura explícita contra as primeiras críticas de Murrow a McCarthy
introduziu a crise, em meios da década de cinquenta, de que Stanton,
que como vimos alimentava um ciúme implacável de Murrow,
aproveitou-se. A televisão podia assim focalizar durante o programa
de Murrow, alguém que este estava criticando, como ocorreu com o
senador John Bricker, que Murrow desfavoreceu retirando alguns
minutos de exposição, e inversamente concedendo-os ao senador
Kefauver. Stanton focalizou Bricker, além dos minutos previstos por
Murrow, comprometendo a estratégia discursiva do apresentador.
Ao
perceber que era inaplicável a tática da omissão deliberada quanto
a McCarthy, Murrow tentou uma armadilha, convidando McCarthy para um
show que iria contudo ridicularizá-lo, com Murrow fechando a
apresentação com algumas críticas mordazes ao que McCarthy dissera
durante o programa. Porém isso resultou num desastre, com Stanton
furioso, brandindo estatísticas que supostamente demonstravam que o
público, ao contrário, se solidarizara com McCarthy. A Alcoa, que
até aí havia sido uma patrocinadora liberal de Murrow,
concedendo-lhe inteira autonomia, retirou os proventos, também pelo
apoio explícito de Murrow a Oppenheimer, perseguido pelo
McCarthysmo.
Paley
pessoalmente interveio. Sua injunção a Friendly e Murrow,
convidados ao escritório do chefe absoluto, significava a mudança
completa do formato dos programas deles, que deviam agora ser
constantes pela semana, algo que implicava muito maior poder de
controle por parte da CBS. Mas a General Motors retirou o patrocínio
combinado para alguns destes programas, logo que seu pessoal soube
que seriam sobre o vice-presidente Richard Nixon, assim frontalmente
exposto a críticas ácidas.
Logo
depois, o partido republicano exigiu tempo igual para o secretário
de agricultura, Ezra Benson, responder as críticas que num programa
Murrow havia feito a ele. Murrow negou, mas a CBS concedeu o tempo
mesmo assim. A crise estava se tornando aguda. Murrow, furioso,
pensava contudo ter ainda poder de barganha, mas Paley afinal
decretou unilateralmente a morte do “See it Now”.
O
gesto implicava a total perda de poder por parte de Murrow, na
organização CBS. Como celebridade, ele estava ultrapassado. O
exemplo de Murrow tornou-se traumático. Um homem que do ápice do
sucesso se tornava um nada, de um dia para o outro.
A
visão de mundo de Murrow conservara algo de obscuro desde a
cobertura da guerra, e agora isso se tornava radicalizado pela
decepção. Paley, o grande colega dos tempos aventurosos em que a
tarefa de cada um era criar um verdadeiro canal da consciência
crítica e da informação respeitável, já não era um amigo. Era
meramente um utilizador das pessoas para fins corruptos, a tarefa
mudara para a criação de um meio de manipulação que pudesse
obnubilar a compreensão real.
A
queda de Murrow, que logo depois adoeceu gravemente, foi a
consagração de Stanton como líder da CBS. A mídia tornara-se a
ambição do poder sem responsabilidade, comentário de Halberstam
que ecoa o que constatei na leitura do sociólogo Peter Mann, em
“Métodos de investigação sociológica”, aduzindo este que essa
ambição da mídia é a mesma da prostituição. Mann revista vários
procedimentos dolosos da imprensa, como falsidade ideológica da
informação.
Como
estamos constatando e Mann também observa, a corrupção da mídia
não parece ser um fator inerente ao veículo, inversamente aos
efeitos colaterais que MacLuham conceituou como o que os mídia
elétricos podem provocar do ponto de vista cerebral, pelo fato de
isolarem o espectador do meio ambiente a partir da forma de recepção
sensível, puramente passiva e não linear como a escrita, além de
projetarem uma comunidade fantasiosa, passional-identitária,
impossível de ser politicamente organizada pelos padrões da
consciência civil.
Ao
contrário, a corrupção ideológica da mídia como business
corresponde a um processo não-necessário, mas que corre
paralelamente ao capital-imperialismo de hegemonia estadunidense.
Em
1958, com efeito, Murrow pronunciou-se num congresso de diretores de
rádio e televisão em Chicago, afirmando: “e se houver
historiadores... daqui há cem anos, e forem preservadas filmagens
(kynoscopes) de uma semana de todas as três cadeias (networks), eles
encontrarão registrados, em preto e branco ou a cores, evidências
da decadência, escapismo e isolamento das realidades do mundo em que
nós vivemos. Se as coisas continuarem como estão, a história se
vingará e retribuirá os feitos de cada um de nós.” (p. 215)
Paley
ficou furioso, ali estava Murrow traindo Paley, aquele que, ao ver do
próprio Paley, havia tornado Murrow rico e famoso. Conforme
Halbestam, “a coisa mais perigosa no que Murrow dissera, é
claro, era o fato de ser verdade”.
Que
um Jack Gould do Times estivesse escrevendo coisas desse tipo
àquela altura já era algo ruim, porém muito diverso surgia o caso
em se tratando de um homem da estatura de Murrow, o sujeito mais
respeitado da indústria de mídia. Isso era bastante injurioso. A
crítica vindo de dentro provara-se insuportável. O pronunciamento
de Murrow nunca foi bem assimilado. A CBS tornava-se extremamente
hostil a todo tipo de crítica, respondendo de modo radical a
observações de muito menor peso, como a de Roger Mudd. Os
profissionais da CBS, admirados por sua verve crítica contra outros
assuntos, tornavam-se odiados quando o alvo era o próprio business
de mídia.
Mas
o rumo da mudança estava pré-estabelecido no contexto da
guerra-fria. Como ilustra a cobertura de Halberstam a propósito da
conexão da televisão com o processo eleitoral em curso ao longo da
década de cinquenta, quando a violência do imperialismo
norte-americano se armou para alcançar status planetário.
Conforme
Halberstam, “em 1952, pela primeira vez a televisão afetou
profundamente a escolha dos candidatos das duas convenções, e assim
indiretamente a capacidade dos adeptos (“regulars”) dos partidos
controlarem suas próprias organizações” (p. 319).
Porém
os efeitos dessa transformação interposta pela inter-relação
técnica/sociedade não foram de modo algum os mesmos nas duas
convenções referenciadas, dos democratas e republicanos. Pode-se
afirmar que foram precisamente o inverso uma da outra.
Entre
os democratas, a competição de Adlai Stevenson e Kefauver
representou o último reduto da consciência política não
midiaticamente manipulada nos Estados Unidos. Os republicanos, tendo
que escolher entre Taft e Eisenhower, pontuam nesse momento a
primeira articulação intrínseca, como campanha política
televisiva.
Contra
Stevenson, o senador Kefauver era o homem de mídia, “catapultado à
proeminência nacional por seus inquéritos criminais
televisionados”, o que os democratas repudiavam como um meio de
atingir a população sem a intermediação do partido. Não sendo um
homem bonito, não obstante Kefauver soubera se adaptar às regras da
câmera, assim escondendo o que ele era, um graduado na universidade
de Yale, para mostrar-se como o estereótipo do garoto caipira
interiorano tentando manter sua integridade entre os grandes de
Washington. Ele, porém, embaraçara realmente, com suas
investigações de jogatinas e negociatas, alguns desses grandes
administradores democratas, e tornara Truman um inimigo poderoso por
sua amostra da política da água em New Hampshire.
Adlai
Stevenson parecia perfeitamente talhado para uma estratégia
partidária de dirigentes pretendendo manter suas prerrogativas
tradicionais de nomeação de candidatos. Estratégia que devido à
popularidade de Kefauver, adentrando a convenção como homem do povo
circundado por seus próprios delegados, quando em nível nacional a
lealdade partidária estava decrescendo pela suspeita do povo contra
conclaves secretos, não podia ser a de simplesmente rejeitá-lo. Já
Stevenson era o homem do partido, cujo talento era a retórica
cultivada, de longo alcance dedutivo, o contrário de tudo o que
cabia num estereótipo televisivo como idealização de um tipo a
partir de uma visão de câmera instantânea. E já naquela época
Nixon era um referencial da mudança, com seu discursos nacionais
justificando-se contra acusações de corrupção que ele assim
logrou convencer o público de que não era culpado, e Stevenson foi
forçado a assistir.
Como
um homem de sua geração, Stevenson não possuía um aparelho de
televisão, ele os detestava. Newton Minow, um jovem que integrava
sua equipe, quisera fazer ver a ele que mesmo que considerasse que a
televisão veiculava apenas irrealidade, milhões de americanos
consideravam o que viam real, e por isso a diferença tornava-se
pouco importante. Mas para Stevenson, isso era essencialmente
demagógico, contrário ao seu estilo de apresentação pessoal
dirigida a uma plateia que responderia a suas sofisticadas prédicas
buriladas, tradutíveis em grego ou latim.
Contudo,
a equipe de Stevenson logo se tornou consciente de que Eisenhower
estava planejando apresentações contínuas na televisão,
designadas para saturar áreas cruciais. Lou Cowan, produtor da CBS
que mais tarde se tornou presidente da rede, foi consultado e
confirmou o boato. Ele pensava que podia neutralizar o peso das
apresentações de Eisenhower, produzindo Stevenson, mas a resposta
ao que propôs foi desencorajadora: (“Isso é a pior coisa que
jamais ouvi. Vender a presidência como cereal”).
Cowan
tentou, ainda, minimizar o impacto negativo de Stevenson ser
divorciado, enquanto Eisenhower podia por uma Mamie na Casa Branca.
Cowan sugeriu que um dos filhos de Stevenson o cumprimentasse
simpaticamente, “boa sorte papai”, quando ele fosse subir à
tribuna. A essa altura o próprio Cowan já se sentia algo corrupto
ao meramente propor - e Stevenson, indefectivelmente respondeu, “Lou,
nós não fazemos esse tipo de coisa em nossa família” (p. 323). A
campanha pela nomeação foi toda feita ao jeito de Adlai Stevenson,
lembrada com nostalgia pelos organizadores dentro da inteligentzia
estadunidense.
Eisenhower
também não se sentia muito à vontade com a televisão, mas ao
inverso de Stevenson, ele sabia que não podia recusá-la. David
Shoenbrun da CBS se encarregou de convencê-lo, a princípio
lembrando como De Gaulle usara o rádio para se tornar a voz da
nação, mas logo percebendo que estava na direção errada,
Eisenhower não queria ser De Gaulle. Ele considerava De Gaulle
egocêntrico. A referência à linha Klauber-Murrow, como a homens
honestos na televisão, provou-se argumento melhor.
Halberstam
relata alguns dos desastres que ocorreram nas primeiras filmagens,
correlatos da insipiência do novo meio - Eisenhower ensopado no meio
de uma parada em Abilene, as lentes dos óculos escorrendo, porque
havia caído uma pancada de chuva em meio à filmagem. “Para o
inferno com isso, eu não vou fazer nada disso”, Ike exasperava-se.
(p. 326)
Muito
seria impossibilitado não fosse a intervenção de Henry Cabot
Lodge, da equipe de Ike. Ele orientou as coisas para transformar a
convenção do partido numa peça de teatro, de modo que Robert Taft,
o oponente de Eisenhower, iria desempenhar à revelia o papel do
conservantista dos velhos dias, avesso à consciência do público,
enquanto Eisenhower emergiria como o homem do povo, sendo público e
povo o mesmo que permissão para cobertura televisiva.
Aqui
seria desnecessário transpor os incidentes pelos quais a
estratégia de papéis de Cabot Lodge foi tão exitosa. Taft
comportando-se como esperado, tentando barrar o “público” para
manter a convenção como supunha ser o respeitável, Ike sendo visto
como o representante do “público”, aquele que iria descortinar
finalmente o mistério à vista de todos.
De
fato a invasão de convenções pelos constrangimentos de edição
televisiva, que repugnou a muitos políticos com formação
intelectual esmerada, provou-se o contrário da revelação a
público, a demonstração de que o acesso visual de forma inadequada
induz a julgamentos contrários aos interesses da própria pessoa que
ingenuamente julga ter assim testemunhado a realidade. Como as
imagens e o som não são captados simultaneamente, mas montados
depois, os políticos foram instruídos a não ler jornais no saguão
do hotel, porque a imagem que mostrariam deles estaria concomitante,
na tela, ao som dos pronunciamentos que na verdade estavam sendo
feitos posteriormente. Assim o público iria pensar que aqueles
homens estavam ociosamente lendo jornal ao invés de estarem
assistindo aos pronunciamentos.
Já
em se tratando da eleição presidencial, ocorreu a contratação da
agência BBD& O para catapultar Ike na consciência nacional.
A
agência devia projetar o estereótipo de Ike, e havia alguns à
escolha. Ike Eisenhower, o homem que limpou a bagunça em Washington,
o anticomunista ideal, ou o general, o herói que destruiu o poder de
Hitler na Alemanha? A inclinação para Ike o herói já existia,
porém Rosser Rivers, um voluntário na campanha que exerceu bastante
influência, projetou uma consulta aos leitores de Seleções, pelo
correio. Uma quantidade de 1O.OOO leitores respondeu preferir Ike, o
herói anti-nazista.
A
televisão estava vendendo a presidência como cereal. Cenas
rápidas das multidões excitadas, Ike parecendo tão modesto, o
herói comovendo as massas, um flash em Mamie, “não devia todo
herói ser chamado Ike, e não devia ele ter uma Mamie?” Um breve
discurso de Ike, e depois a única coisa que podia emparelhar com a
volta do herói, a anterior partida do herói para vencer na guerra.
Flash nas bandeiras da América. “Tudo muito bem feito”. / p.331
/ Eisenhower, o herói, conviria com Ike, o homem que nos trouxe a
paz, aquele que poderia acabar com a guerra na Coreia - porém
esse slogan não foi aprovado por Eisenhower, ele não podia garantir
paz alguma, então algo mais sutil, menos comprometedor porém com o
mesmo subentendido: “Eisenhower, o homem da paz”, o que
significava exatamente “Adlai Stevenson, o homem da guerra”.
O
resultado das eleições foi como o esperado, Ike o herói
presidente, eleito na primeira campanha em âmbito nacional da
história. Como presidente, Eisenhower fez um uso notável do novo
meio televisivo, mas não tanto quanto Kennedy e Nixon. Ike se tornou
popular entre os repórteres, apelidando “Merrian” a Merriman
Smith, o correspondente da agência UP e deão do corpo de imprensa
da Casa Branca, Ike começando sempre as conferências de imprensa
com “hello, Merrian”, assim como anos antes Franklin Roosevelt
apelidara Belair de Butch.
Na
perspectiva de Halberstam, Ike não dominou totalmente a imprensa
porque ele não precisava disso. Ele tinha o anticomunismo, alvo que
surgiu com todo o peso da guerra fria, na transição dos anos
cinquenta para os sixties. Tanto mais o comunismo se tornasse o
símbolo de tudo o que era antiamericano e hostil à América, mais o
povo, o congresso e a imprensa estariam naturalmente inclinados a
conceder ao presidente controle inquestionável sobre todos os
interesses nacionais.
Jim
Hagerty foi o produtor de imprensa de Eisenhower, provando-se
bastante talentoso e útil. O presidente aceitou a televisão mais do
que a explorou, ainda que ele o tivesse feito um instrumento do poder
presidencial. Ao contrário de Kennedy, que logo a seguir explorou
todos os recursos da mídia. Ironicamente, ele repetiu a ênfase nos
truques contra o adversário que havia garantido o êxito a Ike,
desta vez a vítima tendo sido Richard Nixon.
Resta
a questão de porque Nixon aceitara os debates televisionados com
Kennedy, que tanto o prejudicaram, fazendo-o parecer um pobre-diabo
escuro aos olhos do público, inversamente a Kennedy, o galã que
cuidava de cada detalhe da aparência, da maquiagem ao creme Max
Factor “puff” quando mais apropriado. A resposta parece ser que
Nixon não estava consciente do quanto era necessária a produção
da aparência em meio televisivo, de modo que nenhuma garantia
ulterior de popularidade permaneceria decisiva frente à exposição
na tela com grande número de expectadores. E o machismo americano
fazia o resto. Nenhum repórter iria ao ponto de mostrar um candidato
se maquiando.
Em
todo caso, Halberstam assinala que até 1964, a televisão havia
afetado profundamente a campanha presidencial, mas só desde 1964 a
televisão veio a se tornar a própria campanha presidencial. Walter
Cronkite, o homem da classe média, era agora a estrela, como uma
instituição, sua influência igualando a dos presidentes (p. 577).
Na
História, a eleição de Eisenhower é o primeiro trunfo do meio
televisivo. Na história da CBS, porém, o lance seguinte à
introdução revolucionária da tv na política presidencial, foi o
escândalo do Quizz Show, em 1958. Os boatos de que o programa de
perguntas valendo 64.OOO dólares estava sendo manipulado foram
protelados como problema a enfrentar pelos responsáveis na CBS, até
que a imprensa escrita furou o bloqueio e o caso se tornou público.
Cowan foi responsabilizado pessoalmente. Ou ele sabia, ou ele não
tinha controle algum sobre seu próprio pessoal.
A
tradição Klauber-Murrow na CBS estava definitivamente encerrada,
propaganda e política já não eram coisas imiscíveis, o intelecto
do profissional já não devia ser respeitado perante os desmandos
dos donos do capital. Para suceder Cowan, foi contratado Jim Aubrey,
o homem mais rapace, mais desonesto, mais indecente de que jamais se
teve notícia, o qual introduziu o padrão baixo-nível na
programação que conhecemos até hoje.
Houve
reações contra a dominação televisiva da política, como a de Sam
Rayburn, a figura mais tradicional do legislativo americano (“House
of representatives”), que insurgira-se. Todas as providências
contrárias, que visaram banir a cobertura televisiva do legislativo,
apenas tornou a “House of representatives” menos apta a competir
com o Executivo, tornando menor a importância do legislativo aos
olhos do público (p. 352).
A
nota final da tradição Klauber-Murrow poderia ser o que Halberstam
anteriormente anotou sobre David Shoenbrun em Paris, ou seja, algo já
previsível a partir do rumo traçado pela ambição de Paley.
Shoenbrun, o homem que mais tarde criou Ike o herói, o presidente da
república, em inícios da década de cinquenta era o correspondente
da CBS em Paris. Logo tornara-se celebridade, uma figura importante
que conquistara a França e conhecia pessoalmente De Gaulle. Contudo,
Paley telefonara solicitando-lhe o favor de servir de cicerone ao
casal Jack Benny e Mary Livingstone. Shoenbrun iria adorá-los,
garantiu Paley.
Benny,
estrela do programa Amos “n” Andy, era nesse momento o trunfo
mais importante de Paley para sobrepujar a NBC. De fato, David
Sarnoff, da NBC, havia errado clamorosamente ao subestimar Jack Benny
como algum tipo ultrapassado de artista na era da televisão.
Substituindo-o por Horace Heidt que logo provara-se um fracasso,
enquanto Paley recolhia Benny, que continuava um grande sucesso,
assim como outros programas que Sarnoff não mantivera. Sarnoff
reclamara com Paley: como ele podia ter feito isso, contratar todo o
seu stock de celebridades, quando havia existido um acordo de
cavalheiros pelo qual nenhum deles roubaria a cena do outro ? Paley
respondeu apenas: porque precisava deles - e um amigo de Paley
comentou que essa havia sido a única vez em que ouvira Paley falar
de modo tímido.
Contatado
como cicerone de Benny em Paris, Shoenbrun não esperava ser tratado
por Jack e Mary como um simples garoto de recados. Mas foi o que
aconteceu, Mary exigindo de Shoenbrun, por telefone, no meio da
noite, que lhe comprasse o perfume mais famoso, o qual ela pretendia
usar numa festa. Não lembrava o nome, era o que Babe Paley usava.
Shoenbrun consultou uma lista de perfumes, recitou nome por nome, até
Vent Vert, quando Mary informou ser o que queria. Porém Shoenbrun
lembrou que não poderia comprá-lo quando acordasse, pois seria
feriado. Mary informou secamente que Paley havia garantido que
Shoenbrun faria tudo o que ela e Jack precisassem, e se ele não o
fizesse, então eles abandonariam a CBS.
Shoenbrun,
em desespero de causa, lembrou-se de seu amigo Balmain, proprietário
da loja homônima, telefonando ao amigo que por sua vez ligou para a
loja onde atendeu o segurança. Instruído, o segurança pegou o
perfume para Shoenbrun. Orgulhoso, ainda que espicaçado, Shoenbrun
escreveu a Paley sobre o que fizera - para a companhia. Nunca recebeu
qualquer resposta.
Mais
importante que correspondentes, ainda que tivessem ganho a França e
conhecido De Gaulle, provara-se o comediante de domingo à noite. As
coisas haviam mudado. A mulher de Shoenbrun concordou: quando tratam
repórteres como lacaios de comediantes, era melhor ir-se embora –
ela comentou.
Em
1955, o escândalo do Quiz Show provocou um retorno da companhia à
ênfase no setor público, isto é, de notícias. Porém já dentro
do novo espírito, e foram precisos mais quatro anos para obter-se a
fórmula: Fred Friendley, o melhor produtor de documentários da CBS,
contratado para um tipo de programa que relembraria o See it now,
porém sem Murrow ou tendo-o apenas como um entre demais
correspondentes - conforme esperado, Murrow incentivou Friendley a
aceitar o convite, devido à necessidade de salário. “See it now”
se tornou “CBS Reports”. Para Murrow não se conseguiu uma
fórmula adequada na CBS, e ele já estava muito doente a essa
altura. Multiplicavam-se porém êmulos de Murrow, apenas sem a
consciência crítica. A mulher de Murrow acabou elegendo Bill Moyers
como o que mais se parecia com ele. Casey Murrow, o filho, nunca quis
comprar um aparelho de televisão.
A
estadia de Jim Aubrey aumentou consideravelmente os proventos da CBS,
porém abaixando o padrão a um nível torpe. As pessoas mais velhas
foram impedidas na tela, somente jovens deviam ser mostrados,
especialmente mulheres. Os assuntos de interesse sociológico
proibidos, somente deviam ser ventilados assuntos interessantes
a pessoas pouquíssimo inteligentes. Os programas deviam
limitar-se a comédias muito simples, de esquemas sempre repetidos,
como “The Beverly Hillbillies”, uma série que Halbestam designa
“tão demente e sem gosto como nem se pode imaginar, delineando,
como fazia, nas palavras de Murray Kempton, ‘uma confrontação de
personagens de John Steinbeck com o meio ambiente de Spyros Skouras’
“ (p. 355). O jargão profissional consagrou o padrão Aubrey com a
expressão “broads, boobs and busts” (“mentiras,
besteiras e peitos”).
Halberstam
atribui a Jim Aubrey o epíteto de “O patife dos patifes”. (p.
354) Ele exemplifica. Quando Kennedy foi assassinado, Blair Clark, um
dos cabeças da CBS News muito amigo de Kennedy, chocado, estava
também obcecado pela questão de como condensar nas imagens o drama
nacional de modo a não ferir os sentimentos do público, até que
Aubrey, totalmente dessensibilizado, ordenou-lhe que apenas repetisse
incessantemente, a intervalos de alguns minutos, a cena do
assassinato, aduzindo que “é só o que eles querem ver”. Quem,
se não Aubrey assim procederia, indaga-se Halbestam, em meio a
outros exemplos da rapacidade do produtor. (p. 355)
Porém
o sucesso fácil terminou por se revelar desastroso. Em 1964 a
convenção do partido Republicano devia ser o ápice do processo em
que se estabilizara a estrutura governo-mídia, mas para o padrão
Aubrey era apenas uma coisa aborrecida, apenas conteúdo de notícias,
e Aubrey detestava o setor de notícias da CBS. A propaganda
provara-se fonte milionária por meio de programas de baixo nível,
seria perder muito concentrar-se na convenção.
Mas
a NBC, que se especializara em notícias, pôde assim bater a CBS
dado o interesse nacional na convenção de 1964. Com efeito, o
sucesso da NBC nesse ano tornara-se espantoso, e Paley, já algo
aturdido pelo êxito do baixo nível de Aubrey, que por um momento
parecera inquestionável devido aos números, agora estava furioso,
obcecado pelo desejo da reconquista da proeminência, espicaçado
ainda mais por que a nomeação de Lyndon Johnson significara uma
vantagem para a NBC devido a ligações pessoais de Johnson com o
repórter Sandor Vancour.
Então
Cronkite tornou-se o trunfo da CBS, e quando Stanton tentou censurar
uma palavra do discurso de Cronkite - “erosão” - Cronkite pôde
barganhar, ele deixaria a rede, “e de repente alguém estava
gritando ‘pelo amor de Deus, diga a ele que volte, não o deixe ir
embora” (p. 597). Paley parece ter aprendido a lição de que
não poderia manter a proeminência sem investir o bastante em
talento.
Mas
a importância do setor de notícias só fez crescer. Foi a cobertura
do Vietnã que trouxe mais uma vez a atenção do público à CBS. De
fato, houve um momento em que a censura do novo Paley, aquele que
abandonara os amigos conscientes e se tornara o protótipo do
conservantista rico, cercando-se de tipos iguais, não pôde impedir
que as atrocidades da guerra fossem reveladas, não apenas com
relação aos vietnamitas, mas à precariedade de condições que
cercava os jovens combatentes americanos.
Moler
Safer captara a cena dos soldados em fila, portando tochas para
incendiar Cam Ne, simples aldeia civil que nada tinha a ver com os
vietcongs, porém havia se tornado alvo da fúria do potentado local
por não ter pago impostos num ambiente de profunda crise, com os
soldados americanos servindo de veículo por não saberem bem do que
se tratava. Atrocidade em si, tanto quanto pelo fato de que soldados
eram feridos na fila pelo fogo portado pelos que se encontravam
atrás.
Além
disso, havia se tornado prática lançar granadas nos buracos onde se
refugiavam civis, ou incendiá-los, aparentemente por ignorância
sobre a identidade dos refugiados e houve um momento em que o
cameraman vietnamita da CBS conseguiu salvar uma dúzia de pessoas
por que, podendo falar em vietnamita, inglês e francês, pôde
também demonstrar aos mariners que as vozes que se ouviam do buraco
eram de mulheres e crianças, de modo que os soldados não o
bombadearam (p. 680/1).
Certamente
Halberstam sublinha que as atrocidades não foram tanto dos
americanos, quanto da ação sob injunção da crueldade da ditadura
vietnamita local contra os vietcongs - até mesmo chegando a
considerar honroso devorar testículos de vietcong capturado, o que
revoltou os mariners presentes à cena, como a consciência de que a
dinastia odiava o seu próprio povo.
As
reportagens tornaram-se comoção nacional, alterando a opinião
pública a propósito da guerra.
A
partir da segunda metade do século XX, a televisão estabilizou de
modo aparentemente indecomponível a articulação mídia/Executivo
que vinha sendo construída, como vimos, desde o começo do século,
quando se iniciara por uma clique de homens da imprensa e poderosos
prosélitos do imperialismo. Após os primeiros êxitos, na época de
Hearst, vimos que Roosevelt protagoniza o momento da afirmação
dessa articulação que passou a caracterizar a estrutura de Estado
norte-americano. Com a televisão, o processo completava-se,
transpondo por vários recursos da fraude os interesses da sociedade
norte-americana anti-imperialista, tornando a presidência foco do
Poder pelo carisma, inversamente à ordenação racional do Estado
compósita de Executivo, Legislativo e Judiciário, que caracteriza a
plena democracia. Porém não significando que a imprensa escrita
deixasse de ter papel intrínseco na composição do Poder, uma vez
que a articulação havia sido construída inicialmente por
meio desta.
c)
Time Magazine e o New York Times
Na
Califórnia, como vimos, a modernização do Los Angeles Times
implicou alguma reserva ao primitivo papel de kingmaker, também
verificamos que o Washington Post de Phil Graham, pelo contrário, o
empreendeu tenazmente, compondo a articulação de Kennedy e Lyndon
Johnson. E se Kay Graham não quis ou não pôde preservar esse
papel, ainda assim pode-se constatar que nenhum destes igualou a Time
Life e Fortune, de Harry Luce na consecução dos acontecimentos
políticos. O que se pode demonstrar especialmente relacionado à
guerra fria. Harry pessoalmente pode ser responsabilizado por algumas
das mais proeminentes posições norte-americanas, como relativamente
à China e ao Vietnã.
Assim
como apresentado por David Halberstam, Henry Robinson “Harry”
Luce, seria o tipo ideal que resume todas as demais personas que
influíram tão poderosamente por meio da mídia na história do
século XX norte-americano. Também especificamente a atuação de
Harry, como ele preferia ser chamado, espelha a ligação dessa
influência com a política internacional.
Protestante
presbiteriano, filho de um missionário, ele mesmo se sentia dotado
com uma missão e uma visão cristãs, odiando especialmente o
comunismo e o existencialismo sartriano, ainda que ele tivesse feito
muito pela teologia de Paul Tillich e pelo historiador Niebuhr. As
revistas Time e Life trouxeram o fotojornalismo a uma altura
nunca antes atingida, inclusive sendo produtos de novas tecnologias
na área da reprodução de imagem e fabricação de papel.
Harry
marca a mudança de uma era. Ficaram para trás os tempos do
aventureirismo de Pulitzer e Hearst. O investimento em educação
escolar formou um público com aptidões de crítica e expectativa de
qualidade que já não os tolerava, na presença de publicações de
pessoas que refletiam o novo ambiente civil, além de Harry , Adolph
Ochs, que criou o New York Times apostando na mesma mudança
intelectual.
Se
bem que a atuação de Ochs tenha começado muito antes, nos idos de
1878, de modo que a linha do Times perpetuou-se por meio da filha e
seu marido, Iphigene e Arthur Sulzberger, ele mantém em comum com a
Time magazine de Harry a mesma opção pela seriedade, mantendo o
foco em seu endereçamento, especialmente governo e empresariado.
Somente em meios de século XX o Times se tornou um jornal popular,
mas sem ter mudado a linha editorial.
Para
o New York Times, porém, seriedade implicava o não-partidarismo.
Harry, inversamente, tornou a Time magazine intensamente política e
partidária. A escolha do Times restringia-se a informação, o tipo
de fato que o financista ou o político precisava saber. Quanto mais
cinza, menos florido, estilizado ou agressivo, melhor.
A
história do Times se constrói por um série de vitórias e feitos
importantes, mas sempre relacionados à mesma opção, tendo a
coincidência de várias mentes, proeminentes na organização
da empresa, caracterizadas pelo mesmo tipo de temperamento,
marcado pelo patriarca Ochs e Iphigene - dentre os quatro publicistas
do Times, ela foi a filha do primeiro, a mulher do segundo, a
sogra do terceiro e a mãe do quarto. Com efeito, nessa linha de
sucessão, Halberstam referencia Orvil Dryfoos, que se casou
com Marian, filha de Iphigene e Sulzberger. E os jornalistas
mais destacados em postos importantes da empresa, Reston e Van
Anda.
Reston,
na opinião de Halberstam, seria o símbolo do bom jornalismo, a mais
poderosa figura da profissão nos Estados Unidos de meios de
século, e Van Anda, uma mente brilhante e matemática. Van Anda é o
referencial de dois feitos notáveis. Ele foi o único jornalista que
apostou no naufrágio do Titanic, quando todos os outros acreditavam
na invulnerabilidade, logo que se soube que o navio se chocara com um
iceberg. Foi um grande feito, que criou a lenda de Van Anda.
Além
disso, ele corrigiu o próprio Einstein, quando este começou a
publicar sua tese na América em visita a Princeton, onde mais
tarde como sabemos ele lecionou. Um repórter do Times cobriu
uma preleção de Einstein, obtendo para o jornal a cópia da extensa
fórmula que o gênio delineara no quadro negro. Van Anda
checou o papel e registrou um erro. Um professor de Princeton
foi consultado e devido à fama de Van Anda, resolveu levar o
caso ao próprio Einstein, que verificou as notas e ligou para
confirmar que ele havia cometido um erro ao transcrever a
equação ao quadro.
A
sobriedade como algo em comum entre as linhas de Ochs e Harry Luce
aporta a uma ideologia comum, a do protestantismo. Mas
Harry era cristão de família, enquanto Ochs era filho de
um judeu-alemão imigrado, Julius Ochs. O filho já estava
sustentando a família com o Times de Chattanooga quando ainda era um
rapazinho que precisava da assinatura do pai para caucionar os
documentos do próprio negócio. Sua aguda consciência de ser
judeu era, assim como a de Paley, temperada pelo patriotismo da
nacionalidade norte-americana.
O jovem
Arthur desprezava os judeus imigrados que não renunciavam aos
seus papeis tradicionais e mantinham os longos cabelos e barbas.
Ele pensava que estes homens, cultivando modos estranhos no novo
mundo, eram os culpados pelo anti-semitismo. Também Ochs
era o que se chama o “judeu branco”. Uma piada sobre o Times, o
jornal endereçado à classe governante, era que havia sido
comprado por judeus, editado por católicos e lido por protestantes.
Porém pela altura da década de trinta, o judeu branco se
tornara o tipo dominante entre os judeus americanos, com a
educação escolar em seus horizontes - se não na própria formação,
como o que almejavam para os filhos. Eles fortaleceram o jornal
como seus leitores mais assíduos e típicos, porém não o
típico editor escolhido para profissional do Times. Este devia
ser, inversamente, protestante e impecável de maneiras. Judeus só
eram permitidos como empregados até o nível do repórter.
Quando
Krock, um velho jornalista, pretendeu a vaga de
editor-chefe, Sulzberger negou francamente por ser Krock
judeu. Krock argumentou que ele não o era por parte de
mãe, apenas por parte de pai, e segundo a lei mosaica, somente se é
judeu legítimo por filiação materna. Sulzberger
respondeu: ”Arthur, como você saberia de tudo isso
se você não fosse judeu?” (p. 305).
Ochs,
o patriarca, era um maníaco-depressivo, porém muito mais
controlável que Phil Grahan. Ochs tinha pesadelos constantes,
insegurança, obsessão com a morte. Quando a obsessão se tornou
insuportável, comprou um jazigo, costumando desde aí a convidar os
amigos para visitá-lo, insistindo que devia ser perfeito, assim
quando morresse estaria bem acomodado, acalmando-se desse modo. Como
tivesse adoração pela filha Ihigene, a sua princesa, confidenciou à
esposa que a filha teria tudo o que quisesse neste mundo, se ao menos
ele pudesse viver por mais dez anos. E essa inclinação otimista se
manifestara apenas por Ochs estar de fato entusiasmado.
Roosevelt havia autografado uma foto de presente à Iphigene, o que
Ochs considerou ótimo augúrio.
Ochs
tinha demasiada consciência da fragilidade de sua posição, da
possibilidade constante da perda. Ele batera inegavelmente, contudo,
Hearst e Pulitzer. Na época da guerra da Espanha, tópico que vimos
acima com Julien, segundo Halberstam circulava uma piada.
Remington, o grande artista, reclamara com Hearst de que quase não
havia ação. Hearst respondera que ele próprio forneceria a
guerra, Remington devia fornecer somente as imagens.
Uma
vez que Ochs não podia desafiar os gigantes, Pulitzer do World
e Hearst do Journal, ele atacou por outro lado. Tornou o preço do
jornal muito menor que os outros, além da opção pela seriedade,
inteiramente contrária ao sensacionalismo. Visou assim um público
alternativo ao deles.
Ironicamente,
a guerra da Espanha fez o Times, na concepção histórica de
Halberstam, pois um ano depois da mudança do preço, a circulação
do jornal de Ochs triplicava. Ele não competiu pelos mesmos
leitores dos gigantes.
Quando
o World fechou, Pulitzer o ofereceu a Ochs por pouquíssimo, mas Ochs
não o queria nem de graça. A história de Hearst - que Julien
considerava o pior tipo de jornalismo - é similar. Conforme
Halberstam, ele ofereceu o jornal aos Chandler, porém estes
compraram a circulação da manhã. Nessa época, o rádio estava
acabando com a circulação da tarde. Os Chandlers fizeram o melhor
negócio, dominando o mercado matutino, que resistia bem ao rádio.
Roubar
Reston do Times foi um dos grandes desejos de Phil Grahan, porém
apenas resultando numa grande frustração. Reston, bom calvinista,
pensava no Times como parte de si mesmo, ou uma honorável
senhora contra quem uma greve ou abandono surgia como algo
tão impróprio. O outro lado do Reston do Times era apenas o
Reston marido de Sally Fulton. Bom calvinista, Scot Reston era, como
os outros líderes do Times, um homem da empresa e da família.
A
opção ideológica do Times pela mentalidade protestante, porém
não partidária, era o reflexo natural do patriotismo, tão
intenso porque artificial, produto da consciência do imigrante, de
Ochs.
Assim,
quando William Hale, em 1908, entrevistou o Kaiser Wilhelm, que
revelou tão ardorosamente sua opção pela guerra, Ochs
estudou o material com Van Anda e outros editores do jornal,
decidindo consultar o próprio presidente Theodore Roosevelt, que
aconselhou que não publicassem. Assim fez Ochs, censurando a
entrevista histórica. Porém uma década depois, quando o país
estava orgulhoso pela participação na guerra, o apoio de Ochs à
opção pela paz dos austríacos resultou desastroso, e a rejeição
ao Times assim como a Ochs foi tão generalizada que ele quase
perdeu tudo, por onde iniciou-se a depressão incurável, não
obstante ele ter recuperado a boa sorte do Times algum tempo depois.
A
depressão tinha ainda um lastro no anti-semitismo generalizado na
época das duas guerras. E por um longo período, o Trib
(“Herald Tribune”) foi um sério rival do Times, não obstante a
vitória deste sobre o aventureirismo de princípios do século.
A
decisão do governo racionar a imprensa, em 1942, resultou em
opções diversas dos dois jornais. Sulzberger pensou que a
época não era para grandes proventos, assim seria melhor conceder o
espaço limitado mais a notícias que a propaganda. Helen Reid, do
Trib, acreditou que investir na propaganda seria um meio de superar o
Times. O Trib agradava aos republicanos que abundavam nos subúrbios,
enquanto o Times fazia mais sucesso na parte central e mais
liberal da cidade.
O
Trib conseguiu por algum tempo superar o Times em proventos
devido a propaganda, porém a cobertura da segunda guerra pelo Times
gradualmente consolidou a posição deste entre os leitores mais
respeitáveis, e logo a sua reputação tornava-se inquestionável.
Quando
a guerra acabou, também o racionamento foi suspenso, e com o espaço
livre, o Trib já não pode continuar a competição com o
Times. Afinal Homer Bigart, dois prêmios Pulitzer pelo Trib,
cruzou a rua para solicitar emprego ao Times. Lester Markel
garantira uma fórmula imbatível para o New York Times
dominical, o famoso Toynbee e Barbara Ward entre as seções
de propaganda da indústria têxtil, do futuro do mundo
ocidental, e das tendências do Ocidente em roupas íntimas.
As
inquietações depressivas de Ochs já não tinham correlato na
situação da empresa. O Trib não restava competidor para o Times.
Na expressão de Halberstam, “Assim o Times tinha na primeira
metade do século vinte alcançado a posição do jornal mais
influente não apenas no país mas no mundo.” (p. 309) O
Times tornara-se respeitado pela qualidade da informação. Time
e Life Magazines, com influência quase igual, eram contudo
apenas temidas.
A
influência direta, partidária, de Harry Luce sobre os
políticos do tempo, inversamente a Ochs, era a de um patriota
americano, crítico do New Deal de Franklin Roosevelt, tanto porque
ele não gostava de Roosevelt, que havia sido preconceituoso com
Clare Booth Luce, sua segunda esposa, julgando-a frívola de maneiras
quando na verdade era inteligente e conscienciosa, como porque ele
pensava que os dias da primeira guerra haviam passado, crente na
guerra fria como o desafio da América, a verdadeira missão dos
americanos na luta ideológica mais decisiva da história da
humanidade.
Time
magazine refletia mais do que Life, a opção de Harry. Life
era mais à vontade, F. D. Roosevelt podia até aparecer
nela, devido ao seu intenso carisma. A opção de Harry: não apenas
a sobriedade, o desprezo por roupas elegantes, por ninharias
sociais - quando Clare Booth Luce, sua segunda
esposa após divorciar-se de Lila Hotz, pediu de presente
um colar de pérolas, Harry custou a se recuperar do susto diante do
preço, não obstante ser um dos homens mais ricos da América.
Não só a rusticidade, pois, traduzia a opção de Harry. Mas,
especialmente: americanismo, protestantismo, presbiterianismo,
republicanismo, e, sobretudo, capitalismo.
A
guerra fria traduziu na mente de Harry, uma luta por tudo
isso. A infância de Harry havia sido na China. O
pai havia sido missionário neste país. Pearl
S. Buck, a grande escritora, comentou certa vez com Harry como ela se
sentia feliz por ter tido, como ele, uma infância na China, sendo
igualmente filha de missionários cristãos. Muito surpresa ela
ficou diante da resposta de Harry: “não, isso não teve nada de
maravilhoso, ele odiara, o fizera sentir-se tão diferente em
Hotchkiss e Yale, ele havia detestado ser aquele pobre, e era
dolorosamente embaraçado por isso.” (p. 86)
Sua
admiração por Eisenhower vinha justamente por este ser tão à
vontade, tão sem qualquer sentimento de inadequação pessoal, o
contrário da inadaptação permanente de Harry e seu sentimento de
solidão, o que resultara da infância, do temperamento rígido
do pai.
Com
relação à China, Harry sentia-se contudo uma espécie de patrono,
considerando Chiang Kai Check não apenas um partidário dos seus
interesses anticomunistas, mas um amigo pessoal. Por outro lado, a
amizade de Harry com Teddy White, seu correspondente na China, sofreu
o impacto dessa opção política, exemplificando até onde o
republicanismo, orgânico em Harry, poderia ir na consecução dos
seus objetivos.
Na
história do jornalismo, Harry inovou decisivamente. Ele inventou o
jornalismo não restrito a política e crime. Harry introduziu como
noticiável cada parte do que Halberstam designou a estrutura social
(“social fabric”): medicina, lei, esportes, lazer, até a
própria imprensa. A curiosidade fazia parte de sua
personalidade, porém de um tipo raro, incompreensível para os
circundantes mas geralmente antenado com o gosto do público.
Certa
vez, viajando à França, em meio ao tour de apresentação à
cidade, Harry indagou: Os franceses são felizes? Como assim,
replicaram, não se pode saber se os franceses como um todo são
felizes. Ele queria saber. Num estádio de futebol, olhando
a plateia, sua pergunta era: quantos deles são comunistas?
Nascido
em 1898, ele criou a Fortune, na década de vinte, para mudar a
sua geração de jovens capitalistas, que ele via além de si
mesmo como tipos de Babbits - o personagem do rico bobo,
caricaturado por Sinclair Lewis. Inapropriados para o próprio
papel. Não, Harry educaria a classe dominante a fim de
que ela pudesse cumprir o seu dever.
Harry
inventou o formato da revista de notícias semanal. Quando alguns
estudantes contestaram que ele tivesse o direito de chamar Time de
revista de notícias, uma vez que estava cheia de opiniões dele
mesmo, Harry respondeu: “Bem, eu inventei a ideia, então estou
certo de que posso chama-la como eu quiser” (p. 71). Assim também
respondia a quem reclamava por ele ser tão tendencioso que era
verdade, mas todos sabiam que o jornalismo não era objetivo. A
verdade era apenas uma estratégia, como qualquer outra.
A
reportagem de capa (“cover story”) foi introduzida por Harry ,
segundo Halberstam a inovação que trouxe o maior impacto
ao jornalismo da nossa era. Ela respondeu aos conceitos de Harry
sobre o que as pessoas deviam ler, o que seria bom para elas que
lessem, e sobre o jornalismo como sendo de alta qualidade porque
qualquer assunto importante poderia ser reproduzido como algo
interessante.
Ele
criou o Sports Ilustrated, quando ninguém acreditava que esportes
fossem noticiáveis. Harry anteviu o interesse crescente do
público nesse assunto. Ironicamente, comenta Halberstam,
quando o sucesso da televisão como veículo obrigou ao
fechamento da Life, nos sixties, como a todas as similares, foram os
esportes e o lazer, itens que Harry exclusivamente trouxera para o
jornalismo, o carro chefe do sucesso televisivo.
Harry
tencionou criar uma revista intitulada Murder (assassinato). Ele
tinha grande curiosidade sobre o assunto e achava que as pessoas
também tinham. Ele adorava estar à frente dos próprios editores,
uma vez ligando de Phoenix para Otto Fuerbringer, um dos principais
editores da Time, porque uma espécie de sombra de Harry,
perguntando se Fuerbringer sabia que em Chicago havia um milhar de
gangs de assassinos.
A
John Crosby, que estava escrevendo uma coluna sobre televisão no
Trib, Harry reclamou que não via televisão porque não sabia o que
era bom para ver, sugerindo a Crosby que este poderia ganhar muito
dinheiro criando uma revista que noticiasse programas de televisão e
quais eram os melhores. Harry projetava assim o que foi produzido
como TV Guide, segundo Halberstam um dos maiores sucessos
comerciais da época.
Harry
de fato ganhou muito dinheiro com suas revistas, começando nos anos
vinte, alcançando o auge do sucesso em meios de
século. Life gozou de posição principal nas vendas
antes que a televisão levasse à obsolescência o tipo de
publicação que representava. A preocupação da empresa,
então, era não deixar que ela engolisse todo o empreendimento, como
ameaçava fazer devido ao enorme sucesso de público. Pois Harry
se interessava muito mais pela Time, o veículo de suas ideias
pessoais - assim Sartre jamais foi capa da Time e quando se cogitou
nos Beatles, a preferência foi para Westmoreland, o general
americano no Vietnã.
Na
altura do fechamento de Life, nos sixties, quando também Time Inc.
vendeu com grande lucro, à MacGraw-Hill, as cinco estações
de televisão que possuía, Harry deixava para o
filho, Hank Luce, um império que na fusão com a
companhia de Temple tornou-se uma grande indústria de papel. (p.
1012-14). Na verdade a empresa não podia ser considerada um negócio
de família, e Hank Luce agiu mais conforme aos associados do
que como um novo educador.
Harry
quis e logrou preencher o papel de ideólogo do Ocidente,
conforme Halberstam observa, pretendendo-se um educador antes
que um jornalista. Como vimos com Julien, os ideólogos da
América já existiam, porém Harry inovou também nesse campo.
É certo que nas pegadas de Theodore Roosevelt, prolongando o mesmo
mito da liderança espiritual da América, porém projetando-a como a
superpotência do superséculo da educação, quando a massa se
tornara culta, endereçando-se a esse público bem educado por
meio da linguagem internacional. Ser homem de grande força de
vontade, Harry o demonstrou ao superar completamente a gagueira
que havia sido traço tão forte na sua juventude.
Sedução
das mentes, dirigismo, indução à falsa compreensão dos fatos, não
era o que Harry pretendia como fins, porém não hesitando em
utilizá-los como meios, por que para esse cristão radical
os fatos não diziam algo por si, eles eram apenas parte da Verdade,
aquilo em que ele acreditava piamente, a missão de Deus para a
América. Harry não era de modo algum corrupto. Na noite do
discurso de ingresso de John Kennedy no partido democrata, Harry
conversava com Joe Kennedy, o pai, sobre filhos, e este sugerira a
ele que comprasse para o filho Hank Luce uma cadeira no congresso.
Harry protestou, não se faz uma coisa dessas, e Joe apenas
sorriu, é claro que se faz, todo mundo sabe. Mas Harry
permaneceu incontaminável.
Como
vimos acima, muito da campanha presidencial de John Kennedy
deveu-se ao emprego da companhia de pesquisa de opinião de
Lou Harris, e Halberstam comenta que se a conta foi ficando cada
vez mais alta, Joe Kennedy não era um homem disposto
a deixar seu filho perder uma eleição por causa de
dinheiro. Inversamente, o dinheiro não era o alvo de Harry
tanto quanto a influência com objetivos morais, e
ainda que fosse um amigo ostensivo de Bill Paley, nutria certo
desdém por ele, assim quando Paley e Frank Stanton quebraram por
causa dos programas impiedosos de Jim Aubrey, Harry
sentiu algum prazer nisso.
Problemas
como raça e segregação racial não existiam na imaginação de
Harry, a América era o mundo livre pugnando para eliminar o inimigo,
o comunismo ateu. A ideia de que Harry pudesse dominar uma cadeia de
televisão inteira com suas perspectivas e atitudes não fazia os
seus íntimos associados sentirem-se muito à vontade. Quando um
fato não refletia por si só a Verdade, ele devia ser
simplesmente ignorado, na sua concepção.
Assim
quando Mao Tse Tung tomou posse do governo na China, Harry se recusou
a aceitar o veredito da história, continuando a guerra muito depois
que Chiang já havia desistido. Nas páginas das publicações de
Harry, a China continuava sendo governada por Chiang, ou era a nação
que refletia o desejo desse governo. Harry se conscientizara da
importância das relações sino-americanas na guerra-fria,
projetando uma aliança ideal entre Chiang e um presidente
republicano dos USA, agindo nos anos quarenta como o embaixador
do nacionalismo americano. Compreende-se o gracejo de um amigo, com
quem Harry confidenciara, quando Clare Booth Luce se tornou
embaixatriz na Itália, que não considerava isso muito positivo,
Clare estava parecendo alguém que pensava dever carregar o mundo em
seus ombros – “mas é você mesmo o homem ideal para isso”
- respondeu o amigo.
E
quando em 1944 Teddy White, um judeu correspondente e amigo
de Harry, enviou uma entrevista com Chiang, feita em
parceria com Annalee Jacobi, ficaram ambos desagradavelmente
surpreendidos quando viram a publicação inteiramente
distorcida, praticamente reescrita, com perguntas que nunca foram
feitas e respostas que nunca foram dadas, resultando numa propaganda
anticomunista que anunciava a vitória iminente das forças
nacionais.
White
já havia escrito sobre uma terrível fome grassando na
província de Honan, em 1943, quando a situação era tão
desesperada que ele teve que chicotear o cavalo que o
transportava para que se movesse o mais rápido possível, do
contrário a multidão faminta iria derrubar a montaria a
fim de devorá-la, deixando o jornalista abandonado para morrer de
fome.
Salvando-se,
porém, White forçou uma resposta do governo, devido à
impressão causada pela reportagem na América, inclusive
designando a causa da fome pela cobrança de imposto sobre o
grão a camponeses extremamente pobres, além
disso, perante várias colheitas fracassadas, o governo
não distribuindo grãos. Na China, Madame Chiang tentava obter
a demissão de White, enquanto o governo negava a informação sobre
Honan, por sorte White obtendo o testemunho de fotos que alguém
fizera dos camponeses. A vida de provavelmente milhares de
pessoas foi salva pela reportagem, que forçou o governo chinês a
enviar grãos.
Nessa
época Pearl S. Buck instou com Harry para publicar um artigo em
Life, expressando perspectiva bem oposta a de Chiang sobre a situação
chinesa. Harry não negou, porém não mudou a própria concepção
da necessidade vital de apoio a Chiang. Numa carta a White,
explicando porque editara o artigo de Buck, Harry instava a
conservar a fé na China capitalista e em seu Generalíssimo, o qual
importava acima de tudo manter. Mas White estava perdendo a fé
diante dos fatos.
Mas
continuava confiando em seu amigo Harry. White continuou pensando,
até bem tarde, que a censura estava sendo feita por Whitacker
Chambers, um editor do Times que havia sido antes um membro do
partido comunista americano, porém passado para o lado oposto,
tornando-se um propagandista da guerra fria, convencido da
inevitabilidade do conflito total entre o Ocidente e o comunismo,
e que considerava os correspondentes inimigos por sua
mentalidade liberal, e se isso irritava todo mundo no jornal, Harry
não se importava minimamente, considerando Chambers um trunfo,
instalando-o como editor em 1944, o que significava sinal verde para
a censura e o dirigismo - Chambers, autor do famoso “Witness”,
sendo para a geração dos anos quarenta o que Halberstam
considerou a palavra definitiva, junto com Algers Hiss.
White
compreendeu que a censura estava procedendo do seu próprio jornal,
não apenas pelo governo chinês. A essa altura, um conselheiro
de Chiang, o general Joseph Stilwell, estava contradizendo
abertamente o presidente chinês, e instando por maior liberdade
de movimentos contra os japoneses assim como algum tipo de acomodação
com os comunistas, mas a censura frustrava os esforços de
esclarecimento de White para a América a propósito dos rumos da
orientação de Stilwell.
Já
certo de que Chiang era o inimigo dos chineses, White
voltou-se à prospecção da realidade do comunismo, descobrindo
que as forças de Mao estavam muito bem organizadas,
grandemente apoiadas pelos camponeses, militar e
politicamente muito mais eficientes que a do governo. A história
enfureceu Harry, porém o que ocorreu não foi a demissão
de White, e sim a promoção do nome do correspondente associado
entretanto a publicação de artigos que diziam o contrário de tudo
o que White pensava e estava informando aos editores.
John
Fairbank, oficial de Informação de Guerra na Índia e antes um
professor de White em Harvard, perfeitamente consciente do que
estava ocorrendo na China, escreveu a este uma carta desaforada,
destoando de toda a amizade que sempre havia existido entre eles
como se fossem pai e filho, pelas mentiras que White andava
publicando. Chocado, contudo White recobrou nisso alento para a
elaboração do seu livro, “Thunder out of China”, revelando
o que era realmente sua perspectiva dos acontecimentos.
O
livro fez grande sucesso - porém apenas um elemento no quadro maior
da ruptura a caminho, com Harry.
Em
1944, as forças de Chiang foram batidas naquilo que foi
designada Retirada da Asia Oriental. Para White e Stilwell, ocorrera
um colapso, não uma simples retirada, era a confirmação do que
vinham prevendo há tempos. De fato, Washington afinal aceitava
tomar consciência do estado de coisas na China, e Roosevelt
ordenou a Chiang que concedesse a Stilwell “irrestrito
comando de todas as suas forças”. Chiang resistiu, sabendo
que Stilwell era simpático aos comunistas. Roosevelt foi
desobedecido, tendo que retirar Stilwell da China.
Ao
contrário de repórteres menos conscienciosos, que apenas resumiram
o momento da partida de Stilwell, White escreveu a história inteira:
“Chiang sobreviveu à sua utilidade histórica”, como
“um homem de espantosa ignorância. Ele não é apenas
ignorante mas é inconsciente de sua ignorância”. (p. 120) A fúria
de Harry aumentou, nada disso foi editado. White escreveu a Harry
admoestando-o de que estava prejudicando a China, enquanto Harry
defendia-se, Chiang era melhor porque sua ideologia era a mais
aceitável por “nós”. Após a cobertura da capitulação do
navio de guerra Missouri, conforme a ordenação de Harry, White
devia retornar aos Estados Unidos, não continuando como
correspondente na China.
Harry
e White fizeram as pazes mais tarde. Mas nesse ínterim a
demissão fora ruinosa. White foi salvo financeiramente pela venda
de “Thunder out of China”, escrito
com Analee Jacobi, ao “Livro do Mês” . Ele considerou
bom que a oferta pelo livro fosse feita depois de já ter se demitido
da Time. Harry detestou, mais que o livro, a sua influência, por
exemplo sobre George Marshal, responsável por uma tentativa falhada
de armistício, invectivando que Marshal estivesse “carregando o
livro daquele judeuzinho feio filho da puta” (p. 125).
Para
Harry era algo espantoso que alguém que ele não apenas havia
contratado, mas que havia “feito” - conforme pensava - pudesse
estar agindo de modo inverso a tudo que ele podia esperar. Páginas
de Time não deixaram de ocasionalmente ferir White, que ficou mais
alarmado ainda quando leu a entrevista de Harry ao Post-Dispatch
de Saint Louis, em que designava White como um comunista, explicando
porque o demitira. A essa altura, os livros de White eram banidos do
país, e ele não tinha muitas ofertas de emprego - era o
momento do McCarthysmo.
Porém
o livro de White sobre a China havia sido um imenso sucesso, vendera
43.000 cópias na edição regular e 400.000 na do Livro do Mês. Ele
se mudou para a Europa, quando sobreveio a crise, onde escreveu sobre
o renascimento da cultura europeia-ocidental em “Fire and Ashes”,
e obteve posição proeminente como articulista político na
Collier’s, uma revista que, como a Saturday Evening Post,
reproduzia o formato de Time e Life, porém sem o
aparato fotográfico que Harry introduzira tão
exitosamente.
Em
1956, quando White estava ainda em Paris, amigos comuns o
reaproximaram de Luce. A revista falira, e Harry convidou White
para a Life, o qual aceitou ainda que com certa hesitação. Com o
tempo a antiga amizade refloresceu e White ficou sendo o único
colaborador de Harry com licença para interrompê-lo - Harry tinha a
mania de enveredar por monólogos que não admitia serem
interrompidos. Porém com reserva: “mas não me interrompa muito,
Teddy! Não me interrompa muito” (p. 129).
Os
acontecimentos na China não fizeram de Harry um McCarthysta apenas
devido ao montante de vítimas que obviamente eram pessoas
respeitáveis e não comunistas de fato, o que tornou-se
intolerável. Mas de fato o anticomunismo de Harry
tornou-se mais vivo, e ele aproveitou o momento para estigmatizar o
partido democrata, responsabilizando-o diretamente pelo desastre na
Ásia e lançando o estigma da “moleza com o comunismo”
(“softness on comunism”).
Tornou-se
uma obsessão de Harry produzir um presidente republicano, ainda mais
porque fazia vinte anos que um republicano não se elegia, e se não
ocorresse agora seria como se o sistema bipartidário
estadunidense houvesse colapsado. Na convenção do partido, a
estratégia de Harry obrigou-o a trair o amigo Robert Taft, que
contava com o apoio dele. Harry não acreditava que Taft pudesse
ganhar a eleição, posto que era forte apenas em estados que os
republicanos ganhariam de qualquer modo ou naqueles em que os
democratas eram maioria, enquanto Eisenhower demonstrava boas
chances justamente onde o partido mais precisava.
A
publicação de um artigo mostrando essa simples aritmética da
nomeação culminou uma série de outros francamente
antipáticos a Taft, o que o surpreendera grandemente, dada a antiga
amizade. Eisenhower, porém, tornara-se o ídolo de Harry, e de
fato Eisenhower era um líder em qualquer grupo, segundo Halberstam.
Harry relacionava Taft com uma imagem que acima vimos os
republicanos estarem tentando afastar de si mesmos, modernizando-se,
sendo ele o estereótipo do conservador elitista, quando o
partido almejava propagar uma imagem popular e democrática.
Harry
obtivera êxito em convencer o público e o partido de que se os
republicanos quisessem vencer, eles tinham que optar por Eisenhower,
assim como antes obtivera êxito em convencer o mesmo Eisenhower a
concorrer. Ideologicamente porém Harry era bem aproximável a Taft,
e quando um dos seus repórteres, Robert Elson, foi enviado para
entrevistar Eisenhower, Harry ficou algo espantado com a
vagueza das respostas do general, a evitação óbvia de se
pronunciar sobre questões determinadas. Segundo Halberstam
porém era por isso mesmo que o partido republicano simpatizara
com Eisenhower, ele era ideal para a modernização da imagem,
um homem que não tinha um passado na acepção de uma causa.
Porém
a modernização do partido republicano, como vimos acima, era um
movimento hesitante. Se o visado era a imagem popularesca, Nixon era
o ideal, como observou Paulo Francis em seu estudo sobre a disputa
com MacGovern - Nixon, tão inconsequente e apaixonado, tão
imediatista e impaciente quanto o homem comum da América,
contradizendo as taxas de alta educação; mas a elite patrocinadora
do partido, oriunda do business de mídia, não estava disposta a ir
tão longe, e o próprio Harry não se sentia à vontade
com Nixon. Essa elite acreditava então na sua
própria missão educadora.
A
vitória nas eleições suavizaram o ardor anti-comunista e
republicano de Harry, que para Halberstam criou literalmente o
cenário do McCarthysmo, uma vez que os desejos de Harry eram
contemplados na retórica agressiva de Eisenhower.
Halberstam
convém com os admiradores de Harry, que observaram que seu
registro dos desmandos de MCarthy foi o melhor naquele período
sombrio, porém crendo que a história real é mais
complexa. Pois Harry, paralelamente, estava colocando o
partido democrata na defensiva, acusando Acheson de “moleza
com o comunismo”, e produzindo um vácuo a partir da
censura da informação tal que permitia o surgimento de teorias
conspiratórias, não expressando de fato qualquer
compaixão pelas vítimas decentes, posto que em todo caso
elas eram relacionáveis à questão comunista. Além disso,
continuava a cobrir Chiang como o verdadeiro líder da China.
É
até algo jocoso o modo como Chiang bajulou Harry na sua visita à
China, instando por um encontro quando ele já estava a caminho do
aeroporto após os compromissos agendados, e quando Harry concedeu a
visita, meio sem saber o que ainda havia para falar, pensou ser
apropriado perguntar o que Chiang antevia para o futuro da China,
sendo a resposta a antevisão de “grandes perigos”. Harry
insistiu por um esclarecimento, algumas vezes. A todas a resposta era
a mesma, “grandes perigos”.
A
meu ver, o lema do anticomunismo como uma questão de
“segurança nacional” não foi bem uma criação de Harry,
mas uma formulação adequada ao que os Estados Unidos haviam se
tornado, um complexo militar-industrial, como acentuou Julien. Em
todo caso, sem dúvida Harry refletiu a tendência e produziu-se como
seu ideólogo, o que explica a posição singular da Time com relação
ao Vietnã. Para Halberstam, o próprio Harry “claramente
considerava que o Vietnã era até certo ponto o seu bebê”
(p. 639).
O
curso histórico que conduziu à maximização do conflito
bélico na Ásia intercepta de forma crucial a atuação da
imprensa, conforme o tratamento de Halberstam: “O governo
americano estava menos lutando na guerra do que numa
campanha de relações públicas” (p. 626). Nesse ponto
Halberstam se coloca ele mesmo como um personagem na trama dos
eventos, já que atuara como correspondente para o New York
Times. As duas administrações, de Kennedy e Johnson, o
estigmatizaram pessoalmente.
Uma
política definida de cooptação da imprensa havia
sido estabelecida, e não devia haver complacência, a
mentira era a ordem do dia. Não devemos deixar de observar que os
acontecimentos contribuíram para esse resultado, uma vez que a
princípio não havia muitos que duvidassem da vitória dos
americanos. A resistência a mudar a opinião frente
aos fatos é que não só revelou-se demasiada, como
foi verdadeiramente produzida pela estratégia equivocada
dos governos - como sabemos, nisso não importando a origem do
partido.
Os
honestos repórteres de campo, contudo, conhecendo a
verdade pela experiência, foram críticos da mentira dos
grandes da administração na América, mas nunca deixaram de
ser simpáticos aos membros das forças armadas que lutavam
efetivamente. Porém como leais à verdade eles foram exceções
num meio extremamente corrompido a partir de uma estratégia
cuidadosamente orquestrada: bajulação de profissionais de
campo, resumos assinados pelo alto-escalão publicando informações
contrárias às que profissionais reportavam, e como por
“razões extremamente básicas” isso não adiantou, mandar VIPs
para Saigon, que deviam monopolizar a atenção dos repórteres
para depois voltarem relatando que estava tudo muito bem com as
tropas e a vitória estava à mão.
Por
outro lado, os profissionais que insistiam em não se deixar cooptar
eram caluniados, francamente hostilizados. Eles eram chamados
de demasiado jovens, desinformados, maricas (“sissies”),
dizia-se que choravam quando viam fotografias de corpos de vietcongs,
ou então que grassava entre eles perigosos radicalismos
políticos (p. 627).
Sobre Halberstam,
Kennedy se pronunciara a Sulzberger: ”o que você acha do seu
jovem em Saigon”? Sulzberger respondeu favoravelmente ao rapaz, que
nessa altura tinha vinte e nove anos. Kennedy
insistiu, indagando: “não acha que ele está demasiado
envolvido com a história”? Sulzberger continuou na linha
defensiva. Finalmente Kennedy sugeriu: ”será que vocês
não estariam pensando em manda-lo para Paris ou Roma”?
Halberstam
aduz que se Kennedy estava irado com a cobertura da imprensa em
Saigon - ao contrário do que Reston informara a Sulzberger sobre a
natureza do encontro com ele – era particularmente
porque Kennedy sabia que os repórteres estavam mais
rapidamente informados sobre as lutas de facções na embaixada do
que a própria administração nos Estados Unidos. Consigo mesmo,
Halberstam afirma que Kennedy estava sobremodo furioso por que como
repórter ele tinha as melhores conexões, estando há quinze meses
em Vietnã, sendo o único repórter de tempo integral para um jornal
americano em Saigon.
Quanto
a Lyndon Johnson, quando tomou posse já não havia apenas
15.000 americanos na Ásia como nos anos Kennedy, mas 100.000, e,
logo, 200.000. Repórteres comissionados pela Casa Branca estavam
sendo enviados ao Vietnã para dizerem o que a Casa Branca queria que
fosse dito, e esses visitantes, conforme Halberstam, estavam deveras
desinformados, suas fontes limitavam-se aos resumos produzidos pelo
alto escalão administrativo. Johnson gostava particularmente deles,
e os admoestava: “não sejam como aqueles garotos, Halberstam e
Sheeran... eles são traidores da nação”. (p. 628).
É
interessante observar que se Sulzberger precisava do conselho de
Reston na ocasião, é porque Sulzberger estava reassumindo os
negócios do New York Times como sucessor de Orvil Dryfoos, que
morrera de um ataque do coração. Sulzberger havia sido designado,
porém afastado pela preferência da família por Orvil.
Sulzberger, judeu, era um homem muito bonito, segundo
Halberstam, mas a família o apelidara “Punch” - um pequeno
“peso-leve”, como alguém que não tinha muita seriedade.
Ele se
sentia, pois, inseguro na profissão, e devendo entrevistar o
presidente estava demasiado pouco à vontade, por isso tendo
interrogado Reston sobre o que devia ser o teor da
conversação. Reston respondera que o presidente perguntaria
sobre os seus filhos, e Sulzberger deveria indagar do mesmo
modo, sobre os filhos de Kennedy. Nada disso verificou-se, e ao
invés Kennedy estava furioso com o Times e seu
correspondente radical, David Halberstam. Afinal Sulzberger
negou a Kennedy que estivesse pensando em retirar o correspondente do
cenário bélico.
Uma
das variáveis do curso histórico da guerra poderia ser equacionada
como a eleição de Kennedy contra Nixon. Ainda que este
não tenha deixado de bombardear, não parece ter sentido que
aquela era de fato a sua guerra, o que ficou claro quando Nixon
assumiu mais tarde. E Luce foi algo responsável pela eleição de
Kennedy, não obstante o antagonismo partidário.
Luce expressava-se
francamente seduzido por Kennedy, e se a Time apoiou Nixon,
não o fez com qualquer intenção real, Harry arrependendo-se
ao ver que um democrata havia ganho, culpando-se por isso -
mas no fundo deliciando-se: “você sabe”, confidenciava aos
amigos “eu não gosto de Nixon”, ainda que fosse sua obrigação
apoiá-lo, “eu não gosto de Nixon, mas eu gosto de Kennedy”,
ainda que não concordasse com tantas coisas nele: “ele me seduz”.
Os amigos respondiam “não é tão ruim assim, Harry”, e Harry
retrucava “é sim, quando estou perto dele me sinto como se
fosse uma prostituta” (p. 498).
Na
verdade, Kennedy trabalhou por esse resultado, objetivando se não o
apoio, tornar Time parte de sua estratégia de governo a fim de
contornar a oposição aberta, e assim também devia fazer Lyndon
Johnson. Eles visaram suas relações com a imprensa como
uma das mais importantes questões do seu governo, e entre
todas as publicações da época, Time e Life ou, alternativamente, o
New York Times.
As
relações de Kennedy com Sidey, empregado por Harrym são
algo reveladoras da personalidade de Kennedy e de sua
estratégia política. Quanto a esta, já vimos que se
a relação com a imprensa tornou-se central a ponto de
suplantar todos os demais objetivos, estes contudo os
únicos legitimáveis como responsabilidade do governo, tratou-se de
um jogo duplo em que a oposição se complementava pela bajulação.
Nada o espelha melhor do que o exemplo da estratégia kennedyana
relativamente a Time Inc. Porém neste caso o valor do exemplo é
igualmente duplo, uma vez que Harry estava pessoalmente
interessado em ser o condutor nas decisões que no entanto deveriam
ser exclusivamente responsabilidade do governo eleito e
representativo.
O
momento histórico é particularmente interessante para o demonstrar,
posto que singularmente concentrado num ponto único, a guerra do
Vietnã, condensando todas as paixões e contradições da guerra
fria como aquilo que havia substituído a multiplicidade de
atribuições da sociedade americana.
A
cobertura de Halberstam permite a meu ver considerar que a intenção
de Kennedy com relação a Harry era obter exatamente o efeito que
vimos ocorrer, a sedução pessoal, dadas as fragilidades a que
estava exposto, a condição religiosa minoritária e a oposição
partidária.
Pois,
quanto ao momentun, a guerra do Vietnã, não havia
muito o que Kennedy pudesse temer da parte de Harry. Pelo contrário,
segundo reporta Halberstam o presidente foi até mesmo chantageado
pelo proprietário da Time, com a promessa (“pledge”) ao pai, Joe
Kennedy, de que se ele mudasse a política americana na China ou
parecesse mole no Vietnã, Time o isolaria (“will tear him apart”).
A propósito, Mert Perry, repórter da Time no Vietnã, maravilhado
com o número de celebridades enviadas, designou o Vietnã de “Time
Magazine Disneyland.” (p. 639).
E
Halberstam acentua o quanto o Vietnã foi um divisor de águas na
história política americana, deslocando inteiramente a oposição
tradicional de presidência e congresso para uma oposição real
entre presidente e imprensa, enquanto o anticomunismo da era
McCarthy transformava-se no imperialismo da era atual. Houve
constantes investigações da CIA e das forças armadas sobre as
fontes dos repórteres no Vietnã, com uma piada correndo a
propósito, os correspondentes recebendo mensagens dos escritórios
centrais perguntando por que os coronéis que os
informavam nunca eram nomeados, e eles respondiam, porque se
fossem nomeados eles não seriam mais coronéis.
A
batalha era sobre a informação de como e quanto durava a
guerra. Nunca houve, segundo Halberstam, conflito de repórter
contra repórter, propalado pela Casa Branca e o Pentágono,
inversamente o consenso dos correspondentes em Vietnã sobre
o rumo desastroso da guerra era completo, destoava sim
apenas a informação de correspondentes e visitantes pagos
para perpetuarem a versão falsa da administração. Se os repórteres
não confiavam na diplomacia, mas viam como honestos aos soldados que
lutavam, era porque aqueles funcionários eram os que haviam sobrado
após o mcarthysmo, ou seja, sem consciência política, sem
convicção existencial.
Nesse
cenário a censura tornou-se um requisito do aparato do Poder
imperialista, articulado entre a Cia, a Casa Branca e o
Pentágono. Aos itens que vimos acima compondo a estratégia de
contra-informação do governo na guerra, ajustou-se ulteriormente a
doutrina da segurança nacional com o componente expresso do dever de
autocensura por parte dos repórteres, uma vez que o debate seria
oportuno ao inimigo (p. 625).
Compreendemos
assim a pressão sobre o New York Times quando Kennedy soube que
Tad Szulc, um repórter com boas conexões na América Latina,
descobrira que a CIA estava recrutando e treinando cubanos exilados
num quartel secreto da Guatemala. Algo dessa história já havia
transpirado em The Nation, contudo houve uma cortina de silêncio,
como desinteresse motivado por um sentimento de temor. A história de
Szulk no Times era algo bem diverso em termos de recepção. Kennedy
convocou Scotty Reston, quando o Times ainda estava sob Orvil,
instando para que a história fosse cortada, de modo que não
impedisse o plano de segurança nacional.
Orvil,
seguindo Reston, concordou com a censura de Kennedy, não sem
resistência da parte de editores em New York que se sentiram
particularmente irritados, Theodore Bernstein argumentando
argutamente sobre a irredutibilidade entre segurança nacional e
interesse nacional, não era atributo do governo impedir a livre
expressão garantida por lei num país democrático. Surpreendido
pela veemência dos seus próprios colaboradores, contudo Orvil
sentiu-se demasiado ameaçado para desafiar a autoridade de Kennedy e
a história não foi publicada. Porém, como Halberstam observa, como
segredo o caso não tinha razão de ser, uma vez que se Szulc sabia,
Fidel certamente também sabia.
Como
já deve ter ficado claro, o treinamento integrava o projeto de
invasão da Baía dos Porcos, que resultou no fiasco que a história
registra. Após o que, Kennedy chegou a arrepender-se, se a
reportagem fosse publicada poderia tê-lo salvo do desastre,
confidenciou a testemunhas, porém a atitude de
Kennedy perante os repórteres no pronunciamento oficial à
imprensa foi uma mistura de ostentação pessoal e reforço à
doutrina de segurança nacional, recusando-se sob essa escusa a
informar o que todos queriam saber, o que realmente havia acontecido
na Baía dos Porcos, ao invés apresentando a doutrina da
autocensura.
Com
a Time nunca ocorreram tais conflitos de interesses em política
externa - que agora invertendo a hierarquia era a marca
da liderança nacional - mas sim os que pudessem
decorrer da pretensão do presidente dominar os pormenores da
veiculação de sua imagem pública. Sidey, o repórter da Time para
a Casa Branca, se tornou assim o alvo natural da instabilidade
emocional kennedyana.
Não
havia na Time voz discordante de Harry que permanecesse deveras
audível. Emmet Hughes, grande amigo e colaborador de Harry, que se
comprazia em discorrer sobre questões teológicas com ele, mesmo não
sendo presbiteriano e sim católico, e a quem Halberstam considera um
homem de profunda inteligência, dotado de beleza e cultura, se viu
envolvido num prolongado confronto a propósito da nomeação do
editor chefe. Hughes fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar
a nomeação de Fuerbringer, um luterano conservantista que almejava
apenas servir como o melhor instrumento das intenções de Harry,
tencionando ao invés que a nomeação fosse para alguém mais
cultivado e liberal. Porém o jogo de pedir conselhos era mais
aparente que real, Harry queria apenas concordância, e se Hughes
afinal não a concedeu, então ele apenas desistiu de procura-la e
decidiu por si mesmo. Ainda que soubesse que também
os seus repórteres de campo não gostavam de Fuerbringer.
As relações
de Hughes e Harry afinal expressaram os dois pesos e duas
medidas de Lucy, após o interregno de 1958 a 59 quando não
havia ninguém tão íntimo deste quanto Hughes, que ficara
famoso por ter inscrito na Time a sentença mais importante
de Eisenhower no ano de 1952: “I shal go to Korea”
(“Irei à Corea”). É que Hughes escreveu depois um
livro crítico sobre o governo Eisenhower, o que irritou Harry.
Nomeado
Otto Fuerbringer para editor manager de Harry, o caminho para a
aprovação da beligerância imperialista em política externa estava
garantido, porém Kennedy queria mais do que isso, ele
queria pessoalmente inspirar uma atração irresistível, que fosse
sentida até pelos oponentes partidários. Por meio dessa atração
ele esperava neutralizar ataques relativos à sua posição interna
liberal, o que porém ele dificilmente poderia esperar de
Fuerbringer.
Sua
estratégia consistiu em ser visto, em momentos importantes
de exposição pública, lendo a Time, profundamente interessado na
linha editorial, convidando Harry para constantes jantares na Casa
Branca. Certa vez, quando Fuerbringer esteve doente, mesmo antes de
Kennedy ser eleito, surpreendeu Harry, perguntando-lhe se Otto
estava de férias. Harry indagou porque ele perguntava, Kennedy
respondendo que era por ser claro que a revista não estava como de
costume naquela semana.
Quando
Kennedy se elegeu, Fuergringer adoeceu gravemente, de um aneurisma,
sendo substituído por Tom Griffth na Time, em quem Harry não
confiava tanto. Kennedy refletiu a mudança, pois quando
Fuerbringer retornou, ele o compreendeu de imediato. Ao
desembarcar numa noite de viagem, deteve-se um pouco na
pista do aeroporto, lendo a Time sob as luzes do avião,
os dedos correndo pela página enquanto lia, a face se tornando cada
vez mais severa: “Isso está errado... isso está errado...
isso está errado...”, vaticinava. Chamou Sidey que
esperava junto ao corpo de imprensa: “Sidey, ouvi que
Fuerbringer voltou.” O repórter confirmou a
informação. “Sidey, você havia me garantido que ele estava
virtualmente às portas da morte. ... Você me enganou” - ele
estava totalmente furioso. As relações de Kennedy
com a imprensa não foram comprometidas apenas pelo movimento
pacifista, como se demonstra pela curiosa batalha de Kennedy na
Time.
Conforme
Halberstam, 1961, o início da década, é uma era favorável
ao incremento de lucros na imprensa, o próprio Kennedy era uma fonte
de notícias, uma garantia de prosperidade, e Time se beneficiou
igualmente. Ao contrário, para Kennedy a época não era boa, uma
época de grandes fracassos pessoais, e ele procedia nisso de modo
oposto a Nixon. Este, sob pressão, apelava para repórteres de
publicações favoráveis a ele, e restringia o acesso a estes.
Kennedy apelava para os críticos, os que lhe eram favoráveis não
precisavam de atenção a seu ver, no máximo alguma
confirmação. Na Time, Fuerbringer estava sofrendo oposição de
Clurman, responsável pelo setor de contratações, e Sidey
era um homem de Clurman, em quem Fuerbringer não confiava, o
que o levou a tentar sustar a nomeação de Sidey para cobrir a Casa
Branca, porém Harry, sendo o único satisfeito com o conflito entre
a sede do jornal e os repórteres de campo, permitiu que ele
continuasse.
Kennedy
passou a uma constante perquirição de tudo o que era publicado
sobre ele e seus íntimos. Se o artigo versasse sobre política ele
se mantinha controlado, mas não se fosse sobre detalhes da vida
pessoal, uma referência ao velho Joe, ou às aulas de tênis da
célebre esposa, a bela Jackeline Kennedy, que depois do
assassinato dele casou-se com o milionário Onassis.
Kennedy
nutria suspeição diretamente voltada contra Sidey. Mesmo
quando nomeado Homem do Ano, ficara irritado. Chamou Sidey
para reclamar: “soube que os seus filhos das putas fizeram
isso de novo”. Qual era o problema? - Sidey tentando entender.
Kenny O’Donnell havia registrado que Kennedy estava sendo
retratado por um famoso artista, uma operação difícil, com
Kennedy nada satisfeito com o resultado, parecia cansado, os
olhos não alinhados. Kennedy acusou o artista de tê-lo feito
parecer vesgo, e o pintor respondeu, “bem, ele é
vesgo”.
Certa
vez a fúria de Kennedy parece mais justificada - Time havia coberto
um evento mas cortado o número de pessoas na multidão para 40.000
quando o número beirava os 80.000. Nessa ocasião a fúria foi
descarregada não em Sidey, mas em Harry, Kennedy
invectivando repetidamente que sua revista não era decente, não
agia honestamente, até que vindo do Salão Oval, deram com
Sidey que lá fora esperava por Harry. Kennedy aproveitou
para desancar Sidey - “aí está, Sidey, o melhor repórter de
Washington. Sidey, se você for a Pensilvânia Avenue e
perguntar a qualquer um que seja razoável, se Time foi decente
comigo, o que você acha que ele responderia”? O repórter,
chocado, ouviu a si mesmo balbuciando que provavelmente
Kennedy estava certo, era verdade, mas que o trabalhador comum
de Washington não era representativo do trabalhador em geral
uma vez que Washington era uma cidade da companhia. (p. 504).
Algo
engraçado como possa parecer o incidente, Harry compreendeu que
as coisas estavam mal, que não era interessante Kennedy
estar pensando que sua revista não era decente com ele, porém
quando confidenciou sua preocupação a Fuerbringer, este indagou
o que o proprietário da Time queria que seu empresário-editor
fizesse, e obteve como resposta apenas, nada.
Mais um
incidente registrado por Halberstam, mostra Kennedy
absolutamente furioso pelo fato de que a seção social da Time havia
publicado que posara para a capa do Gentlemen’s Quarterly. Sidey
relaxou, pensando que fosse assunto de menor importância. Havia
ficado temeroso porque Kenny O’Donnel lhe dissera que algo sério
havia ocorrido, Kennedy estava realmente aborrecido.
Sidey
foi chamado ao Salão Oval e Kennedy, sendo a ocasião em
que John Glenn havia completado a pioneira órbita espacial, ligava
para cumprimentar o astronauta. Enquanto esperava na linha,
descompunha Sidey: o que as pessoas iriam pensar dele, o que
significava publicar que ele havia posado, “Sidey, seu filho da
puta, vê se você faz as coisas direito”, subitamente voltando-se
ao fone, para cumprimentar Glenn com a voz mais gentil do mundo,
“quão maravilhada, quão orgulhosa dele a nação inteira
estava”, continuando nesse tom por vários minutos até que
pousando o fone no gancho, voltou-se para o repórter, xingando-o
de novo, amaldiçoando a publicação.
E
Sidey, que despertara ainda maior raiva porque
sem notar o quão séria a coisa era, rira quando Kennedy
mencionara a Quarterly, agora estava rindo novamente, ao sair
da Casa Branca sob o pior agravo que um repórter já sofrera, mas
isso significava acesso, “maravilhoso acesso para ele e a Time”
(p. 506).
As
relações de Harry com o presidente Lyndon Johnson deveriam ser
melhores do que com Kennedy. Fuerbringer gostava de Johnson e Sidey
não teria dificuldades uma vez que era amigo pessoal do presidente.
Sidey ligou para Johnson, sob injunção de Fuerbringer, para
combinarem um encontro em que Fuerbringer seria apresentado a
Johnson, e este, que adorava errar o nome das pessoas como uma forma
de coloca-las na defensiva, respondeu: “então, quem é esse velho
amigo que eu devo ver? Otto Foofinger? Otto Fingerbinger”? Durante
o encontro Johnson tornou-se bem claro quanto à preponderância
do Vietnã em seu governo. Ele seria muito mais duro, aprestado para
a guerra e a vitória. Isso era porém o contrário do que Johnson
estava anunciando publicamente, prometendo suavizar a política
externa.
Nessa
época ainda não havia os termos opostos que se tornaram correntes,
dove e hawk, respectivamente pombo e falcão conforme os que eram
contra ou a favor da guerra. Assim Frank MacCulloch não podia ser
chamado ainda um hawk porém quanto ao sentido das palavras, ele
certamente não era dove, e estava frustrado com o rumo da
guerra - Halberstam nota que o pensamento dele era bastante
complexo, porém resumindo estava a favor do conflito
bélico. Consequentemente, publicou uma reportagem sobre o envio
de tropas por Johnson a Da Nang, quando o presidente estava
ainda anunciando que ele não iria mandar tropas americanas - nessa
altura, os protestos de rua contra o alistamento de jovens soldados
se tornando maiores.
Uma
mensagem da Casa Branca foi imediatamente despachada, negando
autorização para publicar, quando a consulta da Time fora feita - a
importante reportagem, mostrando a contradição de palavras e atos
da presidência, não pode chegar ao público. Nada menos que o
próprio Lyndon Johnson enviara a mensagem negando consentimento para
a publicação, e o procedimento se tornou corriqueiro. Johnson
concedia muito acesso a Time Magazine, mas apenas para controlar o
que a revista publicava ou não. McCuloch gradualmente se tornava o
White do Vietnã. Sempre mais consciente da realidade, sempre mais
censuradas as informações pela Casa Branca, e a Time não rompia
com o sistema de contrainformação instituído.
Quando
McCuloch se demitiu, não houve sucessores imediatos. Não muitos
profissionais pretenderam o cargo, mas os que o queriam eram
barrados. Fentress obteve o emprego, porém para chocar-se com a
mesma dificuldade. Mas nessa altura, em 1967, Donovan era o novo
encarregado da Time, sucedendo o proprietário, e as coisas mudaram
um pouco. Qualquer contato com a realidade estava agora patentemente
contrastada à informação oficial. Donovam foi ao Vietnã e
constatou que havia 500.000 americanos, porém mesmo essa quantidade
já se sabia não ser suficiente. A linha mudara, ainda que
Fuerbringer não o aprovasse pessoalmente.
Ralph
Graves, da Life, foi o jornalista que expressou a mudança, e segundo
Halberstam, sua reportagem na Life em 1969 foi a maior contribuição
para o movimento pacifista - nada além de fotografias das vítimas
no Vietnã, 242 jovens americanos mortos na
guerra, em uma semana (p. 676). Quando a revista
faliu, três anos depois, Graves deplorou que sua remanescente posse
como editor jamais resultaria numa publicação tão importante e
poderosa na história.
Com
relação a Watergate, incidente que encerra a cobertura das fontes
que estamos examinando, Time Inc. refletiu as desilusões de uma era
de republicanos que se não a princípio bem dispostos
relativamente a Nixon, estavam ao menos convictos de que as decisões
do partido deviam ser respeitadas para logo se tornar claro o
proveito para todos. Harry pessoalmente não gostava de Nixon, mas
desde os anos cinquenta Time produziu a boa imagem do político
que o partido requeria. Como os acontecimentos se sucederam,
porém, mesmo as mais arraigadas fidelidades tiveram
que ser postas de lado.
Como
uma tendência geral do business de mídia, isto é, do alto escalão
dos proprietários e managers que compunham a articulação
do poder com o Executivo, houve a necessidade de refletir a
cisão em curso, a partir da reação do legislativo frente aos
descalabros de uma administração não dotada intelectualmente,
francamente hostil à inteligentzia, enquanto os jovens eram
dizimados no Vietnã, os protestos de rua beiravam a guerra
civil devido a inépcia na política racial minada pela
demagogia e unilateralidade, e a carestia grassava no país como à
época de Nixon.
Em
1967, a morte do proprietário de Time Inc., tendo antes
designado o sucessor Hedley Donovan, facilitou que a
revista acompanhasse a tendência de ruptura para com a tradição de
décadas do principado da presidência. Para Donovan a fé no partido
republicano e o anticomunismo não eram uma adesão da alma.
Ainda que ele tivesse sido apontado como sucessor, o
contrário virtualmente não ocorreria, ele não apontaria
o próprio benfeitor se fosse ele que estivesse tendo que
escolher.
Time
apenas acompanhou a tendência. Cronkite e Friendly da CBS, são
mais exemplares do desencadeamento da mudança, assim como uma
série de incidentes relacionados à cobertura da imprensa,
quando a reação do legislativo implicou a necessidade
de ampliar o leque das opções do que mostrar, o
presidente já não resumindo a unidade da atração.
Os
inquéritos de William Bill Fullbright desencadearam a reação do
congresso e apelaram a uma mudança na política de cobertura, o
que Friendly empreendeu, ainda que para chocar-se com
grandes resistências. Não obstante, ele obteve atenção do público
para as tremendas revelações da inépcia e corrupção
governamental que estavam surgindo dos inquéritos.
Cronkite,
a princípio como todos os conservadores tendo se alinhado com a
decisão governamental contra o Vietnã, foi uma peça chave
na aceleração da mudança da opinião nacional a
propósito da guerra, ele mesmo mudando ao visitar pessoalmente o
Vietnã, tendo que voltar num veículo com doze corpos de GI’s,
de uma suposta cidade pacificada.
O que o
chocou não foi tanto a ferocidade da batalha, ainda
que realmente impressionante, mas testemunhar generais
simplesmente mentindo, escrevendo resumos para
correspondentes informando que a batalha na cidade de
Saigon estava terminada, quando Cronkite verificava
pessoalmente, como todos que lá se encontravam, que estava
obviamente pendente: “o que significava que os generais era
mentirosos ou tolos, e se eles mentiam sobre algo como aquilo,
poderiam mentir facilmente sobre qualquer coisa”, conforme
Halberstam (P. 714).
A
viagem de Cronkite ocorreu em 1968, quando da ofensiva Tet, o que
implicou uma mudança na estratégia dos guerrilheiros vietcongs em
Hanoi, que até aí só lutavam à noite, pois não dispunham de
força aérea e à luz do dia podiam ser filmados. Não sendo muito
visíveis, a televisão pudera cunhar a impressão do inimigo fraco,
não totalmente sério. Mas com a ofensiva Tet a batalha a céu
claro tornou-se obrigatória, e a ferocidade, organização e
eficácia dos vietcongs ficaram evidentes à cena televisiva, o
que minou a credibilidade da administração de Washington.
Mas
desde Lyndon Johnson a tradição da mídia como veículo
presidencial começou a perigar, devido à instabilidade emocional
que ele também revelou após Kennedy. Johnson era inseguro
especificamente com a aparência diante das câmeras - o nariz, os
óculos, os modos pouco à vontade.
Até
o desastre no Vietnã tornar-se patente, contudo, a mídia perseverou
no papel de sedimentação do monopólio do poder presidencial.
Conforme Halberstam, ela ampliava os argumentos do governo e
silenciava as críticas dos especialistas mais conscienciosos. Ela
dava a impressão de que o governo estava não apenas unido, mas
confiante no curso da guerra, quando o contrário é que era
verdadeiro, a presidência estava solapando as atribuições dos
outros ramos do governo, a partir da doutrina da segurança nacional
desdobrada numa prerrogativa da informação secreta, o que funções
do Departamento de Estado estavam agora drenando para a CIA.
Congressistas
importantes como Fullbright estavam sendo cooptados por meio de
bajulação, sendo consultados sobre decisões cruciais, porém
quando elas já haviam sido tomadas secretamente pela Casa Branca. O
Conselho de Segurança Nacional, protagonizado por homens como
Rostow, Bundy e Kissinger, é que realmente importava à
decisão, uma vez que eles eram completamente “homens do
presidente”.
Veiculando
a imagem de um governo confiante e unido, o business de mídia
escondia a verdade de que, pelo contrário, ele estava terrivelmente
dividido, a maioria na Cia, Departamento de Estado e forças armadas,
eram críticos do andamento da guerra, enquanto a minoria que a
conduzia concentrava a decisão contrária, por ser hierarquicamente
mais importante. O consenso era tão frágil que mesmo homens como
McNamara e o próprio Johnson nutriam dúvidas, porém a mídia,
particularmente a televisão, nunca as registravam,
passando a convicção de um governo confiante porque informado pelos
experts.
Assim
o desafio de Fulbright à presidência foi um evento histórico de
grande importância, ocorrendo um ano depois da intervenção
dos Estados Unidos no Vietnã. Em quase quinze anos, essa era a
pioneira concessão da mídia de uma plataforma nacional a uma
figura do congresso. Fulbright a princípio não se incomodou, e
até se divertiu com o modo como Kennedy usou a mídia, enquanto o
partido republicano tentava barra-lo com o Ev e Charlie Show, mas na
ocasião da guerra tornou-se perplexo pela total cooptação da mídia
como veículo presidencial, a política do governo sendo
sistematicamente vendida pela televisão, e pelo fato de que além da
prerrogativa de exposição presidencial assim como de altos cargos
relacionados ao presidente, não havia na televisão meio de
expressar opiniões em desacordo. Ele mesmo não tinha acesso ao ar.
Com
os seus inquéritos na Comissão para Relações Externas, ele
se tornou uma figura maior na mídia, sendo irônico, ao ver de
Halberstam, que personagens como Dean, que reclamaram tanto de que
ele os havia emboscado num ambiente manipulado, não
sabiam que a equipe de Fulbright pudera sentir prazer com as câmeras,
mas ele propriamente não, ainda que não proibisse que os inquéritos
fossem televisionados, de modo a alertar a nação.
Antes
Fulbright tentara alertar pessoalmente a presidência, entre Kennedy
e Johnson. Escrevera um memorando a Kennedy, porque ouvira
rumores sobre uma operação clandestina, desaconselhando-a,
argumentando que esse tipo de política arbitrária, de força, era
aquilo mesmo contra que os Estados Unidos estavam se batendo na
guerra fria, porém se Kennedy considerara cuidadosamente o
memorando, como sabemos a desastrosa invasão da
baía dos Porcos não foi detida.
Fulbright colaborou
com Johnson, quando este assumiu, tendo apoiado a nomeação de
Johnson para as eleições. Goldwater era odioso,
Fulbright poderia ter dúvidas sobre Johnson porém não tinha dúvida
alguma de que Goldwater tinha que ser evitado a todo custo - como a
redução da política às armas nucleares, a força militar como
solução para problemas políticos.
Baseado
nisso, Johnson aproveitou para obter de Fulbright apoio no congresso
para a invasão do golfo de Tonkin, de que Fulbright mais tarde
muito se arrependeu, porém convencido na época pela desculpa de
Johnson sobre que não haveria muitas tropas dispensadas ao Vietnã.
Fulbright, muito influenciado por Walter Lippman, começou a instar
com Johnson sobre ser exequível para a América viver pacificamente
com o governo unificado do Vietnã sob Ho Chi Min, porém nessa
altura sobre esse tipo de proposta Johnson não se dignava
sequer a enviar uma resposta.
A
ruptura de relações de Fulbright e Johnson ocorreu na verdade não
por causa do Vietnã, mas da República Dominicana, um episódio que
equivaleu a uma miniatura do Vietnã. Fulbright considerou a
operação - que devia ser incrivelmente rápida - como um símbolo
do imperialismo yankee, algo brutal, reportando-o a Szulc do New York
Times. Johnson passou a odiar Szulc por causa da cobertura negativa
da República Dominicana: “aquele pé-rapado fodido, Schultz”
- sempre a mania de alterar o nome - “aquele pé-rapado
fodido. Se apenas pudéssemos jogá-lo na cadeia liquidaríamos
com a coisa toda em duas semanas” (p. 697).
Johnson
detestava expor-se à mídia, ainda que soubesse o quanto precisava
de cobertura - ele convidou Fred Friendly para ser o seu guru
televisivo, num cargo que teria importância equivalente a do seu
conselheiro para assuntos estrangeiros, na esperança de acabar com a
insegurança que nutria quanto à aparência, porém Friendly recusou
ainda que Johnson houvesse insistido bastante.
Certa
vez Johnson perguntou a um produtor da CBS, Mike Honeycut, se o rapaz
estava tentando “fodê-lo”, e o rapaz: “Sir?”, chocado.
Johnson repetiu a pergunta para em seguida gritar, subitamente,
“tirem-no daqui”, o rapaz ainda mais perplexo. Havia
ocorrido que Honeycut filmara Johnson logo após tê-lo
maquiado, esperando contornar alguns dos problemas da aparência
e modos, porém o resultado não agradou ao presidente - o que depois
explicaram ao jovem como o motivo do estranho comportamento.
Halberstam
traça um contraste notável entre Johnson, sem qualquer
habilidade conceitual mas com talento para fazer as coisas
acontecerem, e Fulbright, cerebral, admirado, senão de fato amado,
por seus companheiros, o residente do Senado, incapaz de empurrar um
braço ou pressionar um colega para votar com ele.
Coerente
com sua honestidade intelectual e ausência de agressividade sádica,
Fulbright tentou convencer Johnson de que sua ofensiva contra
a política no Vietnã e a corrupção interna não era pessoal,
mas apenas institucional, o que de modo igualmente coerente,
mas com a personalidade vingativa de Johnson - Lyndon
Johnson da Cidade de Johnson - não foi aceito.
Fulbright
se deixou levar pelos conselheiros que instaram que ele fosse
até o aeroporto, numa noite de tempestade,
cumprimentar Johnson que retornava de uma viagem ao
exterior, a fim de provar que não era um inimigo pessoal. Johnson
olhou através dele, como se não o visse, não se dignando a
reconhece-lo ou falar com ele.
Se
Fulbright fizesse o seu discurso contra a política
presidencial, as relações seriam cortadas - isso estava claro de
início. Fulbright se ateve apenas à qualidade do pronunciamento.
Uma vez obtendo a confirmação de que estava bom, recusou os
conselhos para preservar as relações com Johnson.
Foram
os carbonos preservados por Szulc, das entrevistas de Fulbright sobre
a República Dominicana, que serviram de base para organização da
comissão de inquérito. Os inquéritos de Fulbright não atraíram a
atenção do congresso no começo. Porém quando Thomas Mann, o
Secretário Assistente para a América Latina e um dos arquitetos da
intervenção foi chamado a depor, manteve-se na clássica linha da
guerra-fria: se vissem as mensagens cabografadas por si mesmos,
concordariam imediatamente com a ofensiva. Apenas ver a mensagem - a
arma que se acreditava suficiente.
Fulbright,
bem aconselhado pela equipe, retrucou prontamente que, sim, queriam
ver as mensagens. Intoxicados pelo poder, crentes na ausência de
desacordo interno, a administração enviou os cabogramas. Pat Holt
verificou o tráfego das mensagens, observando que havia conteúdos
que confirmavam, ao contrário do que havia sido dito pela
Administração, a versão de Szulc. O efeito foi devastador,
mostrando a Administração não informada, depois tentando arranjar
a informação de modo diferente do que realmente Johnson e Dean
haviam declarado.
O
tratamento de Dean por Fulbright foi o mais amargo, devido ao
montante de irritação e descontentamento deste com o rumo das
revelações. A televisão não mostrou o depoimento ao vivo, ela
simplesmente não estava preparada para cobrir o que Halberstam
designou “o maior debate entre dois ramos equivalentes do governo
na questão mais vital da década” (p. 702), e amiúde rodava
reapresentações de “I Love Lucy” em ocasiões cruciais
ao invés de cobrir os eventos, o que significava na verdade
adesão à política governamental.
Friendly,
então presidente da CBS, considerou a lacuna indesculpável, e
quando ocorreu o próximo depoimento, de David Bell, ele o cobriu ao
vivo, o que representou uma enorme despesa - 175.000 dólares -
porque o inquérito durou o dia todo, o que Friendly não
antevira. Stanton ficara particularmente
insatisfeito, ele era amigo pessoal de Lyndon Johnson, e não
havia apoio para Friendly continuar cobrindo.
Johnson
estava tão irado com as coberturas críticas que
quando Safer mostrou os soldados americanos incendiando Cam Ne,
ligou de manhã cedo para Stanton, perguntando se ele estava
querendo “fodê-lo”. Stanton, despertando
sonolento, indagou quem estava na linha: “Frank, aqui é o seu
presidente, e ontem os seus rapazes cagaram na bandeira americana.”
Lyndon continuou nesse tom. Como a CBS podia ter empregado comunistas
como Safer, e se comportado tão antipatrioticamente? Johnson
encarregou a Polícia Montada de investigar Safer, e inclusive uma
sua irmã, porém nada foi apresentado contra ele (p.683).
Significativamente,
o depoimento mais importante na comissão de inquérito
de Fulbright, de George Kennan, “o homem mais reflexivo e
cerebral no campo da política externa americana”, autor da
política de restrição (“containtment”) e “a mais importante
voz do país”, não foi televisionado pela CBS (p. 704). Stanton
argumentou que voz importante ou não, Kennan não tinha um título,
e títulos eram o essencial, além disso, as donas de casa não
tinham interesse nos depoimentos - de fato, muitas ligaram reclamando
porque suspenderam o “capitão canguru”, programa infantil que
mantinha as crianças ocupadas, por causa do depoimento de Bell.
A
NBC cobriu Kennan, enquanto a CBS mostrava reapresentação de
antigos números de “I Love Lucy”.
Paley
e Stanton estavam de fato furiosos. Friendly perdeu acesso, eles
lograram encurrala-lo por uma organização especialmente designada
para mantê-lo como diretor da divisão de notícias longe
da sala deles, de modo que era com uma burocracia
que Friendly tinha agora que se haver para obter
decisões. Em alguns dias Friendly se demitiu, e seus superiores não
se surpreenderam, se preocuparam somente com as
declarações públicas que ele pudesse fazer.
Friendly
apenas permaneceu na dúvida sobre se sua demissão havia sido
planejada por Lyndon Johnson. De fato, não houve novas transmissões
da comissão de inquérito, enquanto Johnson anunciava estar enviando
todo o pessoal a Honolulu para conferenciar com Cao Ky - a clássica
política presidencial de reobtenção das atenções da mídia no
momento em que o congresso o lograra.
Ainda
assim, quando Nixon assumiu as relações da mídia com o
executivo já não eram como na antiga tradição de veículo
presidencial, a crítica já não podia ser de todo
ignorada, muitos profissionais estavam pessoalmente envolvidos
com a visão contrária à Administração. Os prolongados anos de
guerra haviam minado a confiança do público, e em 1968, quando
Cronkite mudou, tornando-se pessoalmente desimcompatibilizado com a
guerra, Johnson compreendeu que estava acabado. Em 1968, a
presidência estava na defensiva.
A
Time Inc. refletiu a mudança na tendência, e sua cobertura de
Watergate também foi um efeito da mudança na própria
estrutura da empresa sob a liderança Hedley Donovan.
Inversamene
a Grunwald, o novo editor chefe da Time, a concepção de Donovan
sobre o governo era típica do cidadão inocente americano, conforme
Halberstam. Enquanto a perspectiva Grunwald era a de um olhar
condescendente com algum esperado pecado ou corrupção, Donovan
esperava apenas moralidade e comportamento aceitável. Ele
estava bastante embaraçado com a inteira presidência
Nixon, incomodado com o que ele sentia serem os defeitos de
caráter de Nixon, o isolamento que trouxera ao
cargo, a tendência à crítica devastadora, personalizada.
Nesse
comentário sobre Donovan, Halberstam insere a repulsa que o
vice-presidente despertava em Donovan, que o considerava um homem
perigoso, de capacidade estreita, não compreendendo como alguém
poderia ter escolhido Agnew para a vice-presidência. Em
inícios dos anos setenta, Life até mesmo escreveu um artigo
sobre a necessidade de escolher outro vice-presidente. O
próprio Halberstam porém anota que “Agnew, um
homem orgulhoso e sensível, ficou profundamente ofendido pelo
editorial e imediatamente solicitou um encontro com os editores de
Life”.
Inversamente
ao que Donovan esperava, Agnew não se comportou com tato e
civilidade durante o almoço, de modo que o editor e a
equipe pudessem avaliar o terreno para conceber a estratégia
apropriada. Agnew estava irado, ele tinha tão pouca paciência
com os críticos quanto Nixon, e tudo o que puderam fazer foi
tentar garantir não se tratar de um ataque pessoal, apenas de uma
questão administrativa, tantas pessoas na América eram boas, porém
não apropriadas para a vice-presidência. Eles não quiseram
negar suas qualidades como pessoa. Mas Agnew continuou interpretando
a crítica como dirigida a ele pessoalmente.
Ainda
assim, quando Watergate requisitou uma decisão sobre empregar
repórteres para investigar ou não, Donovan estava chocado, não
aceitando comodamente o escândalo. Mas gradualmente ele se tornou um
fã, profundamente interessado na evolução dos acontecimentos.
Ao inverso de outros, ainda que ele pensasse no incidente como
bem de acordo com o caráter de Nixon, e não acreditasse nos
desmentidos da Casa Branca às acusações, mantivera-se
extremamente cuidadoso, exigindo que as evidências
fossem avaliadas detidamente, não permitindo ir
muito longe. Time Inc. possuía a essa altura um par
de excelentes investigadores, Sidey e Sandy Smith.
Quanto
a Smith, Halberstam acentua o quão singular ele
parecia entre os homens de Time, todos bem talhados para agirem
como “embaixadores do império”, experts em almoços e
com ótimas relações sociais, especialmente com fontes de alto
escalão. Smith, inversamente, era péssimo em almoços, não
conhecia ninguém famoso, e suas fontes eram diversificadas,
tanto dos níveis suboficiais, de pessoas
que atuavam ocultamente no coração do governo,
quanto fontes secretas, quando se tratava do alto escalão. Para
ele fontes de alto nível refletiam a política escolhida, não a
realidade.
Smith
era um lobo solitário em seu trabalho, totalmente ao inverso
do profissional típico da Time inc., porém segundo Halberstam,
provavelmente o melhor repórter investigador do país,
vivendo para o emprego e a família, e seu emprego sendo as
suas fontes, exigindo dele um tipo de relação das
mais compreensivas por se tratarem de pessoas vulneráveis
à publicidade, requerendo extrema discrição da parte do
repórter para não compromete-las.
Assim
como Sidey, ele estava desde o início convencido de que Watergate
era produto do alto escalão, não do baixo, provavelmente do
próprio Nixon. Smith se convenceu ainda mais a propósito quando
soube por suas fontes que Pat Gray do FBI e altos oficiais da CIA
estavam tentando desordenar a investigação.
Sidey,
por sua vez, agiu como advogado da cobertura de Watergate dentro do
sistema Time, argumentando tratar-se de questão das mais sérias, o
que surtiu efeito entre aqueles que os
repórteres chamavam os Pilotos do Zeppelin, os mais altos
funcionários responsáveis pela edição e que conduziam o
escritório de New York, a Fábrica do Zeppelin - ou seja, quem
resolvia se eles poderiam ou não “voar”.
Uma
mudança importante nessa época, segundo Halberstam, foi a
decisão do jornalismo em geral e da Time em particular,
em abandonar o costume de seguir o New York Times como
modelo consagrado de divulgação de notícias. A ponto de que mesmo
se um correspondente da Time houvesse logrado uma boa
reportagem, porém sobre algo ainda desconhecido, ele devia ceder ao
Times a precedência da notícia a fim de que se tornasse legitimada,
só então noticiável. Agora havia contudo vários repórteres
talentosos na Time, que se tornara competitiva não apenas
relativamente a Newsweek como também aos próprios New York Times,
Los Angeles Times e Washington Post.
Ainda
assim, ir totalmente contra a linha do governo não era coerente com
o espírito da Time. Sidey, em parceria com Lance
Morrow, havia recentemente escrito o que Halberstam
considerou um dos mais inteligentes e vigorosos editoriais sobre
Watergate, mostrando que os desmentidos de Nixon não valeriam
por muito tempo, o problema não iria embora tão cedo. Porém
logo depois, em inícios de 1973, Time premiou Nixon e
Kissinger como Homens do Ano, para desconforto dos
repórteres. Se nem todos estavam satisfeitos, as
viagens a China e a Moscou estavam lá, não havia nada comparável. O
efeito de neutralização de Watergate seguiu-se eventualmente, porém
algumas semanas depois as reportagens começaram a vir mais e mais
fortes, e a revista mostrou-se receptiva a elas.
Time
estava legitimando por si mesma Watergate, e afastando
o centro de Nixon. O que se revelou lucrativo.
Como homenageado, Nixon vendera 214.000 exemplares, sendo
245.000 o usual para capas comuns. Alguns meses depois, a série de
reportagens de capa sobre Watergate atingiram
progressivamente 280.000, 290.000 até chegar a 300.000
exemplares.
Em
torno de John Dean como testemunha, o juiz Sirica e o promotor
Jaworski, a Time desenvolveu sua estratégia de investigação em
meio ao escândalo que havia se tornado, segundo Halberstam, a maior
história policial da nação.
Quando
McCord começou a falar, dando conta dos motivos da sua prisão, a
defesa da Casa Branca começou a desmoronar. Se antes não havia
praticamente repórteres além de Bernstein e Woodward, agora todo
mundo queria uma fatia em Watergate, que como vimos provou-se muito
lucrativa. A Time já não precisava ocupar-se com dúvidas, e
Smith, o repórter da Time para Watergate, teve oportunidade
para aplicar sua prática singular, centrada apenas em
fatos, sem cor ou referências exemplares. Porém logo todo
o processo se concentrou em torno de John Dean, um dos mais
brilhantes jovens próximos a Nixon, lembrando aos mais idosos o
próprio Nixon quando jovem político. Sobre ele, Halberstam
escreveu: “Os grandes homens da Casa Branca, Haldeman e Ehrlichman,
o recrutaram para fazer o trabalho sujo de Watergate, e
involuntariamente ele se tonou íntimo do lado interno da Casa
Branca”. Dean era funcionário tão pouco graduado e o presidente
tão incrivelmente poderoso, um deus para peões como Dean, que
a ninguém ocorreu que ele não caísse sozinho para proteger Nixon.
Para Halberstam, realmente ele o faria nos bons tempos, mas não se
lembraram de duas qualidades importantes nele, um agudo
sentido de autosobrevivência, e uma memória exemplar.
O
presidente não parecia mais uma figura poderosa. Inversamente,
tornava-se progressivamente inábil e errático aos olhos de Dean.
Ele estava surpreso por Nixon não ser capaz de notar a ironia no
fato das agências menores do governo estarem minando a onipotência
do presidente, quando antes Nixon havia se notabilizado pelo “caso
Hiss”, provando que um promotor congressista sozinho poderia
derrubar dominações, mesmo do presidente da república. E Dean não
era um simples peão nas mãos de um ídolo. Ele estava estudando
línguas na escola Berlitz, esperando se tornar embaixador de
algum pequeno país de fala francesa. É compreensível portanto que
se desde Maio de 1973 as evidências de Watergate se mostraram
indeslocáveis, ele pensasse ser oportuno cooperar com a promotoria.
Assim,
segundo Halberstam, ele e Bob McCandless, seu advogado, este muito
versado na natureza do corpo de imprensa de Washington, lição que
Dean rapidamente apreendeu, não lidavam do mesmo modo com a imprensa
e o tribunal. Eles não confiavam nem em um nem no outro, porém
usaram a imprensa para manter o processo aberto e movimentado ainda
que não declarando tudo de uma vez para não perder o interesse
dos repórteres. A essa altura já havia a gíria sobre a “indústria
Dean” de notícias, tão segura a venda dos seus testemunhos havia
se tornado.
Ehrlichman
cita Halberstam a propósito de John Dean em nota à página 352 do
“Witness to power”: “Para um resumo da extraordinária
barganha de Dean com a imprensa, ver David Halberstam...”. De
fato, “The powers to be” fala em “barganha” à página
965, porém como algo muito mais orquestrado por McCandless, o
advogado de John Dean, interceptando decisivamente a história de
Time Inc. O pivô da barganha era a imunidade, que McCandless tentara
obter com o alto escalão da Time. Porém não sendo possível
garanti-la, a obtenção do testemunho pela revista pudera
ser negociada à base da promessa de honestidade e cortesia
relativamente a Dean.
Ocorrera
nesse ínterim uma mudança na política da Time, uma vez que a
princípio a revista não pôde alcançar Dean. Em New York não se
compreendia bem o motivo de algo tão estranho como a Time não poder
noticiar o mais importante testemunho. Ocorrera que a utilização da
imprensa por Dean foi primeiro uma relação exitosa com o Washington
Post. Dean gelara o New York Times por ter considerado que o jornal
adotara uma linha contrária à pessoa dele, e Reston obteve um café
da manhã com McCandless para saber como poderia reatar as relações
com a indústria Dean, e a resposta foi que o jornal deveria ao
menos solicitar imunidade para ele - o que ocorreu, pois Seymour
Hersh foi designado para cobri-lo, paralelamente ao Post.
Porém
a cobertura de revista semanal não era a mesma coisa, requisitava um
certo humanismo na apresentação da reportagem, o que jornais
diários não podiam produzir. Mas Newsweek já havia batido
radicalmente a Time, na cobertura de John Dean, e um
grande problema para esta tornara-se o fato de Newsweek estar de
posse de uma grande reportagem sobre Dean, baseado em material
enviado por ele, diferente dos que os demais possuíam. Seria a
reportagem da acusação feita por Dean ao presidente.
Woodward
e Bernstein, como os repórteres mais fortemente ligados a Dean, e
realmente McCandless se dirigiu rapidamente ao Post. Bernstein tentou
arrumar as coisas tal que a reportagem seria publicada em duas
semanas. Mesmo confiantes na verdade dos fatos, eles não viram
necessidade de apressar a publicação, assim Bernstein ficou
grandemente irritado quando, estando em Omaha numa convenção de
jornalistas, pegou uma Newsweek na banca e topou com a reportagem já
publicada na revista. Mais alguém estava irritado, Henry
Grunwald da Time. Ele não queria ter que citar a Newsweek sobre
o assunto. Hays Gorey foi designado para cobrir aquela
parte de Watergate para a Time e fazer a conexão com Dean.
Mas sendo McCandless
o único veículo para Dean, o advogado, adepto do partido
democrata, não tinha particularmente admiração pela
Time. Crescera com Tom Dewey sempre na capa dizendo a ele e
à nação o que era bom, o que deviam fazer, e acreditava que
Time era parte da maquinaria do partido republicano. As chamadas de
Gorey ficaram sem resposta. Afinal, o repórter foi até o
apartamento de McCandless, esperando que ele tivesse que atender
a campainha pensando que fosse o entregador de mercadorias,
McCandless viria à porta e Gorey o interceptaria.
Eventualmente ele conseguiu marcar um almoço.
Nesse
encontro, Gorey perguntou porque McCandless os estava “matando” ,
e ele replicou que era porque eles eram do partido republicano e
assim eles iriam “matar” Dean nas reportagens. Os dois homens
fizeram as pazes, e por sorte Newsweek havia cortado uma reportagem
sobre Dean naquela semana - o que New York exagerou ante as objeções
de Washington. McCandles, pois, resolveu conceder uma chance a Time,
baseando-se nas garantias obtidas com Gorey de que McCandless
poderia controlar tudo o que fosse escrito - promessa que de
fato ele não estava certo de poder cumprir.
Gorey
e Dean colaboraram maravilhosamente, com Dean racionando com
habilidade a informação para prender o interesse de Gorey, com o
material em dois níveis, o publicável e o que só Gorey
devia saber. Nesse ponto Halberstam comenta que Dean tentara obter
imunidade com Gorey, mas não havia possibilidade disso ser
garantido, assim a troca de favores ficou em nível da maior
cobertura possível à perspectiva de Dean sobre Watergate.
Grunwald, presente no almoço, garantiu a promessa de Gorey.
Hedley
Donovan, em New York, estava fascinado, as reportagens seguiram-se
sempre mais rapidamente, estava claro aquela altura para ele e
Grunwald, que Richard Nixon devia ser afastado. No outono de 1973 o
escândalo do vice Spiro Agnew arrebentou, e logo depois Time
estava apelando pelo impeachment do presidente. O que muito
deveu-se à orientação de Donovan, que se manteve conectado com as
informações dos repórteres de Washington. Nessa altura, os dois
principais executivos da Time voaram para Washington a fim de
jantar com o juiz Sirica.
Gorey
observara aos chefes que Sirica parecia um homem desatualizado, um
hawk dos velhos tempos, porém ele não o era, e quando as pessoas se
demoravam na companhia do juiz por alguns momentos
mais, verificavam ser ele um homem sincero e compreensivo.
A
princípio, como Gorey previa, os executivos da Time pensaram
que Sirica estava há anos luz de distância deles mesmos, pois não
era nada gracioso, porém enquanto a noite passava ficavam
sempre mais agradavelmente surpresos com o juiz, e
cogitaram com ele que poderia receber o prêmio de Homem do Ano.
Sirica se tornara a seu ver o símbolo não apenas do
funcionamento do sistema judicial, mas do funcionamento da América,
e ganhou o coração deles quando indagou se poderia
comunicar à esposa que estava sendo cogitado para Homem do Ano.
Efetivamente eles o premiaram, e a reportagem de capa de John Sirica
vendeu 291.000 cópias nas bancas.
Em
fevereiro de 1974 o ritmo do processo tornou-se mais lento. No ano
anterior assistira-se a um tão vertiginoso fluxo de informação que
a expectativa pela ação imediata tornara-se enorme. Mas agora era o
aspecto legal e político do processo o preponderante, na “velha
marcha” (“in older rhrytims”) - na expressão de Halberstam - o
que tornava a mídia desapontada.
Nesse
ponto vemos o quanto algumas das mentalidades ligadas à
mídia são perigosas, pois é evidente que decisões graves
envolvendo o destino de pessoas não podem ser tomadas sem muita
ponderação e exame acurado das provas, o que é contrário ao
espírito da mídia sensacionalista, e assim respondo ao artigo
de um defensor incondicional que motejara do adjetivo
“perigoso” habitualmente relacionado a ela. De modo
nenhum se trata de um termo vago e não definido pelo contexto.
Porém
o desapontamento na época relacionava-se ao temor de que Nixon
pudesse estar por trás dos procedimentos oficiais, o que
deixaria grandes profissionais de mídia numa situação
deveras difícil. Independente do valor das fontes jornalísticas e
do senso de responsabilidade com que os profissionais as houvesse
checado, se Nixon permanecesse no cargo eles iriam parecer errados
aos olhos do público, enquanto Nixon pareceria inocente.
Nesse
momento de incerteza, os principais editores da Time agendaram um
jantar com Leon Jaworski. Ao tribunal era interessante o
encontro, pois desejava manter a imprensa de New York informada e
envolvida, Gorey tendo-o obtido. Esse momento, contudo, estava sendo
crucial para o promotor. Ele havia recebido as fitas gravadas, e
estava hesitante entre simplesmente indiciar Nixon ou aponta-lo como
co-conspirador não indiciável.
Halberstam
caracteriza Jaworski como um homem “da segunda geração americana”
(p. 967) - talvez seguindo a classificação de Charles Reich
(“The greening of América”), pela qual após os rudes puritanos
pioneiros que acreditavam estar desbravando e construindo, emergiu a
geração dos burocratas que acreditavam integrar um sistema
totalizante permeado por eficiência e lisura, Reich defendendo a
geração hippie dos sixties como a terceira, ligada ao que
seria a “nova consciência”, porém não me parecendo muito
convincente. Pois conscientizar-se de questões de real
interesse político não deveria ser prerrogativa etária
excetuando-se a condição infantil não consciente,
e, além disso, a teoria política e filosofia por trás da
“nova consciência” havia sido produzida por
intelectuais já não jovens, além de que sobrava apenas a ideologia
da mercadoria barata - a motocicleta e a música de rádio - além
das drogas letais que fizeram daquela geração de tantas vítimas os
“inocentes úteis” da propaganda de algum “mundo livre”
diretamente oponível ao comunismo soviético. Realizei um
exame da sociologia de Ch. Reich em meu “O pós-moderno: poder,
linguagem e história” (em edição independente pela Quártica,
ver site da editora).
Em
todo caso, para Halberstam, Jaworski, típico da mencionada
geração, seria ao mesmo tempo um homem vaidoso e hábil,
apreciando ligações com pessoas importantes. Phil Geyelin e Meg
Greenfield do Post sedimentaram sua boa reputação em
Washington, e também Tony Lewis do The New York Times havia se
provado útil nesse sentido. Agora Jaworski interessava-se por
uma conexão comparável com a Time. Ele precisava da
simpatia dos líderes, pois com efeito estava para amarrar uma
corda bem apertada.
O
jantar correu agradavelmente, Jaworski evidentemente necessitando de
aliados e de auxílio, e por isso deliberadamente resolvido a
ultrapassar alguns limites. Assim, quando todos pareciam bem
relaxados, Jaworski indagou aos editores se na suposição -
“apenas hipoteticamente” - de evidências seguras da implicação
do Presidente dos Estados Unidos numa impeachiável ação ofensiva,
o que eles pensavam que o presidente deveria fazer. Alguém perguntou
o que era “uma impeachiável ação ofensiva”, mas Jaworski pôs
de lado a questão e simplesmente repetiu a indagação: “o que o
presidente deveria fazer?”
Ed
Magnuson, escritor chefe da Time, que estava escrevendo as
reportagens de capa e estabelecera para elas um novo
record na Time - de fato, na quinquagésima primeira reportagem
ele ganhou a imagem da capa para o seu escritório, sendo, é claro,
sobre Watergate de Richard Nixon: “O impulso para o
impeachment” (“The Push to Impeachment) - respondeu ”ele
renunciará”. Algumas pessoas começaram a rir.
Jaworski
protestou, ”não se deve rir disso, devemos realmente
pensar nisso por um momento” (p. 267). Ele
prosseguiu. Projetou a situação do presidente tomando
conhecimento de que o tribunal já se encontrava na
posse das fitas irreversivelmente comprometedoras. Jaworski induzia
nitidamente à concepção de que seria elegante para Nixon
renunciar, porém pondo-se no lugar dele, como se tratasse de uma
decisão do próprio promotor, evitando obviamente nomear o
presidente dos Estados Unidos como conspirador.
As
pessoas deixaram de rir. Jason McManos, editor da seção Nacional,
escreveu um bilhete para Magnuson: “nós o conseguimos”, a
propósito de Jaworki (p. 968). Jim Doyle, secretário de
imprensa de Jaworski, estava deliciado pela indiscrição do seu
próprio cliente. Enquanto ele se maravilhava, ainda que temesse um
pouco as consequências, David Beckwith , apoiou: “Este é o melhor
jantar que já tivemos!”. Doyle intimamente concordou
com ele.
Tudo
isso era a estratégia de Jaworski para manter Time informada,
tentando fazê-los entender o que ele próprio empreendia e
obviamente tentando se tornar capa da Time, o que significava muito
para ele. Com efeito, a reportagem de capa com Jaworski, duas semanas
após o jantar, vendeu 325.000 cópias nas bancas.
Magnuson
escreveu depois uma carta a Jaworski, perguntando por que ele
havia sido tão franco. O promotor respondeu que
acreditava em ser sincero, e que exceto se soubessem como o processo
estava correndo os jornalistas poderiam cometer erros. O efeito entre
os Pilotos do Zepellin foi devastador. Eles ficaram mais excitados do
que nunca, mais ainda do que os seus próprios repórteres. Como se
as incertezas, as tensões que pesavam sobre a redação em New
York naquelas semanas desaparecessem.
Eles
sabiam que tudo agora era apenas uma questão de tempo.
O
discurso de renúncia de Nixon causou desfavorável
impressão. Ao ver de Halberstam, provavelmente para os padrões
de Nixon foi algo pior do que 1962, quando fizera o discurso de
despedida da política. Porém, como Halberstam acentua, de
fato Nixon não estava assumindo culpa factual pelos crimes de
Watergate, nem - o que era pior - por deixar a nação aterrorizada
pelo pesadelo de Watergate quando ele e somente ele sabia ser
culpado do abafamento do caso. Ele estava renunciando, ao
que parecia, porque havia inexplicavelmente perdido o apoio
do Congresso. Se havia alguma culpa para ser atribuída
pelo seu abandono do cargo, parecia assim dever ser
atribuída ao Congresso.
Não
sendo uma performance atrativa, talvez não podendo ser de modo algum
dado o horror que representara Watergate, o trabalho de cobertura da
CBS aquela noite foi péssimo. O pior de Cronkite, Sevareid e Rather.
Até o topo a CBS estava temerosa de que Nixon não se arredaria
sem amaldiçoar a imprensa em geral e a CBS em particular.
Os principais executivos fizeram passar uma ordem pela qual
os correspondentes deviam ser o mais educados, não parecer de modo
algum que estavam se vingando.
Mas
de fato CBS havia feito parte da história e parte da
batalha. Mesmo assim o espírito centrista, o desejo de não
parecer radical ou rebelde não pode ser ocultado,
pelo contrário, mostrou-se inapelavelmente.
Cronkite
classificou o discurso de conciliatório, Sevareid o tratou como
o mais magnânimo e efetivo dos discursos nixonianos: “poucas
coisas na sua presidência o mostraram tanto quanto sua maneira
de deixar a presidência - como Walter disse - ... um toque de
classe, um toque de majestade... naquela parte de tantas
pessoas que pensam consigo mesmas, reverenciar e respeitar
o presidente: A República e o país vem primeiro...” (p.
981) Para Halberstam, “eles estavam fazendo sua parte
na política do país, tentando facilitar a transição do poder,
tentando limpar seus próprios quadros eleitorais e reduzir
o antagonismo contra eles, mais interessados em proteger sua própria
base política como um instrumento de massas do que em cumprir suas
assinaladas tarefas.”
Halberstam
foi bastante cuidadoso, elaborando por cinco anos o seu material que
constou de bibliografia recomendada e entrevistas pessoais. Seu livro
é um dos mais bem escritos e talentosos dentre os que conheço. Mas
inspirado pelo clima de uma época, creio que ele publicou mais uma
peça otimista a propósito do destino do veículo de
comunicação em massas do que propriamente uma lição sobre como
seria impossível que ele se tornasse politicamente não
comprometido.
Dialeticamente,
a culminância do processo de sedimentação da estrutura
governo-mídia num fracasso tão grande quanto foram Vietnã e
Watergate pode ter sido naquele momento, em que a verdade se
evidenciava de modo insofismável e a honestidade triunfava,
interpretado como uma necessária tomada de consciência.
Especialmente
o Vietnã havia forçado a mudança na posição de homens como
Donovan, que então tiveram que impulsionar os companheiros à mesma
mudança. Não só tiveram que alterar o teor do que haviam
asseverado - não, o Vietnã não estava para ser derrotado nem a
causa era justa, ao contrário do que eles mesmos haviam
alardeado por tanto tempo. Donovan e a imprensa devia ainda sentir
que havia contribuído decisivamente para o curso do desastre
nacional, que como se podia dizer relativamente a Lyndon
Johnson, eles haviam se deixado apaixonar por aquilo que nada mais
era que um “tar baby”, um presente envenenado (p. 671).
Porém
na atualidade, avaliando o curso das três décadas recentes, sabemos
que a profecia não se cumpriu. A mídia se tornou o
veículo de um novo despotismo, e em termos de Brasil, de um
neofascismo generalizado.
O
acoplamento da microinformática radicalizou as possibilidades
de lavagem cerebral e dominação da liberdade de consciência -
os protestos que estão anexados aqui e em vários dos meus escritos
publicados o registram. Podemos imaginar o que aconteceria se os
editores de mídia tendenciosos que estudamos pudessem
interferir com o que as pessoas escrevem assim como o faziam com seus
repórteres, mas é isso que o “personal computer”
pré-configurado de mercado permite, por ser obviamente intrusável
ainda que isso não esteja no contrato de compra pelos usuários. Com
efeito, a mídia-informática da atualidade está permeada
pelos fatores criticados por Halberstam a propósito daquilo que
deveria então ter sido considerado uma mentalidade ultrapassada -
uma bonita teoria assassinada pela evidência feia, a teoria da
supremacia ideológica da classe dominante, a evidência do
imperialismo e da corrupção correlata como em Watergate.
Não
foi ultrapassada tal mentalidade no business midiático, pelo
contrário. Muito menos se pode dizer que foi na
mentalidade da política norte-americana. A pecha do
“império” tem sido recentemente circulada - ainda que a meu
ver de modo algo presunçoso, traindo uma
tendência sensacionalista que deveria ao contrário
estar sendo repudiada. Os autores, Hardt-Negri, acreditam
estar acontecendo algo totalmente novo, mas os prosélitos não
noticiam que “o império americano” de Julien precede de cinco
décadas o seu título homônimo, revelando as bases factuais da
dominação atual.
Sabemos
que a globalização corresponde a uma estratégia de
“industrialização complementar” do terceiro
mundo, viabilizada pela tecnologia mais recente, e que estamos
num quadro pós-soviético. Porém a estratégia serve ao mesmo
objetivo imperialista renovado em seus métodos pela hegemonia
da clique do capitalismo que dominou fraudulentamente a sociedade
norte-americana, sem confundir-se de todo com ela, sendo porém o que
vem se verificando constante após 1945 – como iremos estudar
à frente, portanto não resumindo-se a ação da clique
capitalística aos Estados Unidos.
Como
seria esperável, essa renovação dos instrumento do antigo
colonialismo-imperialismo, que é apenas a mentalidade despótica
agindo na atualidade, implica mudanças necessárias nas
concepções daqueles que se organizam para opor-se ao
neoescravismo, e defender a ecologia – que ela sim é um elemento
novo e indispensável a equacionar politicamente. O conhecimento
detalhado das operações, mentalidade, e meios de influência da
domimação atual é o que mais precisamos, pois como vimos, se ao
capital de mídia é o eixo da instrumentação, a crítica da
ideologia como hegemonia ou consentimento não basta, a violência é
– digamos – neural, atua na base da informação circulante, etc.
O que torna axial a “história efetiva” - a que se faz pelos
fatos documentáveis de um processo conceituado – como o meio da
resistência e mudança social com vistas a garantir os direitos
humanos.
Meu
interesse neste estudo relaciona-se contudo à minha convicção
sobre a importância dos Estados Unidos e da história efetiva na
mudança da compreensão histórica. Uma vez que a mola é o
imperialismo, e que quanto a este não é secretado pelo Estado assim
como a bílis pelo fígado, mas sim é a dominação do capital sobre
as instituições conquistadas pela sociedade civil representada pelo
seu Estado constitucional, autonomia da nação e garantia dos
direitos dos cidadãos, a história da emancipação das nações
europeias não fornece a inteligibilidade necessária. E sim a
história que abarca a Secessão e a articulação mídia/Executivo,
cujo modo de operação internacional estudaremos a seguir
(Livro 2). Assim também a Revolução Soviética não tem potencial
de modelo. É a inteligência dos processos efetivos o que
necessitamos tanto na conservação da nossa consciência e
humanidade contra o avassalamento escravista das máquinas, como
naquilo que essa conservação faculta, a reelaboração de
políticas saudáveis e legalidade do Estado constitucional, que não
tem antagonismo algum com a erradicação do crime e segurança
pública mas nestes se baseia. O que precisamos num quadro caótico
como tem se apresentado o nosso, devido a imposição de tantas
mudanças profundas e não refletidas, num tão pequeno intervalo de
tempo, desde os anos noventa. Além disso, um motivo que me
impulsionou a este estudo primeiro publicado em Blog na Internet –
e cuja elaboração ali foi traumática devido a sérias sabotagens
que o documento sofreu – eu li Halberstam há alguns anos, e sendo
livro de mais de mil páginas, em inglês (não conheço tradução
local), fiquei com várias pontas soltas, as quais eu quis ligar num
todo coerente a propósito de um assunto que me parece dos mais
importantes na reelaboração histórica que preconizo.
Notas
do Livro I :
Nota
1 : Tradução adaptada dos versos de Mannes :
“Sentindo-se lerdo,
sentindo-se doente?
Tome uma dose de Ike e Dick”
“Philip Morris, Lucky Strike
Alka-Seltzer, eu gosto de Ike”
“Salve a B.B. D. & O
que disse à nação para onde
ir
que negociou pela propaganda
como nos vender um novo
presidente”.
Nota 2 : O
almirante Mahan é referenciado no artigo de Gerth e Mills sobre “A
mudança histórico-social”, que faz uma resenha das teorias da
modernidade conhecidas. O artigo consta em “Teorias da
estratificação social” (São Paulo, Companhia editora nacional,
1978, p. 29). por seu brilhante estudo sobre o papel do poder
marítimo no conflito de Napoleão e Inglaterra. É de fato exemplar
a meu ver, mais do que de teoria da modernidade como era da expansão
do poder econômico, como sugerem Gerth e Mills. É na verdade como
eles mesmos evidenciam, uma tese do poder econômico moderno como
imperialismo, logo, como militarismo. Pois não foi apenas a
“barateza do bloqueio” que fez a superioridade bélica da
Inglaterra, mas sobretudo “a aquisição de possessões
ultramarinas pela Grã-Bretanha”, conforme demonstra o estudo do
Almirante Mahan.
O tema do colonialismo e
imperialismo é obviamente importante ao mundo inteiro, porém a tese
do Almirante Mahan sobre a Grã-Bretanha sendo particularmente
interessante à história do Brasil, já que foi a estratégia
inglesa contra Napoleão que pressionou a vinda da família real
portuguesa para o Brasil, interferindo com o processo de
independência local, que já vinha de algumas décadas antes a
partir da organização dos movimentos de libertação nacional.
Assim resultou na dominação imperialista da independência pífia,
da mesma dinastia coloniazadora.
A tese da modernidade como
expansão do poder armado militar, de E. A. Ross e E. M. Early entre
outros, é um complemento da tese da expansão econômica, como a meu
ver corresponde ao que o Almirante Mahan pensou demonstrar. Mesmo que
seu estudo enfatizasse que frente aos elementos que destacamos da
estratégia inglesa, de nada adiantou a imensa capacidade militarista
de Napoleão ou a superioridade técnica do exército francês.
A tradução do “poder
econômico” moderno por “possessões imperialistas”, é tese da
atualidade verdadeiramente muito mais pertinente que a cooptação
identitária branda à Foucault – que, como vemos por Vigiar e
Punir, poderia fazer um piquenique com Lipovetski, em vez de ser
considerado tão oposto a tal basbaque cantor das branduras da
sociedade industrial.
Assim também os estudos que
aqui desenvolvo mostram a neurose discursiva da esquerda
anti-estatal, que assim mascara o fato da dominação como
exclusivamente imperialismo – porque desse modo esperava ela
demonstrar teses do progresso psicossocial ocidental, como
protagonista da ciência social ocidental, a ser imposta sobre o
terceiro mundo como modelo. Assim como venho afirmar, o
“Imperialismo” não é só poder econômico mas principalmente
dominação cultural, e como todo mundo já sabe há décadas,
atuante por igual de esquerdas e direitas corruptas contra os
interesses da sociedade de direitos civis representada – e não
antagonizada – pelo Estado constitucional.
Minha tese da modernidade,
como exponho nos livros 2 e 3, é pois instumento de crítica do
discurso neurótico que designo “geo-ego-logia”, ali definido e
desenvolvido.
O artigo de Gerth e Mills como
referenciei, consta na coleção de artigos organizada por Otavio
Ianni, intitulada “Teorias de estratificação social, leituras de
sociologia” . Não obstante apresentar ele mesmo trabalhos
sociológicos e históricos importantes, como sobre a “doutrina de
segurança nacional” vigente na época da ditadura, Ianni não
acertou a meu ver na perspectiva sobre a globalização (“Teorias
da Globalização”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1996), como aliás ocorreu com vários bons autores nacionais, o que
decorre entre outros fatores da reiterada atitude da esquerda
totalmente sem crítica do que até na União Soviética já se
considerava o “fetichismo da tecnologia” (Ver Romanova, A
Expansão dos Estados Unidos na América Latina, Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1968, p.66, mas interessante sendo todo
esse trecho intitulado “os Estados Unidos criam uma base social na
América Latina”, p. 64).
A atitude atávica do
progressismo esquerdista temperado apenas pelo obsoleto gramscismo de
um “consentimento” que inexiste, ao qual até mesmo a própria
dita esquerda se esmera por impedir que seja efetivo, tanto mais
continua pregando Gramsci, Deleuze, etc., resultou pelo governo de
esquerda associado à Globalização, na pior baixeza a que se tem
submetido a inteligência humana, política suja a nível de Orwell,
porém contra a cidadania detentora de garantias do Estado
democrático.
Os
cidadãos estão sendo mero apêndice de programas microsoft
utilizados com certeza por redes de mafiosos com fins de dominação
sobre a vidas privadas, sabotar textos, destroem arquivos,
plagiar com fins opostos aos da pessoa que escreve, provocar stress,
esgotamento nervoso, estafa, doença cardíaca, etc., - ou seja,
matar simplesmente. Os programas Microsoft - pré-configuração
de pacote em vez de programação particular solicitada a
profissionais brasileiros conforme a necessidade do cliente -
por si mesmo são porém nada além de sucata insultuosa, totalmente
inútil além de perniciosa por formatação de logomarca e
ideologias nazistas sobre a escrita, com disfunções óbvias visando
passar doença mental como aprosexia (impossibilidade de concentra
atenção), dislexia (imcompreensão de textos), etc.., quando se
trata de celular (watsapp) geralmente está embutido desde a loja com
máfia de prostituição que invadem o arquivo de computador com
centenas de fotos de prostitutas, etc.; usam uns gatos pingados para
dizerem que com o computador se pode “ganhar dinheiro”, porém o
que está acontecendo é o caos financeiro devido ao monopólio da
importação e circulação monetária para indústria de tintas de
impressão, manutenção de computador, celular, etc. tudo isso que o
país está impossibilitado sempre mais de produzir, etc. – o
“etc.’, significando que não admitimos que se diga que não se
sabe sobejamente do que se trata.
Principalmente pernicioso como
aparelhagem de invasão da privacidade, derrelicção da pessoa,
contra-informação, impedimento do raciocínio e da escrita,
avassalamento da cultura, disseminação de padrões corruptos,
doença mental, etc – tudo num discurso que visa, como é do
costume dos capitalistas, vender a “coisa” micro-informática
como se fosse um fenômeno da natureza personificada a que precisa se
submeter a espécie, não o produto de escolhas políticas que estão
sendo porém viciadas pelas fraudes imperialistas do poder econômico.
Reitero, como tenho aposto em vários escritos, que nunca me foi
pedida nem por mim concedida qualquer licença para intrusão de
terceiros em meu computador, uso de imagens, manipulação de
relações pessoais ou propaganda, e quanto às provas de
intrusão, ver nota 37, Livro 2. O uso do computador afinal é
impossibilitado – informo que enquanto estou agregando as notas, o
instumento de localização de palavras está sabotado, obviamente,
não sendo defeito, pois funciona intermitentemente. Um notebook
comprado na Tijuca a mais de 2.000 não se pode utilizar porque
destrói os arquivos, já tendo sido consertado, obviamente por ser
intrusado por bandidos nojentos que visam impedir-nos, assim como a
linha do telefone, etc. Tenho solicitado pena de morte contra invasão
de computador – o que o abjeo imperialismmo planta na internet no
search são apenas elogios a hakers, em vez dos bons usos do
computador, da legalidade e da cobrança a empresas que circulam
produtos podres.
.
Quanto mais débil mental o
comportamento planejado do criminoso cooptado pela rede de dominação,
mais pensa que está “fazendo” alguma coisa ao invés de nada. O
pior foi que a utilização escravista dos maus aparelhos microsoft
está historicamente protagonizada pelo pt, a esquerda standard do
país, durante as quase duas décadas recentes do governo. A esquerda
local de fato até hoje não assimilou a crítica do business de
mídia como meio principal do capitalismo.
Como exemplo da atitude de
esquerda, Heloneida Studart, que se notabilizou pelo feminismo
marxista, achava que a televisão era um instrumento de modernização
contestador da “autoridade dos pais”, de modo que as mulheres que
não aprovavam programas eram ali consideradas como a “passiva”,
que “deseja a imutabilidade do mundo”, a quem “tudo lhe
contesta a autoridade” assim como o vizinho cujo corte de cabelo o
filho copia, e principalmente que luta pelo respeito à privacidade
apenas “no desejo de manter valores que a sacrificam”. Essas
mulheres são classificadas juntamente com as hitleristas da Alemanha
nazista.
Quanto à defasagem das
estatísticas femininas em testes de moralidade, é o tema
relacionado à minha crítica de Benhabib. Aparece tratado por
Studart ainda na década de setenta, rotulando a “mulher” como
“retardada” - sem lembrar que não são todas as mulheres que não
passam no teste, apenas um número médio maior que o dos homens
reprovados.
Além
disso, ela não defende que o motivo da defasagem estatística nos
testes seja educação, como quer Kohlberg e eu mesma
considero, nem que seja natureza, como critiquei Benhabib e Carol
Gilligan por acreditar, isto é, segundo elas, que o teste é que
está errado e que a mulher tem “mentalidade narrativa”,
originária, que julga a própria questão apresentada – o que elas
fazem dessa “narrativa” porém é negar a reciprocidade como
fundamento dos direitos humanos, o que me parece obviamente
impossível. Mas ninguém na psicologia considera o teste de juízo
moral como teste de sanidade mental. Studard, inversamente, supõe
que em vez do que a seu ver se deveria, tratar tais
mulheres supostamente julgadas “retardadas” com psiquiatra, para
um “tratamento de reabilitação como fazem com excepcionais”,
entroniza-se a mulher como dona de casa, o que ela ainda aceitava ser
de fato o papel de “rainha do lar”, em vez do serviço da casa,
cuidado dos filhos, etc. - negando portanto, como parlamentar
trabalhista de esquerda, o trabalho feminino e os direitos que
deveriam ser correspondentes. (“Mulher, objeto de cama e mesa”,
edição não comerciável, Rio de Janeiro, Vozes, 1974, ps. 1; 22,
23)
Em meu “O pós-moderno;
poder, linguagem e história” (Rio de Janeiro, Líteris, 2012, p.
62) analiso o discurso contraditório da esquerda que, como o por mim
citado Thabet, culpava as personalidades de jovens sonhadoras
e poéticas do terceiro mundo, se afeitos à literatura, pelo fato da
dependência tecnológica, o que seria a seu ver contrafactado se –
vale repetir – “uma maciça campanha publicitária” que pudesse
usar “todos os meios da comunicação e todas as vantagens da
tecnologia”, formatasse literalmente as personalidades. Não se
sabe como, pois no discurso dele a formatação aparece como
resultado imediato do haver da mídia autoritariamente dirigista
partidária, que lograria reduzir afinal todos os jovens à
personalidade dos engenheiros, exatas, firmes e criteriosas –
quanto aos não jovens parece não importar ao argumento. Aqui agrego
o registro do seu receituário “desenvolvimentista” , abrangendo
a reforma das línguas faladas no terceiro mundo, pois a seu
ver, para virmos a produzir tecnologia, precisaríamos da
“transformação e modernização do idioma num instrumento de
expressão funcional e prático”, para a qual “considerações
religiosas, fanátias e tradicionais não deveriam ser um obstáculo”.
Bem inversamente a Jameson, é a esquerda não nacionalista que
confunde público e privado, o que seria de se esperar pela origem
positivista. A “análise” de Thabet da suposta inadequação
linguística do terceiro mundo à tecnologia, como consta no artigo
citado, visa especialmente o árabe.
A contradição manifesta é
que o referido discurso aparece num livro de artigos sobre como o
terceiro mundo é dominado pelo primeiro, mencionando-se entre outros
aspectos do imperialismo até o “projeto camelô” da Cia como
formatadora de curriculuns escolares na margem, o qual foi desativado
na época, por ter vazado a partir da recusa do Chile aceitá-lo,
assim tornando-se criticado por intelectuais do mundo inteiro (F.
Tabak, org. “Dependência tecnológica e desenvolvimento nacional”,
Rio de janeiro, Pallas, 1975; sobre o projeto camelô, cujo objetivo
era impingir o behaviorismo e a ideologia contra-revolucionária, p.
25, no artigo de Burhop; O artigo de Thabet é elogioso para com
Kennedy à p. 63, omitindo que perpetrou o golpe militar no Brasil m
1964, prega a transformação linguística à p. 67 e a formatação
midiática das personalidades à p. 73. A introdução por Tabak
repete várias vezes o epíteto de “atrasado” aos países do
terceiro mundo.
Não tenho a menor dúvida
sobre o reconhecimento nítido de todos os pontos do receituário de
Thabet na política de informática da Globalização brasileira ao
longo dos anos recentes, que se estende da info-midia à educação
escolar. As considerações presentes não contradizem o que mais à
frente (Livros 2 e 3) reporto sobre os setores da esquerda que antes
da Globalização estavam, inversamente, se conscientizando da
dominação cultural e assim renovando o marxismo – as quais estão
hoje sofrendo os ataques de banditismos vis.
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